quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Caso Master exige melhora de normas republicanas

Por Folha de S. Paulo

Autoridades não deveriam manter encontros fora da agenda, como fez Lula com Vorcaro

É preciso rever quarentenas, regular contratações de advogados parentes, dar transparência ao lobby e instituir código de ética no STF

Impressiona no caso Master a extensão da rede de pessoas importantes que o banco influenciou ou tentou influenciar. Os tentáculos da empresa de Daniel Vorcaro se espalham pelos Três Poderes e não conhecem barreiras geográficas.

O banqueiro mineiro buscava aproximar-se de autoridades dos mais diversos calibres. Revelou-se agora que Vorcaro foi recebido pelo próprio presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), numa audiência sem registro oficial em fins de 2024.

Outra nova descoberta é que o Master pagou generosos honorários ao escritório de advocacia da família de Ricardo Lewandowski, que há apenas três semanas pediu demissão do posto de titular do Ministério da Justiça.

A isso se somam as histórias já bem divulgadas envolvendo os ministros Dias Toffoli e Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, governadores, parlamentares de diversos partidos, o Tribunal de Contas da União e até gestores de fundos de pensão de cidades modestas.

A alcance das conexões de Vorcaro é espantoso, mas ao menos o fato de o Master ter sido liquidado pelo BC e as fraudes estarem sendo investigadas mostra que os esforços de cooptação do banqueiro não se mostraram infalíveis. É preciso agora manter a vigilância para que as devidas responsabilizações se materializem.

É imperativo também aprimorar regras e costumes republicanos a fim de evitar a repetição de situações vexatórias, para dizer o mínimo, como a atual. A primeira providência que Lula ou qualquer outra autoridade deveria adotar com urgência é não mais receber ninguém sem registro em agenda divulgada com transparência.

Decerto um presidente se encontra com pessoas de todos os tipos, sem ter como saber quem no futuro estará metido numa fraude ou algum outro crime. Mesmo nessas situações, é muito pior para o mandatário ter concedido uma audiência secreta do que teria sido receber uma figura sobre a qual não pairavam suspeitas graves com registro público.

Cumpre também revisar as regras de quarentena para os profissionais que saem da administração ou de carreiras de Estado, além de encontrar uma fórmula para lidar com o problema da contratação de advogados parentes de autoridades, que se tornou praga de difícil contenção.

Como tem defendido este jornal, é absolutamente necessário que o STF adote —já, não no próximo ano ou em um futuro indefinido— um código de conduta.

O filhotismo é só um dos fantasmas que assombram a corte. Outros são caronas em jatinhos, viagens suntuosas e palestras remuneradas por valores que só podem ser intuídos, já que permanecem secretos. Outra medida relevante seria uma regulamentação do lobby que confira alguma transparência a essa atividade.

O Estado democrático só é possível se há confiança dos cidadãos nas instituições. É justamente essa confiança que más condutas individuais põem em risco.

Cannabis medicinal brasileira desde a raiz

Por Folha de S. Paulo

Anvisa acerta ao aprovar resolução que permite cultivo da planta para tratamentos de saúde e pesquisa

Com projeto sobre o tema parado, Câmara embota desenvolvimento de um setor produtivo que só cresce em diversos países

Já que o Congresso Nacional não regulamenta o comércio de produtos à base de Cannabis no país, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) avança.

Nesta quarta (28), o órgão aprovou resoluções que permitem o cultivo da espécie, outros tipos de uso (como por via bucal, sublingual e dermatológica) e a importação de plantas para fabricação.

Antes, só medicamentos administrados por via oral e inalação eram registrados, e apenas importações de extratos e derivados eram autorizadas. Além disso, fitofármacos oriundos da erva também poderão ser vendidos em farmácias de manipulação.

Outra mudança foi a permissão para acesso a produtos com concentração acima de 0,2% de THC por pacientes portadores de doenças debilitantes graves. Pela regra anterior, só os em situação terminal ou sob cuidados paliativos tinham direito.

Segundo a Anvisa, até dezembro havia 33 produtos de canabidiol e 16 extratos de Cannabis autorizados para venda no Brasil.

Para conseguir outros medicamentos, é preciso obter autorização de importação com base em prescrição médica; para plantar para fins medicinais, seja de forma individual ou por cooperativa, só com decisão judicial.

O cultivo para fins farmacêuticos era proibido, atravancando a cadeia produtiva e elevando custos. Tal insensatez —ainda mais considerando o clima propício para plantio e a expertise brasileira em agronegócio— foi derrubada agora pela agência.

