domingo, 13 de julho de 2014

O Brasil mostrou a sua cara: O Globo - Editorial

• A Copa foi um sucesso naquilo que dependeu do futebol e do povo brasileiro, alegre, hospitaleiro, acostumado com a diversidade, fatores que cativaram os estrangeiros

Hoje chega ao fim uma jornada de sete anos, iniciada quando o Brasil venceu a disputa para sediar a Copa de 2014. Foi uma viagem cheia de percalços, com altos e baixos, e um desfecho muito ruim para o futebol brasileiro. A seleção não chegou ao hexa, e assim não pôde exorcizar 1950 no mesmo Maracanã da derrota histórica de há 64 anos. E os sete gols sofridos na semifinal com a Alemanha ficarão como dolorosa marca nos cem anos de seleção brasileira. O estádio, renovado, coloca, porém, no currículo a honra de passar a ser o segundo do mundo, ao lado do mexicano Asteca, a servir de palco por duas vezes a uma final de Copa. Adicione-se, ainda, a qualquer balanço de saldos do evento a enorme exposição que teve o Brasil nos meios de comunicação globais, ajuda incalculável na atração de viajantes. Vai caber à indústria do turismo cativá-los.

No muito que se disse sobre a catastrófica derrota da seleção no Mineirão, identificaram-se entre as raízes da humilhação imposta pelo time alemão algumas facetas observadas na comissão técnica, mas que também fazem parte da vida pública brasileira: a arrogância, a empáfia, o ufanismo, a autossuficiência. O projeto da Copa começou com alguma contaminação desses ingredientes. O então presidente Lula, lembre-se, desejava um número de cidades-sede superior às 12 do projeto final. E ficou provado que se a Copa de 2014 tivesse se limitado a menos estados, com melhores condições de infraestrutura, o custo final para o contribuinte teria ficado menor, sem que o evento perdesse o brilho que teve. Além de haver uma quantidade menor de obras, um flanco vulnerável da Copa, como se confirmou.

Animal político, Lula pode ter percebido as oportunidades que o torneio daria, em ano eleitoral, para que ele desfilasse ao lado da candidata à reeleição Dilma Rousseff em estádios novos ou reformados. Mas, antes, precisava eleger a ministra em 2010. Conseguiu. Trapaças da vida real não o deixaram dar o fecho neste plano de rara antevisão política. A inflação, a impopularidade em alta, as vaias impediram-no. E, no fim, a própria derrota da seleção, e da maneira como ocorreu, foi tremendo gol contra os planos de marquetagem político-eleitoral.

Mas a Copa foi um sucesso. Naquilo que dependeu do futebol e do povo brasileiro. Houve ótimos jogos, com alta média de gols — infelizmente, com a colaboração da defesa brasileira no jogo com a Alemanha — e, para injetar mais emoção, seleções sem maior tradição brilharam, como Costa Rica, duro adversário da forte Holanda nas quartas de final. Foi derrotada apenas nos pênaltis. A Colômbia, com folha corrida no esporte, terminou sendo difícil adversário do Brasil na disputa por uma vaga na semifinal. O Chile, com tradição, outro obstáculo à seleção brasileira, veio com a melhor seleção das últimas Copas. Perdeu nos pênaltis, mas quase eliminou o Brasil, também nas quartas, no último minuto da prorrogação. Ficou a percepção de que a emigração de atletas de todos os continentes para a Europa, o mais forte centro mundial do futebol, tende a nivelar a qualidade dos jogadores do ponto de vista do condicionamento físico, conhecimento de táticas, etc — africanos, asiáticos, de onde sejam.

O sucesso da Copa também foi devido à simpatia e hospitalidade dos brasileiros. O estrangeiro é recebido com alegria por uma cultura que gosta da diversidade — ela própria fermentada na miscigenação. As Fan Fests espalhadas pelas cidades-sede viraram caldeirões de confraternização.

Foi assim desde o começo. E os grupos minoritários radicais, donos da palavra de ordem “não vai ter Copa”, logo perceberam que o melhor seria recolher as faixas e guardar capuzes e máscaras.

A imprensa estrangeira, antes cética, passou a registrar a boa qualidade do evento. Simon Kuper, da revista do jornal inglês “Financial Times”, escreveu um artigo sob o título “Porque o Brasil já ganhou”. Veterano em Copas, Simon lembrou que antes de sair para a viagem recebeu o conselho da mulher: “Não vá ser morto”. Registrou saber das altas taxas de homicídio no país, mas saudou a segurança nas áreas em que transitavam os visitantes. “Esta é uma Copa sem medo”. Kuper gostou do que viu, de Manaus a Copacabana. Na Copa de 2002, recorda que, no Japão, todos eram bem educados. E no Brasil, mesmo o policial “afaga amigavelmente suas costas quando você passa”, se você for “um estrangeiro branco, de classe média”. Para ele, esta foi a melhor das sete Copas em que trabalhou, desde 1990. Deu certo, portanto, o plano de contingência montado pelos governos para criar seguras zonas de exclusão em estádios, adjacências e áreas de circulação de visitantes, Fan Fests, vizinhanças e bairros turísticos. Decisão correta.

Porém, a outra face de medidas como esta é que o Brasil, diante das deficiências que tem, as quais não consegue resolver — mesmo, no caso da Copa, com sete anos para equacioná-las — precisa se valer de grandes planos de emergência. Eles sempre são necessários em qualquer país do mundo, mesmo o desenvolvido, mas a diferença está na dimensão. A segurança continua precária? Exército nas ruas durante o evento. Virou registro histórico o carro de combate Urutu estacionado à frente da subida da Rocinha na Rio-92. Passado o evento, o tanque foi embora e os traficantes voltaram à rotina de violência.

Os aeroportos também foram uma surpresa positiva. O índice de atrasos chegou a 7,3%, contra 8,3%, em todo 2013, nos países da União Europeia. Também aqui, funcionou a improvisação, porque, diante de tamanha demora na passagem da administração de grandes aeroportos à iniciativa privada, por obtusidade ideológica, a saída, em vários casos, foi também o jeitinho — terminais improvisados, etc.

Já tinha sido previsto que não haveria maiores dificuldades nos estádios, apesar dos atrasos. Elas estariam fora deles. Dados do próprio Ministério do Planejamento: apenas 24 das 70 obras de mobilidade urbana financiadas com recursos federais ficaram prontas. Ou seja, só 30%. Grande parte do legado para a população ainda está pelo caminho.

Mais soluções “meia boca” para contornar o obstáculo: decretar feriado nas cidades-sede em dia de jogo. Com menos veículos e pessoas nas ruas, a falta de estrutura de transporte público condizente faz menos estragos. O Brasil mostrou a sua cara: festeiro, alegre e hospitaleiro, mas incompetente em planejamento, administração de custos — sem falar em superfaturamentos, outro esporte nacional — e em gerenciamento de obras. Resta uma tênue esperança de que alguma lição tenha sido aprendida com vistas às Olimpíadas do Rio, daqui a dois anos. Mas o tempo é curto.

Criou-se, durante um mês, uma espécie de Brasil da fantasia: segurança extrema, feriados, menos dias de trabalho. A Copa, indiscutivelmente, foi um sucesso. Mas, a partir de amanhã, volta a dura realidade do cotidiano.

Hora de virar o jogo: Folha de S. Paulo - Editorial

• Fracasso da seleção é uma oportunidade para refletir sobre o atraso do futebol brasileiro e lançar novas bases para o esporte

A Copa do Mundo chega hoje a seu ápice, com a disputa do título pelas equipes da Argentina e da Alemanha. São dois adversários de tradição no futebol, que já se encontraram em outras duas finais: em 1986, no México, os sul-americanos triunfaram; em 1990, na Itália, a vitória foi dos europeus.

Aos brasileiros, que viram se frustrar o sonho de vencer um Mundial em seu país, cabe reconhecer os méritos dos finalistas e encerrar a festa como os bons anfitriões que têm sido desde o início.

Com os reparos que sempre se podem fazer, não há dúvida de que a Copa foi bem-sucedida; ficará nos anais da história como uma das mais emocionantes e surpreendentes já realizadas.

Embora tenha conquistado um lugar entre os quatro melhores, a campanha da seleção brasileira deixou muito a desejar. Como admitiu o craque Neymar, em nenhum momento o Brasil teve em campo um desempenho à altura de suas glórias futebolísticas.

A derrocada, que se consumou nos 7 a 1 para a Alemanha e se reforçou nos 3 a 0 para a Holanda, oferece oportunidade para a reflexão e a ação. Será uma lástima se o futebol brasileiro não conseguir extrair daí lições que o levem a superar suas precariedades estruturais, a começar pelo caráter amadorístico, patrimonialista e, não raro, corrupto de sua gestão.

Durante décadas, a administração do esporte mais popular do país assumiu um perfil quase extrativista: entidades e dirigentes voltavam-se à exploração da admirável capacidade do Brasil de produzir talentos futebolísticos.

Jovens das classes populares acorriam em massa aos clubes. Tratava-se apenas de peneirá-los para descobrir as pedras mais valiosas, que logo atrairiam multidões aos estádios e surpreenderiam o mundo com sua inventividade.

Mas o país mudou; as condições socioeconômicas que propiciavam essa realidade já não existem. Ao mesmo tempo, o planejamento e a gestão do futebol na Europa avançaram de maneira notável. A globalização do esporte levou o velho continente a contar com os melhores atletas do mundo e a conviver com excelência inédita.

O Brasil logo se conformou com o papel subdesenvolvido de exportador de matéria-prima. Seu futebol, internamente, viu-se condenado à indigência, ao endividamento e ao desinteresse dos torcedores.

