Protestos no Irã alimentam esperança
Por O Globo
Aiatolás voltam a reprimir oposição com
violência, mas padecem de fraquezas internas e externas
Não é a primeira vez que a teocracia iraniana é convulsionada por protestos populares. Em 2009, manifestações estudantis contestaram por meses o resultado de eleições, na mobilização conhecida como Movimento Verde. Em 2012, 2017, 2018 e 2019, crises resultantes de alta do câmbio, dos combustíveis e outros fatores econômicos levaram multidões às ruas de Teerã. Em 2021, regiões do interior foram sacudidas em razão da falta de água. Em 2022, a morte da jovem Mahsa Amini pela “polícia da moralidade” desencadeou uma rebelião em defesa do direito de mulheres e minorias. Há duas semanas, novas manifestações eclodiram a partir da revolta de pequenos comerciantes com o naufrágio do rial, a moeda iraniana. Todos esses protestos despertaram a mesma reação do regime dos aiatolás: repressão violenta, centenas de mortos, milhares de detidos e torturados nas masmorras. E a teocracia se manteve no poder, praticamente intacta.
A situação está longe de definida, mas desta
vez alguns fatores alimentam nos opositores a esperança de um desfecho
diferente. Primeiro, a revolta se espalha por toda a sociedade. Houve manifestações
em pelo menos 340 localidades de todas as 31 províncias. A inflação passou de
40% no ano passado, o valor do rial caiu mais da metade, e as condições
financeiras têm se deteriorado mesmo para quem tinha vida confortável. Há
racionamento de água e luz, além dos cortes de comunicações promovidos pelo
governo para impedir a organização dos protestos. Grupos avessos à ação
política, como grandes comerciantes, hesitam sobre continuar alheios e inertes.
“A questão não é se o sistema está sob tensão, mas se mantém a coerência
necessária a sobreviver”, escreveu o historiador iraniano-americano Abbas
Milani. “Os próprios grupos sociais que ajudaram a colocar no poder o regime
religioso se tornaram seus principais opositores.”
Segundo, o Irã está mais
fraco no cenário externo. Depois dos ataques terroristas do 7 de Outubro, a
força iraniana no Oriente Médio foi dizimada pela reação israelense ao Hamas em
Gaza, ao Hezbollah no Líbano, aos houthis no Iêmen e ao próprio Irã, onde a
Guarda Revolucionária sofreu baixas na liderança, além de as instalações
militares e o programa nuclear terem sido devastados com a ajuda dos Estados
Unidos. Na Síria, sem apoio do Hezbollah, o governo caiu e deu lugar a uma
gestão que tem se aproximado do Ocidente. O proverbial “eixo da resistência” de
que os aiatolás se vangloriavam se revelou, na prática, apenas propaganda e
ilusão. Resistente a abrir suas instalações nucleares a inspeções, o Irã já não
conta com a simpatia dos países europeus. Donald Trump,
em declaração de mais efeito retórico que prático, afirmou estar disposto a
intervir.
É verdade que a oposição está fragmentada,
sem plano aparente para tomar o poder. Bandeiras da antiga monarquia foram
vistas nos protestos, e Reza Pahlavi, filho do xá deposto em 1979, afirmou
estar pronto para uma “transição responsável”. Os monarquistas, porém, não
comandam a oposição. Em qualquer caso, a sociedade iraniana continuará em
convulsão. Como afirmou à revista Variety o cineasta Jafar Panahi, preso
diversas vezes pelo regime e candidato ao Oscar com “Foi apenas um acidente”
(filmado escondido sob a teocracia): “Ninguém pode realmente prever quanto
tempo vai levar. Pode ser um ano, um mês, uma semana. Mas um dia eles cairão”.
Governo não pode se esquivar das críticas à
falta de transparência no PAC
Por O Globo
Em vez de suprir lacunas apontadas pela
Transparência Brasil, as autoridades resolveram atacar a ONG
Reciclado de gestões petistas anteriores, o
“novo” Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) é uma das
principais bandeiras empunhadas pelo presidente Luiz Inácio Lula da
Silva no terceiro mandato, com investimento proclamado em R$ 1,3 trilhão até o
fim deste ano. O mínimo a esperar diante de tal cifra é que todas as
informações estejam disponíveis. Uma nota técnica da Transparência
Internacional-Brasil, porém, critica a falta de dados básicos sobre o programa.
Em vez de tentar suprir as lacunas, o governo preferiu atacar a ONG.
