quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

O que esperar (e não esperar) de Flávio Bolsonaro na economia, por Fernando Exman

Valor Econômico

Em encontros com representantes de instituições financeiras, senador mostrou-se um defensor do receituário liberal e de uma agenda pró-mercado

Integrantes do Ministério da Economia ficaram atônitos, naquele início de fevereiro, quando surgiu a notícia de que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), recentemente ungido pelo pai à condição de pré-candidato a presidente da República, subscrevera a chamada “PEC Kamikaze”. Afinal, o apelido da Proposta de Emenda Constitucional 1 de 2022, também conhecida como PEC das bondades, havia sido dado pelo ministro Paulo Guedes.

Sua fama precedia a conta que estava para ser pendurada nos cofres públicos, segundo especialistas e a oposição, com o intuito de tentar reeleger o presidente Jair Bolsonaro (PL).

A proposta permitia, por exemplo, que União, Estados e municípios reduzissem tributos sobre os preços de diesel, biodiesel, gás e energia elétrica por dois anos, sem necessidade de compensação pela perda de receitas. Autorizava a criação de um auxílio-diesel para caminhoneiros autônomos, a ampliação do auxílio-gás dado a famílias em situações de extrema pobreza e o repasse de recursos a prefeituras para subsidiar a gratuidade a idosos no transporte público urbano. Tudo isso, alertavam seus críticos, com um “detalhe”: cerca de R$ 41,2 bilhões em despesas não previstas no Orçamento seriam realizadas fora do alcance do teto de gastos.

A PEC foi aprovada e hoje é citada como uma das possíveis contradições que adversários de Flávio Bolsonaro pretendem explorar durante a campanha presidencial.

Também estão na lista a PEC dos Precatórios, que adiou o pagamento dessas dívidas para abrir espaço no Orçamento para a realização de outros gastos, e o crescimento exponencial do orçamento secreto. Isso sem falar na PEC da Transição, que era de interesse da administração recém-eleita em 2022 para viabilizar a execução de políticas públicas, mas sem a qual a gestão Bolsonaro não fecharia as contas.

Para tentar neutralizar esse discurso, aliados do pré-candidato do PL já têm uma estratégia. Eles argumentam, por exemplo, que o governo Bolsonaro enfrentou uma sequência de problemas que geraram desarranjos na economia e demandaram uma ação do Estado para dar alívio à sociedade: primeiro a tragédia de Brumadinho, depois uma crise hídrica, outra energética, que gerou uma grande elevação dos preços do petróleo, e a pandemia. Em paralelo, serão questionadas as motivações do governo Lula para antecipar o pagamento de precatórios, se estas vão além de apenas irrigar a economia e fomentar o consumo.

Nos encontros que manteve com representantes de instituições financeiras, Flávio Bolsonaro mostrou-se um defensor do receituário liberal e de uma agenda pró-mercado. Não se deve esperar que ele defenda o fim do Bolsa Família, apontam aliados. Seu pai inclusive aumentou o benefício. No entanto, sua proposta irá na direção de criar um mecanismo que pague uma espécie de prêmio para quem deixar o programa. Prometerá reduzir a quantidade de ministérios, subsídios e o número de empresas estatais.

Duas campanhas eleitorais recentes estão sendo estudadas por seus aliados. Uma é a de Pablo Marçal à Prefeitura de São Paulo, cuja estratégia digital impulsionou a candidatura do influenciador, e depois acabou causando problemas para o “outsider” na Justiça Eleitoral. Sua usina de cortes gerou denúncias de uso indevido de meios de comunicação por causa dos “concursos” em que colaboradores eram estimulados a produzir e disseminar vídeos nas redes sociais em troca de remuneração e brindes. Marçal acabou condenado e está inelegível.

A outra é de Javier Milei, presidente da Argentina, que passou a ter a motosserra como marca registrada. Flávio Bolsonaro já começa a falar em um “tesouraço”, ou seja, pode-se esperar o uso de símbolo semelhante na defesa da redução da burocracia, do gasto público e do desperdício.

Quem pergunta ao senador qual nome ele gostaria de ver à frente da Economia em caso de vitória escuta que seria alguém com o perfil de Roberto Campos Neto, ex-presidente do Banco Central, ou do ex-secretário do Tesouro Nacional Mansueto Almeida. No entorno do pré-candidato, pondera-se que Campos Neto teria mais proximidade com o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, e que herança da parceria não é algo garantido. Em relação a Mansueto, acrescentam outras fontes, a admiração existe, mas os dois não têm contato direto há tempos.

Ao retornar nesta semana do exterior, onde em visitas ao Oriente Médio e à França trabalhou o fortalecimento de vínculos com a ala mais ideológica do bolsonarismo, Flávio Bolsonaro retoma os contatos com integrantes do mercado financeiro e do empresariado. Em relação ao setor produtivo, aliás, a intenção de seus correligionários é que opte por realizar conversas setoriais, e não individualmente com empresas.

Ao reforçar esse discurso econômico, Flávio Bolsonaro precisará se equilibrar entre a necessária associação com seu pai para garantir um piso de pelo menos 20% dos votos em outubro, e a missão de marcar diferenças com algumas passagens do governo anterior. O senador tem o desafio de reduzir o índice de rejeição ao seu nome, o que seus correligionários consideram que está ocorrendo, mas também neutralizar resistências à sua candidatura em algumas alas do mercado.

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