sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Caso Master deve ser devolvido à primeira instância

Por O Globo

Seria melhor para a investigação, para a imagem do Supremo e de Toffoli que não pairasse dúvida sobre o inquérito

Os danos do Banco Master têm ido além dos prejuízos bilionários causados pelas fraudes ao sistema financeiro. Há dois meses, a conduta do Supremo Tribunal Federal (STF) no escândalo tem causado desgaste imenso e desnecessário à Corte. Não faz sentido o processo tramitar no STF. O inquérito precisa ser devolvido à primeira instância do Judiciário, de onde jamais deveria ter saído.

O pedido da defesa do banqueiro Daniel Vorcaro para que o processo saísse da Justiça Federal de Brasília se baseou num contrato imobiliário apreendido pela Polícia Federal (PF) mencionando o deputado federal João Carlos Bacelar (PL-BA). Mas apenas essa suspeita frágil de envolvimento não justifica que o caso todo seja mantido no STF. Sem indícios concretos da participação de Bacelar e de relação com o exercício do mandato, o inquérito deveria seguir na primeira instância, pelo entendimento do próprio Supremo. Ou, havendo tais indícios, a parte que lhe diz respeito poderia ser desmembrada.

Por isso causou estranhamento a decisão tomada pelo ministro do STF Dias Toffoli ao manter todo o caso no Supremo. Mais inexplicável foi o altíssimo nível de sigilo que ele baixou sobre o processo. De lá para cá, o próprio Toffoli tem conduzido a investigação. Trata-se de comportamento impróprio à atividade de um juiz na fase de inquérito, limitada a autorizar diligências policiais e verificar sua legalidade.

Para piorar, a revelação de negócios de familiares de Toffoli com um dos alvos da investigação — Fabiano Zettel, pastor, empresário e cunhado de Vorcaro, preso na última operação da PF — expôs um potencial conflito de interesses. Zettel administra fundos de investimento que compraram em 2021 participações de dois irmãos de Toffoli no resort Tayayá, em Ribeirão Claro (PR). Foi sócio dos dois irmãos e de um primo de Toffoli até todos venderem suas participações no ano passado. Não foi o único vínculo de familiares de ministros do STF a vir à tona no caso Master. Em dezembro foi revelado o contrato entre o banco e o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro Alexandre de Moraes, com a atípica remuneração mensal de R$ 3,6 milhões. Tudo isso contribui para desgastar a imagem do Supremo.

O desgaste começou assim que o inquérito chegou à Corte e Toffoli foi sorteado relator. Naquele mesmo dia, ele voou em jato particular na companhia do advogado de um diretor do Master, para assistir à final da Taça Libertadores em Lima, no Peru (depois afirmou que o caso não foi discutido no voo). Em seguida, decretou sigilo sobre o processo, convocou um diretor do Banco Central para uma acareação despropositada, determinou de modo insólito que provas recolhidas pela polícia fossem mantidas primeiro no STF, depois na Procuradoria-Geral da República, e pudessem ser acessadas apenas por quatro peritos que escolheu, por fim reduziu os prazos no inquérito. Nada disso é papel de um juiz.

Seria melhor para a investigação, para a imagem do Supremo e para o próprio Toffoli que o caso fosse devolvido à primeira instância do Judiciário e tramitasse com transparência. Não é bom que paire qualquer dúvida sobre a isenção da Justiça em julgamento de tamanha gravidade, envolvendo tantos interesses políticos e financeiros.

No fim da noite, o presidente do STF, ministro Edson Fachin, emitiu uma nota. Em quase todo o texto, descreve bem como devem funcionar as instituições da República. Foi auspicioso ele frisar que decisões tomadas no recesso serão apreciadas a seu tempo pelo colegiado, sem que tenha antecipado juízo de valor. Mas, mesmo reconhecendo o direito à crítica, errou ao enxergar o trabalho jornalístico como tentativa de pressão ou exercício primitivo da pancada. É uma carapuça que a imprensa não veste.

Congresso brasileiro deveria aprovar logo acordo Mercosul-EU

Por O Globo

Apesar de Parlamento Europeu ter atrasado implementação, gesto teria significado político relevante

Na volta do recesso, em fevereiro, o Congresso Nacional faria bem em aprovar logo o Acordo Mercosul-União Europeia (UE), assinado por representantes dos dois blocos no último sábado em Assunção, no Paraguai, após duas décadas e meia de negociações. Foi o que prometeu o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB). E é o que deve ser feito depois que o Parlamento Europeu decidiu levar o caso ao Tribunal de Justiça da UE, cedendo a pressões de setores protecionistas que temem a concorrência de produtos do Mercosul.

