CartaCapital
O governador Ibaneis Rocha é figura central na investigação sobre o Banco Master
Daniel Vorcaro, dono do finado Banco Master, esteve com o presidente Lula no Palácio do Planalto no fim de 2024, levado por Guido Mantega, ministro da Fazenda no segundo mandato do petista e, à época da reunião, consultor da instituição financeira. Buscava apresentar ao governo federal sua versão sobre o que considerava uma perseguição de rivais poderosos no sistema financeiro. Em vão. Sob a batuta de Gabriel Galípolo, indicado por Lula, o Banco Central fechou o Master em novembro passado. Ricardo Lewandowski também havia se tornado consultor de Vorcaro depois de deixar o Supremo Tribunal Federal em 2023. O presidente sabia do contrato ao nomeá-lo ministro da Justiça. Se o banqueiro esperava ter no ex-juiz um defensor no governo, equivocou-se. Com Lewandowski na Justiça, o mineiro foi preso pela Polícia Federal em novembro, durante a Operação Compliance Zero, que investiga o banco. Tanto Mantega quanto Lewandowski tornaram-se consultores do Master por sugestão do líder de Lula no Senado, Jaques Wagner, do PT da Bahia, amigo de um conterrâneo e ex-sócio de Vorcaro, Augusto Lima.
Essas informações têm recheado o noticiário.
Para quem acompanha o escândalo, parece até que o governo Lula é o “vilão” do
enredo, tamanho o destaque dado ao lobby, malsucedido, tudo indica, de Vorcaro.
Seria uma forma de desviar o foco dos verdadeiros “amigos” do banqueiro
encastelados no Centrão e no bolsonarismo? O antecessor de Galípolo no BC,
Roberto Campos Neto, foi levado ao cargo por Jair Bolsonaro. Durante seu
mandato, a autoridade monetária autorizou o Master a funcionar, em 2019, como
parte de um plano de incentivar o surgimento de instituições menores que
enfrentassem os tubarões. Ao longo da gestão de Campos Neto no BC, o Master
começou a ter problemas de caixa e a levantar desconfianças na Faria Lima
quanto à sua solidez. O banqueiro central, protegido pela mídia e pelos pares
do setor financeiro, não tomou providências, exceto por um mal explicado
ultimato de dezembro de 2024, dias antes de passar o leme a Galípolo. Preferiu
apostar na “mão invisível do mercado”. A omissão, ou a demora, do BC à época
levou o Ministério Público a requerer ao Tribunal de Contas da União que
investigasse o caso e para uma tentativa de convocação de Campos Neto à CPI do
INSS.
Por conta da relação com Vorcaro, o
emedebista virou alvo de dois pedidos de impeachment no Distrito Federal
Cláudio Castro, governador do Rio de Janeiro
pelo PL de Bolsonaro, é outra figura em cena. O fundo de pensão dos servidores
e aposentados fluminenses, o Rioprevidência, investiu 1 bilhão de reais no
Master quando a sobrevivência do banco era incerta. Não à toa, a PF saiu às
ruas há alguns dias para vasculhar o fundo de pensão. O comprometimento dos proventos
dos servidores é uma pedra no caminho das pretensões eleitorais de Castro.
Ninguém, no entanto, simboliza melhor a mão
amiga – e visível – da oposição a Vorcaro do que o emedebista Ibaneis Rocha,
governador do Distrito Federal. O BRB, banco público de Brasília, levou um
prejuízo de quase 5 bilhões de reais na compra de carteiras de crédito
questionáveis do Master nos últimos dois anos. E ainda quis adquirir 58% do
capital total da instituição privada, por 2 bilhões de reais, no momento em que
ninguém no setor financeiro punha fé no conglomerado. Em março de 2025, havia
uma oferta simbólica de 1 real pelo Master, da lavra do BTG de André Esteves,
cujas divergências com Vorcaro são notórias.
A situação do governador piorou após a
divulgação do depoimento do banqueiro mineiro à PF. Vorcaro tinha sido ouvido
em 30 de dezembro, no inquérito em curso no Supremo que apura os negócios entre
o Master e o BRB. No dia do interrogatório, a delegada Janaína Palazzo ouviu
ainda Paulo Henrique Costa, presidente do BRB afastado do cargo pela Justiça em
novembro, e Ailton de Aquino Santos, diretor de Fiscalização do BC. No
depoimento, Santos estimou em quase 5 bilhões o buraco no BRB decorrente das
transações com o Master. A delegada perguntou a Vorcaro se ele havia falado com
Rocha a respeito da venda de parte do banco ao BRB. Resposta: “Conversei em
algumas poucas oportunidades, sim”. Diálogos que teriam ocorrido nas casas de
ambos, segundo o depoente.
