Não por acaso escreveu uma obra como O Capital, e, ainda, foi a principal figura da Associação Internacional dos Trabalhadores, em 1864.
Ou seja, propôs uma união indissolúvel, dialética, entre teoria e prática, entre conhecimento e transformação social. Naturalmente, nem todo grande militante é um teórico de primeira linha, mas devo dizer que não conheço nenhum teórico de qualidade que não tenha sido um militante de valor. Penso, muito particularmente, naqueles homens que participaram da III Internacional Comunista ou foram por ela influenciados, a partir de 1919. Poderíamos alinhar alguns nomes, a saber: Lenin, naturalmente, mas também Nikolai Bukharin, Giorgi Dimitrov, György Lukács, Evgueni Varga, Palmiro Togliatti, Antonio Gramsci, José Carlos Mariátegui, Leôncio Basbaum, Milovan Djilas, Karel Kosik, Adam Schaff, Ernst Fischer, Ernst Bloch, Paul Boccara e Ludovico Silva
Há tensões? Há. O militante trabalha com a certeza e o intelectual com a dúvida.
De qualquer forma, Marx demonstrou, de um lado, que as sociedades são submetidas a determinadas leis e, de outro, que essas leis são mutáveis.
Quanto à entrada e ao crescimento do pensamento de Marx no Brasil, eis o que merece um livro. Tirando uma ou outra referência de corte mais erudito a Marx, ainda no final do século XIX ou no início do seguinte (Tobias Barreto, Silvério Fontes, Euclides da Cunha), eu diria que sua obra foi introduzida por aqui pelos comunistas, isto é, pelo viés da atividade política. Teve importante papel nesse processo o gráfico e intelectual autodidata Astrojildo Pereira, um dos fundadores do PCB. A Universidade passou a se interessar, posteriormente, pela obra de Marx, sobretudo os grupos de estudos reunidos na USP. Hoje, eu diria até que nós temos um verdadeiro marxismo de funcionário público, tamanho o número de professores que se reivindicam do legado do pensador e revolucionário alemão.
Marx apareceu em minha vida quando li o Manifesto do Partido Comunista aos 15 anos de idade, por volta de 1967, e comecei então a me aproximar do movimento estudantil. Eu me interessei pelo marxismo por intermédio da política e pela necessidade de conhecer melhor a realidade brasileira e poder assim transformá-la. Esta a motivação; não houve outra. Não havia, de um lado, o estudo e, de outro, a prática.
Pouco mais tarde, tendo me dedicado à pesquisa histórica, nos anos 70, eu pude me valer não só dos grandes conceitos elaborados por Marx – a começar por aquele de modo de produção – como também pelo que poderíamos denominar de conceitos intermediários, como a sua visão, por exemplo, da questão nacional (esta noção de conceitos intermediários eu assimilei durante os cursos de Pierre Vilar, na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais - EHESS, em Paris). Procurei integrar a concepção marxista de classes sociais a meu trabalho, muito especialmente quando me debrucei sobre o Quilombo dos Palmares, que considero a nossa primeira luta de classes. Espero ter conseguido. Foi neste momento que eu comecei de fato a receber a influência do método marxista em minhas análises históricas e sociais.
Marx partia do exame da realidade, elaborava um aparato conceitual com base nessa mesma realidade, e, uma vez dispondo desse aparato, retornava, melhor equipado intelectualmente, à análise da realidade, com o objetivo de compreendê-la em todas as suas dimensões. O conceito, para Marx, é, portanto, uma aproximação ao real, e não a sua substituição pelo próprio conceito. De outro lado, ao partir da realidade – e não da ideia ou do chamado espírito universal – Marx afirmava também o papel central das condições materiais na formação da consciência humana e não o contrário. Em outras palavras, percebe que o homem estabelece uma relação dialética com o mundo objetivo, onde não existe preponderância do sujeito sobre o objeto nem dominação do objeto sobre o sujeito, mas interação entre esses dois fatores. Daí resulta o conhecimento, a transformação.
O fundamental para o homem é a maneira como ele produz a sua existência, isto é, como cada um se organiza para sobreviver. Em uma sociedade de classes isso implica a ocorrência de relações de produção determinadas, que são justamente as relações que os homens estabelecem entre si no decorrer do processo produtivo. Ora, para produzir é necessário dispor de meios de produção (máquinas, matérias-primas, terras são alguns desses meios). Como, em uma sociedade de classes, esses meios de produção em geral não pertencem aos trabalhadores, estes se encontram em uma situação de pessoas alijadas ou alienadas dos meios de produção. A centralidade do trabalho é tamanha que aquele que não dispõe do controle sobre a esfera da produção, do controle sobre a sua sobrevivência, em suma, é alienado de si mesmo, perdendo o domínio sobre a sua própria vida. Se antes a produção se baseava no valor de uso, que representa o trabalho concreto inerente ao objeto, na sociedade capitalista prevalece agora o valor de troca, determinado pelos interesses do capital, pelo seu preço de venda.
Karl Marx entendia a História como “uma transformação profunda da natureza pelo trabalho humano”. E, ao examinar as sociedades do seu tempo, ele destacou a importância de percebermos nelas algo fundamental: vale dizer, a forma de existência social da força de trabalho. No capitalismo, essa forma apontava para o trabalho assalariado produtor de mercadorias. Nas sociedades escravistas, prevalecia a forma de exploração do trabalho escravo. Nenhuma política séria de intervenção na realidade social pode deixar de levar isso em conta, ainda mais em uma fase de profunda renovação da base material das nossas sociedades. Pois vivemos uma nova revolução industrial, a qual transfere para a máquina uma parte considerável da nossa capacidade intelectual, como outrora se transferia uma parte também considerável da nossa capacidade muscular. Creio que a base material da sociedade sem classes repousa na automação. Extrair mais-valia de um robô, por exemplo, é um tanto quanto difícil. A rigor, já reunimos as condições técnicas para isso. Mas as condições políticas ainda não. E Marx pode nos ajudar a entender melhor esse processo em curso, inclusive em países como o Brasil. A contradição essencial se dá entre o capital e o interesse público.
Para finalizar, eu diria que considero Marx um antropólogo, um estudioso do homem e das relações que estabelece com seus semelhantes e o próprio meio circundante. Seja no tocante ao papel do indivíduo na História, seja no trato de questões envolvendo o Estado e a Democracia (Marx considerava, em 1852, que a maior conquista dos trabalhadores tinha sido o sufrágio universal), sua contribuição segue sendo indispensável para nós, nessas primeiras décadas do século XXI.
À época de Marx não havia ainda a Psicanálise, a Linguística, a Cibernética, a Semiologia e a própria Antropologia praticamente engatinhava. O mesmo podemos dizer da Arqueologia, talvez a principal fonte de renovação dos estudos sociais nos tempos atuais. O grande desafio colocado diante do seu pensamento tem que ver, justamente, com o diálogo que se possa abrir com esses novos campos, com a experiência crítica que neles se desenvolve. E essa é, a meu juízo, uma tarefa inadiável na perspectiva do próprio avanço do legado humanista de Marx.
Ivan Alves Filho, historiador

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