As melhorias implementadas desde 2024, diz o
comunicado, aumentaram a nota de transparência do PAC de modo pouco
significativo (ela é 12, numa escala até 100). Entre os documentos que faltam
estão estudos de viabilidade técnica e econômica, editais de licitação e
relatórios de impacto ambiental. Para a ONG, o portal do PAC “carece de
integração com outros sistemas, além de uma expansão de detalhamento de dados
para todas as obras — em especial as executadas pelo próprio governo”. A
opacidade aumenta o risco de fraude, corrupção e má gestão, além de impor
obstáculos ao controle do impactos das iniciativas.
O governo reagiu mal à crítica. Desqualificou
o levantamento e se referiu à Transparência como “ONG investigada pela PF”, sem
dar detalhes. O presidente do Conselho da Transparência Internacional, François
Valérian, enviou carta se queixando de “escalada de assédio” e “tentativa de
silenciamento”. Disse não haver registro público de que a ONG seja investigada.
“As organizações da sociedade civil devem poder realizar análises independentes
e expressar opiniões críticas sem medo de represálias, assédio ou
criminalização”, afirma a carta.
Não é a primeira vez que a Transparência é
emparedada. Em 2024, o ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal,
determinou uma investigação sob a acusação de que a ONG atuava junto a procuradores
objetivando gerir recursos de acordos de leniência da Operação Lava-Jato.
Posteriormente, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, pediu o
arquivamento da apuração, afirmando faltarem elementos mínimos. Não há nenhum
indício de que seja alvo de outra investigação. Se for, por que não tornar
público o inquérito? Ou só integrantes do governo têm acesso às informações,
para usá-las quando lhes convém?
O novo PAC reúne mais de 23 mil obras com diferentes custos e graus de complexidade. Edições anteriores do programa sofreram críticas devido à falta de transparência, a danos socioambientais, a baixo envolvimento das comunidades afetadas e a casos de corrupção, atrasos e paralisações. Independentemente do histórico, não faria sentido ocultar dados sobre obras públicas. Faz menos sentido ainda intimidar o trabalho de organizações que fiscalizam a atuação do Estado. Nas democracias, qualquer governo está sujeito ao escrutínio público. Críticas deveriam ser entendidas como oportunidade para corrigir rumos, esclarecer a sociedade e evitar desperdício. Não para silenciar os críticos.
Cinema premiado e promissor
Por Folha de S. Paulo
Láureas conquistadas por 'O Agente Secreto'
no Globo de Ouro se somam ao sucesso de 'Ainda Estou Aqui'
Outros exemplos mostram vigor da produção brasileira,
como 'O Último Azul', de Gabriel Mascaro, que recebeu o Urso de Prata em Berlim
Ao receber dois prêmios de grande projeção na
cerimônia do Globo Ouro, na noite de domingo (11) e madrugada desta
segunda-feira (12), o filme "O Agente
Secreto", dirigido por Kleber
Mendonça Filho, e estrelado por Wagner Moura,
levou novamente o cinema brasileiro
a uma posição de destaque no cenário internacional.
Apenas uma vez, em 1999, com Central do
Brasil, de Walter Salles Júnior,
uma produção do país obteve a prestigiosa premiação, conquistando o troféu de
melhor filme em língua não inglesa. Na mesma ocasião, Fernanda
Montenegro, a atriz protagonista da obra, justamente indicada,
terminou por não ser a escolhida.
Agora, Wagner Moura, melhor ator de drama,
assegurou à cinematografia brasileira uma
inédita dupla de láureas. O feito poderia ser visto como um ponto
luminoso, desses que ao longo do tempo lembram a todos, inclusive a nós mesmos,
que o Brasil é capaz de fazer ótimos filmes.
Não é, entretanto, apenas a isso que estamos
assistindo: na edição de 2025 do Globo de Ouro,
o cinema nacional também figurou entre os mais reconhecidos do mundo, com
"Ainda Estou
Aqui", também de Salles Júnior, indicado nas categorias de
melhor filme de língua não inglesa e atriz de drama.
Venceu nesta última categoria com a atuação
de Fernanda
Torres, também nominada para o Oscar ao
lado do longa —que conquistou o
então inédito troféu de Hollywood como melhor filme
internacional para o Brasil.
Esses êxitos em sequência já bastariam para
sugerir que há algo de mais consistente acontecendo na produção cinematográfica
brasileira. Há, contudo, mais evidências. Para ficar em dois casos, "O
Último Azul", de Gabriel Mascaro, recebeu o Urso de Prata no Festival de
Berlim, em 2025, e "Manas", de Mariana Brennand, tem merecido amplo
reconhecimento e premiações em diversos eventos internacionais.