Já há alguns anos, contudo, pressões modernizadoras se fazem sentir em setores da imprensa, em iniciativas de alguns clubes, em áreas restritas da política e, por fim, entre os principais artífices do espetáculo --os jogadores.

O surgimento do Bom Senso Futebol Clube, associação que congrega atletas interessados no aperfeiçoamento da gestão do esporte, é sem dúvida um sinal auspicioso.

Tais movimentos, contudo, têm esbarrado num conluio de dirigentes --a começar pelos que comandam a poderosa CBF-- com políticos e parlamentares que formam a chamada "bancada da bola". Trata-se de frente empenhada em defender o status quo.

É o status quo, todavia, que está em xeque depois do vexame diante da Alemanha. Enfraquecidas as correntes retrógradas, abre-se a melhor oportunidade em décadas para um esforço modernizador.
Há a perspectiva, por exemplo, de serem aprovados instrumentos legais que induzam à responsabilidade fiscal do futebol. O endividamento de clubes com o poder público surge, mais uma vez, como chance de exigir contrapartidas.

Não faz sentido, porém, perdoar tais débitos. Estima-se que girem na casa de R$ 4 bilhões, mas o descalabro é tal que nem se conhece a cifra exata. Vale lembrar, ademais, que programas de recuperação fiscal, como o que se discute no Congresso, já foram lançados --e descumpridos-- no passado.

Se é verdade, por outro lado, que o futebol tem inegável dimensão pública e que a CBF explora as cores da bandeira brasileira e o sentimento de nação --que não são bens privados--, nem por isso faria sentido apoiar uma intervenção estatal nesse esporte.

O caminho é outro. Passou da hora de os compromissos com a modernidade serem assumidos por aqueles que respondem pela maior fatia da sustentação financeira da atividade: os grandes patrocinadores e a Rede Globo. Basta dizer que os recursos da TV equivalem a 40% da receita dos clubes --além da divulgação de suas marcas.

Só uma reação em conjunto, congregando os interessados na criação de bases sustentáveis e racionais para o futebol, poderá mudar o quadro atual, que beneficia apenas uma casta de dirigentes.

A Alemanha deu mais que uma lição de futebol. Aquele país soube orquestrar um plano para formar jovens talentos e fortalecer seus clubes. Um programa como o que lá foi implementado poderia --e deveria-- ser adaptado ao Brasil. É preciso mudar. E a hora é essa.

O descaramento como política: O Estado de S. Paulo - Editorial

O programa de governo Dilma Rousseff 2014 é uma peça publicitária, com forte dose de ficção. Um dos tópicos, intitulado Os 12 anos que transformaram o Brasil, é constrangedor. Ali, a mentira parece adquirir status de verdade histórica.

O que primeiro choca é a incongruência entre o título do programa (Mais mudanças, mais futuro) e o conteúdo proposto. Era de esperar que, com resultados tão pífios - reconhecidos não apenas por analistas econômicos, mas, como as pesquisas têm indicado, pela população em geral, que já percebeu qual é a qualidade do atual governo -, o leitor do programa se deparasse com algo diferente do que viu nos últimos anos. Mas o que lá está é mais do mesmo, com a reedição de "programas" pontuais e desconexos, sem uma visão ampla do que o Brasil precisa. Vê-se logo que é um programa feito pró-forma, em que o País é um simples acessório.

Furtando-se de analisar os seus anos de governo - o que seria mais honesto -, sempre que pode Dilma inclui os oito anos de Lula nas suas comparações. Disso resultam afirmações que se chocam com a verdade. Por exemplo, "ao final de três mandatos, todos os indicadores do período são positivos e sempre muito melhores do que os vigentes em 2002". Haja criatividade nos números para tamanha miopia!

Em relação ao seu calcanhar de aquiles - a inflação -, não tendo o que apresentar, usa bravatas pouco convincentes. "Entendemos o poder devastador da inflação (...) e por isso jamais transigiríamos ou transigiremos com um elemento da política econômica com esse potencial desorganizador da vida das pessoas e da economia". Se de fato Dilma entendeu o poder devastador da inflação, seus anos de governo são um exercício explícito de má-fé. O que ela de fato compreendeu foi o efeito político da inflação, daí a manipulação de números e os preços e tarifas administrados.

Há passagens que são a mais deslavada mentira. "Os governos do PT assumiram a histórica tarefa de investir na infraestrutura logística brasileira. (...) O Brasil dos governos do PT e de seus aliados ficará marcado como o período da história recente com mais entregas de grandes obras de infraestrutura."

Será uma piada de mau gosto? Se há um setor onde existe uma distância abissal entre o que o País necessita - e o governo prometeu - e a administração petista entregou, este é o da infraestrutura. É dessa forma que a Mãe do PAC vê os resultados pífios do seu mandato?

No programa, renova-se a "profissão de fé do PT" no seu modelo de desenvolvimento. Informa que ele está assentado em dois pilares - a solidez econômica e a amplitude das políticas sociais - e que ganhará no próximo governo um terceiro sustentáculo: a competitividade produtiva. Infelizmente, não houve, como afirma o documento, "defesa intransigente da solidez macroeconômica". É fato de domínio público. Sobre as políticas sociais, também é conhecido como o PT entende o seu maior trunfo: repasse de verba, sem acompanhamento de resultados efetivos. "Social", para o governo atual, é sinônimo de voto. Na sua lógica, se deu voto, houve transformação social. E o terceiro pilar é algo de que o PT pouco entende, como já se viu. No máximo, sabe dar incentivos pontuais, de alcance duvidoso, sem uma política de governo séria e responsável, que garanta a confiança no ambiente dos negócios.

Para aparecer bem na foto, o PT não tem escrúpulos de editar a imagem real. No programa, afirma-se que "a tarefa de combater a extrema pobreza (...) foi superada". Confundem o título de programa social, "Brasil sem Miséria", com a realidade vivida. Afronta a sensibilidade humana fazer campanha eleitoral ignorando a realidade de tantos brasileiros e brasileiras que ainda vivem em condições sub-humanas.

Não foi o PT quem inventou certa "flexibilidade" nos programas de governo. Já existia antes dele. Mas o atual governo pôs em outro patamar o nível de descaramento. Eleições merecem respeito, porque o cidadão merece respeito. Há limites até mesmo para o que se põe no papel, ainda que na ética petista tudo aquilo que o mantenha no poder seja visto como legítimo. O Brasil merece outra ética, outra política.

Merval Pereira: A pátria nos ombros

- O Globo

Mais uma vez a seleção brasileira soçobrou ao peso da sua incompetência, aumentada pela enorme carga emocional com que cada um dos jogadores entrou em campo. Mais uma vez cantaram o Hino Nacional como se fossem guerreiros, e não jogadores de futebol. Mais uma vez disputaram o terceiro lugar para salvar a honra da pátria.

O que define bem o pensamento dos jogadores é a frase emblemática de Davi Luiz após a acachapante derrota para a Alemanha: “Só queria poder dar uma alegria ao meu povo, a minha gente que sofre tanto. Infelizmente, não conseguimos. Queria ver meu povo sorrir. Todos sabem o quanto era importante para mim ver o Brasil inteiro feliz pelo menos por causa do futebol”.

Nesta análise sociológica rasa, porém bem-intencionada, de nosso capitão-herói (e pobre de um país que precisa de heróis, como já disse Bertold Bretch) está simbolizado todo o peso que jogaram em cima da seleção brasileira mais uma vez.

Certamente essa ideia de que é uma responsabilidade de cada um dos jogadores dar alegria ao povo brasileiro “pelo menos no futebol” foi incutida neles nas intermináveis sessões de autoajuda em que o suposto técnico tratava do espírito de seus guerreiros, esquecendo-se de treinar jogadas, de montar esquemas táticos que neutralizassem nossos adversários.

Não se viu nos estádios nada parecido com uma organização de jogo, mas se viu muita emoção, símbolos diversos como a camisa de Neymar a indicar que ele estava presente, um 12º jogador em espírito.

O contraponto a essa opressão patriótica podia-se ver nos jogadores da Alemanha e da Holanda, andando tranquilos pelas praias onde estavam concentrados, dançando com índios na Bahia, dando autógrafos nas praias do Rio, misturando-se à multidão de torcedores.

A visão distorcida de uma missão dos jogadores para além das quatro linhas do campo, sobrecarregando-os a ponto de paralisar suas ações, é consequência de objetivos equivocados. Imaginar que é sua responsabilidade dar alegria ao povo brasileiro “pelo menos no futebol” já embute uma visão política crítica enganosa, como se uma vitória da seleção brasileira fosse suficiente para dar forças ao povo para aturar uma vida difícil.

Do ponto de vista do puro futebol, o alemão Özil resumiu bem a situação: “Vocês têm um país maravilhoso, um povo fantástico e jogadores incríveis — esse jogo não pode destruir seu orgulho!”. Já Podolski, depois de elogiar “a amarelinha”, afirmando que os “heróis que nos inspiraram são todos daqui”, deu um sábio conselho aos torcedores:

“Brigas nas ruas, confusões, protestos não irão resolver ou mudar nada. Quando a Copa acabar e nós formos embora, tudo voltará ao normal. Então, muita paz e amor para esse povo maravilhoso, um povo humilde, batalhador e honesto, um país que eu aprendi a amar”.

Nas visões dos jogadores brasileiros e alemães está a diferença: os nossos deixaram a técnica de lado para se dedicar de corpo e alma ao objetivo de serem campões aos trancos e barrancos, pois já começaram o campeonato “com a mão na taça”, como determinara o assessor técnico Parreira.

