quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Como o Master invadirá o ano eleitoral. Por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Se, em 2016, a blindagem do Centrão se deu pela derrubada de Dilma, a de 2026 pretende se dar pela derrota de Lula

liquidação do Will, braço do grupo Master com clientela nas classes C e D, amplia as faixas de renda afetadas pelo desmonte de um banco cuja teia de interesses se infiltrou no Estado. Dos três Poderes saem as informações que os enredam, num filme parecido com o da Lava-Jato. O Executivo é o Poder menos envolvido, mas, paradoxalmente, é aquele que mais tem que se preocupar. A efeméride ganhou um ponto de interrogação: 2026 repetirá 2016?

É outro o país, tanto que Luiz Inácio Lula da Silva voltou à Presidência. É outra a natureza do caso. Não há contratos estatais - o que não significa que o Estado não venha a ser lesado - e, sim, negócios sancionados por brechas regulatórias que permitiram de ganhos estratosféricos a lavagem de dinheiro até do crime organizado. As brechas se alargaram com a conivência de agentes públicos e até de braços dados com eles.

E é outra a arbitragem do rolo, se é que existe alguma. Em 2016, quem arbitrou (mal) o jogo foi o Supremo Tribunal Federal que, desta vez, para dizer o mínimo, está sem legitimidade para fazê-lo enquanto não tomar providências para afastar, para começo de conversa, o ministro Dias Toffoli do caso. Da visita do presidente da Corte, Luiz Edson Fachin, ao ministro Flávio Dino, no Maranhão, sobrou, como única conclusão, a que a questão Toffoli é incontornável.

Nesse jogo de várzea, os investigados tratam de jogar lama uns nos outros e naqueles que os investigam. Aliados do Master na política tratam de garantir um fôlego ali outro acolá nas instituições de controle para que ninguém pense em delação. Com seu questionamento à liquidação do Master pelo Banco Central, o ministro do TCU, Jhonatan de Jesus, cumpriu esta função, mas acabou enquadrado. Se ainda não fizeram o mesmo no STF é porque Toffoli conta com aliados dentro do próprio tribunal.

A origem da lama explica quase tudo. Aliados de Daniel Vorcaro têm se engalfinhado com aqueles de seu ex-sócio, Augusto Lima. Ambos foram presos na mesma operação. Soltos com tornozeleira eletrônica, continuam sob investigação. Lima é casado com uma ex-ministra de Jair Bolsonaro, mas seu ingresso no Master se deu a partir de negócio decorrente de uma privatização na Bahia pela gestão petista.

Este vínculo sempre preocupou o Planalto, mas não impediu que as operações seguissem. O sinal mais evidente desta preocupação foi a nomeação do ministro da Justiça, Wellington Lima e Silva. Antes de ocupar cargos sob Dilma Rousseff e Lula, Wellington foi o escolhido, de uma lista tríplice, para chefiar o Ministério Público da Bahia pelo então governador Jaques Wagner.

Ao fim de sua primeira reunião no Planalto, o novo ministro disse que o principal tema havia sido o Master, no que foi logo corrigido pelo ministro Sidônio Palmeira (Secom). Se é verdade que nenhum MJ controla a Polícia Federal, é razoável imaginar que o ministro da Casa Civil, Rui Costa, que não tem proximidade com o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, cultive, pelo menos, a expectativa de ser melhor informado.

Na dita reunião, com Wellington, Sidônio, Costa, Andrei e Dario Durigan (Fazenda), Lula cobrou investigação. O presidente o faz com a mesma veemência de Dilma Rousseff no início da Lava-Jato. Como acredita que não tem nada a ver com tudo isso, manda ir pra cima, não sem antes garantir um melhor fluxo de informações.

Em 2016, os próceres do Centrão envolvidos derrubaram Dilma, subiram ao poder com Michel Temer e propiciaram a ascensão da extrema-direita bolsonarista. Entre os petistas presos, aquele que hoje governa o país é obcecado em vingar sua biografia. Se o presidente está escaldado, o Centrão sofisticou sua blindagem enredando o Legislativo e o Judiciário no crime e ampliou sua presença no Congresso tornando o Executivo mais dependente.

Basta ver como este bloco de poder foi capaz de envolver, na mesma trama, o escritório da família do ministro que enfrentou o golpismo, Alexandre de Moraes, e o filho que Bolsonaro quer colocar no Planalto. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) mora numa casa financiada a modestíssimos juros pelo BRB, sócio do Master.

Só será possível medir a temperatura com a qual o caso Master afetará a relação entre os Poderes neste ano eleitoral quando o Congresso voltar do recesso. Lula entregou o comando da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) para o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, a quem não apenas cabe chancelar uma eventual CPI como conduzir a aprovação do ministro Jorge Messias (AGU) para o STF. É tão incerto o desfecho de uma CPI e tão grandes as contas a pagar de suas lideranças, que o Congresso tende a se acautelar. Já a pauta governista na Casa passará por barganhas sem fim.

Lula conta com dois ativos para evitar que a imagem de seu governo seja contaminada por esta crise. Um se pauta numa política externa que administrará o bônus do acordo do Mercosul com a União Europeia ante o avanço de Donald Trump. O outro são as próprias eleições presidenciais.

Se, em 2016, a blindagem do Centrão foi alcançada pela derrubada de Dilma, desta vez, a melhor maneira de fazê-lo será pela derrota de Lula. Para convencer o eleitor de que a alternativa à sua eleição é a entrega do Estado brasileiro para o crime, Lula não terá como tergiversar na garantia de que a PF vai até o fim.

 

 

 

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