CartaCapital
A investigação sobre o Master se aproxima
cada vez mais dos governadores Ibaneis Rocha e Cláudio Castro
Os governadores Ibaneis Rocha, do Distrito Federal, e Cláudio Castro, do Rio de Janeiro, acabam de dar o cano na CPI do Crime Organizado. O primeiro enviou um colaborador de segundo escalão, substituto que a CPI se recusou a ouvir. O outro, nem isso: estava fora do Brasil e mandou essa explicação por carta. Ambos haviam sido convidados para falar das experiências de suas gestões contra a violência. Tivessem ido ao Senado, certamente estariam em apuros. Seriam, digamos, interrogados. O motivo? O escândalo do Banco Master, “tema do momento no Congresso”, na definição do senador Jaques Wagner, líder do governo na casa legislativa onde a Comissão de Assuntos Econômicos criou um grupo para investigar o escândalo.
Para dissabor de Rocha e Castro, as
investigações da Polícia Federal avançam. O BRB, banco público do Distrito
Federal que comprou do Master terreno na lua e depois tentou adquirir metade da
instituição para esconder o trambique, tornou-se alvo de um inquérito policial
específico sobre gestão fraudulenta. Além disso, a PF encontrou na agenda de
uma diretora do BRB uma anotação, segundo a qual o presidente da instituição
até novembro, Paulo Henrique Costa, dizia internamente que a aquisição da
carteira (fajuta) de crédito era necessária para o Master não quebrar. Uma
pista de que o negócio de 12 bilhões de reais era bom para Daniel Vorcaro, não
para o BRB. A oposição a Rocha solicitou ao procurador-geral da República,
Paulo Gonet, um inquérito contra o governador por crime do colarinho branco e
improbidade. O Superior Tribunal de Justiça designou Isabel Galloti para
supervisionar a eventual investigação.
No Rio, a PF prendeu temporariamente o
ex-presidente do fundo de pensão dos servidores públicos, Deivis Marcon
Antunes, na terça-feira 3, quando ele voltava dos Estados Unidos. Os federais
queriam ouvi-lo sobre uma suspeita de sumiço de provas e documentos. Em
janeiro, haviam realizado a Operação Barco de Papel, sobre o investimento de 1
bilhão de reais do Rioprevidência no Master, e vasculhado o apartamento de
Antunes, que viajara para os EUA uma semana antes, talvez por ter recebido
informação privilegiada acerca da operação. Depois da batida, a polícia
descobriu que Antunes possuía outro imóvel no prédio, de onde foram retiradas
malas e foram apagadas as imagens das câmeras de segurança. Eis a razão de a 6a
Vara Federal Criminal do Rio ter decretado, por requisição da PF, a prisão do
executivo por ocultação de provas e obstrução da Justiça.
Subordinados de ambos, no BRB e na
Rioprevidência, estão bem enrolados
No depoimento à polícia após a prisão,
Antunes declarou que o segundo apartamento era usado por parentes e amigos
catarinenses em viagens ao Rio e que as malas retiradas continham pertences dos
visitantes. As malas foram transportadas por dois irmãos, Rafael e Rodrigo
Schmitz, presos em Santa Catarina em caráter temporário. Esse tipo de prisão
busca impedir que alvos de uma investigação combinem as versões de depoimentos.
Sobre o que os irmãos falaram à PF não havia informações até a conclusão desta
reportagem, na quinta-feira 5.
Os acontecimentos em Brasília e no Rio são
faces da mesma moeda do escândalo. Autorizado a funcionar no governo Bolsonaro,
o Master começou a ter problemas de liquidez (falta de dinheiro) no mandato de
Lula. Havia captado bilhões de reais com a promessa de remunerar generosamente
os compradores de seus títulos, com juros acima do mercado, e ficou sem caixa
para cumprir a palavra. Para conseguir recursos, acionou contatos políticos.
“Todos os empresários tentam fazer uma rede de influência no Congresso, esse
banco não foi diferente”, afirma Wagner. Fundos de pensão de servidores
pareciam uma boa fonte de receita para Vorcaro, como o Rioprevidência. Idem
bancos estatais como o BRB.
Antunes perdeu o cargo no fundo de pensão no mês passado, após a primeira etapa da Operação Barco de Papel. Assumira o posto em 2023, indicado pelo União Brasil. Castro, do PL, e o presidente do União Brasil, Antonio Rueda, são aliadíssimos. A página do UB na web divulga as agendas de Castro quando Rueda participa. Aconteceu em janeiro, em uma inauguração de obras em Belford Roxo, na Baixada Fluminense. Outro parceiro de Rueda é o senador Ciro Nogueira, comandante do PP. A dupla botou seus partidos para atuar como um só, arranjo conhecido por “federação”. Nogueira estendeu a mão amiga ao Master durante a agonia do banco. Propôs no Congresso uma mudança na Constituição para quadruplicar o valor máximo pago pelo Fundo Garantidor de Crédito a quem tenha conta ou investimento em instituições financeiras falidas. O Master utilizava o FGC para atrair clientes. Para sua tristeza, a proposta do senador foi rejeitada.
