O Estado de S. Paulo
Assim como o tetra de 1994 favoreceu FH, o
cinema pode melhorar o humor nacional, a favor de Lula
O cinema nacional está lavando a nossa alma, tão machucada pela tentativa de golpe e por escândalos, privilégios, insegurança e desigualdade social, e não se pode desconsiderar o efeito político, e particularmente eleitoral, que o sucesso internacional de Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto pode ter no Brasil. O “País do Futebol” é também o país do cinema.
Em seu livro O Improvável Presidente do Brasil, de 2013, Fernando Henrique admitiu que nunca deu a menor bola para futebol, mas virou torcedor obsessivo na campanha presidencial de 1994 e colheu os gols, ou louros, do tetracampeonato brasileiro do mesmo ano. Segundo ele, a Copa trouxe otimismo ao País e ajudou a impulsionar o Plano Real e, depois, sua eleição à Presidência.
“Num País havia tempo deprimido, todos se
agarraram a essa prova de que o Brasil ainda era capaz de grandeza”, escreveu
FH, como sociólogo e expresidente, sobre como sucessos fazem a alegria da massa
e impactam em eleições. Igor Maciel, da Rádio Jornal (PE), me lembrou do livro,
quando falávamos da euforia com os dois filmes, Fernanda Torres, Wagner Moura,
Walter Salles e Kléber Mendonça Filho.
Se Copas do Mundo, Olimpíada, vôlei, skate,
surf... e o cinema têm efeito político, tendem, por óbvio, a favorecer os
presidentes de plantão. Que o diga o general-ditador Médici, que usou a vitória
do Brasil na Copa de 1970, no México, como propaganda a seu favor.
Assim, o presidente Lula deve capitalizar o
sucesso do cinema nacional, inclusive em fotos com os vitoriosos – que são,
aliás, seus apoiadores. E tudo isso se torna mais forte pelo confronto entre
ditadura e democracia e entre os governos de Jair Bolsonaro e Lula. São fatos.
Ainda Estou Aqui e Agente Secreto trazem de
volta o drama individual de um ex-deputado dedicado a Direitos Humanos e um
professor universitário envolvido em projetos científicos, como sínteses da
tragédia coletiva, num País que nunca virou a página da ditadura e acaba de
condenar e prender um ex-presidente e oficiais generais por tentativa de
resgatar o arbítrio, o autoritarismo.
Outra comparação é que Lula-3 não é uma
maravilha na área da Cultura, mas nada poderia ser pior do que na era
Bolsonaro, com Roberto Alvim, capaz de fazer apologia ao nazismo, Hitler e
Goebbels, e depois Mário Frias, que posava para fotos, não com textos,
partituras, pinturas, só com fuzis.
E o Oscar vem aí, com Lula na torcida. Não
custa lembrar, porém, que a Copa criou o clima, mas quem elegeu FH em 1994 foi
o Plano Real e Lula não tem nada perto de um Plano Real, além de estar cercado
de interrogações.

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