Em 2024, o Superior Tribunal de Justiça autorizou o cultivo de cânhamo, variedade de Cannabis incapaz de gerar efeitos psicoativos, para fins exclusivamente industriais e medicinais e determinou que a matéria precisaria ser regulamentada pela Anvisa.

Cumprindo a decisão, o órgão aprovou o plantio para fins medicinais e de pesquisa de variedades com teor inferior a 0,3% de TCH, seguindo critérios como local controlado, com coordenadas georreferenciadas, estimativa de produção e plano para evitar desvios do produto. Foram definidas, ainda, regras de cultivo em pequena escala por associações de pacientes.

Enquanto isso, o projeto de lei 299 de 2015, que outorga o cultivo para esses fins —além de industriais, como cosméticos, celulose e fibras— foi aprovado por comissão especial da Câmara em 2021, mas desde lá está parado.

Os deputados mostram, assim, negacionismo científico e econômico que prejudica pacientes e o desenvolvimento nacional do setor produtivo de Cannabis, que vive momento de expansão e diversificação em diversos países.

Troca de cúpula no IBGE traz risco de manipulação

Por O Globo

Equipe de contas nacionais perde a liderança no meio do cálculo do PIB e do recálculo de série histórica

É motivo de consternação a saída de servidores do departamento responsável pelos dados de desempenho da economia no IBGE. A pouco mais de um mês do anúncio do Produto Interno Bruto (PIB) de 2025, a prestigiada economista Rebeca Palis foi retirada do cargo de coordenadora de Contas Nacionais, onde estava havia 11 anos. Em seguida, três gerentes do setor pediram exoneração. O êxodo da cúpula de área tão estratégica configura a mais nova crise da gestão do economista da Unicamp Marcio Pochmann, quadro histórico do PT. A economia brasileira enfrenta desafios colossais, dos efeitos do clima na agricultura às incertezas associadas a Donald Trump. Nada disso está sob o controle do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O caso do IBGE é diferente.

Não pode haver dúvida sobre a correção dos dados do PIB porque qualquer tentativa — ou a mera suspeita — de manipulação política acaba em desastre. Medir geração de riqueza é uma questão de natureza intrinsecamente técnica, com impacto na definição dos juros, na avaliação de investimentos, na definição do salário mínimo e no desenho de políticas públicas. Ao longo de décadas, o corpo técnico do IBGE foi inúmeras vezes reconhecido pela capacidade e competência na tarefa. O país não pode jogar fora essa conquista. Técnicos precisam de independência para trabalhar com isenção. Mas não parece ser essa a visão de Pochmann.

Em governos anteriores do PT, ele ficou conhecido pela gestão ideológica. À frente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) entre 2007 e 2012, interrompeu linhas de pesquisa fundamentais e esvaziou departamentos com base em alegações descabidas. Economistas de peso e credibilidade, como Regis Bonelli e Fabio Giambiagi, deixaram o Ipea naquele período.

Logo depois que Pochmann assumiu o IBGE em 2023, tentou sem sucesso limitar a divulgação de dados em entrevistas coletivas e criticou a produção de estatísticas “sob influência” de países ocidentais — como se a nacionalidade de quem faz um cálculo alterasse seu resultado. Em 2024, manifestou a intenção de criar a inusitada Fundação IBGE+, com o objetivo de prestar serviços privados e captar recursos. A ideia de pôr técnicos de um órgão de Estado à disposição de qualquer empresa interessada em pagar foi vista como ataque à independência do IBGE. Diretores entregaram seus cargos, e houve inúmeras manifestações de repúdio. Somente em 2025 o Ministério do Planejamento suspendeu o projeto.

Numa gestão marcada pela controvérsia, 2026 começou com nova crise. Em nota oficial de 19 de janeiro, o IBGE informou que Palis seria substituída por Ricardo Montes de Moraes. Dias depois, Cristiano Martins, substituto da Coordenação de Contas Nacionais e gerente de Bens e Serviços, Claudia Dionísio, gerente das contas nacionais trimestrais, e Amanda Tavares, gerente substituta de contas nacionais trimestrais, pediram exoneração. A saída de Palis e sua equipe ocorre durante a atualização do ano usado como base de referência para o sistema de contas nacionais, de 2010 para 2021, trabalho que exige revisão de metodologias e bases históricas. “Uma mudança de coordenação em pleno curso desse processo deveria ter sido conduzida de forma mais cuidadosa”, afirma nota do sindicato da categoria. Falta de cautela é apenas um eufemismo para descrever o risco representado pelos movimentos recentes no IBGE.