Essa fase iluminada tem sido marcada não apenas
por prêmios relevantes, reconhecimento de críticos internacionais e exibições
em outros continentes. Presenciamos, ainda, um bem-vindo encontro com o
público, que reconhece seu país nas telas.
Fenômeno de bilheteria, "Ainda Estou
Aqui" levou cerca de 6 milhões de pessoas aos cinemas. "O Agente
Secreto" segue a mesma trajetória promissora. A atração de espectadores,
que já se via em produções de apelo mais comercial, vai se afirmando em outras
faixas, com renovado interesse dos mercado nacional e externo.
É fato que o cinema brasileiro tem atraído
jovens profissionais e elevado sua qualidade média, no que diz respeito a
recursos técnicos, ideias, temas, atuações, marketing e outros aspectos.
Para além do apoio de políticas
públicas, multiplicam-se
as co-produções com outros países e registram-se investimentos
privados. Os resultados estão aí, nas telas, nos troféus e nas bilheterias. As
perspectivas são, justificadamente, auspiciosas.
Defensoria Pública de SP, 20 anos
Por Folha de S. Paulo
Órgão essencial para garantir acesso à
Justiça completa duas décadas em meio a demandas corporativistas
A Alesp aprovou projeto de expansão da
Defensoria Pública paulista, com aumento dos vencimentos e criação de
remunerações extras
A existência de um órgão responsável por
assegurar de forma gratuita o acesso à Justiça aos mais pobres é essencial para
que o direito à assistência jurídica seja de fato garantido a toda população.
Essa é a função da Defensoria Pública, cujo órgão estadual em São Paulo completou
duas décadas de sua implantação no último dia 9.
Antes, o serviço cabia a advogados públicos,
alocados na Procuradoria-Geral do estado, e privados, por meio de convênios com
a seccional paulista da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).
Dado o possível conflito de interesses, no
primeiro caso, e a insuficiência no atendimento, no segundo, a criação da
Defensoria fortaleceu a necessária autonomia institucional e ajudou a
aperfeiçoar o sistema de acesso.
Passados 20 anos, porém, a entidade apresenta
cobertura limitada, enquanto seus advogados parecem mais interessados em
questões corporativistas.
Segundo a Cartografia da Defensoria Pública
no Brasil de 2024, pesquisa feita por órgãos ligados à categoria, como seu
Conselho Nacional, a Defensoria Pública de São Paulo está presente em 13,8% das
comarcas do estado; em 86,4% delas, o atendimento é feito por advogados
conveniados —11 estados, incluindo o Rio de Janeiro, oferecem atendimento integral
em seu território.
Os defensores públicos mostram avidez em
obter benesses que permitem superar o teto salarial dos servidores, os chamados
penduricalhos, a exemplo do que fazem juízes e promotores. Em outubro de 2025,
a associação da carreira em São Paulo cobrou rapidez no pagamento de auxílios
referentes a acúmulo de processos desde 2018.
Dois meses antes, a Assembleia Legislativa do
estado aprovou projeto de expansão da Defensoria, com abertura de 140 vagas,
aumento dos vencimentos e criação de remunerações extras. Em dezembro, uma
decisão interna da Defensoria facilitou a
obtenção de quinquênios, licenças-prêmio e sexta-parte.
Parte da categoria e especialistas também
criticam uma possível centralização de poder por meio do Grupo de
Assessoramento em Demandas Estruturais (Gade), criado em agosto, que limitaria
a autonomia da atuação de núcleos especiais em áreas como direitos humanos,
moradia, saúde e violência policial.
Faria bem à Defensoria Pública paulista dedicar mais tempo à ampliação do atendimento à população e ao fortalecimento da independência, necessária para garantir direitos de grupos vulneráveis, do que em atender a anseios corporativistas.
O Supremo não é o foro do caso Master
Por O Estado de S. Paulo
No STF sob frágil base factual, caso Master
transforma contradições processuais em problema institucional e testa limites
do compromisso de Dias Toffoli com o princípio do juiz natural
O banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco
Master, defendeu-se perante o ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal
Federal (STF), da acusação de que teria contratado influencers para atacar o
Banco Central (BC). O argumento colide com a investigação da Polícia Federal
(PF), que encontrou mensagens no celular apreendido de Vorcaro nas quais ele
mesmo orienta a campanha contra a autoridade monetária.
Mas antes o problema fosse o contraste entre
a versão levada pelo banqueiro ao STF e os indícios reunidos pela PF contra
ele. Para o País, muito mais grave do que as incongruências da defesa do sr.
