sábado, 5 de junho de 2021

Carlos Góes - Vacina como investimento

- O Globo

Política de combate à pandemia é política econômica. O governo brasileiro falhou em uma e, consequentemente, na outra

No mês passado, a economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI), Gita Gopinath, assinou uma estratégia para financiar e distribuir vacinas para os países mais pobres. O porquê da participação de uma instituição financeira numa estratégia de saúde pública pode ser resumida numa das frases do documento: “não há fim para a crise econômica sem o fim da crise sanitária; portanto, política de combate à pandemia é política econômica.”

Apesar da vacinação ter avançado a passos largos nos países ricos, ela tem sido muito lenta nos países de renda baixa. Enquanto os Estados Unidos têm, hoje, mais de 60% da sua população tendo tomado pelo menos uma dose da vacina, na maior parte da África esse percentual sequer chega a 2%.

A proposta do FMI é tomar a vacinação global como um bem público global. Mesmo que países ricos vacinem seus cidadãos, quanto mais tardar a vacinação nos países em desenvolvimento, maior será a probabilidade do surgimento de novas cepas. Algumas das novas cepas têm se mostrado resistentes às vacinas existentes.

Por isso, uma aceleração da vacinação global beneficiaria não somente aqueles que moram em países pobres, mas também aqueles que, já vacinados, teriam menor risco de exposição a novas variantes. Todos se beneficiariam do controle de novas cepas, sendo impossível excluir pessoas desse benefício global. É isso que economistas chamam de “bem público”.

Dado esse bem público global, o FMI busca racionalizar uma estratégia para fazer com que os países ricos subsidiem a vacinação nos países em desenvolvimento.

Parte das medidas tem custo baixo e deve ocorrer naturalmente. As restrições à exportação de vacinas e seus insumos, imposta por países como os Estados Unidos, devem ser removidas à medida em que a vacinação avançar. Além disso, os países ricos compraram quase 1 bilhão de doses além do necessário para vacinar suas populações. Essas doses em excesso devem ser doadas ou vendidas a preço de custo para outros países, como os Estados Unidos já começou a fazer na América Latina.

Para viabilizar a vacinação de 40% do planeta até o fim de 2021 e 60% até a metade de 2022, o FMI estima um custo adicional de US$ 50 bilhões e sugere que os países ricos arquem com tais custos. Parece muito, mas dois números ajudam a colocar o valor em contexto.

Este era, aproximadamente, o custo anual dos EUA com a intervenção no Afeganistão, de modo que não parece ser um gasto irrealista num bem público global. Além disso, o FMI estima que o benefício dessas medidas em mortes evitadas e retorno da economia ao normal seria de US$ 9 trilhões.

Se este número estiver correto, acelerar a vacinação dos países pobres parece ser o melhor investimento da História: um gasto de US$50 bilhões para um retorno de US$9 trilhões.

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Como o investimento na vacina foi encarado no Brasil? Infelizmente, o governo Bolsonaro tomou diversas medidas que atrasaram o início da vacinação no país.

Carlos Murillo, ex-presidente da Pfizer brasileira, declarou durante a CPI da Covid que o governo rejeitou seis ofertas da farmacêutica. O país poderia ter tido 20 milhões de doses a mais até a primeira metade de 2021.

Além disso, conforme Guilherme Amado escreveu na Revista Época, o ex-chanceler Ernesto Araújo inicialmente não queria participar do consórcio global de vacinas Covax Facility; só o fez após intervenção da embaixadora Nazareth Azevêdo, representante do Brasil em Genebra. Ainda assim, o governo federal subutilizou a Covax: só adquiriu 42 milhões das 210 milhões de doses ofertadas ao país.

Com o atraso ou rechaço dessas alternativas, quase todas as vacinas aplicadas durante o primeiro trimestre de 2021 foram doses da Coronavac, com produção do Instituto Butantã. O presidente chegou a afirmar que não compraria “a vacina chinesa de João Dória”. Para a sorte dos brasileiros, houve uma mudança de direção e opção pela compra da vacina do Butantã.

Se a vacina é um investimento com grande retorno esperado, seu atraso significa perdas econômicas importantes. Além da perda humanitária de mortes evitáveis, é impossível dissociar os 8 milhões de brasileiros que permanecem fora da força de trabalho em relação ao período anterior à pandemia dos atrasos da política de vacinação.

Política de combate à pandemia é política econômica. O governo brasileiro falhou em uma e, consequentemente, na outra.

 

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