Os alemães, como disse Podolski em sua mensagem, realizaram em campo a técnica desenvolvida com muito esforço e dedicação nos anos anteriores, para se recuperar das derrotas a partir da Eurocopa de 2000. Sem misturar a pátria com o futebol, deixando a metáfora do grande Nelson Rodrigues na sua dimensão literária.

E muito menos misturar futebol com política.

Dora Kramer: Fogo de palha

- O Estado de S. Paulo

De início uma promessa: fica encerrado aqui, junto com o fim da Copa, o assunto futebol. Haja o que houver hoje à tarde no Maracanã, o tema volta ao escaninho daqueles distantes da alçada deste espaço.

Isso, evidentemente, se políticos de oposição e situação não resolverem usar os acontecimentos do campeonato nas respectivas campanhas eleitorais. Mais uns dias de mistura de política com o esporte já estará de bom tamanho. Inclusive porque a politicagem parece ser dos males um dos maiores no futebol.

Caso a oposição continue acusando o governo de se valer da Copa estará ela fazendo o mesmo. Já a situação, se prosseguir na toada de tentar tomar para si a tarefa de reformular o futebol como legado governamental, corre o risco de cair em vazio semelhante ao provocado pelos pactos sugeridos como resposta aos protestos de junho de 2013.

Até agora o Planalto não parecia preocupado com isso. A presidente Dilma Rousseff, em recente encontro com o grupo Bom Senso F.C., surpreendeu-se com os relatos e demonstrou estar completamente alheia à realidade do esporte no País.

O ex-presidente Lula, apaixonado e, mais que isso, bastante familiarizado com o assunto, jamais empregou esforços para enfrentar os problemas a respeito dos quais agora todos falam como de um passivo acumulado há anos. Liderou o cordão do oba-oba na hora da bonança e, nesse momento de tempestade, como é de seu estilo, recolheu-se ao silêncio.

O ministro do Esporte, Aldo Rebelo, saiu propondo "alguma intervenção do Estado" no futebol. Se estiver falando de empenho junto à base governista para a aprovação da Lei de Responsabilidade Fiscal do Esporte e de outras medidas que coíbam corrupção e gestões temerárias, é um bom debate.

Já controle estatal é outra coisa. Para ficarmos no terreno administrativo, está bem demonstrado que presença do Estado não é garantia de eficiência. Nem de lisura. Mas a presidente Dilma Rousseff, em sua entrevista à CNN Internacional, pareceu talvez falar daquela outra coisa. Defendeu "mudanças".

A começar pelo fim da "exportação de jogadores" de modo a assegurar atrativos para os campeonatos locais. Não ficou claro se deu um mero palpite - cuja validade é a mesma de qualquer outro - ou se fez uma proposta.

Na segunda hipótese, tão inexequível quanto o plebiscito para a Constituinte da reforma política. Não há como o governo impedir o ir e vir de jogadores. A menos que a ideia seja fazer algo parecido com o controle cubano sobre seus médicos.

Mais barato. Assim que o STF concluir a votação sobre a inconstitucionalidade das doações para campanhas eleitorais feitas por pessoas jurídicas, a Ordem dos Advogados do Brasil vai atuar para que o Congresso aprove o quanto antes uma regra estabelecendo limite de gastos igual para todos os partidos.

A OAB entrou com a ação junto ao STF em 2011. O julgamento começou neste ano, mas foi suspenso por pedido de vista quando a votação estava 6 a 1. Se nenhum ministro voltar atrás no voto, já há maioria para proibir as doações de empresas.

Segundo o presidente da Ordem, Marcus Vinícius Coelho, o objetivo da ação não é criar atalho para se chegar ao financiamento público puro, como defende o PT. "Não temos compromisso com partido algum", diz.

A finalidade é unicamente reduzir os custos de campanha. Segundo ele, comparativamente ao PIB o Brasil é o país que mais gasta. "Dez vezes mais que a Inglaterra, por exemplo, que empenha 0,09% do PIB em campanhas eleitorais e nós, 1%."

A consequência natural, na opinião de Marcus Vinícius, será a inibição do uso do caixa dois. "Havendo limite, se reduz o volume de dinheiro em circulação e todos são obrigados a montar estruturas mais modestas, o que torna identificável a olho nu aquele que usar recursos por fora, além do permitido."

Marco Aurélio Nogueira: Bola com a política

• ‘Politizar’ as eleições significaria abrir o jogo entre interesses coletivos e particulares

- O Estado de S. Paulo / Aliás

A oportuna e enigmática declaração da presidente Dilma Rousseff de que a próxima disputa presidencial será “a mais politizada da história” sugere reflexão.

Pode-se antes de tudo imaginar que a presidente quis se referir ao fato de que a disputa privilegiará a dimensão política, de modo a fazer com que as divergências entre os candidatos ultrapassem o plano adjetivo, mesquinho e superficial e se explicitem de forma substantiva, consistente.

Há dois modos típicos de se discutir divergências políticas. Cada um se subdivide em dois, que se combinam.

Um deles privilegia o público e o que é de interesse coletivo; o outro privilegia os correligionários e o que é de interesse particular (de um partido ou candidato). O primeiro politiza bem mais que o segundo, que pouco faz além de partidarizar.

A outra polarização sugere que se pode agir para destacar o que diferencia as posições divergentes ou o que as aproxima. No primeiro caso, busca-se a preponderância, aquilo que isola e distancia um do outro. No segundo, busca-se o que os divergentes têm em comum e pode servir de base para que se atenuem as diferenças. Nesse caso, o primeiro produz tensão e exclusividade: é arrogante, digamos assim. O segundo produz relaxamento e cooperação: é mais humilde.

São duas formas de pensar a politização. Uma politiza mais, tem qualidade superior: incorpora, agrega e educa, busca enfatizar o que é comum e mais relevante. A outra politiza menos, tem baixa qualidade: trabalha dividindo e separando, oferecendo ao público um alimento já mastigado e artificialmente universal.

No Brasil atual, todos os protagonistas - tucanos, petistas, socialistas, verdes, comunistas, liberais, conservadores, democratas - politizam buscando afirmar a própria posição e desrespeitando ou ignorando as posições alheias. Por isso, o debate político não avança, não gera interlocução. A explicação para tal situação pode ser encontrada tanto na má qualidade dos debatedores quanto na ausência, neles, de algo mais do que interesse de parte, cegueira perante o que é interesse coletivo.

Tem-se dito o tempo todo: faltam projetos de sociedade, sobram projetos de poder.

Os dois modos podem ser combinados no decorrer de um embate político. Costumam ser combinados, aliás, já que política é busca de afirmação e de sedução, tentativa permanente de ser protagonista e de atrair os que pensam diferente, se possível para impedi-los de ser protagonistas.

Mas um dos modos tenderá a prevalecer, na dependência da personalidade, das intenções e dos projetos dos contendores.

O modo como se pensa a politização interfere no modo como se faz política. Por mais que sofra a influência das circunstâncias históricas globais - cada época tem sua política -, a discussão política está fortemente determinada pela cultura de cada sociedade. Ocupa, aliás, um lugar central nessa cultura, tendendo a preencher muitos espaços e florescer onde menos se espera.

As manifestações dos torcedores brasileiros durante a Copa de 2014 refletiram de alguma maneira o modo como pensam e agem politicamente. A facilidade com que se passou do campo de jogo para o campo político indica com clareza isso, assim como as vaias e ofensas dirigidas à presidente e aos hinos de outros países. Quiseram indicar com isso que a culpa pelo fracasso no campo ou pelo que muitos consideram erros de organização do evento devia ser imediatamente associada à política.

Assim como esteve encharcado de política o modo como se reagiu ao cataclismo provocado pelos 7 a 1 da Alemanha. Queimaram-se bandeiras, buscaram-se responsáveis, fizeram-se acusações, falou-se que a seleção teria “obrigação de vencer” mesmo que estivesse despreparada e praticasse um futebol abaixo da média. Não se viu o jogo politicamente, quer dizer, como uma disputa entre contendores que respeitam regras e buscam fazer com que o substantivo prevaleça sobre o adjetivo.

A derrota humilhante ainda não foi processada. Poderá ser - e é de desejar que seja - devidamente politizada, analisada com a prevalência do coletivo sobre o individual, do todo sobre a parte, assim como com a devida consideração do que há de processo e de história, de projeto e mentalidade, de preparo e improviso, de fortuna e virtù, de disciplina e organização num simples esporte popular.

Sem isso, pouco se tirará de positivo do fiasco. Não se aprenderá com ele e, no dia seguinte, a vida futebolística seguirá a mesma. Despolitizada.

*Marco Aurélio Nogueira é professor titular de Teoria Política e Coordenador do Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais da Unesp

Eliane Cantanhêde: O pós-Copa

- Folha de S. Paulo

A Copa acaba, as seleções se dispersam e os turistas voltam para casa, mas Dilma continua no gramado, com a bola rolando e sob todos os holofotes e atenções.

Nas últimas partidas, tome de entrevistas para estrangeiros. No final de semana, manchetes na internet até falando de corrupção. E chegou o dia de enfrentar o Maracanã, cercada por 12 chefes de Estado.

Entregue a taça, para o bem ou para o mal, Dilma continuará em campo para minimizar as perdas abstratas com os 7 a 1 contra a Alemanha e potencializar os ganhos concretos com o sucesso da Copa.