Vorcaro é a naturalização do foro em que ela foi apresentada.
É preciso tornar a dizer com todas as letras:
o caso Master não é da competência do Supremo. Vorcaro não tem foro especial
por prerrogativa de função. Tampouco o possuem os executivos do Master e do
Banco de Brasília ora sob investigação por suspeita de fraudes bilionárias na
compra de ativos de baixíssima qualidade do banco privado. O julgamento dos
possíveis crimes cometidos nessas transações é de competência da primeira
instância da Justiça Federal. Nada autoriza a permanência do caso na mais alta
Corte do País.
Ainda assim, o caso foi parar no STF a partir
da alegação de que Vorcaro teria negociado a compra de um imóvel, por meio da
composição de um fundo, com o deputado João Carlos Bacelar (PL-BA), este, sim,
detentor de foro especial. Ora, trata-se de uma transação comercial alheia às
operações Master sob escrutínio e que nem sequer chegou a ser concretizada.
Mesmo que tivesse sido, a jurisprudência do próprio STF admite o desmembramento
do feito, preservando na Corte apenas o que diga respeito à autoridade com
prerrogativa de foro. Dias Toffoli, contudo, reteve integralmente o caso em seu
gabinete.
A decisão do ministro torna-se ainda mais
inquietante quando combinada com a imposição de alto grau de sigilo sobre os
atos de investigação. O sigilo, nesse contexto, não protege o inquérito nem o
interesse público: protege pessoas. A ascensão vertiginosa do Master nos
últimos anos caminhou lado a lado com a construção de uma ampla rede de
relações entre Vorcaro e autoridades dos mais altos escalões dos Três Poderes.
Diante disso, não se pode condenar quem enxergue na opção pelo foro no STF e
pela opacidade imposta aos autos por Dias Toffoli uma operação de acobertamento
– suspeita que, por si só, já corrói a confiança da sociedade na imparcialidade
da Corte.
O incômodo se intensifica diante de fatos
que, embora laterais, reforçam a imprescindibilidade do afastamento de Dias
Toffoli da condução das investigações. Como veio a público, dois irmãos do
ministro venderam participação milionária num resort no Paraná a um fundo ligado à Reag
Investimentos, gestora investigada por abrigar redes financeiras associadas ao
Master e, ademais, investigada no âmbito da Operação Carbono Oculto, que
alcançou os tentáculos do PCC no sistema financeiro formal.
O ministro não tem parte nos negócios dos
irmãos, mas é frequentador do tal resort.
A tisnar a aura de imparcialidade de Dias Toffoli, ainda há o episódio de sua
viagem, em jatinho particular, ao lado do advogado de um executivo do Master
investigado pela PF, para assistir a um jogo de futebol no exterior. Não se
trata, aqui, de imputar ilegalidades a ninguém, mas de reconhecer que o
conjunto dos fatos impõe um dever de prudência incompatível com a permanência
do ministro à frente desse caso.
O princípio do juiz natural não é um
formalismo menor. É um pilar do Estado de Direito que visa a impedir que
eventuais réus escolham seus juízes ou que a jurisdição seja moldada por
conveniências de ocasião. A Constituição e as leis estabelecem, de forma
inequívoca, que cidadãos sem prerrogativa de foro devem ser investigados e
processados na instância ordinária, segundo critérios gerais e impessoais. As
exceções admitidas pelo STF são restritas e condicionadas à indissociabilidade
de fatos ligados a quem tem o foro especial – requisitos a que o Master,
definitivamente, não atende.
O STF pode e deve corrigir o rumo. Persistir
no erro será assumir, sem disfarces, que princípios constitucionais podem ser
relativizados quando estão em jogo interesses muito poderosos.
Veto cenográfico
Por O Estado de S. Paulo
Ao vetar PL da Dosimetria, Lula joga para a
plateia, perde nova chance de pacificar a sociedade e se apropria do 8 de
Janeiro, como se ele fosse o guardião exclusivo da democracia no País
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva
escolheu o terceiro aniversário do fatídico 8 de Janeiro para anunciar o veto
ao chamado PL da Dosimetria, que ajusta critérios para a aplicação das penas
aos artífices da tentativa de golpe e vândalos que invadiram as sedes dos Três
Poderes em 2023. Mais do que isso, Lula transformou o veto numa encenação
política. Ao fazê-lo, não altera substancialmente o destino do texto – cuja
palavra final tende a ser dada pelo Congresso ou, mais adiante, pelo Supremo
Tribunal Federal (STF) –, mas arroga para si a posição de guardião exclusivo da
democracia no País.
