quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

No Brasil, novidades à direita, por Maria Hermínia Tavares

Folha de S. Paulo

Essa reorganização não se assemelha ao que ocorre em outras democracias

Há importante tentativa de diferenciação da extrema direita bolsonarista

Deslocados pelo crescimento de forças de extrema direita, partidos de centro e da direita moderada perdem filiados e densidade eleitoral nas democracias ocidentais.

Onde o sistema é multipartidário, os radicais criaram suas próprias legendas. Exemplos: a Frente Nacional, na França; a Alternativa para a Alemanha; o Chega, em Portugal; o Vox, na Espanha; o Partido da Liberdade, na Áustria; o Finns, na Finlândia; o Partido Popular suíço e seu homônimo dinamarquês; os Irmãos da Itália, da primeira-ministra Giorgia Meloni; enquanto quatro organizações disputam a herança do Aurora Dourada, banido da vida política na Grécia em 2020.

Ali onde o sistema eleitoral majoritário garante o bipartidarismo, as coisas são mais difíceis, mas não impossíveis. Enquanto o Reformar o Reino Unido, do britânico Nigel Farage, está nos calcanhares do Partido Conservador, nos Estados Unidos, Trump e seus seguidores, tendo se apossado do Partido Republicano, logo trataram de desfigurá-lo.

Na Argentina, maré semelhante permitiu a Javier Milei nadar de braçada no espaço eleitoral do antiperonismo, enquanto no ChileJosé Antonio Kast, com seu Partido Republicano, deslocou os representantes da direita tradicional.

Aqui no Brasil, onde o ultrafragmentado sistema de partidos tem composição mais instável, podemos estar caminhando em direção um pouco diferente. Depois da vitória de Bolsonaro em 2018, a extrema direita se afirmou com força e fisionomia próprias. Porém, ao que hoje se assiste não é a hemorragia dos partidos de direita alimentando o crescimento da extrema direita, na sua versão bolsonarista. Ela é inegavelmente forte —nas ruas e nas urnas—, mas sempre minoritária.

Eis que, à direita, ocorre importante tentativa de diferenciação frente à minoria extremada. Esse é o sentido dos recentes esforços de Gilberto Kassab, líder do PSD, para oferecer ao eleitorado uma alternativa conservadora pragmática.

É bom lembrar que o partido teve excelente desempenho no último pleito municipal, superando a marca de 650 prefeituras: conquistou ou manteve administrações em capitais e cidades médias estratégicas, além de ampliar sua capilaridade em municípios de pequeno e médio porte, especialmente nas regiões Sudeste, Sul e Nordeste. O resultado reforçou a posição do PSD como poderosa máquina eleitoral enraizada na base do sistema político, fazendo prever o aumento de sua representação na Câmara em 2026. Hoje, é relevante nas duas Casas do Congresso.

O partido de Kassab cresce principalmente à custa do MDB e do PSDB, legendas que ocupavam o centro da arena política. Do primeiro tem absorvido sobretudo quadros municipais; no segundo tem recrutado lideranças estaduais e parlamentares federais. As manobras se beneficiam da legislação de 2017, que estimula a redução do número de partidos.

A comemorada incorporação de três governadores pré-candidatos à Presidência sugere a ambição de participar na disputa nacional como alternativa ao bolsonarismo. Pode ser que isso não ocorra; ou que, ocorrendo, não tenha êxito. De toda forma, a reorganização da direita parece estar em curso e não se assemelha ao que ocorre em outras democracias.

 

 

 

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