sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

O equívoco de ser qualquer um. Por José de Souza Martins

Valor Econômico

A política foi transformada numa variante brasileira do vigilantismo, em que os membros do Legislativo não são eleitos para legislar e governar, mas para acusar e punir

No último decênio, o Brasil conheceu o que de mais deplorável tem havido no comportamento de políticos brasileiros. No desempenho parlamentar, a notória indistinção entre a cultura de rua e a cultura política.

Talvez não tenha sido significativo o aumento do número dos que não sabem se comportar nos recintos da expressão de nossa consciência coletiva e política. Mas, sim, o número dos que estão aquém da competência necessária à ocupação da função de representação política e tornaram-se claramente mais atrevidos perderam a vergonha de se comportar impropriamente no recinto parlamentar.

Há 70 anos, os políticos brasileiros, quando notoriamente aquém do necessário, tinham consciência do que é o decoro da representação política. Sentiam vergonha de agir de modo politicamente impróprio e, desse modo, tornar público aquilo que um político não pode ser nem tem o direito de ser.

Tornou-se emblemático o caso da eleição da rinoceronte Cacareco, como vereadora, em São Paulo, em 1959, com 100 mil votos. Cacareco fora emprestada pelo Zoológico do Rio.

Um segundo caso ocorreu também em São Paulo, no dia 3 de outubro de 2010, quando foi eleito deputado federal o palhaço de circo Tiririca, com quase 1 milhão e 350 mil votos. Seu bordão: “Vote em Tiririca, que pior não fica”. “Tiririca” é uma erva daninha de difícil remoção, que ataca os pastos, muito conhecida das pessoas de origem rural. O ator foi o deputado federal mais votado do país naquele ano. Sua votação foi, na verdade, um plebiscito sobre a política brasileira, sobre os partidos e os políticos.

Essa concepção antipolítica e antidemocrática da política definiu aqui o nervo de uma cultura política desconstrutiva. A política já não como ato de governar, mas de desgovernar, de desmontar o governo. Essa política é desgovernativa.

A trama de direita no Brasil ganhou, em consequência, um perfil peculiar e notoriamente patológico. Uma grande massa de pessoas que votam eleitoralmente, mas não votam politicamente, passou a caracterizar a possibilidade de uma maioria com grande chance de se tornar governo para desgovernar.

É significativo o número de evangélicos, sobretudo de igrejas pentecostais, mas não só delas, que compõe essa massa identificada com o propósito de ter um governo que não governa, apenas administra as manobras políticas que despolitizam o Estado e o governo. Que distribui migalhas de benefícios de governo entre grupos de interesse, facções de várias motivações, grupos religiosos. Política já se tornou entre nós a arte de desgovernar.

De modo que um governo com projeto de nação e programa governamental pode fazer grandes maravilhas governativas que, por mais relevantes que sejam, são consideradas irrelevantes. Não acarretarão para o partido que governa o crédito pela competência de governar.

Não é por acaso que políticos, no Congresso, dirijam a palavra a um país de mentira.

Bolsonaro muito provavelmente foi eleito e consegue sustentar sua força eleitoral porque personificava e personifica o voto desconstrutivo da negação da política e da democracia. Não é casual que muitos deputados e senadores se manifestem nas casas do Congresso como atores de um faz de conta, de bravata e valentia. É significativo que alguns se paramentem com pedaços de panos de cores da bandeira nacional. Que gravem com o celular sua própria teatralidade, como acusadores e policiais da República e personagens de um mandato para acusar como extensão da delegacia de polícia.

A política foi transformada numa variante brasileira do vigilantismo, em que os membros do Legislativo não são eleitos para legislar e governar, mas para acusar e punir, sejam as acusações verdadeiras ou não. “Fake news” transformaram-se numa indústria, e seus autores, em profissionais.

A profusão de opções evangélicas e de evangélicos na política tem pouco a ver com o direito dos adeptos de diferentes credos religiosos participarem do processo político. Tem sobretudo a ver com a necessidade dessa concepção antipolítica e antidemocrática de a política se legitimar através de crenças e valores que supostamente são a verdade e o verdadeiro.

Basta, porém, como estamos vendo agora, a indicação de que para um único pastor evangélico há indício de um vínculo com âmbitos da realidade que o vulgo considera demoníaco para que a trama seja multiplicadamente atingida.

Nesse processo de liquefação da política, aqui tudo vai sendo indevidamente tratado como equivalente. Ou seja, a sociedade brasileira está se transformando numa sociedade de ninguéns. Tudo e todos são qualquer um. Como o movimento político que surgiu na Itália depois da Segunda Guerra com o nome de qualquerismo.

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