Morte de cão catarinense revela defasagem da lei de proteção a animais

Por O Globo

Falta gradação nos crimes para punir com mais rigor os casos de violência extrema contra bichos indefesos

Não surpreende que a morte de um cão no litoral de Santa Catarina tenha causado tamanha comoção no país, mobilizando políticos da direita à esquerda, celebridades, ativistas e cidadãos comuns. Orelha, como era chamado pelos moradores, foi espancado até a morte na Praia Brava, área nobre de Florianópolis. Os suspeitos, segundo investigações policiais, são adolescentes que moram na região. Além de chocante, o episódio ignóbil põe em xeque a legislação brasileira sobre maus-tratos a animais, considerada vaga e demasiadamente branda.

Orelha, descrito pelos moradores como extremamente dócil, não tinha dono. Por cerca de dez anos, viveu na Praia Brava. Dele cuidavam moradores e comerciantes que o adotaram como mascote. De acordo com as investigações, sua morte ocorreu no dia 4 de janeiro, mas apenas no dia 16 chegou à polícia. Ele foi encontrado agonizante numa área de mata e levado a uma clínica veterinária, mas, devido à gravidade das lesões, teve de ser sacrificado. A perícia constatou que foi atingido na cabeça por um objeto contundente ainda não achado.

Policiais identificaram ao menos quatro adolescentes acusados pelos maus-tratos. Dois estão em Florianópolis, outros dois nos Estados Unidos. Segundo os investigadores, o mesmo grupo já tentara afogar outro cão na mesma praia. Para piorar, houve tentativa de encobrir o caso. A polícia indiciou três parentes dos adolescentes, suspeitos de coagir o vigia de um condomínio para prejudicar a apuração.

Diante da crueldade perpetrada, empilham-se críticas à legislação. A Lei 9.605/98, que trata de crimes ambientais, estabelece detenção de três meses a um ano, além de multa, a quem “praticar ato de abuso, maus-tratos, ferir ou mutilar animais silvestres, domésticos ou domesticados”. Quando se trata de cão ou gato, a pena é maior: reclusão de dois a cinco anos, multa e proibição da guarda. Ativistas consideram as punições insuficientes para coibir os crimes mais graves. “Tivemos uma melhora para cachorros e gatos, mas o texto é mal escrito”, diz a apresentadora e ativista Luisa Mell. “Fala de maus-tratos de forma genérica. É completamente diferente deixar um animal amarrado por um dia ou espancá-lo até a morte. Precisamos de gradação clara.”

Não se podem tolerar casos de maus-tratos a animais, ainda mais com emprego de violência extrema. A polícia catarinense precisa ir até o fim para identificar os envolvidos no episódio, tanto os adolescentes quanto responsáveis que tentam coagir testemunhas. Não é assim que educarão os jovens.

É preciso também debater a legislação de quase três décadas. O mundo mudou. A internet está cheia de fotos e vídeos de animais maltratados deliberadamente, imagens repugnantes feitas para atrair audiência dos insensíveis. Contar com legislação sobre maus-tratos a animais é um avanço, mas ela precisa ser aperfeiçoada à luz da realidade e das crueldades cometidas por quem não demonstra qualquer sentimento pelos animais.

BC foi muito paciente com o Master

Por O Estado de S. Paulo

A liquidação de instituições financeiras é sempre uma medida drástica, mas o BC, quando estava sob o comando de Campos Neto, parece ter confiado demais no Master e em Vorcaro

A esta altura, não há ninguém no País, exceto pela equipe de advogados do empresário Daniel Vorcaro, capaz de afirmar que a liquidação do Banco Master foi uma decisão precipitada. Revelações trazidas pela imprensa com frequência diária mostram, de um lado, uma instituição financeira que se utilizou de um modelo de negócios insustentável para crescer vertiginosamente em um curto espaço de tempo e, de outro, uma extensa rede de contatos em Brasília que atuou para impedir seu colapso e a ruína de seu dono.

São pertinentes, portanto, as dúvidas sobre se o Banco Central (BC), sobretudo na gestão de Roberto Campos Neto, não teria demorado demais para agir e fechar a instituição financeira. Afinal, como mostrou recente reportagem do Estadão, o BC estava ciente dos problemas de liquidez do Master mais de um ano antes de fechá-lo e seguiu dando oportunidades para que a instituição se ajustasse enquanto o Master mantinha uma gestão escancaradamente temerária.

