O Globo
Aos 73 anos, o ex-presidente e
ex-senador Fernando
Collor poderá ser condenado a uma pena de algo entre sete e
nove anos de cadeia em regime fechado, com direito a alguns recursos. Se
dependesse do ministro Edson Fachin,
seriam 33 anos, dez meses e dez dias. Nessa conta, Collor seria libertado com
107 anos.
Desde a semana passada, quando o tribunal
condenou-o por malfeitorias praticadas como senador, entre 2010 e 2014,
calcula-se a dosimetria da pena. Esse caso nada tem a ver com o período em que
Collor ocupou a Presidência e dela afastou-se em 1992. Esse processo, onde se
detalhava o aparelho corrupto de seu governo, foi mandado ao arquivo pelo mesmo
Supremo Tribunal Federal.
Decisão judicial não se discute, mas balbúrdia não se entende. As acusações contra Collor vieram da falecida Operação Lava-Jato, com suas delações premiadas. Passaram os anos, um cidadão folheia o jornal e, nas páginas pares, a turma do juiz Sergio Moro é ré. O então procurador Deltan Dallagnol perdeu o mandato de deputado federal. Nas ímpares, é símbolo do combate à corrupção, permitindo a condenação de Collor. Votando pela absolvição do ex-senador, o ministro Gilmar Mendes recusou-se a sentenciá-lo porque as acusações vieram de delatores, inclusive de delinquentes confessos.
O Supremo que arquivou o processo da
máquina de roubalheiras de um presidente da República pode mandá-lo para a
cadeia por crimes cometidos no exercício do mandato de senador. Se não tivesse
tomado a primeira decisão, a segunda malfeitoria nunca teria acontecido. Isso
num país que viu um ex-presidente ser encarcerado pela Justiça e, anos depois,
exonerado, recolocado no poder pela vontade popular. Num sinal dos
tempos, Cristiano
Zanin, o valente advogado de Lula ao
tempo em que a Lava-Jato o tratava como pano de chão, é favorito para o
preenchimento de uma vaga no STF.
A balbúrdia do Judiciário reflete certa
perplexidade do andar de cima nacional com as malfeitorias de seus confrades.
Enquanto milhares de brasileiros pobres mofam na cadeia por delitos menores, os
maganos são afagados enquanto têm algum poder e apedrejados quando voltam ao
chão. Collor tornou-se exemplo desse declínio. Como senador, votou pelo
impedimento da presidente Dilma Rousseff e posteriormente aninhou-se no
bolsonarismo.
Há mais de meio século, o economista sueco
Gunnar Myrdal escreveu que os mecanismos de controle dos governos, quando não
funcionam, podem provocar um aumento da corrupção:
— Novas leis, quando não são aplicadas,
podem estimular o cinismo.
Myrdal escreveu isso pensando em países da
Ásia.
Com seu melancólico desfecho, a Operação
Lava-Jato envenenou por muitos anos o combate à corrupção no Brasil, o que
também não é novidade porque, em 1960, Jânio Quadros elegeu-se
cavalgando uma vassoura e, muitos anos depois, debilitado, foi levado à Suíça
para localizar o banco onde havia deixado sua poupança.
A astúcia do andar de cima nacional
produziu situações que embaralham o raciocínio de Myrdal. Os mecanismos de
controle não funcionam, mas dão um jeito para mostrar que funcionaram.
Collor caiu nessa máquina de moer quem
perde o poder.
Um comentário:
Não torço pra ninguém ser preso,gostariam que eles se emendassem.
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