Valor Econômico
Em encontros com representantes de instituições financeiras, senador mostrou-se um defensor do receituário liberal e de uma agenda pró-mercado
Integrantes do Ministério da Economia ficaram
atônitos, naquele início de fevereiro, quando surgiu a notícia de que o
senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ),
recentemente ungido pelo pai à condição de pré-candidato a presidente da
República, subscrevera a chamada “PEC
Kamikaze”. Afinal, o apelido da Proposta de Emenda
Constitucional 1 de 2022, também conhecida como PEC das bondades, havia sido
dado pelo ministro Paulo
Guedes.
Sua fama precedia a conta que estava para ser pendurada nos cofres públicos, segundo especialistas e a oposição, com o intuito de tentar reeleger o presidente Jair Bolsonaro (PL).
A proposta permitia, por exemplo, que União,
Estados e municípios reduzissem tributos sobre os preços de diesel, biodiesel,
gás e energia elétrica por dois anos, sem necessidade de compensação pela perda
de receitas. Autorizava a criação de um auxílio-diesel para caminhoneiros
autônomos, a ampliação do auxílio-gás dado a famílias em situações de extrema
pobreza e o repasse de recursos a prefeituras para subsidiar a gratuidade a
idosos no transporte público urbano. Tudo isso, alertavam seus críticos, com um
“detalhe”: cerca de R$ 41,2 bilhões em despesas não
previstas no Orçamento seriam realizadas fora do alcance do teto de gastos.
A PEC foi aprovada e hoje é citada como uma
das possíveis contradições que adversários de Flávio Bolsonaro pretendem
explorar durante a campanha presidencial.
Também estão na lista a PEC dos Precatórios, que adiou
o pagamento dessas dívidas para abrir espaço no Orçamento para a realização de
outros gastos, e o crescimento exponencial do orçamento secreto. Isso sem falar na PEC da Transição, que era de
interesse da administração recém-eleita em 2022 para viabilizar a execução de
políticas públicas, mas sem a qual a gestão Bolsonaro não fecharia as contas.
Para tentar neutralizar esse discurso, aliados do pré-candidato do PL já têm uma estratégia. Eles argumentam, por exemplo, que o governo Bolsonaro enfrentou uma sequência de problemas que geraram desarranjos na economia e demandaram uma ação do Estado para dar alívio à sociedade: primeiro a tragédia de Brumadinho, depois uma crise hídrica, outra energética, que gerou uma grande elevação dos preços do petróleo, e a pandemia. Em paralelo, serão questionadas as motivações do governo Lula para antecipar o pagamento de precatórios, se estas vão além de apenas irrigar a economia e fomentar o consumo.
Nos encontros que manteve com representantes
de instituições financeiras, Flávio
Bolsonaro mostrou-se um defensor do receituário liberal e
de uma agenda pró-mercado. Não se deve esperar que ele defenda o fim do Bolsa Família, apontam aliados.
Seu pai inclusive aumentou o benefício. No entanto, sua proposta irá na direção
de criar um mecanismo que pague uma espécie de prêmio para quem deixar o
programa. Prometerá reduzir a quantidade de ministérios, subsídios e o número
de empresas estatais.
Duas campanhas eleitorais recentes estão
sendo estudadas por seus aliados. Uma é a de Pablo Marçal à Prefeitura
de São Paulo, cuja estratégia digital impulsionou a candidatura do
influenciador, e depois acabou causando problemas para o “outsider” na Justiça
Eleitoral. Sua usina de cortes gerou denúncias de uso indevido de meios de
comunicação por causa dos “concursos” em que colaboradores eram estimulados a
produzir e disseminar vídeos nas redes sociais em troca de remuneração e
brindes. Marçal acabou condenado e está inelegível.
A outra é de Javier Milei, presidente da
Argentina, que passou a ter a motosserra como marca registrada. Flávio
Bolsonaro já começa a falar em um “tesouraço”, ou seja, pode-se esperar o uso
de símbolo semelhante na defesa da redução da burocracia, do gasto público e do
desperdício.
Quem pergunta ao senador qual nome ele
gostaria de ver à frente da Economia em caso de vitória escuta que seria alguém
com o perfil de Roberto
Campos Neto, ex-presidente do Banco Central, ou do
ex-secretário do Tesouro Nacional Mansueto
Almeida. No entorno do
pré-candidato, pondera-se que Campos Neto teria mais proximidade com o
governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, e que herança da parceria
não é algo garantido. Em relação a Mansueto, acrescentam outras fontes, a
admiração existe, mas os dois não têm contato direto há tempos.
Ao retornar nesta semana do exterior, onde em
visitas ao Oriente Médio e à França trabalhou o fortalecimento de vínculos com
a ala mais ideológica do bolsonarismo, Flávio Bolsonaro retoma os contatos com
integrantes do mercado financeiro e
do empresariado. Em relação ao setor produtivo, aliás, a intenção de seus
correligionários é que opte por realizar conversas setoriais, e não
individualmente com empresas.
Ao reforçar esse discurso econômico, Flávio Bolsonaro precisará se equilibrar entre a necessária associação com seu pai para garantir um piso de pelo menos 20% dos votos em outubro, e a missão de marcar diferenças com algumas passagens do governo anterior. O senador tem o desafio de reduzir o índice de rejeição ao seu nome, o que seus correligionários consideram que está ocorrendo, mas também neutralizar resistências à sua candidatura em algumas alas do mercado.

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