Folha de S. Paulo
Os que sofrem merecem empatia, mas não são
heróis
A dor nem sempre atesta a superioridade moral
do sujeito
Aconteceu em 2015. Pela primeira vez na
história da França, um presidente, François Hollande, considerou conceder a
Legião de Honra —a mais alta condecoração da República, destinada a celebrar
feitos valorosos de militares ou civis— às vítimas do atentado
terrorista no teatro Bataclan, em Paris.
À primeira vista, a decisão poderia passar
sem grande repercussão. Se existe fenômeno que define o nosso tempo é a
elevação da vítima a
um lugar cimeiro na imaginação moral dos contemporâneos.
Ainda assim, a repercussão veio —e Hollande recuou, optando por criar uma Medalha Nacional de Reconhecimento das Vítimas do Terrorismo. Fim da história?
Nada disso: o desconforto da primeira decisão
permaneceu. E foi precisamente esse desconforto que levou o filósofo Pascal
Bruckner a formular uma pergunta simples e perturbadora: por que motivo as
vítimas são vistas como heróis?
É uma boa pergunta, a que Bruckner responde
no ensaio "Je souffre donc je suis" ("sofro, logo
existo"), recentemente publicado.
As vítimas são vítimas, escreve o autor.
Merecem empatia. Devemos recordá-las. Devemos honrá-las. A título de exemplo,
Bruckner cita o memorial do 11 de Setembro, em Nova York, como a materialização
poderosa dessa obrigação de memória.
Difícil discordar: aquele abismo central,
engolindo a água, é uma metáfora solene sobre o terror que engoliu a vida
naquela manhã. Quem viu não esquece.
Mas a memória não se confunde com o heroísmo.
A memória reconhece uma ferida e, no limite do possível, procura curá-la. O heroísmo
celebra uma ação que se inscreve acima da conduta normal.
Atribuir medalhas de heroísmo a quem esteve
no lugar errado, à hora errada, significa confundir uma condição —trágica,
obviamente— com um ato.
Claro que a centralidade da vítima na moral
contemporânea não é um fenômeno recente. Para Bruckner, o cristianismo
fundou-se sobre o sofrimento de um inocente —e esse gesto teve um impacto
duradouro na ética e na jurisprudência ocidentais.
Pela primeira vez, o fraco, o humilhado e o
oprimido, cuja relevância era secundária no mundo pagão, foram colocados no
centro da moral.
Foi uma inversão decisiva: permitiu a
revalorização dos mais frágeis, fundou uma ética de compaixão e lançou as bases
da ideia moderna de dignidade humana.
Mas esse legado teve também uma face ambígua
quando levado até o extremo do ressentimento (obrigado, Nietzsche). A
impotência nem sempre é virtude e o sofrimento nem sempre atesta a
superioridade moral do sujeito. Será preciso lembrar que há masoquistas
malignos?
Por outro lado, é inegável que a mensagem
cristã da igualdade radical dos homens deixou sua marca nas doutrinas modernas
dos direitos humanos e nos movimentos sociais que lutaram —e lutam— contra a
opressão de povos e minorias.
O problema surge quando essa atenção
concedida à vítima deixa de ser um princípio de proteção e se transforma numa
identidade metafisicamente elevada, virtuosa, digna de culto, capaz de
suplantar os verdadeiramente heroicos.
Isso tem implicações políticas —ou, melhor
dizendo, antipolíticas. Como lembrava Hannah Arendt, a política se organiza em
torno da ação, da responsabilidade e do julgamento.
A vitimização é uma recusa da política. Já
não se discute o que deve ser feito; compara-se quem sofreu mais, em
hierarquias de dor que se expandem continuamente.
Esse "culto da vítima", segundo
Bruckner, tem efeitos nocivos. Se todos somos vítimas por alguma razão,
deixamos de distinguir o sofrimento real do sofrimento subjetivo e, muitas
vezes, imaginário.
Pior ainda: o sofrimento deixa de ser um mal
a reparar e passa a ser um capital simbólico que deve ser mantido, exibido e
protegido. Superá-lo implicaria perda de status.
De vez em quando, os jornais da Europa trazem
estudos e pesquisas sobre a disponibilidade dos europeus para defender seus
países em caso de agressão militar externa. É uma preocupação que se agravou
depois da invasão russa da Ucrânia.
Os resultados são sempre desanimadores: com
raríssimas exceções, poucos estariam preparados para se engajar pessoalmente na
defesa. Motivos para a deserção?
Os especialistas divergem. Uns falam da paz
como normalidade histórica. Outros lembram a crise do Estado-nação como objeto
de lealdade. E alguns atribuem ao hiperindividualismo essa relutância em
defender o coletivo.
Eu, com a devida vênia aos especialistas,
prefiro respirar o ar do tempo e concluir: para os homens do século 21, é
melhor ser vítima que herói.

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