sábado, 7 de fevereiro de 2026

Mudança Já! Por Ivan Alves Filho

O Campo Democrático enfrenta desafios tremendos no Brasil de hoje. Andar pelas ruas, conversar com as pessoas nos ônibus, nas praças, nos bares e em outros locais públicos possibilita a cada um de nós tomar, de certa forma, o pulso do país. Estes encontros e andanças emitem sinais claros de cansaço por parte da população frente ao ordenamento político, apontando para uma quebra de confiança nas instituições. E nada é mais perigoso do que isso.

Não há  dúvida de que tanto o Supremo Tribunal Federal quanto o Congresso Nacional e o próprio Governo Federal estão submetidos ao olhar atento da população. Quem quiser que se iluda. 

Além do que, são poucos, muito poucos, os setores da vida nacional que funcionam de fato. Saúde, Segurança Pública, Educação, Saneamento básico, distribuição de renda, tudo se encontra praticamente em frangalhos. Enquanto a produtividade cresceu em média 1,9% ao ano entre 1985 e 2022, o rendimento real da força de trabalho cresceu apenas 0,4% ao ano. Para o período que vai de 2012 a 2024, a inflação de alimentos aumentou 162%, contra 90% da inflação medida pelo índice oficial, o IPCA. Nem é preciso dizer qual o peso da alimentação no orçamento das classes mais desfavorecidas da sociedade. Além disso, entre 2010 e 2022, duplicou o número de favelas no Brasil, hoje com mais de 12 mil unidades, onde mais de 16 milhões de brasileiros vivem em condições extremamente precárias. Os números indicam ainda 35 mil assassinatos por ano no Brasil, o país que mais mata no mundo em números absolutos. Como se não bastasse, mais de 37 mil pessoas morrem também anualmente em acidentes de trânsito entre nós e somos uma das nações com o maior número de feminicídios em todo o planeta, com um assassinato a cada quatro horas. Eis o que configura um país em acelerada decomposição. Quem quiser que se iluda também. 

Não creio ser um exagero dizer que o espaço da política vem sendo ocupado por representantes despreparados, sendo que alguns até investem na criação de um Estado teocrático. Os próprios movimentos sociais servem de trampolim para alavancar carreiras. A corrupção campeia, em todos os níveis da República, com um escândalo atrás do outro, das falcatruas do Banco Master aos desvios no INSS e destes ao chamado orçamento secreto. São dezenas e dezenas de bilhões de reais escorrendo literalmente pelo ralo. Onde isso vai parar? Existe um fundo nesse poço? Estas são perguntas que o homem comum se coloca e é preciso dar o máximo de atenção a elas.

O historiador Marc Bloch escreveu, pouco tempo antes de ser capturado e posteriormente fuzilado pela camarilha nazista que invadiu a França, em  maio de 1940, que o seu país tinha sucumbido diante do inimigo externo pelo fato de ter sido desarticulado pela corrupção no plano interno. Ou seja, a autoestima da França desabara, facilitando assim a vida dos totalitários, nacionais ou estrangeiros. O filósofo Platão escreveu que o Estado adoecia quando sucumbia à corrupção. 

Nós, brasileiros, estamos adentrando esse pantanoso terreno da baixa estima. O envolvimento do chamado crime organizado com setores expressivos do aparelho de Estado não ajuda nem um pouco nessa percepção negativa. 

Precisamos encontrar saídas, isto é, refundar o Brasil. Do jeito que está, fica praticamente impossível continuar. Daí a necessidade de criarmos uma Frente Ampla, unindo as diferentes sensibilidades políticas do Campo Democrático em torno de um projeto de nação. Relembrando sempre a necessidade de ampliar a Democracia, incorporar a questão ambiental, repensar o mundo do trabalho e refazer a identidade cultural brasileira. São eixos inegociáveis, em qualquer proposta digna desse nome. O Brasil não está condenado à mediocridade. A terra de figuras admiráveis como Sepé Tiaraju, Zumbi dos Palmares, Tiradentes, Aleijadinho, Tomás Antônio Gonzaga, José Bonifácio, Cipriano Barata, Castro Alves, Machado de Assis, Tarsila do Amaral, Heitor Villa-Lobos, Ismael Silva, Noel Rosa, Pixinguinha, Astrojildo Pereira, Oscar Niemeyer, Gregório Bezerra, Nise da Silveira, Rubem Braga, Luiz Carlos Prestes, Jorge Amado, Graciliano Ramos, Milton Santos, Ariano Suassuna, Nelson Werneck Sodré, Cecília Meirelles, Anísio Teixeira, Ferreira Gullar, Sobral Pinto e Nelson Pereira dos Santos saberá encontrar respostas para os impasses atuais. 

Neste contexto, começa a despontar um espaço novo, com a sociedade já revelando uma fadiga em relação a polarizações e populismos de todo tipo. Tenho para mim que o jogo principia a mudar. Aquelas forças que historicamente lograram tirar o Brasil das crises, apostando suas fichas na Democracia e em um projeto de nação, podem ressurgir com certa rapidez. No século XX, isso já aconteceu em 1956, com JK-Jango e o Plano de Metas, com as Reformas de Base de João Goulart a partir de 1961, com a frente ao redor de Tancredo Neves em 1984 e durante o Plano Real, com Itamar Franco, em 1994. Não por acaso, momentos que marcaram um ponto de virada. E o país caminhava para se repensar em 2014, com Eduardo Campos, vítima de um acidente fatal. 

Vamos ser claros: para determinados setores do Campo Democrático, há uma questão a ser contornada e ela se chama Partido dos Trabalhadores (PT), comandado há dezenas de anos por Luiz Inácio Lula da Silva. Diante disso, o que fazer? É possível derrotar dois populismos ao mesmo tempo, isto é, o bolsonarismo e o petismo? Muitos têm dúvidas quanto a isso. Mas acredito que sim. Já ocorreu antes. Seja como for, no caso de um embate direto do Campo Democrático com o próprio PT, no segundo turno das presidenciais deste ano, é provável que o eleitorado mais conservador, porém de corte democrático (pois existe), se alinhe contra o populismo petista. Inversamente, em caso de ida de algum candidato do Campo Democrático ao segundo turno contra o populismo bolsonarista, deixando o PT de fora, tudo indica que parte considerável do eleitorado que vota no Partido dos Trabalhadores se somaria ao Campo Democrático, por força gravitacional. 

O Campo Democrático pode perfeitamente pular para a linha de frente da política, ocupando o espaço que, em um passado nem tão distante assim, ficou a cargo do MDB, com o apoio inclusive de setores mais à esquerda do tabuleiro político. Ou seja, este campo é capaz de renascer à maneira de um MDB histórico.  

Trata-se de uma situação complexa, naturalmente. É preciso reconhecer que o processo de redemocratização brasileira nos frustrou, com quatro presidentes presos, dois impedidos e um que contornou a Constituição para se reeleger. A dificuldade que se coloca à nossa frente tem que ver com uma eventual descrença popular na Democracia. Se os democratas de diferentes matrizes não apresentarem um projeto factível, unindo-se a partir da sociedade civil, sempre maior que o Estado, a extrema-direita poderá capitalizar o descontentamento crescente no país. Tudo isso é fruto de um esgotamento do atual modelo de administrar a máquina pública e fazer política. 

Estamos assistindo, provavelmente, ao encerramento de um ciclo. Ou seja, o ciclo petista começa a datar e está conduzindo o Brasil a um beco sem saída. Começa a datar como datou a República Velha, o Estado Novo e o longo período da ditadura militar. Quem quiser que se iluda, mais uma vez. 

*Ivan Alves Filho, historiador

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