O governador admitiu ter encontrado o
banqueiro ao menos uma vez, em um almoço na residência de Vorcaro, em Brasília.
Teria, porém, “entrado mudo e saído calado”. Seus adversários não acreditam na
versão e montaram uma ofensiva para tirá-lo do cargo. Há dois pedidos de
impeachment, ambos por crime de responsabilidade, propostos por PSOL, PSB e
Cidadania. E dois para que o procurador-geral da República, Paulo Gonet, abra
um inquérito. Um de autoria do PSOL, ancorado na Lei do Colarinho Branco, e
outro coletivo de PT, PDT, PCdoB, PV e Rede, baseado em crime comum e de
improbidade. “Presidentes falam com banqueiros, como o Lula falou com o
Vorcaro. O diferente no caso do Ibaneis é que a conversa teve desdobramento. O
governador atuou como lobista do Master. Isso não é só questionável, é crime”,
diz Fábio Félix, deputado psolista na Assembleia Legislativa de Brasília.
O “desdobramento” provocou “prejuízos bilionários” ao Distrito Federal e ao
BRB, como ressaltam o pedido de impeachment de PSB e Cidadania e a
representação de PT, PDT, PV, PCdoB e Rede. É o resultado de um arranjo que juntou
a fome com a vontade de comer, além de farta camaradagem. Governador desde
2019, o bolsonarista resolveu turbinar o BRB, dar-lhe musculatura para voos
nacionais. A instituição patrocinou a Fórmula 1 e o Flamengo. Sem dar a mesma
publicidade, foi generosa com alguns ricaços, incluído o próprio Rocha, que
declarou patrimônio de 79 milhões de reais na última eleição. O emedebista
comprou no ano passado uma fazenda obtida pelo banco na esteira da execução da
dívida de um cliente. Pagou 60% do valor da propriedade, em um leilão. Em 2024,
tinha adquirido uma suíte de 2 milhões de reais em São Paulo com dinheiro
emprestado pelo BRB com juro de pai para filho.
O senador Flávio Bolsonaro, do PL do Rio,
tirou proveito do juro de camarada, ao comprar uma casa de 6 milhões de reais
em Brasília. Rocha fez de tudo para que a atual morada do pai de Flávio não
fosse o presídio da Papuda. Seus subordinados quiseram convencer o Supremo de
que na capital do País não havia estabelecimento prisional apropriado para o “frágil”
Jair Bolsonaro cumprir a pena de 27 anos por tentativa de golpe. O governador,
aliás, escapou por, digamos, um golpe de sorte de engrossar o banco dos réus
após o quebra-quebra de 8 de janeiro de 2023 na cidade. Chegou a ser afastado
do cargo por quase dois meses pelo STF. Seu secretário de Segurança Pública da
época, Anderson Torres, foi condenado juntamente com Bolsonaro. A então cúpula
da PM de Brasília também, em um julgamento a ser concluído em fevereiro.
O governador vislumbrava, na associação com o
Master, a expansão nacional do BRB
De volta ao imbróglio atual. Ao mesmo tempo
que Rocha sonhava com um BRB nacional, o Master aventurava-se por trilhas que o
levariam à beira do precipício. Na fase expansionista após o aval do BC de
Campos Neto, a instituição havia vendido títulos com a promessa de pagar
remuneração acima da média do mercado. O dinheiro captado foi aplicado em
negócios de retorno baixo ou incerto, em empresas em dificuldades. Quando
chegou a hora de resgatar os papéis e pagar os investidores, não havia recursos
suficientes. A enrascada ficou clara em 2024, conforme um relatório do BC que
aponta a combinação de crise de liquidez e reputação. O Master recorreu à venda
da carteira de crédito. Receberia de imediato dinheiro que entraria no cofre
mais adiante. O BRB foi magnânimo. Topou adquirir os títulos.
De novembro de 2024 em diante, o banco de
Vorcaro passou a vender ao BRB carteiras que não eram suas originalmente, mas
de uma empresa criada por aqueles dias, a Tirreno. Uma firma de fachada para
dar aparência de normalidade às transações. Dizia ter carteira de crédito
consignado e vendeu-a ao Master, que por sua vez a repassou ao BRB. Detalhe: um
ex-funcionário do banco mineiro assumiu o controle da Tirreno sete meses depois
do nascimento da empresa. O BC examinou 30 contratos de empréstimo consignado
da companhia e não comprovou sua veracidade. Na análise seguinte, de cem
contratos, naquela altura contabilizados no BRB, identificou duplicidade. Era
como se o Master tivesse negociado com a instituição pública a mesma mercadoria
duas vezes. Tudo somado, o BRB injetou 12 bilhões de reais em troca de uma
ficção.
