sábado, 14 de fevereiro de 2026

Alfabetização necessária, por Cristovam Buarque

Veja

É preciso cuidar sobretudo da educação de base

Uma recente avaliação do ensino de medicina alertou para os riscos à saúde dos brasileiros caso nossos médicos continuem a se formar nessas faculdades. Faltou denunciar os riscos à saúde do Brasil se continuarmos a educar nossas crianças e jovens nas atuais escolas de base. Os brasileiros precisam cuidar da qualidade das faculdades que formam doutores, sim, mas também da educação que vem desde o início, da infância. Além de outros fatores — protecionismo, burocratismo, insegurança jurídica, custo da máquina estatal e infraestrutura degradada —, a principal causa da estagnação de nossa renda média está na falta dos conhecimentos necessários para nos integrarmos ao mundo moderno. Sem a plena alfabetização de toda a população para a contemporaneidade, o país continuará sujeito a sete enfermidades: baixa produtividade, concentração de renda, pobreza, violência, instabilidade, corrupção e endividamento.

O primeiro analfabetismo a ser superado é o da proficiência na língua nacional. Dez milhões de adultos não sabem ler nem escrever, incapazes de reconhecer a própria bandeira nacional. Cinquenta ou sessenta milhões conseguem ler “Ordem e Progresso”, mas não sabem interpretar corretamente um texto longo; são incapazes de escrever uma redação com lógica, entender o manual de um equipamento ou a receita de um bolo.

“Dez milhões de adultos não sabem ler nem escrever, incapazes de reconhecer a própria bandeira”

A alfabetização para o mundo contemporâneo deve oferecer a cada brasileiro capacidade para entender, deslumbrar-se e mudar o país e o mundo: conhecimento dos fundamentos da matemática, das bases das ciências físicas e sociais, além de história, geografia e gosto pelas artes. Deve também permitir compreender os desafios que se apresentam ao país e ao planeta, inclusive os limites ao crescimento econômico e os riscos decorrentes da crise ecológica. Deve oferecer consciência política e compromisso para participar dos destinos da nação.

Uma forma de analfabetismo diante do mundo moderno é não falar e escrever ao menos um idioma estrangeiro. Sem isso, torna-se difícil participar do mundo e praticamente inviável cursar um ensino superior de qualidade. Outro componente do analfabetismo contemporâneo é a ausência de habilidades técnicas para o exercício de pelo menos um ofício que assegure emprego e renda.

O cidadão alfabetizado para a contemporaneidade não precisa necessariamente ingressar na universidade, mas, se tiver vocação e desejar cursar o ensino superior, deve estar preparado para disputar vaga nos cursos mais concorridos. Nos tempos atuais, ser alfabetizado exige entender que cada país é um pedaço do mundo e que o PIB deixou de ser o único indicador de progresso, pois a riqueza precisa ser sustentável ecologicamente e socialmente justa. Para que o conhecimento seja efetivo, é necessário formar cada brasileiro para a solidariedade entre os seres humanos e destes com a natureza. Não há outra saída.

A educação de base com qualidade deve oferecer a cada brasileiro um mapa para a busca de sua felicidade pessoal e os instrumentos para contribuir na construção de um país mais rico economicamente e melhor socialmente. Para dar saúde ao Brasil — e, portanto, também médicos de excelência —, é preciso implantar um sistema nacional público de educação de base com alta qualidade para todos, independentemente da renda e do endereço.

Publicado em VEJA de 13 de fevereiro de 2026, edição nº 2982

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