Hoje, domingo (13), as fotos com a taça no Maracanã e do almoço com presidentes no Palácio Guanabara. Amanhã, o início de infindáveis entrevistas, balanços e badalações com os resultados objetivos da Copa: tantos turistas, tantos dólares, estádios assim, aeroportos assado.

Os 7 a 1 entram para a história, o sucesso da Copa entra para a campanha. A Copa deu certo, isso é inegável. Agora, é refletir nas pesquisas.

Depois vêm infindáveis entrevistas, balanços e badalações da reunião de cúpula dos Brics, com os chefões de Rússia, Índia, China e África do Sul. Parte na aprazível Fortaleza, parte na simbólica Brasília.

A agenda é extensa e não há como os oposicionistas competirem em exposição, em manchetes, em temas. Enquanto isso, por onde andarão e o que estarão fazendo e falando Aécio Neves, do PSDB, e Eduardo Campos, do PSB?

Apesar de tudo, ambos têm trunfos e discurso político, dados de graça pela ganância do PT e pela arrogância de Dilma: Aécio rachou os palanques estaduais da reeleição, Campos tem Marina Silva e ambos podem desfiar um novelo de erros destes quatro anos na economia e na gestão.

Aécio terá menos de cinco minutos e Campos, menos de dois na TV, suficientes para provocar: e aí, classe média, excluída do paraíso, dos estádios e dos supermercados?

Luiz Carlos Azedo: A bola que vai rolar

- Correio Braziliense

A Copa do Mundo do Brasil acaba hoje, com um jogão entre a Argentina e a Alemanha no Macaranã. Quem tem ingresso será um privilegiado. Assistirá de corpo presente a uma partida de futebol inesquecível, com a torcida urrando nas arquibancadas tomadas por argentinos e, em menor número, por alemães. Quem não tem ingresso que reserve um lugar para assistir pela televisão. Será mais uma partida imperdível.

Os brasileiros farão parte do show, muitos com a camisa do Flamengo, cores da Alemanha, outros com a do Grêmio, da Argentina, a maioria com a da nossa Seleção. Estarão divididos em relação aos dois times: somente com a bola rolando é que saberemos quem vai ganhar o coração da maioria da torcida tupiniquim.

Não importa o resultado do jogo de ontem, entre Brasil e Holanda, no Mané Garrincha, pela disputa de um honroso terceiro lugar. A festa acabou para nós na terça-feira passada, com aquele 7 x 1 vexatório que levamos dos alemães. Entretanto, o jogo de hoje será um colírio para quem ainda chora o fracasso da nossa Seleção. Mais uma vez, haverá um duelo entre as melhores escolas europeia e latino-americana de futebol.

Não se pode mais falar de futebol-arte contra futebol-força, como antigamente, ma non troppo. A Argentina dependerá da raça e da criatividade de seus jogadores, liderados por Messi e Di María. A Alemanha contará com mais preparo físico e a aplicação técnica de seu time, além de craques do naipe de Klose e Müller.

Vaia anunciada
A bola que vai rolar a partir de agora, porém, é a outra: a disputa pelo poder político, com a campanha eleitoral pegando fogo. A propósito, Dilma Rousseff corre o risco de ser vaiada e xingada no Maracanã, que não costuma perdoar os políticos que se apresentam naquele templo do futebol. O consenso criado em relação à Copa pela Seleção Brasileira se perdeu com a derrota no Mineirão.

Mas, diferentemente do que aconteceu no jogo de abertura, no Itaquerão, desta vez a presidente da República não pretende ser nada discreta. Quer entregar a taça ao time vencedor, mesmo que debaixo de apupos da torcida. Por mais constrangedor que seja, é um gesto de coragem. Mas também há muito de cálculo político nessa decisão.

As pesquisas mostraram que Dilma ganhou muito mais do que perdeu com as vaias e xingamentos recebidos na abertura do torneio em São Paulo, na qual pretendia ter a presença mais discreta possível. A maioria considerou essa atitude uma tremenda falta de educação. Com o sucesso da Copa do Mundo, pelo menos até a goleada alemã, Dilma subiu 5% nas pesquisas de opinião. Com o fim dos jogos, analistas acreditam que voltará aos índices anteriores, mas isso ainda é puro "achismo". É preciso aguardar as próximas pesquisas para saber o que aconteceu.

Evento político
Dilma convidou o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Joaquim Barbosa, que está se aposentando, para acompanhá-la na final dos jogos. Ex-peladeiro (um problema na coluna o afastou da bola), o ministro aceitou com gosto. Outro companheiro de tribuna de honra será o governador do Rio, Luiz Fernando Pezão (PMDB), candidato à reeleição, esse, sim, outro forte candidato às vaias da torcida.

Candidata à reeleição, Dilma ainda quer fazer da final da Copa do Mundo um evento político a seu favor. Aécio Neves (PSDB e Eduardo Campos (PSB), seus principais concorrentes nas eleições, já subiram o tom das críticas ao governo, inclusive em relação à Copa. Depois do torpor da opinião pública por causa do futebol, a oposição acredita que voltarão à pauta os problemas do país, principalmente os que mais interferem na vida dos cidadãos.

Uma das estrelas internacionais aguardadas por Dilma no Maracanã é Angela Merkel, primeira-ministra da Alemanhã, que vem com a esperança de levar a taça pra casa. As duas se tornaram amigas depois de descobrirem que estavam sendo espionadas pelos serviços de inteligência dos Estados Unidos. Merkel acaba de expulsar do país um espião da CIA, a agência de inteligência dos EUA. Na entrevista que deu à rede norte-americana CNN nesta semana, Dilma pegou leve. Disse que Barack Obama não sabia dos grampos.

Também estarão aqui os presidentes da Rússia, Vladimir Putin; da China, Xi Jinping; e da África do Sul, Jacob Zuma; além do primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, líderes dos países que formam os Brics, juntamente com o Brasil. Na reunião que farão em Fortaleza, na terça-feira, será criado um banco de desenvolvimento conjunto e uma espécie de fundo de estabilização econômica de US$ 100 bilhões.

A grande ausente, porém, será a presidente da Argentina, Cristina Kirchner, que vai assistir ao jogo na Casa Rosada, em Buenos Aires. Teme a "Síndrome de Menem", alusão à fama de pé-frio do ex-presidente Carlos Menem, que viajou à Itália em 1990 para presenciar o jogo de estreia da Argentina, que era a favorita da Copa e perdeu para a seleção de Camarões, em Milão, por 1 x 0.

Ferreira Gullar: A Copa das Copas

• O que vai acontecer agora com aqueles milhões de torcedores que acreditavam em nossa seleção?

Ilustrada – Folha de S. Paulo

Deixei para escrever esta crônica depois da semifinal entre o Brasil e a Alemanha. A principal razão era que, como esta crônica é publicada no domingo, isto é, hoje, dia da decisão final da Copa do Mundo, já teria uma ideia do desfecho que eu mais temia: uma segunda derrota de nossa seleção, jogando em casa, como ocorreu em 1950.

Não que, na minha opinião, o Brasil fatalmente estaria na final. Nada disso, mas, em futebol, como se sabe, tudo é possível. Conforme declarou o técnico da seleção argentina, após a derrota do Brasil, na terça-feira, "futebol é o esporte mais ilógico que existe". De fato, perder para a Alemanha, no meu entender, era previsível, mas não de 7 a 1.

Fiz bem, portanto, em esperar o resultado do jogo Brasil X Alemanha para escrever esta crônica. É que, conforme o leitor teria deduzido de comentários anteriores, eu temia que algo de muito ruim acontecesse. Achava mesmo que passar pela seleção alemã seria difícil, quase impossível.

Isso pensava meu lado racional, mas o outro lado, certo de que em futebol tudo é possível, admitia que talvez a gente passasse para a final. Claro que minha maior preocupação, neste caso, seria a derrota na última partida da Copa e a perda do título.

Veja bem, se a derrota em 1950, por apenas 2 a 1, deixou um trauma que dói até hoje, imaginem a repetição disso no Brasil de hoje, que decidiu realizar a Copa das Copas?

Não queria nem pensar nisso, mas não sei se o que aconteceu não foi pior: não chegamos sequer à final e levamos uma lavada de 7 a 1, num jogo em que a nossa seleção parecia um time amador enfrentando uma seleção de verdade.

Confesso que, quando vi os alemães, depois do primeiro gol, dominarem inteiramente a partida e, em poucos minutos, marcarem mais três gols, temi pelo pior: eles vão nos vencer de dez a zero ou mais!

De fato, nunca tinha vivido uma situação semelhante. O que vai acontecer com aqueles milhões de torcedores que acreditavam em nossa seleção e que agora a veem correr como baratas tontas atrás da bola que os alemães dominam como querem?

O primeiro tempo terminou com o escore de 5 a zero. Um vexame, mas também uma tragédia.

Alguns minutos depois, comecei a ouvir na minha rua um rumor estranho. É que moro próximo à praia de Copacabana, onde há um telão transmitindo o jogo. O rumor que ouvi vinha de uma multidão que deixava a praia para não ter que assistir ao segundo tempo daquela derrota inacreditável.

O mesmo ocorreu no Mineirão, onde o jogo se realizava: grande parte dos torcedores deixou o estádio antes de começado o segundo tempo da partida. Tive vontade de fazer o mesmo, mudar de canal e assistir a outro qualquer programa que nada tivesse a ver com aquela derrota patética.

Mas não fiz isso, fiquei ali, perplexo, esperando o jogo recomeçar. Não que alimentasse qualquer esperança de reverter aquele escore; é que não podia fingir que estava indiferente ao que ocorria naquele estádio de futebol e dizia respeito ao país inteiro.

