quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Lula, Trump e os braços do crime nos EUA, por Lu Aiko Otta

Valor Econômico

Governo se vê diante da possibilidade de atingir o que Haddad chamou de “CEOs do crime organizado”

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, disse nessa terça-feira em evento do BTG Pactual que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva lhe pediu alguns trabalhos “de saideira”. Não disse quais, mas em seguida comentou que o secretário da Receita Federal, Robinson Barreirinhas, pode acompanhar Lula na visita que fará ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

A Receita, liderada por Barreirinhas, sabe que esquemas criminosos do setor de combustíveis investigados no Brasil têm braços nos Estados Unidos. Foi o que desvendou a operação Poço de Lobato, deflagrada em novembro passado.

Desde então, Lula tem dito a Trump que os dois países precisam cooperar para combater o crime organizado e a lavagem de dinheiro. Segundo informou o presidente em entrevista ao portal UOL na semana passada, ele pretende levar, além do chefe da Receita, o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, e o ministro da Justiça, Wellington César Lima e Silva.

Não é pouca coisa a ser apurada. Segundo a Receita, o grupo sob investigação havia adquirido uma exportadora em Houston, no Texas, que vendeu combustíveis para o Brasil no valor de R$ 12,5 bilhões de 2020 a 2025. Também se valeu de empresas constituídas em Delaware, um Estado cuja legislação garante anonimato e isenção tributária desde que não haja produção local. Segundo a Receita, essa é uma prática usual em esquemas de lavagem de dinheiro e blindagem patrimonial dos envolvidos.

A Poço de Lobato foi um desdobramento da operação Carbono Oculto, que identificou fraudes no setor de combustíveis e lavagem de dinheiro por meio de fundos e fintechs. Um dos alvos da Carbono Oculto foi a Reag. Essa, por sua vez, foi liquidada em 15 de janeiro pelo Banco Central, na esteira da crise em torno do Banco Master.

Basicamente, o esquema investigado na Poço de Lobato tem como centro uma refinaria que importava gasolina como se fosse derivado de petróleo para industrialização. As empresas participantes dessa cadeia de comercialização eram também devedoras contumazes de impostos.

Os recursos produzidos nessa fraude eram movimentados por meio de uma estrutura em que havia uma financeira “mãe” e várias sócias. Esse desenho dificultava identificar os verdadeiros beneficiários, diz a Receita. Foram movimentados pelo menos R$ 74 bilhões no prazo de um ano.

O dinheiro ilícito era reinvestido em imóveis e outros ativos por meio de fundos de investimento. A Poço de Lobato identificou que entidades estrangeiras constituídas em Delaware apareciam como sócias e cotistas. Além disso, constatou a coincidência entre representantes legais das offshores e dos fundos.

Na entrevista ao UOL, Lula contou ter enviado a Trump as fotografias das casas dos chefes do esquema, que moram em Miami. E disse ter sugerido que, se o americano quer combater o crime organizado e o narcotráfico, poderia começar entregando essas pessoas.

Desde a operação Carbono Oculto, deflagrada em agosto do ano passado, o governo se vê diante da possibilidade de atingir o que Haddad chamou de “CEOs do crime organizado”. Lula, por sua vez, vê no caso Master uma oportunidade de “pegar os magnatas da corrupção, da lavagem de dinheiro nesse país”.

Se há relação direta entre os dois escândalos, é algo ainda a ser determinado. Mas ambos movimentaram os escalões superiores dos Poderes, o que lança dúvidas sobre até onde irão as investigações. Será uma lástima se as tentativas de transformar tudo em uma grande pizza forem bem-sucedidas.

Revisão de gastos
Falando como falaria o formulador do programa de governo de Lula 4, Haddad comentou ser possível reorganizar as transferências feitas pelo governo em um programa de renda mínima. É uma racionalização tão bem-vinda quanto difícil do ponto de vista político.

Houve resistência da própria Esplanada dos Ministérios quando, neste governo, o programa de revisão de gastos mexeu no vespeiro dos benefícios sociais. No caso, era para melhorar os controles sobre Bolsa Família, seguro-defeso e outros. Houve avanços, mas a muito custo. Também o Congresso Nacional reagiu à tentativa de apertar critérios de acesso ao Benefício de Prestação Continuada (BPC).

Algumas ideias de redesenho de programas sociais já foram discutidas no atual governo. Por exemplo, reorganizar benefícios ao trabalhador, como abono salarial, seguro-desemprego e Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), e acoplá-los a incentivos à produtividade, pagando um bônus mensal por assiduidade.

Outra ideia era redesenhar o abono salarial, hoje pago a celetistas que recebem até dois salários mínimos. Passaria a ser concedido conforme a renda familiar per capita, e sem permitir acúmulo de benefícios no mesmo núcleo. Com isso, poderia atender à metade da população economicamente ativa que não tem emprego formal, numa espécie de benefício “pós-Bolsa Família”. Passaria a ser pago mensalmente, e não uma vez por ano, como ocorre hoje.

São ideias que continuam no papel.

 

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