quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Não queria estar na pele de um teólogo bolsonarista. Por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Raio em manifestação que pedia anistia para golpistas diz algo sobre os desígnios de Deus?

Se diz, fica difícil afastar interpretação mais básica de que Criador quer ex-presidente na cadeia

Se há algo que o homem sempre temeu, são os raios e trovões, que simbolizam a força avassaladora da natureza, contra a qual nada podemos. Não é uma coincidência que, em grande parte das mitologias, o deus associado ao trovão ocupe posições elevadas no panteão: Zeus (grego), Júpiter (romano), Thor (nórdico), Perun (eslavo), Taranis (celta), Indra (hindu), Raijin (japonês), Tupã (tupi-guarani).

A manifestação de domingo (25) em Brasília, que pedia anistia para Jair Bolsonaro e seus golpistas, foi atingida por um raio, que fez 89 feridos. Se há algo que eu não gostaria de ser agora é um teólogo bolsonarista. Ainda que se reconheça que teólogos, a exemplo de advogados, são com frequência capazes de nos oferecer hermenêuticas criativas e inesperadas, há um bom número de situações em que fica difícil fugir à interpretação mais básica.

Se existe uma divindade pessoal que tem uma agenda moral e controla os céus, parece meio óbvio que ela não aprova a pauta da manifestação, ou não teria enviado um raio que por muito pouco não matou ninguém —quatro dos feridos apresentaram quadros graves e um deles está na UTI.

A forma menos tortuosa de conciliar Deus com a realidade observável, repleta de acasos, banhada em injustiças e que ainda precisa conviver com explicações científicas para fenômenos naturais, é abandonar a ideia de uma divindade que interfere o tempo todo sobre o mundo e caminhar para o deísmo, que propugna por um demiurgo que no início dos tempos criou o Universo já com todas as leis da física e depois se retirou para um "shabbat" de 14 bilhões de anos. Em que pese a maior consistência filosófica, o deísmo gera um Deus inerte, para o qual não faz muito sentido rezar pedindo milagres.

No registro do deísmo, dá para qualificar o raio que caiu sobre os manifestantes como um "incidente natural", como fez o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG). Fora dele, isto é, para os que insistem num Deus hiperativo que se revela a todo instante, fica difícil afastar a tese de que Ele quer Bolsonaro na cadeia.

 

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