Folha de S. Paulo
Lula e a ampla coalizão que o sustenta são
mais do que a última linha de defesa da democracia
Bolsonaro foi claro: se reeleito,
tratará de aumentar o número de ministros do Supremo Tribunal Federal dos
atuais 11, com o fim ostensivo de desfibrar a Corte, reduzindo-a a apêndice do
Executivo. Segue, assim, o roteiro de governantes autoritários eleitos pelo
voto popular, como o húngaro Viktor Orbán e do
venezuelano, já falecido, Hugo Chávez.
Agora com maioria no Congresso, o ex-capitão não vê a hora de detonar os freios
e contrapesos institucionais à concentração do mando, em que se arrima a
democracia representativa.
Além de motivar infindáveis controvérsias entre os especialistas, não se pode
dizer de antemão que conseguiria levar a cabo a seu intento, na incerta
hipótese de prevalecer nas urnas do dia 30; ou se, sobrevindo o pior, as
instituições do Estado e a força da sociedade civil organizada continuariam a
contê-lo, como vêm fazendo nesses quatro anos.
Há, portanto, razões de sobra para que os
democratas deixem de lado suas divergências e se alinhem àquele a quem os
eleitores, no primeiro turno, delegaram o papel de se opor à ambição
continuísta do presidente. Mas, Lula e a ampla coalizão que o sustenta são mais
do que a última linha de defesa de um sistema baseado na livre competição pelo
voto, no respeito às liberdades individuais e na subordinação do arbítrio à
lei.
A atual fronda democrática é herdeira de uma ideia inspiradora —uma utopia de
nação— que mobilizou as oposições à ditadura de 1964-1985 e tomou forma na
Carta de 1988, fazendo da democracia a moldura necessária à construção de um
país mais inclusivo e menos desigual, no qual direitos sociais sejam amplamente
assegurados. Os contemporâneos da Constituinte falavam em resgate da dívida
social; o economista Samuel Pessoa chamou-a pacto social da Constituição de 88,
enfatizando sua força política e simbólica, ao tempo em que apontou os limites
fiscais para sua efetivação.
Desde então, muita água correu sob a ponte, muita reforma social foi feita nos
governos Fernando Henrique Cardoso e Lula, muito avanço foi minado
pela crise da década passada e pela destruição calculadamente promovida pelo
governo bolsonarista de extrema-direita; novos temas —como justiça ambiental—
subiram ao palco.
Os mapas do passado já não são bons guias para as necessárias reformas
progressistas do presente, que aguardam agendas renovadas. Mas a ideia de que
progresso social e democracia precisam avançar de mãos dadas vale hoje como
valia há mais de três décadas. Ela dá sentido especial à candidatura Lula.
*Professora titular aposentada de ciência política da USP e pesquisadora do Cebrap
Um comentário:
As pessoas de juízo avalizam a candidatura de Lula,mesmo ele não sendo perfeito,a alternativa é muito pior.
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