terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Trump contra o mundo. Por Jorge J. Okubaro

O Estado de S. Paulo

Trump reforça o isolamento dos Estados Unidos. O país está fora da mesa em que o mundo discute seus grandes dramas

Trump não conseguirá destruir o mundo para cumprir sua promessa de fazer os Estados Unidos grandes novamente – Make America Great Again (Maga), seu lema de campanha –, que encantou certos políticos daqui). É o que esperam bilhões de pessoas que habitam o planeta. Mas Trump está destruindo as instituições que o mundo conseguiu erigir nas últimas décadas para estabelecer um complexo de relações e compromissos por meio do qual os países conseguem debater problemas comuns, encontrar soluções e preservar relações de convivência entre si, cada um cedendo ou ganhando para ficar em paz com os demais. Há esperanças de que, em algum tempo, suas decisões sejam revistas por pessoas mais sensatas que venham a sucedê-lo no cargo. No momento, o mundo perde.

Na semana passada, o governo de Donald J. Trump anunciou a retirada dos Estados Unidos de 66 organismos internacionais, dos quais 31 são vinculados à Organização das Nações Unidas (ONU). “O presidente Trump está encerrando a participação dos Estados Unidos em organizações internacionais que minam a independência dos Estados Unidos e desperdiçam o dinheiro dos contribuintes em agendas ineficazes ou hostis”, segundo nota divulgada pela Casa Branca na quarta-feira passada. “Muitos desses órgãos promovem políticas climáticas radicais, governança global e programas ideológicos em conflito com a soberania e a força econômica do país.” Trump – que não hesita em invadir outros países quando isso lhe interessa – manda um recado para o resto do mundo: “Aqui não”.

Trata-se de mais uma ação, talvez a mais exuberante de todas do governo Trump até o momento, de isolar os Estados Unidos do convívio harmônico e negociado com os demais países. O objetivo é impedir que decisões da Casa Branca sejam examinadas em instâncias internacionais, mesmo que afetem a todo o mundo . Espertamente , Trump não retirou os Estados Unidos da ONU. Lá, seu país tem imensa influência, pois, como um dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança (os outros quatro são Reino Unido, França, Rússia e China), tem poder de veto sobre as decisões mais importantes do órgão colegiado mundial que simboliza as instituições que o mundo construiu logo depois do fim da 2.ª Guerra Mundial.

Das instituições que propiciaram a convivência entre os países e sua cooperação em assuntos de interesse global, Trump já tinha retirado os Estados Unidos da Organização Mundial da Saúde (OMS). E fez isso justamente no período da pandemia da covid-19. Além disso, tratou de enfraquecer a Organização Mundial do Comércio (OMC), cujo poder de atuação já vinha sendo boicotado pelos Estados Unidos desde o governo do democrata Barack Obama, que não nomeou o representante dos Estados Unidos para o órgão mais poderoso da organização, paralisando suas decisões mais importantes.

Agora, Trump retirou seu país de organizações que tratam de questões climáticas, direitos humanos e questões trabalhistas, entre outros temas. Decisão de grande impacto mundial é a de tirar os Estados Unidos da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC, na sigla em inglês) e do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC). “Enquanto todas as outras nações avançam juntas, esse novo retrocesso em relação à liderança global, à cooperação climática e à ciência só pode prejudicar a economia, os empregos e o padrão de vida dos Estados Unidos, à medida que incêndios florestais, enchentes, megatempestades e secas pioram rapidamente”, disse em nota o secretário-executivo da UNFCC, Simon Stiell. “É um gol contra colossal que deixará os Estados Unidos menos seguros e menos prósperos.”

O retrocesso não se resume à questão ambiental e às mudanças climáticas, cuja discussão ficará privada da participação de um dos principais, se não o principal, agente dessas mudanças. “É um retrocesso sistêmico de todos os temas em que houve uma evolução positiva da consciência moral nas últimas décadas”, resumiu, em entrevista ao jornal Valor Econômico, o embaixador e ex-ministro do Meio Ambiente Rubens Ricupero, que, mesmo aposentado, continua sendo um dos diplomatas mais respeitados do País.

Citando temas como direitos humanos, meio ambiente, igualdade de gênero e de raça entre os focos das instituições das quais os Estados Unidos se retiraram, Ricupero resume: “(São) todas causas que se consideravam irreversíveis no processo de consciência da humanidade”.

Além do risco de o mundo ficar menos amigável para seus habitantes por causa da saída da maior economia do planeta das grandes discussões sobre o futuro da humanidade, a decisão de Trump reforça o isolamento dos Estados Unidos. O país está fora da mesa em que o mundo discute seus grandes dramas. Mas, para eleitores americanos (e políticos brasileiros) que se iludem com o Maga, Trump reforça o poder dos Estados Unidos de decidir sobre seu próprio destino, sem interferência externa. Assim, o mundo fica ainda pior e com o futuro ainda mais incerto.

 

Nenhum comentário: