Por Daniela Chiaretti e Roberto Lameirinha / Valor Econômico
América Latina é ‘irrelevante’ no contexto global, diz ex-ministro Rubens Ricupero
“Donald Trump é a maior ameaça que a democracia
americana enfrenta desde a Guerra Civil Americana, em 1865. Representa em
ideias tudo que é anti-iluminismo, antiprogresso, anticiência, anti-problema
climático. Ele é um retrocesso de valores.”
As frases acima são de Rubens Ricupero,
ex-ministro da Fazenda e do Meio Ambiente, que dirigiu por dez anos o braço das
Nações Unidas sobre comércio e desenvolvimento, a Unctad, e é um dos maiores
diplomatas brasileiros. “Não sei se as pessoas se dão conta de que estamos
vivendo uma época de destruição do mundo em que vivemos”, teme. “A situação é
muito grave e perigosa.”
Prestes a completar 89 anos - 68 deles atuando em relações internacionais -, Ricupero diz que o mundo que conheceu está acabando. Nesta entrevista ao Valor explica por que considera que está se voltando a um mundo pré-guerras. Diz que a América Latina é irrelevante, a Europa, enfraquecida e desunida, também, e que é a China quem hoje dá estabilidade ao cenário global. As eleições do Congresso americano em novembro serão importantes para sinalizar como serão os três últimos anos do governo Trump.
A seguir, trechos da entrevista:
Valor: Como vê o momento atual no mundo, um ano depois
do primeiro dia do governo Trump?
Rubens Ricupero: Não sei se as
pessoas se dão conta de que estamos vivendo uma época de destruição do mundo em
que vivemos há 80 anos. O atual governo americano representa a negação do mundo
que foi criado pelos Estados Unidos de Franklin Roosevelt - com os valores do
New Deal, de direitos humanos, combate ao desemprego, do estado de bem-estar
social. Estamos assistindo a um retrocesso sistemático de todas as ideias que
marcaram o avanço da consciência moral da humanidade em 80 anos. Eram ideias
que tomávamos como irreversíveis. Achávamos que dali ia se avançar, agora
estamos indo para trás.
Valor: O senhor já viveu algum momento assim?
Ricupero: Nunca vi uma
coisa igual em toda a minha vida. Vou completar 89 anos. Nasci em 1937, antes
da Segunda Guerra Mundial. Desde que comecei a atuar nas relações
internacionais, nunca vi algo assim. Entrei no Instituto Rio Branco em 1958, um
dos meus examinadores foi Guimarães Rosa. O mundo que conheci está acabando. Só
não terminou inteiramente porque Trump não saiu do Conselho de Segurança,
porque ali ele tem poder.
"Líder é quem mostra o caminho, que tem seguidores. Quem é que segue o Brasil? Ninguém” — Rubens Ricupero
Valor: É uma ação sistemática?
Ricupero: Sim. Em 7 de
janeiro, ele assinou a decisão de sair de 66 organizações internacionais, das
quais 31 vinculadas à ONU. Estamos assistindo à destruição sistemática do
mundo. Não é só a volta dos conflitos, é a anulação do sistema multilateral que
foi criado para evitar conflitos. A Carta da ONU está sendo gradualmente
destruída.
Valor: Pode explicar?
Ricupero: No final da
Segunda Guerra Mundial, a ideia da criação da ONU era de substituir a segurança
unilateral, que cada país garantia com as suas próprias forças, pela coletiva.
O conceito de segurança coletiva é o seguinte: os conflitos seriam resolvidos
por uma entidade internacional como uma espécie de poder judiciário, e o
Conselho de Segurança teria a última palavra. Pela Carta da ONU, o uso da força
é ilegal a não ser em legítima defesa ou pela decisão do Conselho de Segurança.
Hoje são 40 conflitos no mundo, e conflitos
em violação da Carta da ONU. Voltamos a um mundo de antes de 1914. Agora ele
tem a ideia de substituir o sistema multilateral pela vontade de uma só pessoa,
o presidente dos Estados Unidos.
Valor: O senhor se refere ao Conselho de Paz, o organismo
que Trump pretende criar?