Foi assim que Lula perdeu uma oportunidade,
ainda que modesta, de contribuir para a pacificação da sociedade. Seu gesto é,
antes de tudo, cenográfico. Lula sabe que o Congresso dispõe de votos para
derrubar o veto. Ato contínuo, um novo projeto de anistia “ampla e irrestrita”
foi protocolado no Senado, enquanto parlamentares de oposição já se
movimentaram para que o veto seja analisado ainda em janeiro. O presidente sabe
também que o projeto não representa qualquer anistia aos crimes cometidos
contra o Estado Democrático de Direito. Ainda assim, preferiu transformar a
dosimetria penal em instrumento retórico, apropriando-se politicamente de uma
data que deveria servir à reafirmação institucional, não à demarcação
eleitoral.
Como este jornal já afirmou neste espaço, a
Câmara dos Deputados fez a coisa certa ao aprovar o projeto. O texto não
relativiza os ataques de 8 de janeiro de 2023 nem absolve culpados. O que faz é
corrigir distorções evidentes na aplicação das penas, hoje marcadas por um
voluntarismo judicial que tem produzido condenações desproporcionais,
insegurança jurídica e uma perigosa ampliação do arbítrio. Democracias sólidas
evitam punições exemplares ao sabor do clamor político.
Ao vetar o projeto, Lula não defende a
democracia, e sim a sua conveniente e eleitoreira narrativa segundo a qual
qualquer tentativa de discutir excessos punitivos equivale a condescendência
com golpistas. Trata-se de uma simplificação oportunista, que empobrece o
debate público e ignora um princípio elementar do Estado de Direito: a
proporcionalidade da pena é condição da Justiça, não obstáculo à punição.
Enquanto o presidente da República posa para
a plateia progressista, o Congresso – e especialmente o Centrão – joga um jogo
bem mais pragmático. O veto virou moeda de troca. Derrubá-lo pode servir, de um
lado, para emparedar o governo, em mais um capítulo do já longo enredo de
derrotas do Executivo no Congresso. O embate mais uma vez expõe a fragilidade
da estratégia presidencial, que transfere ao Legislativo a responsabilidade por
corrigir o que ele próprio vetou por cálculo político.
De outro lado, o Centrão trabalha para
pressionar o bolsonarismo, como se avisasse a Jair Bolsonaro de que livrá-lo de
um longo tempo de prisão requer, em tese, uma compensação futura: a desistência
da pré-candidatura presidencial do senador Flávio Bolsonaro em favor de um nome
mais competitivo para enfrentar o incumbente. Nesse tabuleiro, o ex-presidente
não é o único alvo. O recado ecoa sobre seu entorno: uma candidatura da direita
ancorada na preservação do comando do clã Bolsonaro hoje interessa menos a uma
parcela considerável do Congresso do que um nome capaz de mudar o centro
gravitacional da direita.
Mas voltemos a Lula. Ao insistir em
transformar o 8 de Janeiro em ativo político permanente, ele e seus exegetas
cometem o mesmo erro que dizem combater: instrumentalizam a democracia. O
fortalecimento das instituições não se faz com gestos teatrais nem com vetos
transitórios, mas com respeito às leis, autocontenção do Judiciário e maturidade
do Executivo. A Câmara dos Deputados, ao corrigir excessos judiciais, fez sua
parte. O presidente, ao vetar por conveniência retórica, preferiu o aplauso
fácil e reforçou uma peça central de sua narrativa eleitoral. No delírio
lulopetista, defender a democracia equivale a defender Lula e o PT.
Resta saber se, mais uma vez, a democracia
brasileira dependerá menos do discurso e mais da capacidade de suas
instituições de conter o oportunismo – venha ele de onde vier.
O exemplo do Globo de Ouro
Por O Estado de S. Paulo
Sucesso do cinema brasileiro deve inspirar a
projeção de outras áreas de excelência do País
O Brasil voltou a ganhar projeção
internacional a partir de uma de suas expressões culturais mais notáveis, o
cinema. As premiações de O Agente
Secreto no Globo de Ouro – melhor filme em língua não inglesa
e melhor ator em filme de drama para Wagner Moura – reafirmam a capacidade do
País de competir em ambientes altamente seletivos e de dialogar com audiências
além de suas fronteiras.
Além da celebração de títulos ou nomes
específicos, as láureas oferecem uma lição mais ampla sobre como a presença
internacional do que o Brasil produz pode – e deve – ser ampliada para outras
áreas estratégicas.
