Folha de S. Paulo
Depois de anos de miséria, Ibovespa
ressuscita com dinheiro e impulso do exterior
Valorização do real, ainda barato, pode
ajudar a reduzir expectativas de inflação
Parte do pessoal que tem dinheiro em ações
está animado com as novas alturas
do Ibovespa. Parte, pois nem todo mundo está com as ações certas e,
muito menos, com uma carteira de ações de desempenho similar ao da média do
índice principal da Bolsa brasileira, claro. Que o digam acionistas da
Petrobras. A companhia vai até bem, mas o preço do petróleo vai mal.
Mas passemos. O assunto aqui é a euforia do início de 2026, que também se vê no mercado de câmbio e, em quase nada, por ora, no mercado de juros. Se durar um tempo, pode ter consequências importantes.
O Ibovespa passou anos na miséria, desde o
início da epidemia, flutuando em torno de 120 mil pontos, por aí. Decolou enfim
em 2025 e, neste início de ano novo, pegou outro elevador. O dinheiro de não
residentes engorda o preço de ações ainda relativamente baratas.
Mas o movimento é parecido com o da tendência
de alta que se vê nos demais mercados ditos "emergentes" desde meados
de dezembro. Parece se tratar da chamada "rotação", em boa parte
dinheiro saindo de ativos nos Estados
Unidos e pingando por aqui.
Quanto à taxa de câmbio, no caso o preço
do dólar,
o real tem se valorizado algo mais do que a média das moedas emergentes desde o
início do ano. Mesmo desconsiderando os motivos brasílicos da desvalorização do
real no final do ano passado, o real tem um desempenho particular.
Como se recorda, no final de 2025 houve
saídas relevantes de dinheiro, impulsionadas por distribuição antecipada de
dividendos (para escapar de impostos) e houve o "luto" da finança
pelo enterro provisório da candidatura de Tarcísio de
Freitas, o governador de São Paulo,
tido como futuro grande líder das reformas liberais (e do fim do aumento de
impostos) por boa parte das elites econômicas.
Quanto aos motivos maiores e a duração da
euforiazinha de 2026, será preciso esperar um tempo para entender o que se
passa: os motivos da imigração de dinheiro, quem está trazendo o tutu e para
quê. No entanto, houve alívio no câmbio, essa valorização do real depois dos
ruídos incômodos de dezembro.
Em tese, o dólar tende a ficar mais fraco
diante de quase todas as moedas relevantes pelos próximos meses. Isto é, tende
a ser assim se Donald Trump provocar
apenas descrédito nos EUA e não algum novo tipo de guerra, talvez comercial,
embora uma guerra quente não esteja fora do radar neste mundo trumpiano.
O alívio no câmbio pode tirar uma pedra do
sapato do Banco Central,
embora não se faça política monetária se fiando em andanças da taxa de câmbio
no curtíssimo prazo (meses). Ainda assim, a continuar a tendência, pode ser uma
sorte a se aproveitar, ao longo do ano.
Recorde-se que "o mercado" estima
uma queda de quase três pontos da Selic,
até o final do ano (de 15% para perto de 12%). Para que assim seja, o BC teria
de correr com os cortes, a começar em março, a uma velocidade de meio ponto
percentual e algo mais, pois perto da eleição pode haver algum tumulto
(financeiro) que requeira prudência.
A valorização contínua do real pode dar uma
mãozinha na inflação corrente e, talvez, até em expectativas, inertes faz tempo
no horizonte relevante (2027), provavelmente por causa do problema fiscal.
Enfim: mesmo com a valorização recente, a
moeda brasileira continua "barata", em nível similar ao de maio de
2024. Na verdade, o real ainda não se recuperou do tombão que levou no início
da epidemia de Covid-19, de fevereiro para março de 2020.
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