domingo, 26 de outubro de 2008

Giannotti teme uma crise da democracia

Elio Gaspari
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


Está aberto o espetáculo para o aparecimento de demagogos e salvacionismos autoritários

O PROFESSOR JOSÉ Arthur Giannotti está preocupado. Talvez seja a única pessoa preocupada que não acompanha o movimento das Bolsas. Sua ansiedade relaciona-se com a democracia. Ele acredita que o Brasil experimenta uma prática democrática "na casca", enquanto o núcleo das instituições nacionais vive um surto de autoritarismo que pode não acabar em boa coisa. A desmoralização dos costumes políticos, a impunidade das malfeitorias praticadas pelo aparelho do Palácio do Planalto, bem como a marginalização do Congresso, levam água para propostas salvacionistas e demagogos. Se fosse necessário algum sinal de que os temores do professor são justificados, bastaria o exemplo da concepção e do cenário da edição da medida provisória do ProTudo.

Os feiticeiros da Fazenda, do Banco Central e do Planalto redigiam a MP num prédio da praça dos Três Poderes enquanto os doutores Guido Mantega e Henrique Meirelles estavam na Câmara, relatando aos parlamentares as providências que o governo tomava para proteger a economia nacional. Não disseram uma só palavra sobre o ProTudo. Levando-se em conta que a MP seria remetida ao Congresso, alguém fez papel de paspalho. Talvez os parlamentares, talvez todos.

O grande antecedente remoto da atual crise justifica os receios de Giannotti. Diante da Depressão dos anos 30, o presidente dos Estados Unidos Franklin Roosevelt montou um sistema que foi a um só tempo redentor para o futuro da sociedade americana e um exercício de autoritarismo federal. Cavalgando a opinião pública e o Congresso, Roosevelt só foi barrado pela Corte Suprema e, ainda assim, tentou empacotá-la, criando um sistema pelo qual acrescentaria seis novos ministros aos nove existentes.

Roosevelt, um aristocrata, perseguiu empresários e amargurou o fim da vida do banqueiro Andrew Mellon, secretário do Tesouro de seus três antecessores. Mesmo assim, teve perigosos demagogos mordendo-lhe os dedos. O maior deles foi Huey Long, o adorado larápio que governara a Louisiana e pretendia disputar a Presidência na eleição de 1936. Foi contido por uma bala na barriga. (A história de Long está no filme "A Grande Ilusão", com Sean Penn.)Felizmente, a sucessão americana desembocou numa disputa entre dois políticos moderados (noves fora as suspeitas de que Barack Obama flerte com medidas protecionistas). Se a bolha tivesse estourado em janeiro, o candidato republicano poderia teria sido Mike Huckabee, que propusera o confinamento dos aidéticos e defendia o emparedamento da fronteira com o México. Com Sarah Palin na vice, formariam a dupla do Deus-Me-Livre.

A crise econômica pode colocar o Brasil no trilho que leva ao aparecimento de excentricidades, como se deu com Fernando Collor. Ou ainda, à radicalização do governo a partir de propostas autoritárias que estão nas gavetas do PT. Coisas como "matriz ideológica" controlando a imprensa, a necessidade de se criar uma poderosa máquina de centrais sindicais e a transformação do Banco do Brasil e da Caixa num comi$$ariado de primeira e última instâncias.

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