A expectativa era que o acordo que criará a maior zona de livre-comércio do planeta entrasse em vigor tão logo recebesse a chancela do Congresso. Para isso, precisaria também da aprovação do Parlamento Europeu, que decidiu por pequena margem enviá-lo ao Judiciário. Pelo histórico, não se espera da Justiça europeia uma decisão desfavorável, mas o novo entrave poderá adiar em cerca de um ano e meio a votação pelos parlamentares.

Nas palavras do chanceler alemão, Friedrich Merz, o Parlamento Europeu “falhou em reconhecer a situação geopolítica”. A assinatura do acordo foi acelerada pelo comportamento errático dos Estados Unidos sob Donald Trump, que forçou países afetados pelo tarifaço a buscar novos mercados e alianças estratégicas. Graças ao tratado, exportadores dos dois lados poderão ter acesso a novos mercados num momento em que Trump convulsiona o mundo. Ao incentivar o livre-comércio e o multilateralismo, ele é também uma resposta vigorosa ao protecionismo que impera no mundo.

As vantagens do acordo para ambos os blocos são inquestionáveis. Ele abrange uma população de 720 milhões de habitantes e um PIB agregado de US$ 22,3 trilhões. A UE é o segundo maior parceiro comercial do Mercosul, atrás apenas da China e à frente dos Estados Unidos. Não há dúvidas de que o Brasil será um dos principais beneficiados, tanto nas exportações quanto nas importações. Dependendo do produto, a redução tarifária poderia entrar em vigor de imediato ou gradualmente.

A decisão do Parlamento Europeu é apenas o obstáculo mais recente à entrada em vigor do tratado. Até a assinatura, as negociações enfrentaram um sem-número de entraves. Apesar das resistências, cedo ou tarde ele deverá ser aprovado pelos europeus. Independentemente disso, a aprovação pelos parlamentos brasileiro e dos demais países do Mercosul funcionaria como recado político à UE, demonstrando a seriedade do compromisso. O melhor que o Brasil tem a fazer é aprová-lo logo no Congresso.

Não há recorde de receita que chegue

Por Folha de S. Paulo

Arrecadação de impostos atinge maior patamar já registrado, mas gastança manterá Orçamento desiquilibrado

Algumas medidas de Lula para elevar tributos foram corretas ao eliminar privilégios; outras, como a alta do IOF, afetam os mais pobres.

O governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) cumpriu seu objetivo de elevar sensivelmente a arrecadação tributária. Em 2025, ingressaram nos cofres federais R$ 2,887 trilhões, maior montante já registrado, com alta de 3,65% acima da inflação ante o ano anterior.

Desde o início deste mandato presidencial, o aumento real acumulado de uma carga já excessiva para um país de renda média é de portentosos 13,5% —e isso na comparação com um resultado excepcional em 2022, inflado pela alta dos preços do petróleo.

O impulso veio de medidas adotadas sobretudo nos últimos dois anos, como a reoneração gradual da folha de pagamentos, o aumento do IOF em junho de 2025 —a receita do imposto saltou 20,5%, para R$ 86,5 bilhões— e os efeitos continuados da tributação de fundos exclusivos e offshores a partir do ano passado.

A contribuição previdenciária mostrou ganho de 4,5%, beneficiada pelo crescimento da massa salarial, enquanto PIS e Cofins avançaram 5,5%, apesar da estagnação nas vendas de bens.

Parte do resultado também reflete a expansão da economia, mas esse motor já está mais fraco. A produção industrial recuou, e os juros altos, necessários para conter a inflação, começaram a frear o crédito e a demanda, cuja perspectiva é de desaceleração também neste 2026.

As contas federais do ano passado reafirmam o que deveria ser uma obviedade desde o início: a estratégia petista de tentar equilibrar o Orçamento apenas com mais receitas, sem conter a alta galopante de gastos, está fadada a um fracasso capaz de pôr em risco a estabilidade econômica.

Mesmo com o recorde de arrecadação, o Tesouro Nacional fechou o ano com um déficit estimado entre R$ 60 bilhões e R$ 70 bilhões —sem contar encargos com juros na casa dos R$ 870 bilhões no âmbito federal.