Ricupero: Esse conselho,
se entrasse em vigor, seria uma complicação enorme. Imagino que muitos dos
países que ele convidou, a não ser os que fazem o jogo dele, vão hesitar.
Duvido que o Brasil possa entrar até porque tem esse esquema de pagar US$ 1
bilhão para ser permanente. É uma tentativa realmente, como os antigos diziam,
de criar um império universal. Ele quer ditar regras para todos. Nos deparamos
com uma situação em que o sistema multilateral está sendo posto de lado e as
ações são unilaterais. É uma situação nova, grave e perigosa.
Valor: Com as instituições multilaterais dilaceradas
como estão sendo hoje, o que pode evitar que este processo seja interrompido
antes que venha a alcançar o grau que o mundo viveu nos anos 30 e 40?
Ricupero: Vejo como única
esperança o fato de que temos o efeito de dissuasão das armas nucleares - o
grande fator que evitou uma Terceira Guerra Mundial foi, sobretudo, o poder
destrutivo das armas nucleares. O poder destrutivo das armas nucleares é tão
grande que é uma questão de autopreservação. Todo mundo sabe que uma guerra
nuclear não terá vencedores nem vencidos, todos serão perdedores.
Em segundo lugar, diria que a ONU forneceu o
que antes da Guerra de 1914 não existia e que antes da Guerra de 1939 tinha
deixado de existir: um fórum. Embora esse fórum não tenha capacidade de
resolver os conflitos - porque quando existe desacordo entre os membros
permanentes do Conselho de Segurança, a ONU fica paralisada -, permite uma
coisa que não existia antes de 1914: que os países ganhem tempo e que possam
conversar. Essa é a grande vantagem da ONU: os países conversam, coisa que não
existia antes de 1914, e antes de 1939 não adiantava, porque Hitler estava
deliberado, queria provocar uma guerra.
Valor: Existe algum paralelo entre o que a estamos
vendo hoje?
Ricupero: Eu não me
atrevo a fazer uma previsão porque Trump só completou um ano de governo, ainda
tem três anos pela frente. O que é grave no momento atual é que os Estados
Unidos eram um bastião. Não se opuseram pela força à invasão da Ucrânia, mas
não imitavam o comportamento da Rússia. Agora os EUA são uma força
desestabilizadora. Das três potências nucleares importantes, a única que teve
um comportamento até agora inatacável é a China. A China tem sido um fator de
estabilização. Os EUA desestabilizam o mundo, a Rússia desestabiliza a Europa.
Só a China, na sua área de influência, talvez porque não precise e não por
virtude, não invadiu ninguém. Mas esse é um mundo perigoso. Esse mundo é o
mundo que levou à Primeira e à Segunda Guerra Mundial.
Valor: Como o senhor vê a América Latina neste
contexto?
Ricupero: Mal. Vejo a
América Latina como um continente quase irrelevante nas relações
internacionais, pouco melhor do que a África, mas não muito. É um continente
que não conta, não tem força, não pesa. Os países não tem uma unidade de
propósito, as diferenças ideológicas são graves.
Valor: E o Brasil?
Ricupero: O Brasil não
tem capacidade de liderança. Não por culpa de Lula, não é culpa da política externa,
são as circunstâncias. Qualquer que fosse o presidente seria o mesmo. É um
continente tão dividido que nenhum país pode dizer que lidera. Líder é quem
mostra o caminho, que tem seguidores. Quem é que segue o Brasil? Ninguém. Como
ninguém segue o México, o Peru, a Argentina.
O mundo antes de Trump, o mundo do
multilateralismo, embora enfraquecido, é o mundo dos países sem poder, que são
a maioria, 150 a 160 nações. Agora, dos 193, quem tem arma nuclear e é
realmente importante são os Estados Unidos, a China e a Rússia.
O multilateralismo, cada vez mais declinante,
é o único espaço para um país como o Brasil. Como não temos poder militar, para
nós a única coisa que conta é o chamado “soft power”, o poder do diálogo, das
organizações internacionais. Um episódio como esse do sequestro de Maduro: o
Brasil protestou, a nota do Itamaraty é impecável. Trump nem acusou
recebimento. Mas o que se vai fazer? Atacar os Estados Unidos? Não, né.
