Folha de S. Paulo
Coincidência no percurso das duas filósofas
ao tratar da tensão entre política e moral havia me passado despercebida
Reler autores prediletos enriquece textos em
significados e possibilidades, à medida que projetamos neles experiências
Durante o recesso de final de ano, passei boa
parte do meu tempo revisitando alguns textos de Simone de Beauvoir com
a intenção de produzir um artigo acadêmico em comemoração aos 80 anos de
publicação de "Por uma Moral da Ambiguidade" (1947).
Foi a partir desse exercício que também
acabei escrevendo sobre Beauvoir em minhas colunas de dezembro e do início
deste mês, justamente na semana do aniversário da filósofa, nascida
em 9 de janeiro de 1908.
Recentemente, um dos temas que tem me chamado bastante atenção em seus escritos trata da tensão entre política e moral, talvez em virtude do nosso momento político, em que questões morais têm se mostrado cada vez mais relevantes; talvez também porque, durante os últimos anos, eu tenha me dedicado cada vez mais à leitura de outros pensadores, como Hannah Arendt.
Beauvoir e Arendt abordam essa tensão de
maneiras distintas. Hoje, no entanto, eu gostaria de destacar uma coincidência
no percurso dessas duas filósofas, algo que até agora havia me passado
despercebido.
Faço isso apenas com a intenção de ressaltar a importância de relermos os
nossos autores prediletos, porque acredito que todo texto é inesgotável. Isto
é, ele sempre há de se tornar mais rico de significados e possibilidades a
partir das experiências e da bagagem intelectual que trazemos conosco a cada
releitura.
Como se sabe, em 1961, Arendt esteve em
Jerusalém a convite da revista New
Yorker para cobrir o julgamento de Adolf
Eichmann, oficial nazista responsável por coordenar a deportação de
judeus para campos de concentração e extermínio. Foi a partir dos artigos
escritos para a New Yorker que ela publicou "Eichmann em Jerusalém: um Relato Sobre a Banalidade do Mal"
(1963).
A publicação de "Eichmann em
Jerusalém" gerou uma imensa controvérsia, principalmente entre os
intelectuais judeus norte-americanos, muitos dos quais acusaram Arendt de
culpabilizar as vítimas e de relativizar a responsabilidade de Eichmann
pelo Holocausto ao
retratá-lo como um burocrata, em vez de um fanático ideológico.
Mas algo que muita gente desconhece é que,
durante a segunda metade da década de 1940, Beauvoir também refletiu sobre um
evento comparável. Seu ensaio "Olho por Olho" (1946), publicado na
revista Les Temps Modernes, de Jean-Paul
Sartre, aborda o julgamento de Robert
Brasillach, jornalista e célebre escritor francês que, durante a
Ocupação, foi editor de um periódico colaboracionista.
Fervoroso antissemita, Brasillach publicou em
seu jornal listas de nomes e endereços de judeus franceses, contribuindo para
que muitos fossem destituídos de suas cidadanias, demitidos de seus empregos,
presos e, posteriormente, deportados para campos de
concentração.
Embora Brasillach tenha sido condenado à
morte, vários intelectuais franceses do pós-guerra, incluindo Albert Camus,
assinaram uma petição para que a pena não fosse aplicada. Beauvoir, entretanto,
recusou-se a assinar o documento, pois entendia que Brasillach deveria, sim,
ser condenado à morte, mas discordava da justificativa da sentença, que o
acusava de traição.
Segundo Beauvoir, para que o sentenciamento
de Brasillach pudesse, ainda que de modo precário, surtir o efeito desejado
pela sociedade francesa da época, ele deveria ter sido julgado em termos
concretos, com base em suas ações. Ela entendia que Brasillach deveria ter sido
sentenciado pelo modo como negou a humanidade de outros seres humanos, e não
apenas por traição.
Aqui, o posicionamento de Beauvoir dialoga
com o de Arendt, que, ao escrever sobre o caso Eichmann, considera justificável
a pena de morte aplicada ao réu, mas propõe uma sentença diferente daquela
proferida pelos juízes israelenses. Segundo Arendt, Eichmann merecia a morte
por executar uma política que negava a outros povos o direito de existir,
tomando para si o poder de decidir quem poderia habitar a Terra. Portanto,
nenhum ser humano teria obrigação de compartilhar o mundo com ele.
Apesar das diferenças nas abordagens de cada
caso, tanto Arendt quanto Beauvoir destacam a importância política da nossa
capacidade de julgar. Por isso, considero especialmente enriquecedora a minha
recente experiência de retornar ao texto de Beauvoir com um pouco mais de
bagagem, à luz do que Arendt escreve sobre Eichmann. Pois essa releitura me
trouxe novos recursos para dialogar com duas das minhas pensadoras prediletas.

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