O Rioprevidência comprou 1 bilhão de reais em
títulos do banco que não tinham cobertura do FGC, um risco para a futura
aposentadoria dos servidores estaduais. As transações ocorreram entre novembro
de 2023 e julho de 2024. No momento em que essa fonte do Master secou, Nogueira
apresentou a proposta sobre o FGC, enquanto a instituição financeira passou a
vender carteiras de crédito. A informação sobre o início da comercialização
consta de um comunicado do Banco Central enviado ao Ministério Público Federal,
em outubro de 2025, sobre três ilícitos potenciais por trás da venda, todos
previstos na Lei do Colarinho Branco: gestão fraudulenta (3 a 12 anos de
cadeia), indução a erro de repartição pública e investidores (2 a 6 anos) e
maquiagem contábil (1 a 5 anos). Crimes igualmente investigados no Rioprevidência.
A partir de novembro de 2024, o Master
intensificou a alienação da carteira de crédito, e aí desponta o BRB, conforme
o comunicado do BC. O banco público adquiriu carteiras forjadas pela Tirreno,
empresa aberta naquela época e posteriormente colocada sob o comando de um
ex-funcionário do Master. O BRB arrematou 12 bilhões de reais originados na
Tirreno. Sua tentativa de adquirir metade do Master em março de 2025
destinava-se a “ocultar crimes graves contra o sistema financeiro nacional e
contra o patrimônio público do Distrito Federal”, conforme os procuradores
federais anotaram ao requerer a prisão preventiva de Costa, do BRB, e de
Vorcaro em novembro passado. O pedido, juntamente com outro, da lavra da PF,
convenceu a 10a Vara Federal de Brasília a autorizar a primeira fase da
Operação Compliance Zero, levada adiante no dia em que o BC fechou o Master.
Ibaneis Rocha adota a tática de culpar
terceiros pelos desmandos
A fase 2 da operação, em janeiro, ocorreu sob
a batuta de José Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal, após o ministro
ter concentrado nas próprias mãos todas as apurações sobre o Master e o BRB e
decretado sigilo total do processo, embora o conteúdo de alguns depoimentos
tenha sido liberado nos últimos dias. Um dos alvos da operação foi um indivíduo
descrito pela PF como “operador tático e intermediário de Daniel Vorcaro” em
operações suspeitas de fundos de investimento. Trata-se de Ascendino Madureira
Garcia, encarado pelo Ministério Público com o mesmo olhar da polícia. Esse
personagem de certa forma une as pontas brasilienses e fluminenses do
escândalo. Já havia aparecido em outra investigação a respeito de desvios em
fundos de pensão. Foi em 2020, na Operação Fundo Fake.
Nogueira, tudo indica, é peça da engrenagem
que aproximou o BRB e o Master. Costa, presidente do banco público desde 2019,
começo da gestão Rocha, até 2025, tinha laços com o senador. O próprio
governador os tem. Além de ser conterrâneo piauiense de Nogueira, beijou a mão
dele ao concorrer pela primeira vez, em 2018, e na reeleição aceitou como vice
uma política do PP, Celina Leão, que pretende ser candidata ao governo
distrital em outubro.
Ou seja, o acordo entre Rocha e Nogueira em
2022 tem boas chances de entregar o Distrito Federal à legenda do senador neste
ano. Isso, claro, se o escândalo não implodir os planos governistas.
Silêncio.
Castro recusou o convite da CPI do Crime Organizado. Seu medo era ouvir
perguntas a respeito do dinheiro perdido das pensões dos servidores – Imagem:
Marcelo Régua/GOVRJ
O governador distrital aguarda uma decisão do
procurador-geral da República sobre a abertura de um inquérito contra si. Na
tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023, escapou das acusações de Gonet
contra a cúpula da PM e da Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal,
embora tenha ficado quase dois meses afastado do cargo na época do quebra-quebra.
Rocha, filiado ao MDB, meteu a mão na massa nos negócios do BRB com o Master,
em especial a tentativa de compra de parte do banco de Vorcaro. Deu declarações
públicas a favor da aquisição, mandou uma lei ao Legislativo local em busca de
sinal verde, atacou o BC e a oposição quando a autoridade monetária piscou o
farol vermelho. Esteve pessoalmente com Vorcaro para tratar da compra, segundo
o depoimento do banqueiro à PF, embora negue ter falado qualquer coisa na
reunião, da qual mais gente participou. Advogado experiente, ex-presidente da
OAB em Brasília, tem adotado até aqui a estratégia de jogar a responsabilidade
pelas lambanças do BRB no lombo do subordinado Costa.
Rodrigo Rollemberg e Cristovam Buarque, dois
ex-governadores do Distrito Federal, encabeçam pedidos de impeachment de
Rocha. Buarque diz e repete que o emedebista tem o hábito de culpar terceiros
sempre que está encrencado. Foi assim com seus subordinados no 8 de Janeiro,
agora se repete no caso BRB. As estripulias do banco estatal podem resultar em
prejuízo bilionário para os cofres públicos, algo que a direção da instituição
tenta evitar a todo custo. Seria combustível para o impeachment. O Legislativo
de Brasília é, no entanto, dominado pelo governismo. A tática do presidente da
Casa, Wellington Luiz, aliado do governador e chefe local do MDB, é empurrar o
assunto com a barriga. A esperança é que o carnaval e o tempo passem, e o
escândalo saia dos holofotes.
Publicado na edição n° 1399 de CartaCapital, em 11 de fevereiro de 2026.

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