segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Dívidas em alta expõem populismo do Desenrola

Por O Globo

Endividamento alcançou maior nível do atual mandato: metade do que as famílias ganham está comprometido

Foram efêmeros os efeitos do Desenrola Brasil, programa do governo Lula para renegociação de dívidas de tons nitidamente populistas. O endividamento das famílias aumentou e chegou a 49,8 % da renda anual em novembro, maior nível no atual mandato, de acordo com os dados mais recentes divulgados pelo Banco Central (o recorde histórico é 49,9%, em julho de 2022). Na prática, pode-se dizer que as dívidas, como financiamentos de carros, motos e outros bens, empréstimos pessoais, crédito consignado e cartão de crédito, correspondem à metade de tudo o que as famílias ganham em um ano. A inadimplência também subiu no ano passado. Chegou a 6,9% em dezembro no segmento de crédito livre às famílias, alta de 1,7 ponto percentual em 12 meses. Trata-se de patamar alto para os padrões históricos.

Lima Barreto e a corrupção sistêmica. Por Marcus André Melo

Folha de S. Paulo

Por que o Brasil está preso numa armadilha da corrupção sistêmica?

Resposta está nos microfundamentos; explicações culturalistas não dão conta do fenômeno

"Penso, ao ler tais notícias, que a fortuna dessa gente que está na Câmara, no Senado, nos ministérios, até na Presidência da República, se alicerça no crime. Que acha você?".

A afirmação é do protagonista de "O Único Assassinato de Cazuza" (1922), um dos últimos textos de Lima Barreto. A questão da corrupção sistêmica no país já se colocava há mais de um século. Os tribunais superiores, no entanto, não figuravam na lista. Sim, Lima não apelou para a explicação superficial, culturalista (herança lusitana).

Desigualdades em nome da fé. Por Waldemar Magaldi Filho

Folha de S. Paulo

A incorporação da lógica do mercado pela religião reconfigura o sentido da fé no século 21

Prosperidade passa a ser sinal de bênção divina, enquanto pobreza, de fracasso espiritual

[RESUMO] O texto analisa a ascensão da teologia da prosperidade como expressão de um deslocamento mais amplo da fé em direção à lógica do mercado. Ao transformar riqueza material em sinal de bênção e pobreza em falha espiritual, essa teologia submete o sagrado à gramática do desempenho, do cálculo e da recompensa. O antigo conceito bíblico de Mamon reaparece como símbolo desse processo, no qual o dinheiro deixa de ser meio e passa a ocupar o centro da experiência religiosa. O resultado é uma espiritualidade funcional, que oferece consolo individual, mas esvazia o mistério, enfraquece a crítica social e legitima desigualdades em nome da fé.

Em muitos templos pelo país, fiéis são convidados a subir ao púlpito para relatar conquistas materiais: a casa financiada, o carro novo, a empresa que prosperou "pela fé". Carteiras de trabalho, chaves de carro e contratos são ungidos em cultos transmitidos ao vivo. Pastores falam em "sementes", "investimentos" e "retornos". O vocabulário não é casual. Ele traduz uma teologia em que prosperidade material se tornou sinal de bênção divina, e a pobreza, indício de falha espiritual.

Esse deslocamento não surgiu do nada. Ele tem nome antigo. Mamon é um conceito quase arquetípico que atravessa a teologia ocidental desde que um carpinteiro da Galileia fez uma advertência radical: "Não podeis servir a Deus e a Mamon" (Mateus 6:24).

No aramaico, māmōnā significava riqueza ou propriedade. No discurso de Jesus, porém, o termo se personifica: deixa de ser coisa e se torna poder rival, uma soberania que exige lealdade exclusiva. Mamon não é o dinheiro no bolso, mas o dinheiro entronizado no coração.

Aceleração do capitalismo. Por Fernando Haddad

Folha de S. Paulo

Em 'Capitalismo Superindustrial', autor defende que inovação contínua cria ilusão que transforma superlucros em renda

Fenômeno é mais visível na economia digital, mas todas as atividades econômicas estão submetidas à nova lógica

[RESUMO] Autor sustenta que o capitalismo não foi superado, mas transformado pela centralidade dos ativos intangíveis, como softwares e patentes, e pela mercantilização do conhecimento. Nesse contexto, a inovação produzida continuamente nas empresas, por equipes criativas dedicadas, se torna fonte regular de superlucros. Trecho inédito de "Capitalismo Superindustrial" (Zahar) discute a nova dinâmica entre lucro e renda que levou o capitalismo a outro patamar.

No debate contemporâneo, importantes autores comungam a ideia de que vivemos uma realidade pós-capitalista. A maioria deles joga luz sobre um mesmo fenômeno: a perda de relevância do capital fixo em instalações, máquinas e equipamentos frente aos ativos intangíveis como patentes, marcas, direitos autorais, arranjos organizacionais entre outros.

Em meados de 1990, o investimento intangível ultrapassou o investimento tangível nos Estados Unidos, seguidos por outros países, e ele hoje é tanto maior, como proporção do PIB, quanto mais desenvolvido o país, mais integrado globalmente seu mercado e maior a extensão do coinvestimento do setor público.

Como todo investimento, o investimento em intangíveis cria um ativo que custa dinheiro e gera um retorno de longo prazo que pode, pelo menos em parte, ser desfrutado pelo investidor, o que permite calcular seu valor. Apesar de suas peculiaridades, esse cálculo, com alguns cuidados, pode ser integrado à contabilidade das empresas e à contabilidade nacional.

Poesia | Soneto da saudade, de Guimarães Rosa

 

Música | Mônica Salmaso - Quem te viu, quem te vê (Chico Buarque)