Em março de 2024, o Banco Central já havia constatado indícios de descasamento entre ativos e passivos do Master e obrigou a instituição a apresentar um plano de contingência para honrar seu cronograma de desembolsos. Nele, o Master se comprometeu a captar R$ 15 bilhões no mercado, dos quais conseguiu apenas R$ 2 bilhões, menos de 15% do total. Nem por isso houve intervenção.

Em outubro de 2023, uma norma editada pelo BC permitiu que a exposição de bancos a precatórios e direitos creditórios adquiridos até junho daquele ano não fosse contabilizada em balanço, para “evitar efeitos adversos nos mercados e na precificação de operações legítimas firmadas sob o arcabouço normativo anterior”. O Master já abusava desse tipo de ativo desde 2021, mas jogou no lixo a oportunidade de se ajustar ao ampliar a presença desses ativos em balanço depois que o prazo havia se encerrado.

Era o momento de vender ativos ou exigir novos aportes de seus sócios para provar sua solidez. Mas o Master preferiu continuar a captar recursos por meio da emissão de Certificados de Depósito Bancário (CDBs) com taxas de 140% do CDI e prazo de oito anos, muito acima do praticado pela concorrência, entre 100% e 110% do CDI e vencimento entre dois e cinco anos, aproveitando-se da garantia do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) para vender ilusões.

Em novembro de 2024, o Master deixou de recolher depósitos compulsórios, ou seja, começou a dar calote no próprio Banco Central. Ainda assim, Campos Neto, que deixaria o cargo no fim do mês seguinte, deu novo prazo, até março de 2025, para que o banco encontrasse uma solução definitiva.

É provável que Vorcaro tenha explorado ao máximo brechas de regulação aproveitando-se do fato de que Campos Neto era favorável à ampliação da concorrência no setor financeiro. E é bem possível que o BC tenha acreditado até o fim em uma solução de mercado para o Master, que só ficou claro que não viria quando o BRB, banco estatal do Distrito Federal, surgiu em seu socorro. Felizmente, a proposta de compra acabou por ser vetada pelo BC em setembro, dois meses antes da liquidação da instituição.

A sucessão de fatos, contada de maneira cronológica, sugere que houve certa leniência do BC com o banco de Vorcaro, que deu mostras de ser muito pouco confiável ao longo dos anos. A liquidação de um banco, no entanto, é uma medida extrema, da qual não há volta. Por isso mesmo, o processo deve ser conduzido de maneira técnica, sem pressa e com respeito ao amplo direito de defesa, para não gerar qualquer questionamento a respeito do acerto da decisão. Disso, certamente, o BC não poderá ser acusado.

Por outro lado, se o Banco Central tivesse sido mais rígido com o Master desde o início, o escândalo não teria chegado ao nível que chegou nem envolvido autoridades do Executivo, do Legislativo e do Judiciário. Fica a lição de que qualquer mercado precisa ser acompanhado com lupa pelos órgãos reguladores desde o nascedouro, para evitar que problemas normais se tornem crises – ou escândalos.

A soberania segundo Lula

Por O Estado de S. Paulo

Para o petista, construção de navios pela Petrobras é questão de ‘soberania’, numa interpretação criativa do conceito – que, conforme projeta o governo, será tema central da campanha

Durante a assinatura de um contrato de construção de navios pela Petrobras no Rio Grande do Sul, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que o empreendimento era questão de “soberania nacional”. Não é a primeira vez – e é presumível que não será a última – que Lula emprega erroneamente o princípio de soberania nacional aos projetos que defende. Com incômoda frequência recorre a uma interpretação muito peculiar, e sempre em causa própria, de um dos pilares da República, diversas vezes mencionado na Constituição brasileira.

O conceito de soberania destacado na Carta de 1988 está ligado à defesa do território nacional, à regulação dos recursos econômicos estratégicos e às diretrizes das relações internacionais, garantindo o controle e a autonomia do País. Em resumo, é basicamente a forma como o Brasil rege suas relações externas, com o dever de defender a solução pacífica de conflitos, os direitos humanos e a igualdade entre Estados, sempre pautado pela independência nacional.

É preciso um esforço hermenêutico colossal para enquadrar a construção de navios pela Petrobras em qualquer dessas situações. O contrato de R$ 2,8 bilhões para a construção de embarcações integra o programa de incentivo à indústria naval que Lula retomou ao retornar ao Planalto, em 2023, com estimativas de que a renovação da frota da Transpetro, subsidiária da Petrobras, ultrapasse R$ 23 bilhões.