Os resultados podem estar dentro das metas oficiais fixadas, porque o governo Lula muda as metas e cria exceções aos limites orçamentários a todo momento. Não chegam perto, entretanto, do necessário para deter a escalada da dívida pública, hoje em torno de 80% do Produto Interno Bruto e com alta contínua projetada nos próximos anos.

Algumas medidas adotadas para elevar a arrecadação, se tomadas isoladamente, foram corretas ao eliminar privilégios de estratos mais ricos; outras, como o aumento do IOF, são prejudiciais ao mais pobres. Mais importante, o equívoco está em pretender ampliar a carga como um todo, que já consome um terço do PIB, em vez de concentrar esforços na melhora de sua distribuição.

Cúmplice de Lula na gastança irresponsável, o Congresso Nacional aprovou boa parte dos projetos de aumentos de impostos, mas há limites políticos e econômicos à oneração contínua dos contribuintes. O próximo governo, qualquer que seja, terá de reconhecer tardiamente que, com a atual política perdulária, não haverá recorde de receita que chegue.

Política de segurança de Bukele é ilegal e ilusória

Por Folha de S. Paulo

Folha visita presídio que faz parte de sistema de infrações de direitos e inspira ultradireita brasileira

Presos não têm previsão de saída; os únicos que o fizeram foram os 252 venezuelanos deportados dos EUA, que relataram tortura sistemática

De 2015 a 2023, a taxa de homicídios dolosos em El Salvador despencou de 106 por 100 mil habitantes para 2,3 por 100 mil —no Brasil, o indicador foi de 25,7 a 19 no mesmo período. Tal incremento, lá, se deu com infrações ao Estado de Direito promovidas pelo presidente Nayibe Bukele, eleito em 2019, quando o índice de assassinatos marcava 38 por 100 mil.

Desde 2022, ele governa sob regime de exceção. Com maioria quase absoluta na Assembleia, minou a independência da Corte Suprema, substituindo magistrados, e do Ministério Público.

O resultado foi encarceramento em massa. Organizações de direitos humanos estimam milhares de julgamentos sumários e de prisões de inocentes.

A maior vitrine do governo é o Centro de Confinamento do Terrorismo (Cecot), um grande complexo penitenciário que, segundo fontes oficiais, tem quase 20 mil presos e capacidade para 40 mil. A Folha visitou o presídio no final do ano passado, como parte da série Cecot - Por dentro da prisão de Bukele, publicada ao longo desta semana.

Lá, os detentos nunca veem a luz do sol, comem com as mãos, não têm travesseiros ou lençóis. Nas celas, cerca de 80 homens dividem 20 beliches, dois sanitários a vista de todos e dois tanques para tomarem banho.

Com o regime de exceção e penas que chegam a mais de mil anos, os presos não têm previsão de saída. Os únicos que o fizeram foram os 252 venezuelanos deportados dos EUA, que relataram tortura sistemática.

Essa política hoje é referência para a ultradireita latino-americana, e o Cecot, seu cartão postal. Desde 2023, 14 políticos brasileiros visitaram El Salvador —e vários deles, o presídio— com custo de ao menos R$ 407,2 mil para os cofres públicos.

Além da nefasta violação de garantias legais, também é preciso considerar a especificidade local.
El Salvador é menor do que Sergipe e não é banhado pelo mar do Caribe, onde se dá a maior parte do transporte de drogas; rotas terrestres aos EUA passam por Guatemala e Honduras. Assim, suas gangues têm pouca relevância no narcotráfico global e funcionam mais por extorsão.

Num país de dimensões continentais como o Brasil, onde organizações criminosas atuam tanto no tráfico internacional de drogas como no mercado ilegal de combustíveis e ouro, usam fundos de investimento e influenciam o poder público, o sistema Bukele pouco pode fazer além de eliminar direitos fundamentais. Seu apelo político, portanto, torna-o ainda mais arriscado.

A aula de civilidade de Eduardo Leite

Por O Estado de S. Paulo

Vaiado por militantes do PT em cerimônia oficial com o presidente Lula, o governador do Rio Grande do Sul cobrou respeito institucional e expôs a democracia de fachada do lulopetismo

Para surpresa de rigorosamente ninguém, o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSD), foi vaiado por militantes do PT durante um evento institucional realizado nesta semana ao lado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A reação do governador à violência retórica lulopetista no ato, no entanto, ofereceu a um país cansado de vandalismo político e analfabetismo cívico uma valiosa aula de civilidade e espírito público.

