quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Proposta liberou-geral do TSE fortalece ministros. Por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Proposta de Kassio Nunes que entrará em consulta pública nesta segunda escancara eleição para a desinformação mas fortalece poder discricionário do TSE e, em última instância, do STF

A presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Cármen Lúcia, vê as eleições de outubro, em função do avanço da inteligência artificial, sob a mais grave ameaça de desinformação da história. A ministra faz este alerta enquanto é gestada, na Corte eleitoral que ainda preside, o escopo legal desta ameaça, a trepidante proposta de resolução que vai reger a disputa de outubro.

Pela tradição do TSE, as balizas da disputa são coordenadas pelo ministro que a presidirá. Como o vice de Cármen, o ministro Kassio Nunes Marques, assume o comando do tribunal em agosto, é dele, pois, a incumbência. O ministro diz que o tema ainda está sob consulta e evita se pronunciar sobre o cenário desenhado pela proposta.

São três os sinais de alerta: apenas será autorizada a remoção de perfis comprovadamente falsos e criminosos, o impulsionamento antecipado de propaganda negativa contra governos é permitida desde que não faça referência às eleições e a entrega de material de campanha em locais de uso comum é liberada.

Se esta proposta estivesse em vigor em 2024, talvez São Paulo estivesse sendo governada por Pablo Marçal com seus campeonatos de cortes, ilícitos mas não “criminosos”. Perfis de influenciadores financiados por bets, por exemplo, como se viu em larga escala na campanha contra a liquidação do Master, também podem ter sinal verde para impulsionar conteúdo contra governos que buscam regular o mercado de apostas, como aquele que hoje tem assento no Palácio do Planalto.

E, finalmente, ninguém vai poder fazer nada se Luciano Hang transformar as lojas Havan, espaços de “uso comum”, em quermesses aberta de santinhos e camisetas do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

É uma proposta talhada para personagens como o deputado Kim Kataguiri, líder do MBL, que deve se filiar ao recém-criado “Missão”, partido que já tem um pré-candidato à Presidência, Renan Santos, incentivado por gente bem posta no mercado financeiro.

Em entrevista à Folha de S.Paulo, Kataguiri mostrou a missão que vai cumprir este ano: “Quem não aguenta acidez e agressividade deve ficar em casa porque política é guerra”. No torpedo desta semana, Kataguiri, que ainda é filiado ao União Brasil, presidido por Antonio Rueda, da tropa de choque do Master, fez um vídeo sobre o banco, baseado no noticiário do “Metrópoles” e intitulado “Lula envolvido”.

As questões de mais impacto durante uma campanha eleitoral acabam chegando ao Supremo Tribunal Federal em sessões que os ministros com assento no TSE acabam por ter peso. Em outubro deste ano os três egressos do STF na Corte eleitoral serão os dois escolhidos pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, Nunes Marques e André Mendonça, e Dias Toffoli, o controverso relator do caso Master no STF.

Ante a cobrança de ministros do STF para que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva saia em sua defesa no Master, o que se ouve no seu entorno é que o presidente da República não tem relação com o caso. E que os ministros devem ir a público para sua própria defesa.

A postura do Palácio do Planalto ganhou tradução naquela da ministra da articulação política, Gleisi Hoffmann, que naturalizou o encontro entre Lula e Daniel Vorcaro como os que o presidente costuma ter com banqueiros. A diferença é que as audiências concedidas ao Bradesco e ao Itaú, por exemplo, costumam estar registradas na agenda oficial.

Numa eleição ameaçada por regras como aquelas propostas por Nunes Marques e com franco-atiradores como Kataguiri, é compreensível que Lula tente se distanciar do caso do qual ministros e ex-ministros seus dele mantiveram excessiva proximidade, mas este não é o fim da história.

Os ministros do STF não dependem das urnas, como Lula, mas, como querem permanecer em Brasilia, se valem do que têm à mão. Na noite desta terça, por exemplo, o ministro Alexandre de Moraes achou por bem excetuar as receitas do Ministério Público da União do arcabouço fiscal.

Dessa maneira, suas instâncias, entre as quais o MPF, que tem entre suas atribuições a denúncia por suspeição contra ministro do STF, fica preservado da incômoda missão imposta ao restante da máquina pública de adequar seus gastos aos ditames fiscais.

A posse do ex-procurador-geral de Justiça da Bahia, Wellington Lima e Silva, no Ministério da Justiça, argumentam os governistas, não impedirá o trabalho da Polícia Federal da mesma maneira que a entrada de Ricardo Lewandowski no governo, ainda sob a vigência do contrato de advocacia do escritório de sua família com o Master, não impediu Vorcaro de ser preso sob sua gestão.

No entorno de Lula, acredita-se que a cúpula do Congresso terá menos interesse que os governistas em instalar uma CPI do Master face aos vínculos construídos por Vorcaro com os grupos políticos que hoje comandam a Câmara e o Senado. Este é o cenário hoje, mas se a PF vai continuar a trabalhar, pode não ser o de amanhã.

Se a investigação seguirá seu trâmite, a eleição também o fará, a ver, ainda, sob que regras. Se o escrutínio do eleitor impõe cautela a Lula, regras que promovam um liberou-geral para a guerra da desinformação acabam dando mais poder aos ministros do TSE e, em última instância àqueles do Supremo, que, assim, poderão fazer de suas sentenças o Norte desta eleição.

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