Por O Globo
O Brasil já acumula experiência suficiente em
grandes escândalos para saber que, mesmo quando há orquestração para abafar um
caso, chega um momento em que a situação sai do controle, e o acordão se
desfaz, porque a lama se espalha tanto que cada um passa a correr para salvar a
própria pele. Foi assim no mensalão, no petrolão, e, pelo andar da carruagem,
parece que será assim com o Banco Master.
No Supremo Tribunal Federal (STF), acuado pelas revelações sobre a promiscuidade de Dias Toffoli e Alexandre de Moraes com Daniel Vorcaro, os ministros passaram a acreditar que o governo Lula, se não está por trás do vazamento de informações que só os enredam ainda mais no esquema, tampouco se move para ajudá-los. Nos bastidores, os supremos se queixam de que, depois de tantos serviços prestados, o presidente é muito ingrato ao deixá-los arder no escândalo.
O governo, porém, passou a ter os próprios
problemas para administrar. A reunião de Lula com Vorcaro fora da agenda
pública, em dezembro de 2024, é um deles. Outro é o generoso contrato de
consultoria do Master com o escritório do ex-ministro do Supremo e da Justiça Ricardo
Lewandowski.
O banco pagou R$ 6,5 milhões por “conselhos
institucionais” do pai e, depois que ele entrou no governo, por opiniões do
filho sobre impostos, mostrando que se buscava mesmo ter os Lewandowskis na
folha de pagamento. A contratação de Guido Mantega por indicação do senador
Jaques Wagner (PT-BA) é mais uma complicação. Com toda a pressão sobre o
Planalto, a tendência é vir por aí uma reação e começarem a pipocar as
histórias picantes da “bancada do Vorcaro” em Brasília,
arrastando o Congresso para a arena.
Outro polo de crises é o Banco Central,
alvejado pela defesa do Master, que se valeu do próprio Toffoli e do ministro
do Tribunal de Contas da União (TCU) Jhonatan de
Jesus para tentar emplacar a tese de que houve pressa criminosa
na liquidação do banco.
A descoberta de influenciadores pagos para
difundir essa versão nas redes acabou com a lorota, mas a grande pergunta não
respondida sobre o BC continua sem resposta: por que a autarquia demorou tanto
a agir, quando desde a gestão de Roberto Campos Neto se acumulam indícios de
que Vorcaro inflava o valor dos ativos para poder continuar captando (e
desviando) dinheiro dos investidores?
Desde 2024 o Master era uma bomba-relógio
flagrante para todo o mercado financeiro. Mas o BC só começou a apertar o
torniquete sob Gabriel Galípolo, e ainda assim só no segundo semestre de 2025,
depois que ficou patente a fraude nas carteiras de crédito vendidas ao BRB.
Descobriu-se agora que, até isso ocorrer, o
diretor de Fiscalização — justamente quem deveria ter notado as falcatruas
desde o início — ainda mandava mensagens ao presidente do BRB pedindo que
comprasse as carteiras de crédito do Master para salvá-lo da liquidação.
Mensagens que o dirigente do BRB espertamente usava como escudo para aprovar
mais e mais compras de créditos, somando um desembolso de inacreditáveis R$ 12
bilhões.
Para citar um exemplo bizarro, não chamou a
atenção do BC que o banco de Vorcaro tenha injetado quase R$ 500 milhões numa
empresa pequena cujo principal serviço é fazer festas de aniversário de criança
com túneis de vento? Ou ainda que o Master tenha se empanturrado de precatórios
que o mercado todo sabia valerem muito pouco e marcado na contabilidade como se
valessem bilhões?
O que já se sabe sobre a Comissão de Valores
Mobiliários (CVM), responsável por fiscalizar os produtos financeiros do
Master, também é de dar vergonha. A autarquia tem inquéritos sobre fraudes
rolando contra Vorcaro e sua turma desde que o banco ainda se chamava Máxima,
mas passou por cima de pareceres dos técnicos para fechar acordos com o
pagamento de multas irrisórias. Ainda assim, o diretor que avalizou esses
acordos acabou promovido por Lula a presidente, depois que o antecessor
renunciou de repente, confessando aos mais próximos ter recebido ameaças.
Mais que provar como os tentáculos de Vorcaro
chegavam a todos os nichos de Brasília, esse caso ensina que nenhuma grande fraude
ou escândalo se constrói sem a contribuição de uma gama enorme de pessoas,
tenham sido compradas ou propositalmente lenientes. Isso agora pouco importa.
Também pouco adianta se acusarem uns aos outros nos bastidores, apavorados com
a possibilidade de que uma delação premiada amplie ainda mais o estrago.
Se tivessem feito seu serviço como deviam, qualquer dos personagens ou instituições hoje enredados na teia do Master poderia ter sido crucial para interromper a ascensão desse império de fraudes. Agora é tarde para lamentar.

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