O episódio ocorreu em Rio Grande, no sul do Estado, durante cerimônia oficial do governo federal destinada à assinatura de contratos ligados à construção de navios para a Petrobras. As vaias começaram quando o nome de Leite foi mencionado pelo cerimonial, prosseguiram durante o discurso da prefeita da cidade, a petista Darlene Pereira, e se intensificaram quando o governador foi chamado ao microfone. Como se viu, Leite teve dificuldade para iniciar sua fala. E protestou conjugando serenidade e firmeza: “Este é o amor que venceu o medo? Não, né? Vamos respeitar, por favor. Estou aqui cumprindo meu dever institucional. Eu e o presidente fomos eleitos pelo mesmo povo. Somos diferentes. Mas a gente não precisa pensar igual”.

As manifestações hostis partiram de apoiadores do presidente e se repetiram ao longo da fala do governador, interrompendo seu discurso e constrangendo o ambiente – hostilidade dirigida a um chefe de Executivo estadual legitimamente eleito e convidado a participar de um ato que, em tese, deveria se ater aos limites republicanos da institucionalidade. A atitude de Leite, marcada pelo autocontrole e pela defesa do respeito às diferenças e à etiqueta republicana, contrastou com o mau comportamento de parte da plateia.

O episódio diz menos sobre o governador gaúcho do que sobre o estado de degradação cívica a que chegou parcela expressiva da militância política no Brasil, sobretudo a petista. O governador não foi vaiado por ter cometido um desvio administrativo, por afrontar a democracia ou por atacar adversários. Foi hostilizado simplesmente por existir politicamente fora do universo lulopetista, por representar uma alternativa que não se submete à liturgia do governismo militante. O constrangimento não foi do governador, mas de quem confundiu um ato oficial da República com um comício partidário.

O comportamento da militância do PT foi revelador. Ao hostilizar um governador em pleno exercício do cargo, num evento oficial, repetiu exatamente o padrão que o próprio partido diz combater: intolerância política, patrulhamento ideológico e tentativa de silenciar vozes dissonantes. Na prática, trata-se do mesmo impulso autoritário travestido de virtude moral, legitimado pela sensação de pertencimento ao campo “do bem”. Para o PT, democracia só vale quando se presta a aplaudir Lula.

Não deixa de ser sintomático que o próprio presidente tenha convertido o evento em palanque, exatamente o que Eduardo Leite disse que não deveria acontecer numa cerimônia estritamente institucional. Mas aí não tem jeito: trata-se da natureza de Lula. O presidente, ao contrário do governador, discursou em tom de campanha, recorreu a slogans eleitorais e falou diretamente à base militante. Fez, afinal, o seu comício de sempre. É verdade que o petista tentou contemporizar, fazendo algumas mesuras ao governador. E, não raro, tenta pregar a ideia de que a democracia exige convivência com quem pensa diferente. Seus gestos são protocolares diante de um discurso claramente eleitoral. Não se pode estimular a polarização como método e depois surpreender-se com seus efeitos colaterais. O tribalismo militante aprende pelo exemplo dos seus morubixabas, não pelas notas de rodapé.

O contraste entre os protagonistas é eloquente. De um lado, um governador que reafirma o valor das instituições, da civilidade e do pluralismo. De outro, uma militância que age como se a democracia fosse propriedade privada de um campo político.

Num Brasil exausto da política do grito e da permanente guerra moral, a atitude de Eduardo Leite aponta para uma alternativa cada vez mais rara: a de que é possível discordar sem destruir, competir sem desumanizar e fazer política sem transformar o adversário em inimigo. A lição está dada. Resta saber quem está disposto a aprendê-la.

A CVM precisa ser fortalecida

Por O Estado de S. Paulo

Proposta de Haddad de transferir a fiscalização da indústria de fundos de investimento para o Banco Central é uma tentativa de transformar a CVM em um bode expiatório do caso do Banco Master

A ideia do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, de transferir para o Banco Central (BC) e retirar da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) a atribuição de fiscalizar a indústria de fundos de investimento é uma solução simples e errada para um problema complexo. O assunto surgiu durante uma entrevista do ministro ao site UOL, no bojo da crise envolvendo a liquidação do Banco Master e uma intrincada rede de fundos administrada pela Reag Investimentos que ajudou a ocultar a gravidade da situação da instituição financeira.