Foi aí que me lembrei das declarações de Felipão e de Parreira, ambos afirmando que a vitória da seleção brasileira era certa. Segundo Felipão, não éramos pentacampeões por acaso e, se éramos pentacampeões, éramos melhores que os demais.

Essas afirmações, na época, me pareceram absurdas, uma vez que não é título que ganha jogo e, sim, jogando é que se ganha o título.

O Brasil é pentacampeão mundial porque, em determinados momentos, possuiu craques e times de alta qualidade e, por isso mesmo, quase imbatíveis.

Mas ele meteu isso na cabeça dos nossos garotos e na cabeça de milhões de torcedores.

Na verdade, essa nossa seleção não é tão boa assim. Possui craques como Neymar, David Luiz e Thiago Silva, mas não um time à altura de nossas seleções vitoriosas, constituídas de craques que, na época, estavam entre os melhores do mundo.

A verdade é que a seleção de agora chegou às semifinais a duras penas, indo para a prorrogação e para os pênaltis. Jamais acreditei que ela ganharia a Copa.

Pois bem, hoje, Alemanha e Argentina decidem quem ficará com o título de campeão do mundo. Ontem, o Brasil deve ter disputado com a Holanda o terceiro lugar. Espero que tenha tido melhor sorte.

João Bosco Rabello: Pesos diferentes

- O Estado de S. Paulo

Com o fim da Copa, e o início efetivo da disputa eleitoral, o horário gratuito na televisão é aguardado pelos candidatos como propulsor das campanhas, o que vale mais para a oposição do que para a presidente Dilma Rousseff, já beneficiária de uma intensa e privilegiada exposição propiciada pelo cargo.

É fato que a candidata à reeleição, pela própria missão de governo, mantém-se em evidência cotidiana e, ainda que se restringisse aos limites da legislação eleitoral, o que não foi o caso até aqui, está diariamente na casa do eleitor, a qualquer pretexto, quando quiser.

Essa visibilidade, no caso de Dilma, vem acompanhada dos resultados de seu governo, mal avaliado em áreas essenciais e paralisado por uma estagnação econômica, o que explica o pouco efeito de sua ampla exposição na mídia.

Nesse contexto, o dado significativo é que, embora conhecida por 99% dos entrevistados, a presidente só alcança o apoio formal de 38%, o que reforça a conclusão de que a televisão torna-se essencial para Aécio e Campos, que dependem de mais visibilidade, mas não para Dilma.

Seus índices negativos mais caíram que subiram, exceção para o período da Copa do Mundo, cujo êxito como evento registrou leve melhora no humor da população, provavelmente já neutralizada pela tragédia futebolística diante da Alemanha.

De qualquer forma, seria efêmero o efeito do êxito na organização do torneio. A percepção do gargalo da infraestrutura urbana, da inflação, do fim do poder de consumo, do endividamento das famílias, entre outros dramas cotidianos, voltará com a vida real, findo o poder amistoso da Copa.

Já para os candidatos de oposição, o período de propaganda na televisão é crucial, posto que as pesquisas indicam que o líder na pesquisas, Aécio Neves, é desconhecido por 16% do eleitorado e seu rival, Eduardo Campos, por 36%.

Mesmo assim, numa simulação de 2.º turno, perderiam para a presidente por porcentuais de apenas 7% e 13%, respectivamente. Sem dúvida, um cenário que autoriza otimismo com relação à exposição na televisão, que será isonômica na segunda etapa da eleição.

Em desvantagem abissal na distribuição do tempo, a oposição terá o desafio da síntese com qualidade para transmitir sua mensagem e apostar também na fase dos debates, em que o governo se valerá basicamente do passado, que não lhe é favorável, com pouco poder de persuasão quanto à oferta de futuro.

A televisão também não tem poder de reverter as alianças estaduais já consolidadas, como seria desejável para o governo, que constituem forte influência na militância durante a campanha.

Pedro S. Malan: A precária retórica dos 12 x 8 anos

- O Estado de S. Paulo

"O que você con-sidera uma pessoa normal?", perguntou um amigo ao neurologista Oliver Sacks, achando que este não levaria a pergunta a sério. Mas Sacks sugeriu que uma pessoa normal talvez fosse aquela capaz de contar sua própria história: suas origens, o que tinha feito na vida, as circunstâncias em que se encontraria hoje, para onde achava que estava indo - ou desejaria ir - e o que estava fazendo para tal. Em O Círculo dos Mentirosos, Jean-Claude Carrière, o autor da pergunta, conta essa história e se pergunta: podemos dizer de uma sociedade o que se diz de um indivíduo?

Em outras palavras, que uma sociedade "normal" precisa ser capaz de contar sua própria história, identificar-se, situar-se com naturalidade no curso do tempo histórico seu e do mundo que é sua circunstância? O "normal" não seria uma sociedade dotada de ordenada memória, constantemente ativada e animada pelas exigências do presente, capaz de encontrar em si os elementos que fundassem sua autoestima, sem a qual é impossível encarar o futuro com um mínimo de confiança? Creio que as perguntas de Carrière não são irrelevantes. Afinal, um país digno desse nome precisa ter alguma consciência social de seu passado, algum vislumbre de seus futuros possíveis e, muito importante, identificar os principais desafios de seu fugidio presente por meio do infindável diálogo entre seu passado e seu futuro.

Para descer um pouco à terra: estamos no Brasil de meados de 2014, a dois meses das eleições que definirão os próximos quatro anos - e bem adiante. É fundamental mirar esse futuro sem desconhecer os cada vez mais visíveis problemas do presente e tampouco os processos e decisões que a eles nos levaram. Como já notei mais de uma vez neste espaço, há importantes armadilhas, algumas autoimpostas recentemente, que terão de ser destravadas.

Mas, além de desativar armadilhas, há muito, mas muito ainda em fazer neste país - o que não significa desconhecer o feito por várias administrações, inclusive a atual -, e é esse muito por fazer que deveria estar no centro do debate público. Um olhar à frente, e não um olhar no retrovisor voltado para estradas já trilhadas. Entendo a estratégia eleitoral do lulopetismo, embora lamente que ela não ajude em nada - ao contrário - a busca das convergências possíveis, que poderiam talvez contribuir para reduzir as incertezas do presente.

Escrevi neste espaço em 2006, reescrevi em 2010, quando a mesma estratégia foi seguida, e de novo agora: não acredito que "a cultura política" do País e seus eleitores tivessem ou tenham algo a ganhar - ao contrario - com uma obcecada tentativa de transformar o debate eleitoral de 2014 numa batalha de aguerridos marqueteiros, militantes e blogueiros. E mais, creio que o discurso retórico "dos 12 anos do lulopetismo versus os 8 anos de FHC", tão caro aos estrategistas marqueteiros, não se sustenta em seus próprios termos.

Por que digo isso? Porque o primeiro mandato de Lula foi distinto do segundo e os 4 anos de Dilma Rousseff, distintos daqueles 8. A tentativa de descrever o conjunto dos 12 anos como marcados por grande unidade na condução da política econômica que poderia ser projetada para o futuro pode justificar-se apenas como expediente eleitoral. Esperemos.

Em longa e imperdível entrevista concedida à Folha de S.Paulo em 27/2/2011, a jornalista pergunta ao ministro da Fazenda se o novo governo seria mais parecido com Lula 1 ou Lula 2. O ministro responde algo como: nem Lula 1 nem Lula 2, será um Lula 3. Deixo ao leitor interpretar o que seria o Lula 4 e vou utilizar apenas a categorização da entrevistadora e do ministro.

Lula 1 beneficiou-se e muito, como é ou deveria ser sabido, de uma combinação positiva de três ordens de fatores: uma situação internacional extraordinariamente favorável, uma política macroeconômica não petista seguida por Antônio Palocci e Henrique Meirelles e uma herança não maldita de mudanças estruturais e avanços institucionais alcançados na vigência de administrações anteriores - inclusive de programas na área social que foram mantidos, reagrupados e ampliados. O Lula 1 começou a terminar quando, em 2006, saíram do governo simultaneamente, além do ministro Palocci, o vice-ministro Murilo Portugal, seu secretário do Tesouro, Joaquim Levy, e seu secretário de Política Econômica, Marcos Lisboa, entre outros.

Lula 2 assumiu com nova equipe e nova concepção sobre o crucial papel do Estado e de suas empresas no desenvolvimento do País. O PAC e suas sucessivas e cada vez mais ambiciosas versões foram, em parte, a expressão dessa nova postura. A crise internacional agravada após setembro de 2008 forneceu um grande álibi para a ampliação da política dita "keynesiana" que vinha sendo praticada desde 2007. O que levou aos insustentáveis 7,5% de crescimento em 2010. Só possíveis porque tivemos (efeito China) outro extraordinário surto de melhora nos termos de troca.

Dilma começou 2011 tendo de lidar com as consequências do superaquecimento de 2010. Mas ainda em 2011 surgiu a ideia da "nova matriz macroeconômica", que não deu certo em outro contexto internacional. A história é muito recente, mas suas consequências são cada vez mais visíveis.

O que importa é que o que estará em votação agora são os últimos 4 anos - afinal, é a atual presidente que busca sua reeleição. E mais obviamente, os próximos 4 anos. É uma votação sobre o presente e principalmente sobre o futuro, e não uma votação sobre um passado cada vez mais distante.

É precária a retórica dos 12 x 8. Mesmo porque a história dos últimos 12 anos, como quer que se a interprete, não seria possível sem avanços alcançados nos 8 anos anteriores. Na verdade, não apenas nesses 8, fundamentais como possam ter sido. A História do Brasil, definitivamente, não começou em 2003. Como, aliás, em nenhum país "normal".

