domingo, 12 de outubro de 2008

Quem apóia quem

Marcos Coimbra
Sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi
DEU NO ESTADO DE MINAS

Quando muitos candidatos se dizem apoiados pelas mesmas pessoas, os eleitores se confundem e ficam com o sentimento de que, no sistema político, tudo se mistura, tudo é a mesma coisa, reforçando a idéia de que partidos e alinhamentos nada querem dizer -->Nem bem recomeçou a campanha eleitoral, um dos assuntos que mais centralizaram as atenções no primeiro turno voltou a ocupar o discurso dos candidatos e o interesse da imprensa. Em muitas cidades onde o segundo turno está em andamento, ele chega a ser o eixo principal das discussões.

Trata-se do velho tema dos apoios, de quem está do lado de quem na eleição. Quando havia muitos candidatos em disputa, cada um insistia nas ligações que tinha com os políticos de prestigio na cidade, como modo de atrair a atenção do eleitor. Todos os principais candidatos a prefeito e muitos a vereador fizeram isso Brasil afora.

Os apoios mais cobiçados eram os de Lula e do governador do estado, salvo, é claro, dos impopulares. Para ter o direito de se proclamar “o candidato” de um ou outro, houve brigas que chegaram aos tribunais. Como raramente a questão veio a ser decidida neles, o que vimos foram dois, três, quatro candidatos dizendo, ao mesmo tempo, que eram eles os apoiados por um, outro ou ambos.

O segundo turno costuma resolver esse problema. Ao longo da eleição, acontece uma progressiva depuração das várias candidaturas com que começa o processo, culminando nos dois nomes que melhor expressam os lados principais da vida política local. Esquerda vs. direita, mudança vs. continuidade, polaridades como essas se expressam nitidamente nas duas candidaturas restantes.

É bom que seja assim. Quando muitos candidatos se dizem apoiados pelas mesmas pessoas, os eleitores se confundem e ficam com o sentimento de que, no sistema político, tudo se mistura, tudo é a mesma coisa, reforçando a idéia de que partidos e alinhamentos nada querem dizer.

Nestas eleições, existem lugares onde as coisas são claras. São Paulo é o melhor exemplo, com os dois lados tradicionais da política da cidade tendo, cada um, apenas um candidato ou candidata para representá-lo. É o que ocorre também em São Luís e algumas cidades médias, onde Lula e o governador do estado estão claramente com alguém, sendo que, às vezes, os dois apóiam o mesmo candidato, às vezes candidatos diferentes. Sobre isso, o eleitor não faz confusão.

Há lugares em que não há diferenças nas ligações e nos apoios nacionais dos candidatos, como em Salvador. João Henrique e Walter Pinheiro pertencem a partidos que estão na base do governo federal e integram grupos políticos que se representam no ministério de Lula. No plano estadual, porém, cada um tem seu lado. Lá, ninguém quer deixar os eleitores em dúvida.

O caso mais extraordinário destas eleições acontece em Belo Horizonte. Desde o começo, Lula deixou subentendido que apoiava Márcio Lacerda ou, pelo menos, que via com bons olhos sua candidatura. Aliás, foi com alguma atuação sua que a Executiva Nacional do PT acabou assimilando a aliança de Aécio e Pimentel em torno de Lacerda. Não podia, no entanto, ultrapassar esse ponto, pois candidatos de vários outros partidos que integram seu governo estavam na disputa. Todos podiam usar seu nome e se dizer próximos a ele sem querer confundir os eleitores, pois ele não tinha se manifestado em favor de nenhum. Lacerda e Leonardo Quintão fizeram isso legitimamente.

Mas e quanto ao apoio de Aécio Neves? O governador disse com todas as letras que apóia Márcio Lacerda e que o vê como o mais qualificado para ser o prefeito da cidade. Isso, normalmente, deveria bastar para esclarecer a questão.

Para Quintão, no entanto, é como se uma manifestação dessas não tivesse qualquer significado. Na sua propaganda eleitoral, nas declarações à imprensa durante o primeiro e agora no segundo turno, ele parece que não ouve ou não entende o governador. Toda vez que pode, afirma contar com o apoio de Aécio.

Parece que Quintão quer que os eleitores de Belo Horizonte se esqueçam de que há dois lados na eleição e que o dele não é o de Aécio.

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