Para Haddad, ampliar o escopo de fiscalização e regulação do BC seria uma resposta “muito boa neste momento”, e o governo já estaria elaborando um projeto de lei complementar nesse sentido. A julgar pelas declarações do ministro, se dependesse apenas da CVM, a fraude jamais seria descoberta, pois o esquema só começou a ser desvendado a partir do momento em que o Banco Central teve de analisar a tentativa de compra do Master pelo BRB, que acabou por ser vetada em setembro.

Ora, em primeiro lugar, se é verdade que a fiscalização cabe à CVM, isso não quer dizer que o BC não tenha acesso a informações relacionadas aos fundos de investimento, inclusive a dados detalhados de carteira de crédito e identificação de cotistas. Em segundo lugar, se o esquema parece bastante óbvio agora que foi descoberto, há que se reconhecer que a engenharia criada pelo Master e pela Reag era emaranhada o suficiente para garantir que o esquema prosperasse por anos.

Haddad, no entanto, parece preferir encontrar um bode expiatório a quem culpar em vez de debater o assunto com a profundidade que ele merece. Para ficar em um único exemplo, foi somente após a Operação Carbono Oculto que o Banco Central anunciou o encerramento das chamadas contas-bolsão, por meio das quais as facções criminosas lavavam dinheiro e sonegavam impostos usando contas bancárias abertas por fintechs. Nem por isso o governo insinuou que o BC tenha prevaricado, como parece fazer com a CVM agora.

Mais importante seria reconhecer a existência de eventuais brechas no sistema financeiro nacional que precisam ser fechadas para impedir que fraudes se repitam. Para isso, seria obrigatório fortalecer a CVM, ou seja, dotá-la de recursos, tecnologia e servidores suficientes para fazer seu trabalho da melhor maneira possível.

Há consenso de que o quadro de funcionários da CVM está subdimensionado para o tamanho do mercado de capitais brasileiro, cujo número de fundos dobrou e o patrimônio líquido triplicou nos últimos dez anos. O BC, por outro lado, já tem desafios suficientes para enfrentar em sua própria seara e também precisa de mais dinheiro, investimentos e corpo técnico para supervisionar bancos, instituições de pagamento e fintechs.

Mas, para piorar, o Executivo contribui diretamente para o enfraquecimento e a desmoralização da CVM ao transformar sua diretoria em um balcão de negócios com o Congresso. Só isso explica o fato de o governo ter indicado o advogado Otto Lobo para a presidência da CVM em pleno recesso parlamentar. Lobo ocupava o cargo de forma interina desde a repentina saída de João Pedro Nascimento, que renunciou por alegados “motivos pessoais”, e desde então tomou decisões no mínimo controversas envolvendo justamente o Master, ignorando a área técnica e à revelia da procuradoria do órgão.

Nos bastidores, atribui-se a indicação de Lobo a uma derrota de Haddad e a uma tentativa de agradar ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), para debelar sua resistência ao nome do ministro da Advocacia-Geral da União (AGU), Jorge Messias, indicado para o Supremo Tribunal Federal (STF).

De qualquer forma, esvaziar a CVM por esse motivo certamente não é a maneira adequada de lidar com a questão. O correto seria que os órgãos atuassem de maneira complementar e coordenada, de forma que o BC assegure a estabilidade do sistema financeiro e a CVM busque proteger os investidores. Uma reforma para aprimorar o modelo regulatório pode até vir a ser necessária, mas seria prudente aguardar a conclusão das investigações para debatê-la a fundo.

Antes que seja tarde

Por O Estado de S. Paulo

Situação hídrica em SP se agrava, preocupa e demanda ações mais enérgicas das autoridades

O governo de São Paulo já fez as contas: para evitar o colapso do sistema integrado de abastecimento de água da Grande São Paulo, as represas que atendem a 22 milhões de habitantes precisarão atingir 47% de sua capacidade em abril deste ano, quando começa a seca. E, no fim da estiagem, em setembro, o patamar de segurança esperado é de 30%. Os ciclos da natureza até autorizariam uma certa tranquilidade: entre outubro e março, costuma chover mais, com precipitação mais volumosa sobre os reservatórios, que são recarregados para enfrentarem os meses de pouca chuva que virão depois. Mas, em tempos de mudanças climáticas, nada mais é tão estável assim.

