sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Euforiazinha na Bolsa e no dólar pode tirar uma pedrinha do sapato do Banco Central. Por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Depois de anos de miséria, Ibovespa ressuscita com dinheiro e impulso do exterior

Valorização do real, ainda barato, pode ajudar a reduzir expectativas de inflação

Parte do pessoal que tem dinheiro em ações está animado com as novas alturas do Ibovespa. Parte, pois nem todo mundo está com as ações certas e, muito menos, com uma carteira de ações de desempenho similar ao da média do índice principal da Bolsa brasileira, claro. Que o digam acionistas da Petrobras. A companhia vai até bem, mas o preço do petróleo vai mal.

Mas passemos. O assunto aqui é a euforia do início de 2026, que também se vê no mercado de câmbio e, em quase nada, por ora, no mercado de juros. Se durar um tempo, pode ter consequências importantes.

O Ibovespa passou anos na miséria, desde o início da epidemia, flutuando em torno de 120 mil pontos, por aí. Decolou enfim em 2025 e, neste início de ano novo, pegou outro elevador. O dinheiro de não residentes engorda o preço de ações ainda relativamente baratas.

Mas o movimento é parecido com o da tendência de alta que se vê nos demais mercados ditos "emergentes" desde meados de dezembro. Parece se tratar da chamada "rotação", em boa parte dinheiro saindo de ativos nos Estados Unidos e pingando por aqui.

Quanto à taxa de câmbio, no caso o preço do dólar, o real tem se valorizado algo mais do que a média das moedas emergentes desde o início do ano. Mesmo desconsiderando os motivos brasílicos da desvalorização do real no final do ano passado, o real tem um desempenho particular.

Como se recorda, no final de 2025 houve saídas relevantes de dinheiro, impulsionadas por distribuição antecipada de dividendos (para escapar de impostos) e houve o "luto" da finança pelo enterro provisório da candidatura de Tarcísio de Freitas, o governador de São Paulo, tido como futuro grande líder das reformas liberais (e do fim do aumento de impostos) por boa parte das elites econômicas.

Quanto aos motivos maiores e a duração da euforiazinha de 2026, será preciso esperar um tempo para entender o que se passa: os motivos da imigração de dinheiro, quem está trazendo o tutu e para quê. No entanto, houve alívio no câmbio, essa valorização do real depois dos ruídos incômodos de dezembro.

Em tese, o dólar tende a ficar mais fraco diante de quase todas as moedas relevantes pelos próximos meses. Isto é, tende a ser assim se Donald Trump provocar apenas descrédito nos EUA e não algum novo tipo de guerra, talvez comercial, embora uma guerra quente não esteja fora do radar neste mundo trumpiano.

O alívio no câmbio pode tirar uma pedra do sapato do Banco Central, embora não se faça política monetária se fiando em andanças da taxa de câmbio no curtíssimo prazo (meses). Ainda assim, a continuar a tendência, pode ser uma sorte a se aproveitar, ao longo do ano.

Recorde-se que "o mercado" estima uma queda de quase três pontos da Selic, até o final do ano (de 15% para perto de 12%). Para que assim seja, o BC teria de correr com os cortes, a começar em março, a uma velocidade de meio ponto percentual e algo mais, pois perto da eleição pode haver algum tumulto (financeiro) que requeira prudência.

A valorização contínua do real pode dar uma mãozinha na inflação corrente e, talvez, até em expectativas, inertes faz tempo no horizonte relevante (2027), provavelmente por causa do problema fiscal.

Enfim: mesmo com a valorização recente, a moeda brasileira continua "barata", em nível similar ao de maio de 2024. Na verdade, o real ainda não se recuperou do tombão que levou no início da epidemia de Covid-19, de fevereiro para março de 2020.

 

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