* Pedro S. Malan é economista, foi ministro da Fazenda no governo FHC

Painel - Bernardo mello Franco (interino)

- Folha de S. Paulo

Vozes do porão
A Comissão Nacional da Verdade fará um mutirão para ouvir ex-agentes que atuaram na repressão durante a ditadura militar. O órgão está concluindo uma lista de cerca de 40 nomes, que será entregue nos próximos dias à Polícia Federal. Quem não atender ao convite inicial deve ser obrigado a falar. O objetivo da comissão é registrar as versões de todos os militares vivos que serão citados em seu relatório final, a ser apresentado em outubro. Os depoimentos começam no próximo dia 21.

Sem desculpa A comissão não quer deixar que a morte do ex-torturador Paulo Malhães, em abril, seja usada como argumento por militares que não querem falar. O órgão deve encampar a tese de que o coronel não foi vítima de queima de arquivo.

Selva Uma das prioridades do grupo é ouvir militares que atuaram na Guerrilha do Araguaia. Os mais conhecidos, como Sebastião Curió e Lício Maciel, devem ser convocados a depor em agosto.

Bola Os trabalhos da comissão ficaram parados durante a Copa do Mundo. Integrantes alegam que não havia clima no país para tratar de temas ligados à ditadura.

Dilmão A campanha de Dilma Rousseff espera que o governador do Rio, Luiz Fernando Pezão (PMDB), marque o prometido encontro com 80 prefeitos do Estado. Os aliados dele continuam migrando para Aécio Neves (PSDB).

Partido dos Jardins As campanhas majoritárias do PSDB em São Paulo serão quase vizinhas. José Serra está prestes a alugar casa ao lado do comitê de Aécio, na avenida Brasil. Geraldo Alckmin deve se instalar perto dali, na rua Estados Unidos.

Vamos conversar O PSB deve gravar amanhã uma conversa de Eduardo Campos e Marina Silva com jovens para a propaganda de TV. O estúdio, em formato de arena, foi montado em São Paulo.

Os carbonários O nanico PCO (Partido da Causa Operária), de Rui Costa Pimenta, cita no programa de governo o "direito da população a se armar". A proposta é trocar polícia e Exército por um "sistema de milícias populares". A sigla ficou conhecida pelo bordão "Quem bate cartão não vota em patrão".

Pendura Os três principais candidatos ao governo do Rio acumularam, em multas eleitorais na pré-campanha, dívidas maiores do que o patrimônio que declararam ao registrar as candidaturas.

Tostão e milhão Campeão de multas, Lindbergh Farias (PT) deve R$ 966 mil e diz ter R$ 189,5 mil em bens. Anthony Garotinho (PR), punido em R$ 757 mil, declara possuir R$ 303,5 mil. Pezão, autuado em R$ 565 mil, informa patrimônio de R$ 252 mil.

Joga pra cima A legislação eleitoral permite que os partidos quitem as dívidas em nome dos candidatos.

Ponte aérea Em São Paulo, só foram aplicadas duas multas por propaganda antecipada: uma de R$ 25 mil a Alexandre Padilha (PT) e outra de R$ 5.000 a um petebista que pôs jingle de Geraldo Alckmin (PSDB) no YouTube.

Festa do pijama Paulo Skaf (PMDB) e seu novo aliado Gilberto Kassab (PSD) têm trocado torpedos desde as 6h.

Papo reto Na conversa da última segunda com Lula, Eduardo Suplicy (PT) disse estar à disposição das campanhas de Dilma e Padilha.

Off-line Um juiz de Teófilo Otoni (MG) determinou a retirada do Facebook do ar no Brasil por ter descumprido ordem dele. O Comitê Gestor da Internet diz que não pode cumprir a decisão porque o site tem sede fora do país.

Tiroteio
"Dilma tentou tirar proveito do sucesso da seleção. Agora quer se aproveitar do fracasso dela, subordinando o futebol ao governo."
DO SENADOR ALOYSIO NUNES (PSDB-SP), candidato a vice-presidente, sobre as propostas de Dilma Rousseff após a goleada que tirou o Brasil da Copa.

Contraponto
O calendário da ministra

No início do mês, os ministros do Supremo discutiam se o número de vagas para deputado em cada Estado seria mantido na eleição deste ano. Ao lembrar que os partidos já haviam feito as convenções, Cármen Lúcia disse:

--A única coisa que eu vi até agora que tem prazo certo e definitivo no Brasil é eleição.

Comparando, a ministra brincou:

--A mulher pode estar grávida que falam: "Deita e espera mais um pouco". Para morrer, ligam-se fios e espera-se um pouco mais. Mas as eleições funcionam porque os prazos são cumpridos!

Brasília-DF -Denise Rothenburg

- Correio Braziliense

Tensão total
O que vai ocorrer no gramado do Maracanã entre as 16h e as 18h pouco importa para o governo. Todo o serviço de inteligência federal, estadual e municipal do Rio de Janeiro está voltado hoje ao monitoramento das manifestações marcadas para o início da tarde e às 18h, logo após a final da Copa. No total, foram identificadas pelo menos 10 convocações em quatro cidades sedes, Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte e Brasília. Os motivos são os mais variados, vão de protestos contra a corrupção, misturados com atos por mais educação, mais saúde. O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, e o da Defesa, Celso Amorim, estão escalados para manter a presidente Dilma Rousseff informada de tudo o que ocorrer fora do campo.
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O governo, entretanto, não identificou qualquer movimento de torcidas organizadas contra os argentinos ou algo que possa envolver diretamente os turistas estrangeiros. Mas, partindo da premissa de que seguro morreu de velho, o monitoramento das redes sociais era total. Afinal, hoje é aquele dia que, independentemente do resultado, todos que participaram da organização da Copa esperam poder dormir com a sensação de missão cumprida. Embora apenas um leve a taça para casa, o governo quer levar a tarja do dever cumprido. Falta pouco. Muito pouco.

A fonte secou
Os parlamentares têm mesmo razão quando dizem que falta dinheiro para as campanhas. Pelo menos, no caixa um. É que nessas eleições os empresários estão todos meio no escuro sobre expectativa de vitória. E, nessa situação, ninguém quer saber de se indispor nem com o governo, que pode vencer, nem com os oposicionistas que podem chegar lá. A ordem é esperar o tempo passar para ver se o quadro fica mais claro.

Na penumbra, jorra
Para financiar campanhas nessa largada, muitos empresários têm oferecido apenas caixa dois. Aí quem fica com receio de pegar é o político. Depois do mensalão e no tempo dos smartphones que registram tudo, dizem alguns, todo o cuidado é pouco.

Só se for a imprensa
Ninguém acredita que as CPIs da Petrobras vão desaguar em algo muito proveitoso no sentido de encontrar culpados. Investigação com algum resultado concreto só mesmo se a mídia trouxer algo bombástico nesse período pós-Copa. Caso contrário, o futuro da CPI é servir de ameaça de desgaste para o governo.

Novo foco, velho método
A CPI da Copa, pedida pelo senador Álvaro Dias (PSDB-PR), promete chamar mais a atenção dos políticos e dos jornais nos próximos dias. O governo, entretanto, se prepara no sentido de segurar a investigação da mesma forma que agiu nas comissões encarregadas de apurar atitudes suspeitas da Petrobras.

Jogada de marketing/ De bobos os alemães não têm nada. Bastou que eles jogassem contra o Brasil com a camisa rubro-negra para, hoje, conquistarem a simpatia da torcida na batalha final. Ainda que decidam desfilar com outro uniforme, os flamenguistas estão se achando "representados".

Enquanto isso, no Planalto.../ Ao receber os cumprimentos da presidente Dilma Rousseff por conta da vitória da Alemanha sobre o Brasil, o presidente do Comitê Olímpico Internacional, Thomas Bach, agradeceu citando um provérbio chinês, sobre uma derrota abrir oportunidades para grandes vitórias. Há quem diga que ele colocava no pacote a sucessão presidencial.

Começou/ Os primeiros materiais de campanha a chegar aos bares do Distrito Federal são do candidato Aécio Neves. Ele aparece em todos os panfletos do candidato tucano a governador, Luiz Pitiman, que aposta na performance do presidenciável tucano na capital do país para ganhar musculatura antes do período de anúncios no rádio e na tevê.

Tasso vai de táxi, de ônibus, de carona.../ Que o candidato ao Senado pelo PSDB do Ceará, Tasso Jereissati, é rico, todo mundo sabe. A novidade é não ter nem um carro em seu patrimônio de R$ 389 milhões declarado à Justiça Eleitoral. Tem quadro, quase R$ 400 mil em joias, tais como, anel de diamante, colar de safira. Mas não consta nem um fusquinha 69.

Diário do Poder – Cláudio Humberto

- Jornal do Commercio (PE)

• Nordeste pressiona Dilma pela vaga de Joaquim
Um carioca, um paulista e um gaúcho são os mais comentados para ocupar a vaga do atual presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Joaquim Barbosa, que irá “pendurar a toga” no início de agosto após 11 anos de magistratura. No entanto, as bancadas federais de deputados e senadores dos nove estados do Nordeste estão lutando para que o escolhido de Dilma para o cargo seja um conterrâneo.

• Sem nordestino
Após a aposentadoria do sergipano Carlos Ayres Britto, o Nordeste deixou de ser representado no STF, a mais alta corte do País.