Para piorar, como ocorreu há dez anos, o abastecimento de água da região metropolitana encontra-se em uma situação delicada. O nível do sistema integrado, hoje, está em cerca de 30%. Já o Cantareira oscila em torno de 20%, e recentemente ficou abaixo disso, o que é considerado estado crítico. Choveu e chove pouco, e não há previsão de chuva forte sobre os sete mananciais da Grande São Paulo: Alto Tietê, Cantareira, Cotia, Guarapiranga, Rio Claro, Rio Grande e São Lourenço.

A secretária estadual de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística, Natália Resende, está otimista de que não faltará água, mas ao Estadão reconheceu que a chuva está “inconsistente” na área do Cantareira, o que preocupa, haja vista que esse manancial abastece nada menos do que 46% da população. Definitivamente, não se pode contar apenas com o céu.

Não à toa, desde agosto do ano passado, a Sabesp reduziu a pressão à noite: a princípio, eram oito horas por dia, e depois, dez horas, causando transtornos a quem não tem caixa ou mora em regiões altas. Mas, mesmo impopular, essa medida não tem sido suficiente: a população de São Paulo não economizou nada; pelo contrário, nunca consumiu tanto. Houve recorde de captação de água dos reservatórios em 2025, com a retirada de 71 mil litros de água por segundo, num movimento semelhante ao registrado na crise hídrica de 2014 e 2015, quando, no ano anterior ao colapso, foram captados 70 mil litros de água por segundo dos mananciais.

O cenário é alarmante, mas não é irreversível. Há campanhas de esclarecimento em curso atualmente e investimentos de mais de R$ 5 bilhões, no longo prazo, com obras para acrescentar ao sistema a oferta de até 8 mil litros de água por segundo. Mas, para garantir a segurança hídrica, seria muito bem-vindo o reforço nas ações de conscientização.

A população, ao que tudo indica, ainda não está ciente da gravidade. Urge alertar os paulistanos, com total transparência, sobre a necessidade de redução do consumo de água. Mas não só isso: talvez tenha chegado a hora de não só pedir por economia, mas estimulá-la. Seria bastante eficaz o oferecimento de bônus para clientes que de fato reduzam seu gasto com água. E, infelizmente, não se deve descartar nem mesmo o temido racionamento. As medidas mais enérgicas devem ser tomadas agora, enquanto ainda há água nos reservatórios e nas torneiras. Depois, pode ser tarde demais.

BC decide juros com cenário benigno para inflação

Por Valor Econômico

Uma série de indicadores continuou a evoluir favoravelmente desde o último encontro do Copom

Há um cenário benigno para a inflação, ainda que ele possa não ser suficiente para que o Comitê de Política Monetária do Banco Central comece a reduzir os juros na próxima semana. A ata da reunião de dezembro deixou em aberto essa possibilidade, embora ela não seja a maior aposta dos investidores, que acreditam que a taxa Selic começará a cair apenas em março. Uma série de indicadores continuou a evoluir favoravelmente desde o último encontro do Copom. Não há nada que indique que o processo descrito de desinflação gradual foi interrompido. O contexto segue o mesmo, cercado de muitas incertezas, em particular no cenário externo.

O nível de atividade econômica apresenta desaceleração. Ela é mais clara na indústria de transformação, que apresentou estabilidade em novembro (0% com ajuste sazonal), após crescer apenas 0,1% em outubro. A perda de ritmo, segundo dados do Ipea, é mais visível nos bens de consumo duráveis (-2,5%), cujo consumo depende em grande parte da disponibilidade de crédito e dos juros, mas também se revela nos bens intermediários (-0,6%), que são insumos da produção.

Em novembro, a indústria de transformação se via às voltas com estoques excessivos (Ipea), um dos motivos para a redução do nível de capacidade utilizada a 79,7%, próximo da média histórica.

O excesso de estoques e importações favorecidas por um real valorizado diante do dólar provocaram até novembro significativa deflação nos índices de preços ao produtor. Dados do IBGE mostram que, no índice geral, em 2025 até novembro, esses preços haviam caído 4,66%, com distintas variações. A mais significativa delas, por seus efeitos na inflação, foi o recuo de 8,42% nos alimentos, na comparação com novembro de 2024. Por categoria, os preços dos insumos (intermediários) declinaram 7,6% e os bens de consumo, 1,3%.