Valor: Temos visto o presidente americano agir baseado
em sua visão simplista sobre como o mundo deve ser governado por ele mesmo.
Existe alguma esperança de sairmos desse ciclo? É o homem que tem o maior poder
militar do planeta de todos os tempos, ameaça a todos e não encontra
resistência em nenhum fórum, em nenhum nível.
Ricupero: É uma situação
sem precedentes. Em entrevista recente ao New York Times, Trump disse que não
reconhece nada, nem organizações internacionais, nem direito internacional. Que
o único limite à ação dele é a sua própria moralidade. Mas ele não deixa de ter
uma certa prudência, porque o seu eleitorado, o Maga, deixou claro que votou
nele para acabar com as guerras em que os americanos estavam implicados, não
para começar uma nova.
Vamos ver o que vai acontecer em novembro.
Trump espera ser alvo de impeachment. Não há quase nenhuma dúvida que os
democratas vão ganhar a eleição na Câmara e irão abrir um processo de
impeachment que não vai passar porque precisa de dois terços. Essas futuras
eleições vão ser importantes para sinalizar como serão seus três últimos anos.
Valor: E a Europa?
Ricupero: A Europa,
infelizmente, é uma entidade que não tem unidade nem de política externa, nem
de política de defesa. Conseguiram um mercado comum, incompleto, mas um grande
feito. Mas a visão deles do mundo é muito diferente. Países como a Polônia são
alinhados com os Estados Unidos, já a França é mais crítica. A Europa não tem
unidade. A situação é um pouco melhor do que a da América Latina e da África,
mas não muito. Porque ela não tem poder. Esse caso da Groenlândia será um teste
crítico.
Valor: Trump tem uma estratégia de energia, de
petróleo na Venezuela e minerais na Groenlândia?
Ricupero: Acho que o
básico, a motivação básica dele é mesmo de poder, por causa da personalidade. A
sociedade americana de psiquiatria publicou na última eleição que ele tinha
características de doença mental. É um megalomaníaco, um egocêntrico visível. É
uma situação muito perigosa, porque é a primeira vez que temos uma
superpotência como os Estados Unidos governada por um desequilibrado. Agora,
Trump tem um lado de fanfarrão, grita mais do que morde. Não quer dizer que
amanhã não venha a morder.
Sobre essa nova crise, com a Groenlândia no
epicentro?
Ricupero: Ele é
inacreditável. Mandou uma mensagem ao primeiro-ministro da Noruega dizendo que
porque não deram a ele o Nobel da Paz, não se sente obrigado a pensar na paz e
quer a Groenlândia. A Groenlândia não é nem da Noruega, é da Dinamarca. Parece
criança que diz, “ó, se você não me der isso, eu não brinco mais.”
Os Estados Unidos não jogam mais de acordo
com as regras. E o pior é que são a maior potência do mundo. Vejo como uma
situação muito perigosa porque Trump é uma personalidade psicologicamente
desequilibrada. As reações não são racionais e ele não tem freios. Talvez no
mês de novembro, com as eleições no Congresso, mude o panorama. Mas até lá, não
tem nada que o segure.
Como disse, e repito, as pessoas não se dão
conta, ele é o anti-Roosevelt. É o fim do mundo, dos valores do mundo.
Roosevelt representava tudo que havia de progressista na época. Trump
representa o anticlima, o anti-igualdade de mulheres e homens, o antiação
afirmativa pela igualdade racial. É a encarnação de todos os antivalores. Tudo
aquilo que durante 80 anos considerávamos o rumo da evolução da consciência
moral da humanidade, está sendo posto em questão por esse homem.
Valor: A própria democracia americana está hoje em
risco?
Ricupero: Ele é a maior ameaça que a democracia americana enfrenta desde a Guerra Civil Americana, em 1865. Representa em ideias tudo que é anti-iluminismo, antiprogresso, anticiência.

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