• Maioria do sul
A dupla Lula/Dilma, que comanda o País desde 2003, já nomeou para o STF 12 ministros, a maioria de Rio, São Paulo e Rio Grande do Sul.

• Primeira fila
Os mais citados para o STF são o carioca Benedito Gonçalves, ministro do STJ, e o paulista José Eduardo Cardozo, atual ministro da Justiça.

• Cotados
O gaúcho Luis Adams, chefe da AGU, o carioca Luis Felipe Salomão e a gaúcha Nancy Andrigui, ministros do STJ, são cotados para o STF.

• Cartas marcadas na briga pela presidência da CNC
As regras para a eleição na Confederação Nacional do Comércio (CNC) contêm detalhes pitorescos. Segundo o artigo 6º do seu Regulamento Eleitoral, eventuais impugnações às chapas ou candidatos serão decididas por ninguém menos do que o próprio Antônio de Oliveira Santos, que há 34 anos se agarra à presidência da entidade como carrapato, e concorre ao seu 10º mandato consecutivo.

• Chapa 2
Único rival de Antônio Santos nos últimos 30 anos, Orlando Diniz será impugnado pela chapa de Antonio Santos, que também será o julgador.

• Porteira escancarada
Após abrir a porteira para haitianos, o governo se vê diante de novo surto migratório: são esperados até 1.000 “refugiados” de Gana.

• Nem aí
Alheio à coleção de pedidos de impugnação à sua candidatura, José Roberto Arruda (PR) segue fazendo comícios diários em Brasília.

• Que Dilma?
Nas bandeiras de propaganda de Armando Monteiro (PTB), candidato ao governo de Pernambuco, somente usando lente de aumento para conseguir enxergar o nome da presidenta Dilma. E olha lá.

• Toma lá, dá cá
O presidente da Câmara, Henrique Alves (PMDB), planeja colocar em pauta a indicação de Bruno Dantas ao TCU quando o Senado marcar a sabatina do desembargador potiguar Luiz Alberto Gurgel Faria para o STJ. Dantas é apadrinhado de Renan Calheiros, presidente do Senado.

• Riquinho
É o senador Delcídio Amaral, no Mato Grosso do Sul, o candidato petista a governador mais rico a enfrentar as urnas em outubro. Ele declarou à Justiça Eleitoral um patrimônio de R$ 3,381 milhões.

• Pobrinho
Quando estender a mão ao eleitor, o candidato do PT ao governo do Rio, Lindbergh Farias, corre o risco de ganhar um trocado. Ele jurou à Justiça Eleitoral possuir patrimônio avaliado em apenas R$ 189 mil.

• Pole position
A campanha de Renan Filho (PMDB) ao governo de Alagoas, tocada pelo marqueteiro gaúcho Adriano Gheres, tem sido elogiada pela qualidade no visual e conteúdo. E Renan começou a disputa na pole position.

• Senador Tilden
Com a decisão Aécio Neves de se licenciar do Senado para se dedicar à campanha, assumirá o segundo suplente, Tilden Santiago (PSB), ex-petista que marcou época como embaixador do Brasil em Havana. O 1º suplente, Elmiro Alves do Nascimento, é candidato a deputado.

• Em dívida
Além de apoiar Wilma de Faria (PSB), candidata ao Senado, Henrique Alves espera apoio de Eduardo Campos porque acha que ajudou a aprovar, na Câmara, a indicação da mãe dele, Ana Arraes, ao TCU.

• Sustentabilidade
A construtora MRV plantou mais de 13 mil árvores. Só no Rio foram mais de 4.300. Atingiu 43% da meta para o Ano da Sustentabilidade: plantar 120 mil árvores em 2014, diz seu presidente, Rubens Menin.

• Vai de ônibus?
Na declaração de bens à Justiça Eleitoral do candidato Helder Barbalho (PMDB), filho do milionário Jader Barbalho, não consta nem um carro.

Panorama político – Ilimar Franco

- O Globo

Aposta na radicalização
A campanha de Eduardo Campos torce pelo acirramento do embate entre a presidente Dilma e Aécio Neves. Uma parcela do eleitorado está cansada dessa polarização. A busca de alternativa a essa guerra já beneficiou Marina Silva em 2010 (19,6 milhões de votos). Por isso, Dilma e o PT estão comedidos em seus ataques. Já Aécio, para aglutinar sua base e por não crer no potencial de Eduardo, adotou na largada postura mais agressiva.

Plano de voo
Os candidatos à Presidência receberam quase uma dezena de convites para debates na TV. As assessorias dos três principais (Dilma, Aécio Neves e Eduardo Campos) afirmam que seus candidatos vão participar, mas não adiantam de quantos. O socialista Eduardo Campos também não definiu sua agenda de visitas aos estados. O coordenador da campanha de Aécio Neves, José Agripino, diz que a única definição é a de que o tucano irá dois dias da semana ao Sudeste, dois dias ao Nordeste e dois dias ao Centro-Sul. A candidata Dilma vai definir sua agenda a cada semana, pois terá de conciliar a campanha eleitoral com a responsabilidade de governar.
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“O governo quer ajudar os clubes de futebol, mas não pode parecer para o povo que estamos passando a mão na cabeça da má gestão”
Ricardo Berzoini
Ministro das Relações Institucionais, sobre a conveniência do parcelamento das dívidas dos clubes de futebol brasileiros.
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Todos os homens de Dilma
O comando executivo da campanha da presidente Dilma: Rui Falcão (presidente PT), Edinho Silva, Giles Azevedo (agenda), Alessandro Teixeira (programa de governo), João Santana (marketing) e Franklin Martins (comunicação).

Linha de tiro
O Ministério do Esporte, hoje sob o comando de Aldo Rebelo, vai sofrer marcação cerrada nos próximos dois anos. Todos vão ficar de olho no Plano Brasil Medalhas. A meta do país para as Olimpíadas de 2016, no Rio, é ficar entre os dez primeiros. Em Londres (2012), o Brasil ganhou três medalhas de ouro, e o décimo, a Austrália, conquistou sete.

A trégua
A oposição não acredita que o prefeito Eduardo Paes (Rio) fará de fato a campanha da presidente Dilma. Por isso, adiou para depois das eleições o bombardeio tendo como alvo as licitações e as obras para a realização das Olimpíadas de 2016.

A campanha no Facebook
Este era o placar das páginas oficiais dos candidatos a presidente no Facebook, na noite de sexta-feira. Presidente Dilma: 734 mil curtidas e 819 mil falando do conteúdo (comentário/encaminhar) da página. Aécio Neves: 936 mil curtidas e 287 mil falando do conteúdo. Eduardo Campos: 982 mil curtidas e 138 mil falando do conteúdo.

Aviso aos navegantes
Os ministros ligados à organização da Copa foram convidados para almoçar com o presidente russo Vladimir Putin e a presidente Dilma amanhã. Eles farão um relato sobre a preparação do Mundial e a relação do governo com a Fifa.

Linha de montagem
Após o PT intervir na Paraíba, o candidato ao governo Vital do Rêgo (PMDB) foi recebido pela presidente Dilma no Planalto. Ela prometeu ir à Paraíba após o dia 20. O relator da CPI da Petrobras também tirou fotos para seus panfletos.

O PREFEITO DE JOÃO PESSOA, Luciano Cartaxo, está indignado com o PT nacional e ameaça apoiar a reeleição do governador Ricardo Coutinho (PSB).

Ariel Dorfman: Vozes de lá e de cá

• Pablo Neruda fazia seus poemas com força visceral, mas os recitava como se estivesse em um repouso infinito, numa perpétua despedida

- O Estado de S. Paulo / Aliás

Há 110 anos, em 12 de julho de 1904, o mundo escutava pela primeira vez a voz do recém-nascido que algum dia se chamaria Pablo Neruda. Bem, o mundo não: os que ouviram aquele vagido do futuro poeta foram a parteira e a mãe do menino, que foi batizado com o nome inverossímil de Neftalí Reyes.

É essa voz que desejo evocar agora neste aniversário mais que centenário, um enigma e uma mensagem que se escondem nas profundezas da fala tão especial e inesquecível de Neruda.

Não fui amigo pessoal do poeta. Conheci-o quando eu era adolescente, muito de passagem: diversas visitas com outros estudantes a sua lendária casa de Isla Negra, algumas ocasiões em que topei com ele em apartamentos de amigos comunistas de meus pais, um par de palavras de admiração e agradecimento trocadas depois de um recital. Em cada uma dessas oportunidades eu pude ouvi-lo, às vezes de maneira superficial, outras, mais extensamente, declamar seus versos. E o que mais me chamou a atenção, quase de imediato, era como a sensualidade vulcânica da torrente de suas palavras escritas contrastava com a monotonia quase tediosa, um zumbido sem ênfase e sem graça com que o autor insistia em enunciar sua obra. Era como se uma tartaruga procurasse relatar a corrida alucinante de uma lebre, passo a lento passo, palavra após calmante palavra, sem a menor paixão, num ritmo sonífero. Aqueles versos tão sutis, caudalosos, desatados, sacudidos entre respirações e soluços, mereciam, assim eu pensava, uma encarnação sonora equivalente, igualmente dramática e opulenta.

Como poderia o criador de uma lírica que me estremecia, me inspirava e me cadenciava na solidão, no amor e na luta colocar-se a tanta distância da emoção que suscitava? Era algo que discuti com prazer com minha noiva e futura mulher, Angélica, para quem li, justamente, Los Versos del Capitán, os Veinte Poemas de Amor e as Residencias porque ela incorporava, para mim, tudo que era belo e bendito e afluente no universo.

