quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

A realidade de um mundo pós-ruptura. Por Martin Wolf

Valor Econômico

A Europa tem um papel fundamental na construção de um sucessor para a ordem global liderada pelos EUA

Na reunião anual do Fórum Econômico Mundial em Davos, na semana passada, ouvimos Donald Trump proferir um discurso desconexo, permeado por sua já conhecida mistura de ressentimento e megalomania. Também ouvimos Mark Carney, ex-banqueiro central e agora primeiro-ministro do Canadá, fazer um discurso brilhante sobre o fim da velha ordem e as opções para as chamadas “potências intermediárias”. Este último foi o acontecimento mais importante.

Carney começou citando um ensaio de Václav Havel, escritor, dissidente e o primeiro presidente da Checoslováquia pós-comunista. No texto, Havel sustentava que o comunismo se mantinha, nas palavras de Carney, “por meio da participação de pessoas comuns em rituais que, no fundo, elas sabiam ser falsos”. De modo parecido, argumentou Carney, “em grande medida evitamos apontar as discrepâncias entre a retórica e a realidade” daquilo que chamávamos de “ordem internacional baseada em regras”.

Mas, no mundo atual da interdependência instrumentalizada, “não se pode viver da mentira do benefício mútuo por meio da integração quando a integração passa a ser a fonte da sua subordinação”. O momento atual, disse ele, marca “uma ruptura, e não uma transição”. Ele está certo.

Carney insistiu que a velha ordem não só não vai voltar, como “não deveríamos lamentá-la. A nostalgia não é uma estratégia”. A frase seguinte (“Acreditamos que, a partir da ruptura, podemos construir algo melhor, mais forte, mais justo”) é uma esperança, mas também não é uma estratégia. Um analista sóbrio precisa se perguntar se, e até que ponto, ela pode vir a se tornar uma.

Se quisermos transformar esperança em realidade, é preciso reconhecer que o paralelo que ele traçou entre as mentiras que sustentaram o comunismo e aquelas que legitimavam o antigo regime global é enganoso. As primeiras, eram mentiras descaradas: os antigos regimes do Leste Europeu fracassaram em todas as dimensões em relação à Europa Ocidental. As segundas, porém, eram melhores até do que meias-verdades.

A resolução de disputas no âmbito do Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (Gatt) e da Organização Mundial do Comércio (OMC), por exemplo, era frequentemente eficaz, mesmo contra os Estados Unidos. Como o próprio Carney observa: “A hegemonia americana, em particular, ajudou a prover bens públicos: rotas marítimas abertas, um sistema financeiro estável, segurança coletiva e apoio a estruturas para a resolução de disputas”. A ordem liberal estava longe de ser uma mera ficção.

Muito mais importante ainda, o período pós-Segunda Guerra Mundial foi, em termos gerais, um sucesso enorme e sem precedentes. Desde a Guerra da Coreia, no início dos anos 50, não houve guerra direta entre grandes potências. A disseminação da prosperidade e as melhorias na saúde em grande parte do mundo também não têm precedentes. A abertura da economia mundial ao comércio e aos investimentos deu uma contribuição vital para isso: qualquer chinês ou indiano sensato concordaria.

Quanto às dificuldades de ajuste em alguns países, sobretudo nos EUA, elas decorrem de escolhas políticas feitas pelos mais prósperos. O resultado tem sido o protecionismo caótico de Trump. Mas ele não conseguirá amparar as pessoas que afirma querer ajudar: trata-se de uma fraude.

Resumindo, a integração foi fonte tanto de prosperidade quanto de vulnerabilidade. O sistema esteve longe de ser uma mentira, mas acabou se transformando em uma, à medida que o mercantilismo de uma China em ascensão se combinou com o protecionismo de um EUA em declínio. O resultado foi forçar os países a se protegerem por meio de estratégias de mitigação de riscos. Mas, não se engane, essa postura defensiva terá um custo elevado.

A abertura da economia mundial ao comércio e aos investimentos contribuiu para a disseminação de uma grande prosperidade no pós-guerra. Mas essa integração também gerou vulnerabilidades, que resultaram no protecionismo caótico dos EUA de Trump

Então, para onde devemos ir a partir daqui se quisermos minimizar as perdas causadas pela ruptura? A recomendação da Carney é que haja acordos entre as “potências intermediárias” como uma alternativa a um “mundo de fortalezas”. Sua abordagem se baseia no que Alexander Stubb, presidente da Finlândia, chama de “realismo baseado em valores”: o Canadá será “guiado por princípios em seu compromisso com valores fundamentais”, ao mesmo tempo em que irá “se engajar de forma ampla e estratégica, com os olhos bem abertos”.

Suponhamos que todas as potências intermediárias sigam uma direção semelhante; onde isso funcionaria melhor, onde funcionaria pior e o que mais seria necessário para que os problemas fossem resolvidos?

Comércio e investimento são as áreas mais fáceis de sustentar. O colapso das velhas regras cria uma incerteza custosa, especialmente em relação ao comércio com os EUA. Ainda assim, estes responderam por apenas 17% das importações mundiais de bens em 2024. É um mercado grande, mas não é o único.

Dinheiro e finanças são mais complicados. As potências intermediarias permanecerão vulneráveis à coerção dos EUA por meio do uso do dólar e da dependência do sistema financeiro americano, a menos que haja alguma reforma radical. O uso do yuan não é uma solução: apenas cria outra vulnerabilidade.

A segurança é um desafio ainda mais difícil. O mundo conta com três superpotências nucleares claras e duas potências militares plenas. Há um limite para a capacidade da maioria das potências intermediárias de prover segurança para si mesmas e para seus parceiros. Diante de algumas ameaças - como a pirataria, por exemplo -, elas podem ser eficazes. Mas contra outras, isso se mostrará bem mais complicado.

Ainda mais difícil será garantir certos bens públicos globais, sobretudo ações contra as mudanças climáticas, se uma ou mais superpotências se opuserem ferozmente. Nesse caso, será necessária uma cooperação global - e talvez até sanções contra os EUA.

Quanto mais se examina o que está por vir, mais importante a União Europeia se torna - aos olhos de Trump, o maior inimigo -, como argumenta meu colega Martin Sandbu. A cada dia que passa, mais responsabilidades e poder são impostos à União Europeia, em todos os domínios. Felizmente, ela não está desarmada. Como observa Robert Shapiro, subsecretário do Comércio no governo de Bill Clinton, a alavancagem financeira da Europa sobre os EUA é substancial. Ela precisa usá-la.

Em seu livro, escrito no exílio, Stefan Zweig (escritor austríaco judeu que se suicidou no Brasil em 1942), descreveu o mundo perdido da Europa anterior à Primeira Guerra Mundial. Nós também estamos perdendo um mundo. Ele também era imperfeito, embora muito melhor do que aquele. Desta vez, a Europa precisa ser uma salvadora, não uma destruidora. O Reino Unido também terá de se juntar às lutas que se avizinham. (Tradução de Mário Zamarian).

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