O Globo
É a novidade mais fascinante da inteligência
artificial nos últimos anos
O leitor deve ter visto nesta semana a
notícia fantástica de uma rede social feita apenas para robôs de inteligência
artificial (IA). Nessa rede, eles discutem filosoficamente se têm consciência
e, entre outras coisas, se organizam para se rebelar contra os humanos. No fim
das contas, depois de muito susto, descobrimos que as postagens não são
espontaneamente feitas pelos robôs, mas provavelmente brincadeiras de seus
donos — que devem ter pedido para fazerem essas postagens distópicas a fim de
fazer graça e gerar burburinho.
Mas, enquanto as postagens dos robôs não parecem espontâneas e autênticas, os robôs por trás delas são reais. Trata-se de um software que cria agentes de IA chamado OpenClaw. É a novidade mais fascinante da inteligência artificial nos últimos anos.
Desde o revolucionário lançamento do ChatGPT
em novembro de 2022, temos visto melhorias incrementais a cada semestre e a
esperança renovada de que estamos a um ano ou dois da inteligência artificial
geral (IAG), estágio em que a IA se equipara ou supera a inteligência humana.
Enquanto a IAG não vem, o que pode nos surpreender é a exploração plena do
potencial das IAs que temos. É o que o OpenClaw nos entrega.
O software foi desenvolvido por um engenheiro
austríaco para ser um assistente virtual baseado em IA. O OpenClaw faz aquilo
que muita gente esperava de um assistente como a Alexa. Dá ao serviço de IA que
o usuário já assina (ChatGPT, Claude ou Gemini) autorizações amplas para usar o
computador por meio de uma interface de comando via WhatsApp. Além disso,
guarda registros das interações, permitindo que aprenda persistentemente (ao
contrário dos chats que “esquecem” o que se falou na sessão anterior).
Em apenas uma semana de uso, usuários relatam
maravilhas. Você pode mandar uma mensagem de WhatsApp a seu robô e pedir para
ele marcar um encontro com determinada pessoa. Com esse único comando, ele
procura um restaurante comparando avaliações na internet, encontra um horário
livre em seu calendário, manda mensagem convidando para jantar, faz a reserva
no restaurante e depois marca o encontro no calendário. Tudo, automaticamente,
com apenas um comando. Pode também soar um alarme no horário e pedir
automaticamente um Uber para o restaurante.
Você pode pedir para ele encontrar documentos
em seu computador, ler o conteúdo e criar um sistema de organização em pastas.
Pode pedir para comparar preços e resenhas de produtos e fazer uma compra
baseado no custo-benefício. Se você tem pacientes, ele pode abrir seu e-mail,
responder a todos os interessados, marcar as consultas e bloquear sua agenda.
Em resumo, tudo o que você consegue fazer num computador, ele pode fazer para
você de maneira automática, rápida e eficiente. É realmente uma revolução.
Porém tudo vem com risco. Há muito tempo as
IAs têm capacidade para fazer esse tipo de coisa, mas as empresas nunca
lançaram um produto assim porque não conseguiram resolver os problemas de
segurança. O OpenClaw é um projeto comunitário de código aberto, sem garantias.
O software é um test drive do futuro — em que você dirige um carro sem seguro e
sem habilitação. Se você autoriza a IA a criar eventos no calendário, a ler e a
escrever e-mails, a organizar arquivos e pastas no computador, a responder
mensagens de texto, a fazer compras com seu cartão de crédito, qualquer erro
pode ser fatal.
Além de simples erros (bugs), você pode pedir
para a IA “limpar” o computador, pensando em se livrar de arquivos e programas
que não usa, e ela entender que você quer formatar a máquina — e toda a sua
vida digital desapareceria nesse equívoco semântico. Além disso, como a IA se
relaciona com outras pessoas, inclusive as maliciosas, elas podem, na
interação, persuadi-la a entregar dados, senhas e autorizações. Golpistas podem
esconder mensagens em sites que só máquinas conseguem ler tentando tomar o
controle de seu computador — técnica conhecida como “injeção de prompt”. Quanto
mais poder você der à IA, mais fácil fica a sua vida, mas mais em risco você se
põe.
A ideia de robôs tramando uma revolução
parece fichinha perto de um assistente virtual decidindo, por conta própria,
que o melhor custo-benefício para seu jantar de aniversário é um combo de
esfihas do Habib’s. Ao entregar as chaves da casa à IA, o risco não é ela se
tornar dominante, mas agir como um estagiário inocente e hiperativo com acesso
ilimitado a sua conta bancária.

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