É uma soma considerável, mas sem comparação com o valor estimado de até US$ 28 bilhões (cerca de R$ 145 bilhões, ao câmbio atual) programados no início da década de 2010, também sob gestão de Lula, para o fracassado programa de aquisição de 28 sondas de perfuração pela Petrobras – sem contar a construção de 49 navios, obras que seriam espalhadas pelos estaleiros do País (muitos deles, recorde-se, erguidos exclusivamente para isso).

Na época, Lula também alegava que aquilo tudo servia para reafirmar a “soberania nacional” e exaltava o rigor na construção dos equipamentos com conteúdo nacional, o que resultou em grandes atrasos e elevado sobrepreço nas poucas obras que saíram do papel. Num cenário marcado por denúncias de corrupção, a Petrobras aumentou de forma inédita seu endividamento para atender aos planos de Lula. Se não fosse o freio imposto pela Operação Lava Jato, que flagrou o portentoso esquema de corrupção na Petrobras, a empresa, que está entre as maiores do País, corria sério risco de quebrar.

Novamente sob o comando de Lula, a petroleira – controlada pela União, mas com mais de 60% de seu capital privado – abraça planos de investimentos ditados por decisões políticas, e não por estratégia comercial. É o caso, por exemplo, do retorno à produção de fertilizantes, abandonado por ter causado prejuízos bilionários à empresa, que ela agora retoma com fábricas na Bahia, em Sergipe, no Paraná e no Mato Grosso do Sul. E mais uma vez o governo Lula apela à soberania nacional, ligando a fabricação de fertilizantes à produção de alimentos.

Nada disso é de graça. Desde que o presidente dos EUA, Donald Trump, tentou imiscuir-se em assuntos internos do Brasil por meio da imposição destrambelhada de tarifas e sanções, Lula vem explorando eleitoralmente o tema da soberania. O ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, declarou, em entrevista ao jornal Valor, que essa questão será central na campanha deste ano, mais do que segurança pública.

Obviamente, isso está mais no terreno do desejo do que da realidade, mas a insistência de Lula em tratar quase todas as suas decisões de governo como parte da defesa da soberania brasileira mostra o empenho do petista em fazer com que esse tema seja em 2026 o que a “defesa da democracia” foi em 2022, isto é, que sirva para atrair o apoio dos eleitores moderados.

Como o caso da Petrobras mostra, no entanto, toda vez que Lula invoca a “soberania”, o País fica mais pobre.

Justiça lenta não é justa

Por O Estado de S. Paulo

Prisão tardia de Sérgio Nahas, que matou a mulher em 2002, mostra falha inaceitável do sistema

Mais de duas décadas depois de matar sua mulher, Fernanda Orfali, então com 28 anos de idade, com um tiro no peito, o empresário Sérgio Nahas, de 61 anos, está finalmente preso. Em 2002, Fernanda foi assassinada no apartamento do casal, em Higienópolis, no centro de São Paulo, e Nahas alegou que a mulher cometera suicídio. Após a verdade vir à tona, Nahas foi julgado só em 2018, quando foi condenado a apenas sete anos de prisão. Recorreu, mas teve sua pena ampliada para oito anos. Com o trânsito em julgado há quase um ano, Nahas fugiu. E, agora, graças ao sistema de câmeras com reconhecimento facial da Praia do Forte, na Bahia, onde o casal havia passado a lua de mel anos atrás, foi identificado e, enfim, detido, começando a acertar as suas contas com a lei.

É inegável que a justiça demorou a ser feita. Sempre em liberdade, Nahas usufruiu de todos os instrumentos jurídicos que estavam à sua disposição para driblar sua pena. São inúmeros os recursos que servem apenas para protelar a punição e, por consequência, aumentar na sociedade a sensação de impunidade. O caso de Fernanda Orfali, infelizmente, é mais um exemplo de como a Justiça pode falhar ao tentar dar respostas nos casos de violência contra a mulher. Mas o Brasil mudou. Não se pode dizer que a sociedade e o Estado permaneceram inertes na defesa dos direitos das mulheres ao longo de todos esses anos.

