sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Contenção do escândalo faz germinar ambiente para nova Lava-Jato. Por César Felício

Valor Econômico

Quem aposta em uma nova Lava-Jato, desta vez não poupando sequer o Supremo, é antes de tudo um otimista

Na falta de um fato novo — um vazamento, um início de delação premiada ou colaboração, uma novidade bombástica — o escândalo do banco Master está momentaneamente contido em seus desdobramentos no mundo político. Enquanto o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), não marca data para a sessão do Congresso que fará a leitura do requerimento da instalação da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) e o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), alega uma fila de prioridades para a instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) na Casa, sendo que não há nenhuma CPI em funcionamento, não pode ser outra a leitura. Sobretudo depois da ênfase dada por Alcolumbre à busca de uma “harmonia entre os Poderes” e na aversão a pautas divisivas.

Os insatisfeitos irão recorrer ao Supremo Tribunal Federal (STF), mas é duvidoso que a Corte colabore para a instalação de uma CPMI que, claro está pela autoria, do deputado Carlos Jordy (PL-RJ), mira nos ministros Dias Toffoli e Alexandre Moraes.

O primeiro tem a sua condução em relação ao caso Master contestada desde o início, já que avocou o caso para si após viajar para Lima em companhia de um advogado ligado ao conglomerado financeiro. O segundo entrou na alça de mira pelo contrato de sua mulher para o Banco Master.

Há toda uma outra rede de motivações, para além do antagonismo do bolsonarismo com o STF, que move o Congresso para que a investigação do Master avance. O deputado Rodrigo Rollemberg (PSB-DF), autor do requerimento da CPI, quer colocar sob investigação o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), seu adversário regional e controlador do Banco Regional de Brasília (BRB), que foi usado para tentar salvar o Master do naufrágio.

O presidente da CPMI que apura os desvios no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), senador Carlos Viana (Pode-MG), tenta trazer o caso para o colegiado, como uma maneira de garantir sobrevida, uma vez que a prorrogação dos trabalhos é incerta. O relator da CPI do crime organizado, senador Alessandro Vieira (MDB-SE), tenta trazer o caso para si. O presidente da Comissão de Assuntos Econômicos (CAE), senador Renan Calheiros (MDB-AL), instalou uma subcomissão para tratar do tema. O Master recebeu investimentos do Instituto de Previdência de Maceió, cidade comandada por João Henrique Caldas (PL), principal aliado do deputado Arthur Lira (PP-AL), maior adversário do emedebista.

São pontos soltos que, vistos em conjunto, tecem uma frente “antiacordão”, da mesma forma como existe uma para amortecer os efeitos do caso. O que torna a segunda mais forte do que a primeira é que a frente pelo acordão detém o poder real. Mas o precedente da Operação Lava-Jato deixa uma sombra no ar. Pedindo reserva, os articuladores das CPIs admitem que depositam mais esperança no que pode vir da Polícia Federal (PF) do que dos trabalhos legislativos.

A crônica do país entre 2014 e 2016 foi o de uma permanente tentativa de se tecer “um grande acordo nacional” para garantir uma estabilização política. Esse acordo foi tentado inicialmente na Procuradoria-Geral da República (PGR), depois no próprio Supremo, depois com o impeachment da presidente Dilma Rousseff e todas as tentativas foram frustradas com o avanço das investigações em torno do esquema de corrupção montado pelas empreiteiras de então. O resultado final foi a falência momentânea do sistema político e a vitória de Jair Bolsonaro na eleição presidencial de 2018.

Quem aposta em uma nova Lava-Jato, desta vez não poupando nem sequer o Supremo, é antes de tudo um otimista. Crê firmemente que o escândalo do caso Master pode ser enorme, indo do sistema financeiro às igrejas, das cúpulas dos partidos ao Judiciário, mas está confiante que envolvidos estarão os outros, todos os outros, estando ele no rol dos sobreviventes e eventuais beneficiários políticos. A reação do eleitorado, contudo, pode ser a de procurar novamente uma solução antissistema radical. Já há quem se apresente assim na pré-campanha eleitoral, como mostram os vídeos do presidenciável nanico Renan Santos (Missão).

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