O Estado de S. Paulo
Para quem esperava um BC leniente no governo
Lula, script não poderia ter sido mais diferente
O Banco Central manteve a Selic em 15% ao ano, mas indicou que vai começar a cortar a taxa na próxima reunião, em março. O BC, dessa forma, cumpriu à risca as boas práticas de condução da política monetária: subiu os juros quando a inflação ameaçou sair do controle, suportou a pressão política que vinha de vários lados e esperou pacientemente até que ficasse claro o efeito do aperto sobre os preços e sobre o controle das expectativas. Para quem esperava um BC leniente no governo Lula, o script não poderia ter sido mais diferente.
O ciclo de cortes vai começar com a inflação
já dentro do intervalo de tolerância, mas ainda longe do centro da meta de 3%.
Por isso, o comunicado da reunião do Copom sinalizou que os juros vão cair, mas
que permanecerá a “restrição adequada para assegurar a convergência da inflação
à meta”.
Em português claro, o corte deve ser pequeno,
possivelmente de 0,25 ponto porcentual, o que manterá a Selic em patamar
extremamente elevado mesmo em ano eleitoral. O calendário político, na verdade,
não faz parte do horizonte relevante para o Banco Central; mas, no Brasil,
poucos conseguem entender que a condução da política monetária funciona dessa
forma. É o mesmo erro que tem sido cometido pelo presidente americano Donald
Trump, que pressiona o Fed para reduzir os juros.
Esta semana o IBGE divulgou o IPCA-15 de
janeiro, que mostrou uma leve aceleração na taxa acumulada em 12 meses, de
4,41% para 4,5%. Essa alta já era esperada, mas há poucos meses a expectativa
dos economistas era de que o número voltasse a estourar o teto – o que não
aconteceu. O cenário ficou um pouco mais benigno. Ao mesmo tempo, o Boletim
Focus, que capta as projeções do mercado, aponta que o IPCA vai terminar 2026
em 4%, para recuar para 3,8% no ano que vem e cair novamente para 3,5% no ano
seguinte.
Já o Banco Central, pelo seu modelo, prevê
que a inflação estará em 3,2% no terceiro trimestre de 2027, muito próxima da
meta de 3%. Por vários ângulos, a expectativa é de redução da inflação, e não
de alta. O BC ainda pode receber uma ajuda do dólar fraco, com a fuga de
capitais dos EUA e das políticas de Trump, em direção a países emergentes como
o Brasil. Quanto maior for esse fluxo, mas fácil ficará o trabalho de quebra da
inércia inflacionária.
Em meio à tempestade do Banco Master, com muitos tentando culpar a polícia pelos crimes do ladrão, o Banco Central acertou na condução dos juros para o controle da inflação.

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