A jurisprudência foi revisada, instrumentos legais entraram em vigor e políticas públicas foram implementadas para aumentar a proteção das mulheres. Basta lembrar que não faz muito tempo um homem que alegasse a legítima defesa da honra após matar sua companheira obtinha êxito e, inocentado, deixava o tribunal pela porta da frente. Isso, ainda bem, não cabe mais. Mas não só: em 2006, o Congresso aprovou a Lei Maria da Penha, que, apesar de todos os obstáculos para sua efetivação até hoje, garante as medidas protetivas que asseguram às mulheres o direito de afastar seus agressores. E esse mesmo Congresso legou ao País, em 2015, a Lei do Feminicídio, que a homens como Nahas, que matam suas companheiras, hoje impõe uma pena de prisão de até 40 anos – a mais dura do ordenamento jurídico brasileiro.

Ainda abundam notícias de mulheres brutalmente mortas por seus companheiros e de casos de agressão. Tudo isso ainda ocorre porque, como bem disse ao Estadão Maria da Penha, vítima de violência doméstica e tentativa de feminicídio nos anos 1980 e que deu nome à lei de proteção das mulheres brasileiras, há “discurso bonito” em defesa das mulheres, mas falta “discurso comprometido”. Para que casos como o de Fernanda Orfali não se repitam, as leis devem ser aplicadas com rigor, as políticas públicas de proteção das mulheres, como as Delegacias da Mulher e as Casas da Mulher Brasileira, precisam ser implementadas com eficiência e eficácia, e a Justiça não pode mais tardar. Todos os avanços registrados até aqui não são nenhum favor às mulheres. É dever do Estado protegê-las.

Adoecimento psíquico em alta desafia o Brasil

Por Correio Braziliense

O adoecimento psíquico figura entre os grandes desafios globais, impondo, sem distinções, custos humanos e econômicos expressivos

Em tempos de tecnologias médicas que parecem ter saído de filmes de ficção, há uma ameaça à saúde humana avançando de forma silenciosa, impulsionada por tabus e negligências. O adoecimento psíquico figura entre os grandes desafios globais, impondo, sem distinções, custos humanos e econômicos expressivos. A OMS estima que 15% da população mundial viva com transtornos mentais — número próximo ao dos acometidos por hipertensão arterial — e que só a depressão e a ansiedade, os mais prevalentes, impactem a economia global em cerca de US$ 1 trilhão todos os anos.

No Brasil, essa realidade se impõe de forma preocupante, como ilustra um levantamento divulgado nesta terça-feira pela Associação Nacional de Medicina do Trabalho (Anamt). Em dois anos, de 2023 a 2025, o número de trabalhadores afastados em razão de transtornos mentais cresceu ao menos 79% — de 219,8 mil para 393,6 mil —, faltam os dados do INSS referentes a dezembro do ano passado. Sozinhos, os transtornos ansiosos respondem por 40% dos casos em 2025, contabilizando o equivalente a 430 afastamentos por dia. A média da depressão, no mesmo período, foi de 166. 

Há de se ressaltar que o levantamento da Anamt considera apenas as licenças superiores a 15 dias — concedidas em casos de adoecimento mais agravados — para trabalhadores vinculados à Previdência. Estão fora aqueles que tentam se equilibrar sobre as inconstâncias da informalidade, cujos perfis, geralmente, agregam outras vulnerabilidades psíquicas, como  raça e gênero. Não é exagero, portanto, afirmar que os desdobramentos do adoecimento psíquico na rotina dos profissionais brasileiros têm proporções muito maiores.

O presidente da associação, Francisco Cortes Fernandes, estima um impacto dobrado. "Os trabalhadores informais no Brasil estão ao redor de 45 milhões, 50 milhões. São estimativas similares aos que estão na formalidade. Faz sentido a gente esperar que tenha, talvez, esse mesmo estoque de doenças nos trabalhadores informais, mas a gente não tem os dados", disse ao Correio. Certo é que, ainda que limitado, o cenário retratado pela Anamt traz dados que devem mobilizar uma reação mais efetiva de gestores públicos e privados, sob o risco de terem suas atividades comprometidas em razão do adoecimento psíquico dos trabalhadores.

Os efeitos para além de carreiras e negócios também despertam preocupação. A geração que sequer chegou ao mundo profissional é a mais diagnosticada com transtornos psíquicos da história. De 2014 a 2024, o atendimento de crianças com 10 a 14 anos no SUS em razão de transtornos de ansiedade aumentou 12 vezes. No caso de adolescentes com 15 a 19 anos, 33.  

