O Estado de S. Paulo
O Centrão, e o que ele significa, já garantiu
vitória na eleição presidencial deste ano
O Brasil está dedicado a um curioso experimento político para provar que tudo funciona mesmo sem qualquer sentido de urgência e de vergonha. Os rituais da política não parecem levar em conta que o tempo vai agravando questões fundamentais como a das contas públicas. Ou da falta de crescimento.
O senso de pudor permanece no comportamento de alguns agentes nos três Poderes, mas em número insuficiente para compensar o corporativismo que é a marca mais evidente de um sistema político e de governo visto pelo grande público como dedicado a si mesmo. É zero a probabilidade de que isso se altere de dentro para fora.
É ilustrativo como o mundo político em
Brasília antecipa o que acontecerá em relação às contas públicas nas próximas
eleições. Caso o vencedor seja Lula e seu grupo, haverá ajustes graduais
dedicados apenas a evitar as consequências imediatas mais danosas da longa
trajetória de déficits primários e consequente aumento da dívida pública,
supõe-se.
Caso vença a oposição e seu grupo, haverá
ajustes mais abrangentes, mas vão passar longe de qualquer trauma político,
acredita-se. Que seria mesmo profundo caso alguém pense em realizar o ajuste de
4% do PIB (uns R$ 400 bilhões) tido como necessário por alguns economistas, e
como impossível pela “classe” política.
Pois o “grupo” que seria eleito com Lula é o
mesmo “grupo” que seria eleito com a oposição. O que se convencionou chamar de
“Centrão” se trata, na verdade, desta tóxica (em termos de perspectivas para as
próximas gerações) mescla de corporativismo e patrimonialismo, agravada pelo
peso das oligarquias políticas e econômicas regionais, que estão se
solidificando.
Nesse sentido, as negociações para a reforma
tributária e, mais recentemente, para definir um corte linear de benefícios
fiscais foram aulas magnas de antropologia sobre Estado e sociedade
brasileiros. Traduzido: o triunfo das partes sobre o todo, a vitória dos
interesses particulares políticos e privados.
Passa longe dessa maçaroca ideológica
qualquer noção de conjunto em relação ao País, uma espécie de denominador comum
das siglas do Centrão. Os traços que unem Congresso (o locus geográfico do
Centrão) e Judiciário (locus geográfico do STF) são, em boa parte, a defesa dos
privilégios de seus integrantes, e de suas respectivas condutas, cada vez menos
preocupadas com pudores. É esse o significado abrangente do escândalo do
Master.
Tornando tão peculiar neste momento o clima
geral em relação às eleições. É o de forte desejo de mudança, e poucas
esperanças. •

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