O êxito do cinema brasileiro não decorre só
de talento artístico. Resulta da combinação entre retomada do volume de
produção, qualidade consistente e estratégia de divulgação. Produzir de forma
regular é condição básica para disputar espaço em escala global. Afinal, não se
premia o que não é produzido. Mas saber promover esse produto é o que
transforma reconhecimento eventual em projeção consistente, movimento que deve
se estender para além do cinema e orientar a inserção internacional de tudo de
bom que o País é capaz de oferecer ao mundo.
Nos últimos anos, o Brasil tem demonstrado
capacidade de gerar conhecimento científico, inovação tecnológica e iniciativas
empresariais competitivas, mas ainda carece de uma política mais ambiciosa e
coordenada de promoção externa desses ativos. A produção acadêmica nacional,
por exemplo, é expressiva em diversas áreas, mas poderia alcançar impacto muito
maior caso fosse acompanhada de esforços sistemáticos de internacionalização,
como maior presença em revistas de circulação global, estímulo a parcerias com
centros de excelência no exterior, intercâmbio de pesquisadores e participação
ativa em redes internacionais de pesquisa.
O mesmo raciocínio se aplica ao setor
empresarial, especialmente no que concerne à tecnologia e à inovação. Empresas
brasileiras capazes de competir globalmente ajudam a gerar empregos
qualificados e fortalecer cadeias produtivas no Brasil. Ainda assim, muitas
dessas iniciativas permanecem pouco conhecidas fora do País.
A experiência recente do cinema brasileiro
demonstra que o reconhecimento externo tende a retroalimentar o mercado
interno, fortalecendo atividades que geram emprego e renda localmente. Esse
círculo virtuoso não é exclusivo da cultura. Ele pode ser reproduzido em outras
áreas centrais para o desenvolvimento sustentável do País.
Promover o Brasil no exterior, portanto, não
é apenas uma questão de autoestima nacional. É uma estratégia de
desenvolvimento. Ao investir de forma consistente na divulgação internacional
de sua produção cultural, acadêmica e empresarial, o País atrai negócios,
amplia seu soft power,
melhora sua inserção econômica no mundo e consolida sua condição de ator
relevante no concerto entre as nações.
O cinema brasileiro mostrou o caminho. Cabe agora estender essa estratégia a tudo mais que o Brasil é capaz de produzir com excelência.
Powell escancara luta pela independência do
Fed
Por Valor Econômico
A ameaça contra o banco central americano
gerou reações imediatas de ex-presidentes do Fed e alguns republicanos do
Congresso
O já disruptivo segundo mandato de Donald
Trump nos EUA atingiu um novo patamar na noite de domingo, quando o discreto
Jerome Powell divulgou um vídeo com uma mensagem direta: a ameaça de acusações
criminais contra o presidente do Federal Reserve (Fed) é uma consequência do
fato de o banco central americano definir as taxas de juros com base na melhor
avaliação para cumprir seu mandato de fomentar a estabilidade de preços e o
pleno emprego sustentável, em vez de seguir as preferências do presidente.
Trump já declarou diversas vezes que o Fed deveria reduzir o juro a 1%. A taxa
dos Fed Funds está hoje na faixa de 3,5%-3,75%, menor nível em três anos.
A nova investida de Trump surpreende pelo
fato de o mandato de Powell à frente do Fed terminar daqui a poucos meses, em
maio. Especula-se que seja uma pressão do presidente para que Powell, que
também é membro do board do Fed com mandato até início de 2028, antecipe sua
aposentadoria, abrindo outra vaga para Trump preencher e consolidar o seu
controle na autoridade monetária.
Porém, a investigação do Departamento de
Justiça em relação a Powell e o custo da reforma da sede do Fed — sobre a qual
Trump afirma que não tinha conhecimento — pode ter sido um tiro no pé. Pessoas
próximas a Powell acreditavam que ele estava ansioso por uma vida pós-Fed
quando seu mandato como presidente terminasse. Mas em sua mensagem de vídeo,
Powell sugere estar disposto a brigar para garantir a independência do banco
central. Além disso, a investigação criminal torna menos provável que o Fed
reduza as taxas de juros novamente no curto prazo — a próxima reunião de
política monetária está marcada para os dias 27 e 28 de janeiro —, pois um
ataque tão flagrante à independência do banco central fornece um motivo real
para que as expectativas de inflação — e consequentemente para os juros no
longo prazo — se desestabilizem.