Um dos caminhos para reverter esse cenário é falar sobre ele, possibilitando intervenções que evitem o surgimento dos transtornos ou incida sobre eles na fase inicial. "É preciso investir em ações preventivas desde a infância, passando pela adolescência, fase adulta e envelhecimento, em todos os ambientes, como escola, trabalho e família", indica a psicóloga Ana Luíza Coelho, uma das autoridades que participam hoje de um debate promovido pelo Correio sobre os desafios da saúde mental no Brasil.

Em declaração recente, o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, indicou que, em todo o mundo, eles passam por investimentos em pessoas, comunidades e economias, e que nenhum país pode se "dar ao luxo de negligenciar" a atual crise de saúde mental. Ter acesso a suportes preventivos e terapêuticos não pode ser entendido como um privilégio. Como ressalta Ghebreyesus, trata-se de um direito básico e que precisa ser viabilizado por todas as lideranças.

Fed e BCB seguem roteiro previsto de manutenção das taxas de juros

Por Valor Econômico

O Fed não sinalizou seus próximos passos, enquanto o BCB deu um sinal claro de “flexibilização da política monetária” em sua reunião de março

O Federal Reserve americano interrompeu os cortes de juros e os manteve na faixa de 3,5%-3,75%, em uma pausa que pode ser longa. O Fed não sinalizou seus próximos passos, mas o comunicado da reunião do comitê que decide as taxas, o de Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês) indicou que a economia voltou a avançar em “ritmo sólido” e que a taxa de desemprego deu “sinais de estabilização”, um ambiente que retira urgência de ação da política monetária. Os investidores estimam que o banco fará mais dois cortes nas taxas, possivelmente a partir de meados do ano. As expectativas sobre a economia estão mudando na direção de um crescimento maior que o previsto, inflação mais resistente à queda e um mercado de trabalho que não entrará em colapso, como era temido. O Banco Central do Brasil também resolveu manter as taxas, mas indicou que, se as condições permanecerem favoráveis, iniciará um ciclo de redução dos juros na próxima reunião, em março.

A mudança do balanço de riscos, com proeminência do esfriamento do mercado de trabalho, fez o Fed reduzir os juros por três reuniões consecutivas. Os últimos dados sobre o mercado de trabalho, segundo Jerome Powell, presidente do Fed, mostram um cenário mais benigno. Hoje está mais difícil obter um emprego (há 0,9 vaga para cada pretendente) mas, por outro lado, não há demissões em massa.

Os números ruins das últimas divulgações se devem, em grande parte, à debandada do serviço público, forçada pelo presidente Donald Trump com sua oferta de recompensas para demissões voluntárias, e a cortes severos em vários departamentos, segundo a consultoria Oxford Economics. Foram para rua 274 mil servidores públicos, algo que não ocorria em tal dimensão desde o fim da Segunda Guerra. A Oxford estima que hoje a abertura de 35 mil vagas por mês é suficiente para manter estável a taxa de desemprego, por dois fatores determinantes: a forte redução de candidatos imigrantes, devido à feroz ação do governo em busca de trabalhadores imigrantes ilegais, e a diminuição da força de trabalho pelo envelhecimento da população.

A economia americana está em boa forma e pode melhorar ainda, diante dos estímulos do pacote de redução de impostos que passou a vigorar no início do ano e que beneficiará consumidores e empresas. As famílias pagarão menos US$ 440 bilhões em taxas e impostos (JP Morgan Asset Management, FT ontem), e boa parte dos recursos irão para o consumo, que permaneceu forte antes mesmo do corte de impostos. “A economia americana surpreendeu com sua força mais uma vez”, afirmou Powell. Ao estímulo fiscal se somarão outros relevantes. Os investimentos em Inteligência Artificial estão explodindo e garantindo boa parte da expansão econômica, além de puxar os índices da bolsa há meses para cima. Com isso, o fator riqueza impulsiona o consumo, pois um número recorde de lares está aplicando dinheiro em ações (47%, de acordo com a Oxford).

A expansão econômica em um ano de eleições parlamentares decisivas para o futuro político de Trump pode beneficiar o governo, desde que a inflação recue, algo duvidoso com a economia crescendo acima de seu potencial. O nível dos preços, muito acima dos da pandemia, tem alimentado o pessimismo dos consumidores nas pesquisas da Universidade de Michigan. O índice de preços de gastos do consumo foi de 3% em doze meses findos em dezembro, o que dá um limite claro para a redução dos juros. Powell e outros membros do Fed veem a taxa de juros atual já situada na faixa mais alta da variação estimada para o juro neutro, o que não estimula nem contrai a atividade econômica. Ele disse que isso deixa o Fed “bem posicionado” para tomar decisões, isto é, os próximos movimentos, se houver, levarão algum tempo e serão muito cautelosos. Segundo Powell, há bons sinais. O aumento de preços provocados pelas tarifas já foram para os preços, que devem se estabilizar. Além disso, e mais importante, a inflação de serviços, dor de cabeça permanente para o Fed no passado, declinou “em todas suas categorias”.