Se o clima não pregar nenhuma peça, uma safra agrícola recorde deve exercer pressão suavemente baixista ou estabilizadora nos preços dos alimentos. O índice de commodities do BC (IC-Br) mostrou queda de 15,2% nos preços agrícolas em reais em 2025 e de 5,2% nos preços em dólar. As previsões mais divulgadas não mostram um horizonte de elevação dos preços do petróleo, que caíram mesmo após a captura do presidente da Venezuela Nicolás Maduro pelo governo de Donald Trump e os tumultos no Irã. Em 2025, as commodities energéticas recuaram 7,17% em dólar.

Os preços dos combustíveis são um componente de peso na inflação, e nos que compõem a categoria dos preços administrados. Os analistas esperam uma menor pressão desses preços neste ano, assim como o Banco Central, que projetou uma evolução de 3,2%, ante 5,2% em 2025. O cenário eleitoral, porém, nubla um pouco a perspectiva dos itens monitorados. De olho nas urnas, o presidente Jair Bolsonaro conteve seus preços, reduzindo impostos, e não é desprezível o risco de alguma contenção de tarifas por parte do governo Lula no período eleitoral, o que teria impacto nos índices de preços.

As expectativas continuam desancoradas, mas um pouco menos do que antes. Às vésperas da reunião de dezembro do Copom, a expectativa expressa no boletim Focus era de inflação de 4,4% em 2026. O boletim do dia 19 de janeiro reduziu a projeção a 4,02%. Sazonalmente, janeiro e fevereiro são meses de preços em alta. Mas o BC prevê que ao fim do primeiro trimestre do ano o IPCA em 12 meses se situe em 3,61% (Relatório de Política Monetária de dezembro).

Dois fatores de preocupação inflacionária persistem no horizonte. O mercado de trabalho continua aquecido, com aumento da renda e da massa salarial, que impactam na inflação de serviços, ainda ao redor de 6%, muito acima da inflação média, de 4,26%. Há indícios de que a criação de vagas formais apresenta tendência de desaceleração, enquanto que os ganhos reais de salários — 80% dos acordos celebrados em 2024 resultaram em reajustes superiores à inflação — não cresceram e começaram a recuar.

O índice de serviços do IBGE de novembro registrou queda de 0,1% ante outubro. Na prática, isso significa estabilidade, porque em outubro de 2025 o setor bateu o recorde de atividade, com um nível 20% superior ao do período pré-pandemia. Aqui também há evidências de que os segmentos de serviços mais sensíveis à renda começam a refluir, como comércio, lazer e alimentação fora do domicílio.

O estágio de desinflação estaria bem mais avançado diante de uma enorme taxa real de juros perto de 10%, a maior em quase duas décadas, mas isso não ocorre porque os estímulos fiscais e creditícios dos quais o governo não se cansa de lançar mão, amortecem os efeitos da política monetária. O Banco Central sinalizou que os juros devem cair, mas o ritmo dependerá, além da evolução dos dados macroeconômicos, das medidas que o governo Lula eventualmente execute para melhorar as chances de reeleição.

A ilusão do conselho paralelo de Trump

Por Correio Braziliense

Criar uma entidade paralela, seletiva e inevitavelmente orbitando os interesses de Washington significa enterrar tudo que vem sendo construído pela comunidade internacional desde o fim da Segunda Guerra

Proposto pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, o chamado "Conselho da Paz", na verdade, representa a maior ameaça à existência da Organização das Nações Unidas (ONU) nos seus pouco mais de 80 anos. Por isso, a sinalização dada pelo assessor especial da Presidência para assuntos internacionais, Celso Amorim, de que o Brasil deve declinar do convite que recebeu de Trump para participar do fórum reflete uma leitura que precisa ser considerada pela prudência que exige o atual cenário internacional. 

A proposta da Casa Branca, embora sedutora em sua promessa de agilidade decisória, é um convite ao desmanche da ONU. A história ensina que a proliferação de fóruns concorrentes tende a esvaziar a legitimidade das instituições estabelecidas, substituindo a lei internacional, construída a duras penas desde 1945, pela "lei do mais forte" travestida de consenso entre poucos. Criar uma entidade paralela, seletiva e inevitavelmente orbitando os interesses de Washington significa enterrar tudo que vem sendo construído pela comunidade internacional desde o fim da Segunda Guerra. 

Ao indicar a recusa, o Palácio do Planalto reafirma um princípio histórico da diplomacia brasileira: a defesa do multilateralismo universal, com fóruns amplos, inclusivos e regidos por normas  — ONU, Organização Mundial do Comércio (OMC), Organização dos Estados Americanos (OEA), Organização Mundial da Saúde (OMS) etc. —, como forma de proteger países médios e periféricos, reduzir assimetrias de poder e reforçar uma ordem jurídica internacional baseada em regras, não na força.

