domingo, 4 de abril de 2010

Os quatro rounds da eleição presidencial:: Fernando Abrucio

DEU NA REVISTA ÉPOCA

A desincompatibilização do governador José Serra e da ministra Dilma Rousseff finaliza o primeiro dos quatro rounds da eleição presidencial de 2010. Estas etapas seriam as seguintes: definição do nome dos presidenciáveis, em particular os vinculados ao PT e ao PSDB; construção da chapa completa e, com maior importância, a montagem dos palanques estaduais; a campanha do primeiro turno, iniciada com o horário eleitoral gratuito; e, por fim, um bem provável segundo turno, embora seja esse o único round que pode vir a não ocorrer.

Os resultados do primeiro round revelam que o jogo polarizado entre o governo e a oposição marcará novamente a disputa pelo Palácio do Planalto. Haverá outras candidaturas, mas nenhuma delas tem chance de ganhar o pleito. Elas poderão favorecer a realização do segundo turno e afetar o discurso dos dois principais concorrentes, tarefa que caberá principalmente à senadora Marina Silva. Pode parecer pouco, mas estas duas coisas – o aumento do tempo de disputa e a influência sobre a campanha dos favoritos – dão maior qualidade ao jogo democrático.

A definição das candidaturas dos presidenciáveis do governo e da oposição foi selada, na verdade, antes desta semana. A escolha de Dilma fora antecipada pelo presidente Lula havia pelo menos dois anos. Desde a saída de Aécio da disputa, ficou claro que o candidato oposicionista só poderia ser Serra. Ambos partem de um bom patamar em termos de intenção de votos, mas o retrato feito pelas pesquisas atuais poderá ser modificado pelos outros rounds da disputa.

A próxima etapa envolve a definição da chapa completa e, sobretudo, dos palanques estaduais. Em relação ao primeiro ponto, sabe-se que vice dificilmente agrega votos, mas um nome mal escolhido pode atrapalhar a candidatura do presidenciável. Para Dilma, esse passo está mais tranquilo, pois um nome como o de Michel Temer não traria problemas eleitorais. Aparentemente, não é o vice dos sonhos do lulismo. Contudo, não é também uma grande dor de cabeça. Serra, por sua vez, tem uma situação mais complicada. Está difícil encontrar um nome do DEM que não gere arranhões. Afinal, o governador paulista quer ficar longe dos escândalos e de figuras muito à direita. A escolha da chapa completa, no fundo, tem como efeito mais relevante a distribuição do tempo de rádio e TV dos presidenciáveis. Desse modo, Dilma não pode perder o PMDB e Serra terá de arranjar uma forma de contar com o DEM.

O primeiro round terminou e mostrou uma eleição polarizada entre Dilma e Serra

O ponto mais difícil para os dois candidatos reside na montagem das alianças estaduais. Ainda é cedo para dizer quem está efetivamente melhor nesse quesito. Mais fácil é apontar as dificuldades de ambos. Serra tem poucos palanques competitivos no Nordeste e Dilma tem na indefinição em Minas Gerais seu maior calcanhar de aquiles.

O terceiro round é o primeiro turno da eleição e será guiado por duas questões fundamentais. A primeira é o desempenho público dos candidatos, seja no rádio e na TV, seja na campanha nas ruas. Aqui Serra leva vantagem por sua maior experiência eleitoral, mas Dilma tem a seu favor o apoio do presidente Lula. A segunda coisa é a relação entre o bem-estar da população no momento prévio ao voto e o discurso dos candidatos. Se a situação de bonança econômica e social no segundo semestre for a que os analistas esperam, a concorrente petista será muito forte. Cabe à oposição a tarefa de mostrar que Dilma não seria apta a manter e aperfeiçoar o statu quo atual e dizer que um “continuísmo melhorado” viria com Serra. Trata-se de uma estratégia que dependerá de muitos erros da adversária.

O segundo turno tende a ser provável não só pela polarização competitiva, mas porque a candidata Marina tem espaço para ter mais votos que Heloísa Helena em 2006, agregando votos de descontentes com o petismo e com o tucanato. Esse último round só não ocorrerá se houver nocaute. E uma vitória assim só seria possível se Dilma for um enorme desastre eleitoral ou se o presidente transferir toda a sua popularidade para ela. Acontecendo esta última hipótese, Lula se tornaria o maior líder popular de nossa história.

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