O Fed, no entanto, está diante de uma perturbadora troca de guarda. Jerome Powell encerra seu mandato em maio, um fato que seria normal se não fosse a campanha de Trump para que os juros sejam bastante reduzidos, objetivo para o qual não hesitou em desqualificar o presidente do banco em público e, por último, a levar o Departamento de Justiça a processá-lo por gastos supostamente excessivos e sem explicação na reforma das instalações da instituição. Trump deixou claro que quer alguém que execute o seu tipo peculiar de política monetária Trump quer eliminar a independência do BC com esses atos.

Ao contrário do esperado, o Comitê de Política Monetária deu um sinal claro de seus próximos passos, o de “flexibilização da política monetária” em sua reunião de março. “Em ambiente de inflação menor e transmissão da política monetária mais evidentes, a estratégia envolve calibração do nível de juros”, Sumiram do comunicado do BC, mais sucinto que o anterior, todas as referências à necessidade de manutenção de uma política contracionista por tempo prolongado. O Copom diz que agirá com cautela, diante de “cenário segue sendo marcado por expectativas desancoradas, projeções de inflação elevadas, resiliência na atividade e pressões no mercado de trabalho”.

Transtornos causados pela chuva se repetem

Por O Povo (CE)

Melhor dizendo, problemas resultantes da falta de preparo para conviver com um fenômeno natural inevitável

A primeira chuva forte deste ano, ocorrida nesta terça-feira, a poucos dias do início oficial da quadra chuvosa, já provocou uma tragédia. Um adolescente, morador do bairro Granja Portugal, que brincava em um canal atravessado pelo rio Maranguapinho, morreu ao ser arrastado pela enxurrada, devido ao aumento do volume de água provocado pela tempestade.

Velhos problemas, como casas invadidas pelas águas, alagamentos, queda de árvores e de fios, falta de energia elétrica, semáforos apagados, danos em imóveis, dificuldade em transitar pelas vias, levaram transtorno ao cotidiano de milhares de pessoas, situação que se repete ano após ano.

Fortaleza tem cerca de 200 áreas de risco mapeadas pela Prefeitura para definir a construção de obras para evitar os perigos decorrentes da falta de infraestrutura. São áreas sujeitas a alagamentos, inundações, deslizamentos e outros problemas, que deixam os moradores em situação vulnerável.

Contudo, apenas a identificação das áreas de risco, sem a implementação de projetos que ofereçam habitações seguras às pessoas que vivem nessas áreas, pouco adianta. Lembrando que as previsões para os próximos 15 dias indicam a continuidade das chuvas, portanto, medidas urgentes precisam ser tomadas, pois obras de infraestrutura são demoradas.

Mas, além do poder público, a população também deveria ter um pouco mais de consciência, pois um dos problemas que agrava os danos decorrentes das chuvas são bueiros entupidos, pelo descarte incorreto de lixo e ligações clandestinas de esgoto em galerias pluviais. Vale também atender às orientações do Corpo de Bombeiros e da Defesa Civil, em caso de tempestades, como buscar um local seguro, não transitar por vias sujeitas a alagamento e ficar atento ao sinal de aumento do fluxo de águas em áreas de risco. São medidas paliativas, mas que podem salvar vidas.

Esses problemas não são exclusivos do Ceará, porém distribuídos por praticamente todas as grandes cidades brasileiras, que não conseguem fazer um planejamento a longo prazo para reduzir os danos causados pelas chuvas, ou melhor dizendo, pela falta de preparo para conviver com um fenômeno natural inevitável. O desastre de 2024, no Rio Grande do Sul, deveria ter acendido um sinal de alerta nos municípios para a necessidade de se preparar para enfrentar condições adversas e, mais do que isso, tomar medidas para evitá-las.

É ainda preciso considerar que, com o aquecimento global, os fenômenos naturais serão cada vez mais extremos, exigindo medidas extras para enfrentá-los. Segundo os cientistas, as chuvas serão mais irregulares e mais intensa. Isso não significa que isso ocorrerá neste ano no Ceará, mas que é necessário estar preparado para dar resposta às mudanças climáticas, que não podem mais ser ignoradas.

Nenhum comentário: