O Globo
Programas devem ser vistos como ‘auxílios
emergenciais’, não como direito adquirido, subsídio a eternizar. São paliativos
Pablo Ortellado defendeu, em coluna recente, que a melhor forma de garantir as cotas raciais é ampliar o debate, mostrando seus resultados positivos. Para reverter o decrescente apoio popular, bons argumentos valeriam mais que blindagem. No dia seguinte, Flávia Oliveira tratou do mesmo tema, considerando o assunto encerrado: qualquer discussão sobre as cotas é retrocesso e racismo. Sou Team Pablo na teoria: o debate ilumina, ajuda a construir o consenso. Sou Team Flávia na prática: ninguém solta a cota de ninguém, nenhuma cota a menos; mexeu com uma, mexeu com todas.
Há cotas para pretos, pardos, indígenas e quilombolas
— e comissões que escrutinam narizes, lábios, cabelos, melanina, filtrando os
elegíveis a essas quatro categorias. É hora de rever e decolonizar tais
critérios (made in USA),
para incluir cafuzos, caboclos, mamelucos, caburés. Acobreados, amorenados,
acastanhados, sapecados, bem-chegados. Retintos, trigueiros, jambos, fulos,
sararás. Os que se dizem melado, canela, chocolate, café-com-leite. Ou macua,
cardão, jamelão, bronze, bugre, guituta, galego, fogo-pagô, arubana, saraúba,
araçá. Era assim — entre 136 variações — que o brasileiro se via no
policromático censo de 1976. Estratégias de branqueamento ou acolhimento da
diversidade? Você decide.
Também há cotas para trans: por que não para
bi, poli, pan e assexuais? Para não binários, fluidos, queers, intergêneros,
agêneros? Para os abrossexuais, alotrossexuais, autossexuais, ceterossexuais,
cupiossexuais, demissexuais, omnissexuais, sapiossexuais, escoliossexuais,
espectrossexuais? Para os menos, os mais, os médios, os por demais?
Proponho cota no STF para os sem contrato com
o Banco Master, os sem parentes envolvidos nos casos que julgam, os sem medo de
impeachment, os sem decisão monocrática, os sem Tayayá.
Cota para os sem-terra, os sem-água, os
sem-fogo, os sem-ar. Para as vítimas da ditadura da beleza, da ditadura do
proletariado, da ditadura do politicamente correto, da ditadura militar. Para
os sem triplex, os sem mansão em Trancoso, os sem-teto, os sem-chão.
Cotas nasceram com a melhor intenção:
permitir que grupos historicamente excluídos ocupassem espaços de prestígio nas
universidades e no serviço público, ajudando a superar as desigualdades
causadas pelo preconceito, pela escravidão. Não dá para ser contra isso — nem
contra o Bolsa Família, que garantiu mais saúde e alguma segurança alimentar. O
problema é que esses programas devem ser vistos como “auxílios emergenciais”,
não como um direito adquirido, um subsídio a eternizar. São paliativos, não
solução estrutural. E podem fazer crer que pretos, trans etc. só conseguirão
ter o mesmo padrão dos brancos e dos cis se tiverem um empurrãozinho da
sociedade. Sem investimento maciço no ensino fundamental, cota racial e para
estudante de escola pública será a perpetuação da diferença. E acabará fazendo
pelos “desprivilegiados” algo similar ao que a reserva de mercado fez pelo
nosso desenvolvimento tecnológico. Sob o discurso de proteger, trouxe menos
inovação, menos eficiência, menos competitividade, mais acomodação.
Cotas seriam desnecessárias num país com
educação de qualidade e com disparidades não tão acintosas. Ou se investe nisso
ou teremos de ir ampliando esses acessos alternativos — com o Brasil
continuando do jeito em que está, e a menor das minorias sendo, em breve, a dos
sem-cota.

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