Powell recebeu imediatamente o apoio de todos
os ex-presidentes do Fed ainda vivos, assim como de ex-secretários do Tesouro
de administrações democratas e republicanas anteriores. Ex-membros do Fed, como
Janet Yellen, Ben Bernanke e Alan Greenspan, assinaram uma declaração
criticando o que descreveram como uma “tentativa sem precedentes de usar
ataques da promotoria para minar a independência [do Fed]”. “É assim que a
política monetária é feita em mercados emergentes com instituições frágeis, com
consequências altamente negativas para a inflação e para o funcionamento de suas
economias de forma mais ampla”, diz a declaração. “Isso não tem lugar nos EUA,
cuja maior força é o Estado de Direito, que está na base do nosso sucesso
econômico.”
A ameaça à independência do Fed também gerou
reações imediatas no Congresso americano, incluindo de alguns republicanos,
como o senador Thom Tillis, membro da influente Comissão de Bancos do Senado.
Tillis ameaçou bloquear futuras nomeações para o Fed devido à investigação do
Departamento de Justiça, acusando os assessores de Trump de “pressionarem
ativamente para acabar com a independência do Fed”.
Diante da queda no apoio interno — segundo o
agregador de pesquisas da CNN a desaprovação de Trump seguia em 58% no início
do ano —, Trump tem ampliado sua intervenção na economia, mirando não apenas o
Fed, mas também as empresas americanas de forma alarmante.
Na última semana, Trump “ordenou” aos bancos
limitar as taxas de juros dos cartões de crédito, ameaçou usar uma ordem
executiva para impedir empresas de defesa de pagar dividendos aos seus acionistas
ou recomprar ações até que acelerem a produção de equipamentos militares e,
mais recentemente, busca obrigar as petrolíferas a extrair petróleo da
Venezuela, que elas não querem por causa do custo elevado. Trump também afirmou
que “instruiu seus representantes” — Fannie Mae e Freddie Mac, as duas agências
federais — a comprar US$ 200 bilhões em títulos hipotecários, sob a alegação
que isso reduzirá o custo do financiamento imobiliário — embora as taxas
imobiliárias em geral acompanhem a tendência dos juros dos Treasuries de longo
prazo, em vez dos rendimentos dos títulos hipotecários.
Apesar de essas ações arbitrárias de Trump
influírem no desempenho individual das ações, ou de um grupo delas, no geral,
os mercados financeiros têm feito vista grossa à ameaça intervencionista do
presidente. Após uma reação inicial em baixa, as bolsas americanas se
recuperaram, com o índice S&P 500 até mesmo renovando sua máxima histórica
no fechamento, atingindo 6.977,27 pontos. Também o mercado de bônus reverteu a
maior parte das perdas iniciais, com o rendimento dos Treasuries de 10 anos
encerrando apenas com uma leve alta, em 4,186%.
O ineditismo de ter um presidente com quase nenhum respeito à separação dos poderes e às regras da lei nos EUA pode estar nublando a avaliação dos agentes financeiros em Wall Street, que parecem ainda acreditar que a força das instituições americanas irá prevalecer sobre a vontade quase imperial de Trump.
A arte contra os extremismos
Por Correio Braziliense
Kleber Mendonça Filho e Wagner Moura
acertadamente levantam as estatuetas ecoando a importância das produções artístico-culturais
no enfrentamento aos extremismos
O filme O agente secreto faz história. Pela
primeira vez, uma produção brasileira ganha duas categorias em uma mesma edição
do prestigiado Globo de Ouro: a de Melhor filme de língua não inglesa e a de
Melhor ator em filme de drama. Para além do ineditismo, a noite do último
domingo precisa ser celebrada pelo fato de mais uma produção brasileira ser
reconhecida internacionalmente ao lançar luz sobre um período da história do
Brasil que não pode ser esquecido. Nesse sentido, Kleber Mendonça Filho e
Wagner Moura acertadamente levantam as estatuetas ecoando a importância das
produções artístico-culturais no enfrentamento aos extremismos.
Wagner Moura interpreta um professor
universitário que, para fugir de agentes da ditadura em razão das atividades
subversivas, deixa São Paulo e volta para a sua cidade natal. Mas o Recife de
1977 também não está imune às garras do autoritarismo, mergulhando
Marcelo/Armando, o personagem principal, em um thriller de segredos, amores e
violências. Trata-se de um filme sobre "memória — ou sobre a falta de
memória — e sobre trauma geracional", nas palavras do ator que, ao receber
o prêmio, enfatizou ainda a esperança no contraponto — "se o trauma pode
ser passado entre gerações, os valores também podem" — e a importância de
dar continuidade a produções com essa temática — "a ditadura ainda é uma
cicatriz aberta em nossa vida brasileira", justificou.