É inegável — e o Brasil tem sido vocal nesse diagnóstico — que a ONU atravessa sua mais grave crise de credibilidade. O Conselho de Segurança, travado pelo anacronismo do direito de veto e pela paralisia de seus cinco membros permanentes, tem falhado miseravelmente em sua missão de manter a paz, como atestam as tragédias na Ucrânia, em Gaza e no Sudão. Entretanto, diagnosticar corretamente a doença não autoriza a eutanásia do paciente.

A posição sinalizada por Amorim é coerente. Seria contraditório ao Brasil pleitear a reforma e o fortalecimento da ONU — incluindo um assento no Conselho de Segurança — com uma mão, enquanto a outra ajuda a erguer o mausoléu onde a organização seria enterrada. Participar de um Conselho da Paz excludente seria legitimar a fragmentação do mundo em blocos rivais, o que contraria a vocação universalista e pacificadora do Itamaraty.

O caminho para um mundo mais seguro não passa pela demolição das instituições, mas pela sua urgente e profunda atualização. O multilateralismo, com todos os seus defeitos, continua sendo a única rede de proteção para as nações que não têm ogivas nucleares ou poder econômico hegemônico.

O foco da comunidade internacional deve ser canalizar a energia política para destravar as reformas da ONU, tornando-a mais representativa, e não embarcar em aventuras que, prometendo a paz, podem acabar institucionalizando a discórdia e a irrelevância diplomática.

O salário do professor e a educação como prioridade

Por O Povo (CE)

O País precisa encontrar uma forma de garantir aos profissionais da educação condições adequadas de trabalho

Após mobilização das entidades representativas dos professores, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou medida provisória (MP) mudando a forma de cálculo do reajuste dos professores da educação básica da rede pública. Pela regra vigente, antes da edição da MP, o reajuste dos professores em 2026 seria de apenas 0,37%, acrescentando apenas R$ 18 ao salário.

Pelos novos cálculos, o aumento sobe para 5,4%, com o piso passando de R$ 4.867,77 para R$ 5.130,63. A Conferência Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) considerou o resultado "uma vitória" da categoria, com ganho real acima da inflação.

Para a entidade, o aumento constitui "um avanço concreto na política de valorização dos profissionais da educação pública". Se a MP for confirmada pelo Congresso Nacional, o reajuste dos professores terá de, no mínimo, recuperar as perdas inflacionárias do período. Os parlamentares têm 120 dias para aprovar a medida, após esse prazo, ela perde a validade.

A solução é bastante justa para uma categoria tão importante para o desenvolvimento do País, e que enfrenta desafios crescentes para exercer a profissão. A valorização da educação é um discurso recorrente de políticos, de qualquer orientação partidária, mas isso, boa parte das vezes, não resulta em propostas concretas para melhorar as condições de trabalho e de ensino nas escolas.

No entanto, a Confederação Nacional de Municípios (CNM) manifestou "inconformidades" com a edição da MP. Segundo a entidade, o governo alterou "de forma oportunista e eleitoreira" o critério de reajuste. Para a CNM, os aumentos reais devem ser discutidos diretamente entre os executivos municipais e o quadro do magistério local, respeitando "as condições fiscais e orçamentárias dos municípios".

Mesmo que se compreenda a preocupação dos prefeitos quanto ao equilíbrio fiscal, a questão é que, negociações separadas levariam a disparidades salariais na categoria, com potencial de ser outra fonte de conflito para os prefeitos, com exigências de equiparação.

Os administradores municipais argumentam que, quando o aumento fica acima da inflação, o complemento enviado pelo governo federal é insuficiente para cobrir as despesas, pedindo aporte extra de recursos. É um argumento a se considerar, mas as prefeituras também poderiam buscar fontes alternativas de receita.

O fato é que o País precisa encontrar uma forma de garantir aos profissionais da educação condições adequadas de trabalho para que eles possam bem exercer as suas tarefas. E isso inclui um salário justo, que permita aos professores uma vida com dignidade, sem que a pressão financeira comprometa o desempenho em sala de aula. Nesse aspecto, a MP leva uma certa tranquilidade à categoria, pois garante, no mínimo, a recomposição do valor de compra do salário a cada ano.

 

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