Por ocasião da tentativa de aquisição de
metade do Master pelo banco público, o governador jactou-se em uma entrevista.
“Vamos falar a realidade”, comemorou. “Tiramos o BRB da Polícia Federal, como
estava no governo anterior, e levamos para a Faria Lima (…) Pensaram que eu
estava vendendo o BRB e estamos comprando o Banco Master.” Era o contrário. A
aquisição, anunciada no mês anterior, tinha, diz o BC, a intenção de acobertar
trambiques. Quando a autoridade monetária proibiu a operação, Rocha ficou
inconformado: “Mais uma vez, PT e PSB agiram contra o DF”. Era uma referência
aos partidos de Lula e Geraldo Alckmin, vice-presidente. “Tudo indica que o
BRB estava internalizando as fraudes do Master”, acusa Ricardo Cappelli,
ex-interventor na Segurança Pública do DF e pré-candidato pelo PSB ao governo
distrital. “O Paulo Henrique Costa (ex-presidente do BRB) não faria isso
sozinho, sem o aval do governador.” No depoimento à PF, em dezembro, Costa
admitiu ter falado com Rocha a respeito da aquisição.
O ex-presidente do BRB é próximo do senador
Ciro Nogueira, presidente do PP e conterrâneo piauiense de Rocha. Quando o
emedebista resolveu concorrer ao governo distrital em 2018, Nogueira foi o
primeiro a ser consultado. A vice-governadora, Celina Leão, é do PP e deseja
concorrer à sucessão em outubro. Na eleição passada, o PP tinha apoiado Flávia
Arruda, hoje Flávia Peres, para o Senado. Peres (ex-Arruda) é do PL de
Bolsonaro e foi colega de Nogueira no governo do capitão, ambos os ministros no
Palácio do Planalto. Derrotada em 2022, a candidata foi trabalhar no Master como
diretora de Relações Institucionais, cuja função era fazer contatos políticos.
Casou-se posteriormente com Augusto Lima, o baiano amigo de Wagner e sócio do
Master até 2024. Nogueira, recorde-se, tentou dar uma forcinha ao banco de
Vorcaro ao propor no Congresso uma mudança na Constituição para ampliar a
cobertura do Fundo Garantidor de Crédito, que ressarce até certo limite o
dinheiro de aplicadores em instituições com problemas de liquidez.
O atual presidente do BRB, Nelson Antônio de
Souza, é paulista, mas fez carreira no setor bancário no Piauí. É ligado a
Nogueira. Tem quebrado a cabeça em busca de uma solução que cubra o rombo da
instituição sem afetar os cofres do Distrito Federal. Caso verba pública seja
injetada no banco, Rocha ficará em situação mais delicada. Haverá uma cifra
para resumir o prejuízo causado por sua gestão ao Erário. Souza convidou para
almoços em fevereiro, em São Paulo, influenciadores digitais. Tradução:
garotos-propaganda remunerados. O executivo pretende apresentar-lhes suas
ideias e topa financiá-los para que falem bem do BRB na web. Quando caiu em desgraça,
no fim do ano passado, o Master arquitetou uma operação inversa, para influencers
falarem mal do BC. Os intermediários da engrenagem abordaram influenciadores
com o seguinte argumento: “Caso de repercussão nacional. Gente grande. Esquerda
e Centrão envolvidos”. Autorizada por Dias Toffoli, do Supremo, a PF abriu um
inquérito para investigar a formação da milícia digital.
Segundo Cappelli, aproxima-se o ‘dia D’ para
o BRB. Seria 15 de fevereiro, data da publicação obrigatória do balanço anual.
Nesse momento se tornará público o tamanho do rombo apurado pelo próprio banco
e o que será feito para tapá-lo. As demonstrações contábeis do terceiro
trimestre de 2025 não saíram até hoje. Questionado por CartaCapital sobre o
motivo da não publicação e se há relação com o caso Master, o BRB não
respondeu. Está em curso, afirma a instituição, uma auditoria independente
sobre a situação interna, levada adiante pelo escritório de advocacia Machado
Meyer, especializado em compliance e investigações, com suporte da Kroll, uma
multinacional da área de riscos de mau histórico no Brasil. O trabalho deve ser
concluído nas próximas semanas.
