O Globo
Perdoe-os, Orelha. Os monstros da Praia Brava
nunca leram Graciliano Ramos. Não choraram por Baleia
Já nos encontramos centenas de vezes, Orelha. Você vagando, coberto de sarna, costelas à mostra, nas ruas de Viçosa (onde há uma Faculdade de Veterinária que o poderia acolher e cuidar — e não acolhe).
Estivemos juntos na Vila do Abraão, na Ilha
Grande, na longínqua década de 1970, lembra? Você passou as noites ao lado da
barraca — não sei se nos protegendo, se pedindo proteção. Você, então, se
chamava Sansão.
Vejo-o a cada manhã. Minha primeira visão do
mundo é — cabecinha no travesseiro ao lado do meu — a Duda, encontrada há
alguns anos numa caixa de papelão (pele, osso e vermes), numa calçada do
Catete.
Vemo-nos em todas as cidades do país, nos postos de gasolina, na soleira dos botequins. Raspas e restos — de comida, de afeto — lhe interessam.
Outro dia mesmo o fotografei, às margens da
Dutra — novelo de pelo emaranhado, atendendo pelo preciso nome de Estopa. Havia
que lhe dar um banho, uma tosa, permitir que voltasse a enxergar sem o enxame
de fios que lhe cobria os olhos. Mas você era arisco — condição sem a qual não
sobreviveria à selvageria do asfalto.
Viver à beira-mar parecia mais seguro, não?
Mas havia monstros no seu caminho. Sim, Orelha, há monstros de muitos tipos. Há
os que invadem festivais de música e chacinam jovens que celebravam a vida. Os
que bombardeiam casas, escolas, praças, hospitais. Os que atiram contra o
próprio povo. Os que, em cargos públicos, assinam contratos milionários para
proteger fraudadores. Os que estupram, os que espancam, os que abandonam, os
que torturam. Os que desviam o sustento dos idosos. Os que supliciam cães,
gatos, cavalos.
Perdoe-os, Orelha. Os monstros da Praia Brava
nunca leram Graciliano Ramos. Não choraram por Baleia e os espinhos de
mandacaru em sua carne meio comida pela doença. Não souberam de Hachikō,
esperando seu dono por 10 anos, numa estação de trens em Tóquio. Em sua
infância não houve um poema de Afonso Schmidt sobre a delicada criança e seu
robustíssimo cão. Não se emocionaram com Argos, que, 20 anos depois, ainda
reconheceu Ulisses, na sua volta a Ítaca Não amaram Lassie, Rin Tin Tin, o
Vigilante Rodoviário e seu escudeiro Lobo. Nunca perceberam nos olhos de um cão
— e de uma vaca, de um macaco, de um porco — a mesma luz que nos ilumina.
Eles não sabem o que é dor alheia — só a que
sentem: a do outro é diversão. Essa perversão tem nome: psicopatia. É uma
doença, mas também algo que se cultiva com a permissividade, a arrogância, a
formação sem ética, a certeza de impunidade.
Seus torturadores, seus assassinos ficarão
impunes, Orelha. São meninos ricos, contam com a cumplicidade da família, da
lei. Como aqueles que queimaram vivo Galdino Pataxó, que barbarizaram Araceli e
Ana Lídia (quem se lembra?). E você é só um cão sem dono, um SRD comunitário.
Como a Manchinha, morta pelo segurança do Carrefour. É só um animal, como
aqueles 175 deixados para morrer afogados na Cobasi de Porto Alegre. Como os
milhões tratados como proteína nas granjas e abatedouros, e como mercadoria nas
fábricas de pets.
Imagino seu espanto diante do Mal, que você
desconhecia. Sua tremura sob o impacto das pauladas. Sua agonia, crivado de
pregos. Sua perplexidade.
Dê lembranças a Baleia, Manchinha, à minha
Benedita, nesse mundo em que você agora está, e onde pode lamber mãos humanas
sem gosto de sangue, se espojar com crianças, entre preás gordos, enormes, numa
vida menos seca, menos cruel.

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