Sob essa lógica, o filme de Kleber Mendonça
enriquece o debate ao retratar os impactos da ditadura militar fora do eixo
Rio-Brasília-São Paulo. O regime de exceção causou cicatrizes profundas também
ao Nordeste. A Comissão Nacional da Verdade (CNV) estima a existência de ao
menos 40 centros, clandestinos e oficiais, que reprimiram opositores da
ditadura em áreas urbanas e rurais da região. Não se pode perder de vista,
ainda, a interrupção de reformas estruturais para estados nordestinos por parte
dos militares.
A CNV chegou a um total de 434 mortes e
desaparecimentos políticos em todo o país, de 1964 a 1988, com uma concentração
de vítimas, 351 mortos, durante a vigência do Ato Institucional nº 5. A
retomada democrática, em 1985, não extirpou os autoritários. Ao contrário, eles
seguem trabalhando contra as liberdades individuais, em prol de projetos
baseados na violência e na falta de diálogo, como se viu na intentona golpista
de 8 de janeiro de 2023. São diversos os subterfúgios para camuflá-los,
exigindo, portanto, vigilância constante e coletiva — inclusive por meio das
artes.
Ao receber a estatueta do Globo de Ouro, Kleber Mendonça conclamou os jovens a fazerem cinema e contribuírem com a causa. Do palco, dirigiu-se aos americanos. Logo depois, em conversa com jornalistas, aos brasileiros. "Quero muito ver jovens cineastas brasileiros fazendo histórias sobre o Brasil no cinema. Quando a gente fala da nossa casa, todo mundo ouve ao redor do mundo." Não cabe silêncio diante de práticas autoritárias. Falar sobre ditadura, recorrendo a todas as formas democráticas de expressão, é dever civilizatório.
As vitórias e o bom momento do cinema nacional
Por O Povo (CE)
A qualidade de uma obra cultural, na área em
que ela se manifeste, não pode ser medida unicamente pelo reconhecimento que
venha através de premiações em festivais, por relevantes e influentes que
sejam. Exige de nós uma análise serena, portanto, a performance altamente
positiva do filme brasileiro "O Agente Secreto" na edição de 2026 do
Globo de Ouro, que aconteceu na madrugada dessa segunda-feira, dia 12, nos
Estados Unidos.
A dupla vitória representada pela escolha da
obra dirigida pelo pernambucano Kléber Mendonça como "melhor filme de
língua não inglesa" e de Wágner Moura como "melhor ator de filme de
drama" apenas confirma a excelência do que somos capazes de produzir e a
talento indiscutível dos nossos técnicos e artistas. É algo que vai além do
reconhecimento que a comunidade cinematográfica internacional tem sido capaz de
nos oferecer através do seu calendário de premiações.
Ao longo da temporada, já são 56 prêmios
acumulados, o que demonstra a força da produção que circula pelo mundo desde,
pelo menos, o Festival de Cannes, na França, em maio, quando começou sua
caminhada vitoriosa com as conquistas das estatuetas de melhor diretor para
Kléber Mendonça e de melhor ator para Wágner Moura.
Grupos de localizações diversas, jurados de
visões diferentes, têm sido capazes de entender mensagem e linguagem de um
filme bastante brasileiro, falado todo em português, que foi rodado numa
capital nordestina - Recife, no caso -, magia que apenas a arte é capaz de
proporcionar. No caso, o cinema.
Parece natural, apesar disso, que
reconhecimentos como este que acaba de fazer o Globo de Ouro nos encham de
orgulho. O momento político do País é delicado, o que até ajuda a explicar o
fato de existir uma parcela de brasileiros incomodada com o sucesso, medido em
prêmios, de uma produção que também lança um olhar crítico acerca de um momento
histórico no qual estávamos sob controle de um governo militar, com tudo que
isso implica. Em termos de passado, de presente e, até, de futuro.
O ideal seria que superemos tudo isso para,
acima das diferenças que nos dividem, aproveitarmos um momento inegavelmente
positivo para gerar uma união que pudesse fortalecer o cinema nacional.
Trata-se de uma indústria que gera muitos empregos, movimenta a economia,
produz e distribui cultura, permite que nos discutamos como país, enfim, há um
conjunto expressivo de razões para nos dispormos a colocarmos de lado, um
pouco, a irritante briga ideológica de todo dia.
Seria pouco inteligente de nossa parte desperdiçar esse momento favorável e não buscar meios de fortalecer a ideia de que precisamos de uma política de Estado, que reduza a dependência de um governante de plantão para que as coisas aconteçam. E, claro, viva o cinema nacional!

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