Tivemos finalmente ocasião de desvelar o mistério da voz de Pablo certa tarde em meados do inverno chileno de 1964. Nesta época eu estudava literatura nas aulas e embaixo das árvores do Instituto Pedagógico da Universidade do Chile, a mesma faculdade de humanidades onde Neruda havia feito seus estudos. Por isso, não foi difícil convencê-lo a fazer uma apresentação em sua antiga casa, como parte da campanha presidencial de Salvador Allende (que ainda demoraria seis anos para triunfar e se colocar à frente do Chile).

Na época, eu era, com meus fogos os 22 anos, o chefe dos allendistas do Pedagógico e como tal me coube, com Angélica, buscar o grande poeta que havia prazerosamente aceitado nosso convite. Neruda e sua mulher, Matilde, viviam, quando em Santiago, num apartamento do bairro de Bellavista, o mesmo onde velariam, nove anos depois, seus restos em meio a uma inundação desatada pelos militares de Pinochet, pensando que com isso imporiam outra humilhação ao maior poeta do Chile.

Mas essas tristezas tremeluziam num futuro remoto e inconcebível, e a conversa com Pablo e Matilde versou sobre outras coisas.

Neruda havia estipulado uma condição para comparecer ao recital: ele estava mal de uma perna e caminhava com a ajuda de bengala; seria imprescindível, portanto, ir buscá-lo de carro. Não tendo veículo próprio, recorri a meu pai diplomata, dono de um imenso Oldsmobile, carro muito luxuoso para o Chile da época.

Neruda gostava de objetos bonitos, quer eles fossem figuras de proa de barco ou garrafas cheias de pedras belíssimas de todas as latitudes do mundo, e também, embora não creia que guiasse, dos elegantes carros americanos dos anos 1960. Por isso ele ficou muito contente com o de meu pai, apesar de estranhar que um estudante como eu pudesse contar com semelhante carruagem. Eu lhe expliquei como havia conseguido o veículo, acrescentando que tinha vergonha de chegar à universidade em algo tão opulento, o que me fez escondê-lo muitas vezes a vários quarteirões de distância para que os outros estudantes não zombassem de mim e de minhas origens “burguesas”.

Jamais esquecerei o sorriso de Neruda e seu conselho de que de nada servia esconder quem se era. Os únicos mistérios que vale a pena ocultar de olhos alheios, ele disse, são os mistérios das origens da própria criatividade, o que nós temos no mais íntimo. E passamos a falar de temas mais agradáveis e menos graves: o Nobel possível, os vaivéns políticos do momento e, como não, de assuntos culinários.

Angélica, cujo pai era amigo de Neruda, o havia visto várias vezes devorando umas enguias ao fogo brando no Restorán Miraflores, em Santiago. Ao comentar isso com o poeta, ele nos confidenciou a receita do prato, acrescentando que o mar não servia apenas para inspirá-lo com suas ondas e sua luz, mas era também uma fonte infinita de sabores e prazeres.

Eu me lembro que quase lhe perguntei, com juvenil atrevimento, sobre sua voz, por que não lhe dava mais efusão e arrebatamento em suas leituras públicas. Mas por uma vez soube morder minha impertinente língua. Meu silêncio foi recompensado pouco depois, quando Angélica e eu pudemos, com várias centenas de revolucionários imberbes, ouvir seu feitiço poético.

Com efeito, o vate nos ofertou uma enfiada monocórdica e minguada, quase flácida, de palavras que, escritas eram carnais e ardentes.

Como as ondas de um lago num dia sem vento, uma e outra e outra, cada uma expressada como se não houvesse diferença, nem turbulência nem matizes.

Neruda nos presenteou durante uma boa hora e meia com uma seleção de seus versos mais conhecidos, além de vários inéditos que estava a ponto de publicar, seu Memorial da Ilha Negra. Um dos poemas chamava-se Insônia, título de que me lembro muito bem porque eu padecia do mesmo fenômeno e me fazia naquela época, e ainda agora, a mesma pergunta da primeira estrofe:

No meio da noite me pergunto,
que acontecerá com o Chile?
Que será de minha pobre pátria sombria?

Mas o mais crucial desse recital veio ao final, quando compreendi, de imediato, a razão profunda, de raízes obscuras, que animava o estilo declamatório de Neruda.

Foi quando ele repetiu algumas estrofes do Canto Geral, provenientes de A Terra se Chama João, especificamente um poema que se articulava desde a perspectiva de Margarita Naranjo, uma mulher das minas de salitre de quem, em 1948, a polícia do presidente González Videla sequestrara o marido, Antônio. Margarita havia começado uma greve de fome que não terminaria, Neruda disse, até que lhe devolvessem seu homem. Em vez do amado, o protesto lhe trouxe a morte, da qual Neruda a fazia falar como se estivesse viva, de dentro e debaixo do deserto onde estava enterrada.

Estou morta, eram as palavras iniciais do poema. E concluía:

Agora,
aqui estou morta, no cemitério do pampa
não há senão solidão em volta de mim, que já não existo,
que já não existirei sem ele, nunca mais, sem ele.

Absorvendo aquelas palavras ali, na Universidade do Chile, presenciando como Neruda se fazia de médium e intermediário do fantasma de uma mulher desamparada e desaparecida, tive uma revelação que ainda hoje me acompanha e consola, 50 anos depois.

Compreendi que Neruda, ao escrever seus poemas, não podia ser mais inspirado, vital, vibrante, visceral. Mas, ao recitá-los, o fazia de um repouso infinito, como se estivesse perpetuamente se despedindo, se expressando do além, como se, à maneira de Margarita Naranjo, já estivesse morto. A voz com que pronunciava cada palavra não queria interferir em nossa apropriação, não queria influir no que cada leitor e ouvinte faria com esse presente, nos estava dando permissão para que fizéssemos nosso seu som.

Creio, quero crer, que Neruda estava nos preparando para um tempo em que ele não estivesse vivo, em que só disporíamos das palavras que nos deixou para recordá-lo. Com Margarita Naranjo e todos os mortos da humanidade ele nos estava dizendo então, e agora, cem anos depois de seu nascimento, aqui estou, na solidão do cemitério, e já não existo, somente existo se você e você e você me fizerem companhia, me mantiverem vivo como naquele dia longínquo em que minha mãe escutou pela primeira vez minha voz nascida para aplacar a dor da terra e da eternidade. Só existo se Vocês me derem nascimento. / Tradução de Celso Paciornik

*Ariel Dorfman, escritor chileno, é autor, entre outros livros, de 'Entre sueños y traidores: un strip-tease del exilio' (Seix Barral)

Paulinho da Viola - Nervos de Aço (Lupícinio Rodrigues)

Manuel Bandeira: Evocação do Recife

Recife
Não a Veneza americana
Não a Mauritsstad dos armadores das Índias Ocidentais
Não o Recife dos Mascates
Nem mesmo o Recife que aprendi a amar depois
— Recife das revoluções libertárias
Mas o Recife sem história nem literatura
Recife sem mais nada
Recife da minha infância
A rua da União onde eu brincava de chicote-queimado
e partia as vidraças da casa de dona Aninha Viegas
Totônio Rodrigues era muito velho e botava o pincenê
na ponta do nariz
Depois do jantar as famílias tomavam a calçada com cadeiras
mexericos namoros risadas
A gente brincava no meio da rua
Os meninos gritavam:
Coelho sai!
Não sai!

A distância as vozes macias das meninas politonavam:
Roseira dá-me uma rosa
Craveiro dá-me um botão

(Dessas rosas muita rosa
Terá morrido em botão...)
De repente
nos longos da noite
um sino
Uma pessoa grande dizia:
Fogo em Santo Antônio!
Outra contrariava: São José!
Totônio Rodrigues achava sempre que era são José.
Os homens punham o chapéu saíam fumando
E eu tinha raiva de ser menino porque não podia ir ver o fogo.

Rua da União...
Como eram lindos os montes das ruas da minha infância
Rua do Sol
(Tenho medo que hoje se chame de dr. Fulano de Tal)
Atrás de casa ficava a Rua da Saudade...
...onde se ia fumar escondido
Do lado de lá era o cais da Rua da Aurora...
...onde se ia pescar escondido
Capiberibe
— Capiberibe
Lá longe o sertãozinho de Caxangá
Banheiros de palha
Um dia eu vi uma moça nuinha no banho
Fiquei parado o coração batendo
Ela se riu
Foi o meu primeiro alumbramento
Cheia! As cheias! Barro boi morto árvores destroços redemoinho sumiu
E nos pegões da ponte do trem de ferro
os caboclos destemidos em jangadas de bananeiras

Novenas
Cavalhadas
E eu me deitei no colo da menina e ela começou
a passar a mão nos meus cabelos
Capiberibe
— Capiberibe
Rua da União onde todas as tardes passava a preta das bananas
Com o xale vistoso de pano da Costa
E o vendedor de roletes de cana
O de amendoim
que se chamava midubim e não era torrado era cozido
Me lembro de todos os pregões:
Ovos frescos e baratos
Dez ovos por uma pataca
Foi há muito tempo...
A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros
Vinha da boca do povo na língua errada do povo
Língua certa do povo
Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil
Ao passo que nós
O que fazemos
É macaquear
A sintaxe lusíada
A vida com uma porção de coisas que eu não entendia bem
Terras que não sabia onde ficavam
Recife...
Rua da União...
A casa de meu avô...
Nunca pensei que ela acabasse!
Tudo lá parecia impregnado de eternidade
Recife...
Meu avô morto.
Recife morto, Recife bom, Recife brasileiro
como a casa de meu avô.