O governador também não respondeu às
perguntas da revista. Rocha conta com ampla maioria na Assembleia Legislativa e
dificilmente prosperarão os pedidos de impeachment ou a abertura de uma CPI. O
início do processo de cassação depende em primeiro lugar do presidente da casa,
o deputado distrital Wellington Luiz, comandante do MDB em Brasília. A esperança
da oposição reside no eventual aparecimento de fatos novos e no acirramento do
jogo eleitoral deste ano. Vorcaro deve depor em 5 de fevereiro na CPI do INSS.
Incriminará Rocha? O escândalo vai influenciar o voto do eleitor brasiliense?
Em caso afirmativo, aumentam os riscos para o governador, inclinado a disputar
uma vaga no Senado, o que o obrigaria a deixar o comando do DF em abril. O
plano continua de pé? Largar o governo lhe custaria o foro privilegiado e o
poder de influência do cargo.
Há a possibilidade de a eleição rachar o
bolsonarismo em Brasília e complicar as pretensões de Rocha. O emedebista
imaginou candidatar-se ao Senado em dobradinha com Michelle Bolsonaro (estão em
disputa duas vagas por estado). A deputada federal bolsonarista Bia Kicis, do
PL, também cobiça uma indicação e pode movimentar-se politicamente para
inviabilizar o governador e ser a parceira de Michelle nas urnas. A temporada
de punhaladas está aberta.
Bode na sala
Até quando o ministro Dias Toffoli tocará o
inquérito?
O bode na sala no escândalo do Banco Master
sairá do aposento? Sobram motivos para crer que o ministro José Dias Toffoli,
do Supremo Tribunal Federal, não sobreviverá no papel de juiz supervisor da
investigação policial sobre a fraude bancária. A dúvida é se deixará o recinto
por vontade própria ou na marra.
Toffoli foi jogado às feras pelo presidente
da Corte, Edson Fachin, e pelo Palácio do Planalto. Enrolado em despachos
extravagantes sobre o caso e em um resort a respeito do qual faz cara de
paisagem, é defendido por poucos. Basicamente, dois colegas: Gilmar Mendes, que
age nos bastidores e em público, e Alexandre de Moraes, que prefere o primeiro
método.
O Supremo reabre em 1º de fevereiro, mas
Fachin antecipou o fim das férias para sondar os integrantes do tribunal sobre
a situação de Toffoli. Após as consultas, deu várias entrevistas e, em uma
delas, afirmou: “Há uma suscitação de que não há razão desse processo estar no
STF”.
As investigações estão lá graças a Toffoli.
Em dezembro, o juiz concentrou na Corte apurações em curso em varas de Brasília
e São Paulo. Era um pedido da defesa de um ex-diretor do Master. O advogado
havia viajado de avião com Toffoli ao Peru dias antes. Baseou a solicitação em
um contrato imobiliário achado pela Polícia Federal na casa do dono do Master,
Daniel Vorcaro. O acordo era com um deputado do PL da Bahia, João Carlos
Bacelar, razão do foro privilegiado.
Há um roteiro capaz de servir de saída
honrosa a Toffoli. O magistrado pode concluir que Bacelar nada tem a ver com o
caso. O passo seguinte seria devolver os processos às instâncias inferiores. O
próprio ministro abriu um precedente em relação ao empresário Nelson Tanure,
apontado como sócio oculto do Master.
O script geral depende do fim das
investigações da PF, em março, e da posição do procurador-geral da República,
Paulo Gonet. Se ninguém incriminar Bacelar, Toffoli manda os processos de volta
à primeira instância.
Existe um cenário alternativo, pior para o
ministro. Toffoli seria derrotado no voto por colegas, na hipótese de alguma
autoridade (Gonet, por exemplo) cobrar do STF que o caso desça à primeira
instância por ausência de foro privilegiado envolvido. O requerimento iria a
julgamento na turma da qual Toffoli faz parte. Dos demais quatro integrantes,
ele conta apenas com o apoio de Mendes, tutor do colega a partir do governo
Dilma Rousseff. Parece sentir-se alvejado pela cruzada de Fachin por um código
de conduta no STF, assunto de uma reunião marcada para
12 de fevereiro no tribunal. Mendes está por trás do IDP, faculdade patrocinadora
de evento com figurões em Portugal.
E Moraes? É colega de faculdade de Toffoli,
formaram-se juntos em 1990. Além disso, sua esposa é uma advogada que esteve a serviço do Master. E Lula?
Responsável por indicar o ex-advogado-geral da União para uma vaga no tribunal
em 2009, tem criticado o juiz a portas fechadas, conforme uma operação montada no Planalto para afastar o presidente da investigação. O petista quer
punição, doa a quem doer.
Publicado na edição n° 1398 de CartaCapital, em 04 de fevereiro de 2026.

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