quarta-feira, 30 de maio de 2018

Greve perde fôlego, mas desabastecimento preocupa

Normalização da venda de combustíveis deve levar uma semana; supermercados estimam prazo em um mês

- O Estado de S. Paulo.

A paralisação dos caminhoneiros começou a dar sinais de enfraquecimento no 9.º dia. Nas grandes cidades, as filas nos postos são o sinal de que a crise de desabastecimento está mais perto de uma solução. A Plural, associação que reúne as grandes distribuidoras de combustível, avalia ser necessária pelo menos uma semana para que o mercado se normalize. Nos supermercados, a associação paulista do setor estima esse prazo em até 30 dias. Apesar dos sinais positivos, focos de resistência entre os caminhoneiros ainda eram vistos ontem em todo o País. Em rodovias como a Régis Bittencourt, em SP, e a BR-040, em GO, a ordem das lideranças era resistir. Mas o ânimo entre os motoristas vinha arrefecendo. À noite, o chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas, Ademir Sobrinho, informou que existiam apenas três bloqueios totais – no DF, em MG e no CE – e nenhum deles feito por caminhoneiros.

Após nove dias, a paralisação dos caminhoneiros começa a dar sinais de enfraquecimento. O resultado disso já pode ser visto nas ruas das grandes cidades: as grandes filas nos postos de combustíveis são o sinal de que a grave crise de desabastecimento está mais perto de uma solução.

Mas não será rápido. Se tudo correr bem, a Plural, associação que reúne as grandes distribuidoras de combustível, avalia que será necessária pelo menos uma semana para tudo se normalizar. Nos supermercados, as prateleiras vão levar ainda mais tempo para voltarem a encher completamente. A Associação Paulista de Supermercados estima esse prazo em até 30 dias, já que a cadeia de produção de alimentos foi desestruturada.

Apesar dos sinais positivos, focos de resistência entre os caminhoneiros ainda eram vistos ontem em todo o País. Em rodovias como a Regis Bittencourt, em São Paulo, e a BR-040, em Goiás, a ordem das lideranças ainda era resistir. Mas o ânimo entre os motoristas vinha arrefecendo.

Em balanço apresentado no início da noite de ontem, o chefe do Estado Maior Conjunto das Forças Armadas, Ademir Sobrinho, informou que existiam três bloqueios totais: na BR-070, na saída do Distrito Federal para Goiás, em Minas Gerais e no Ceará. Mas, segundo Sobrinho, nenhum deles é feito por caminhoneiros. O que têm surgido são protestos alheias à categoria, que já provocaram confrontos entre manifestantes e policiais em pelo menos quatro pontos do País. O mais grave foi em Bacabeira, no Maranhão, onde sete pessoas foram presas – nenhuma delas era caminhoneiro, segundo o governo.

“Evidentemente, percebo que os líderes dos movimentos estão dizendo para voltar o trabalho e isso está começando a dar resultado. Tenho a impressão que entre hoje e amanhã estaremos com isso já normalizado”, disse o presidente Michel Temer, em entrevista à TV Brasil, ontem.

Setor produtivo acumula perdas bilionárias com greve

Abastecimento recomeça lentamente e preços se mantêm elevados

Produtores jogaram fora mais de 360 mil litros de leite

Indústria, comércio e serviços acumulam perdas bilionárias com os nove dias de paralisação dos caminhoneiros. Faltam estoques no varejo e matéria prima na indústria. O Porto de Santos, principal do país, opera com restrições. A Confederação Nacional da Agricultura calcula que o setor perdeu R$ 6,6 bilhões. Produtores jogaram fora mais de 360 mil litros de leite, prejuízo de R$ 1,2 bilhão. O abastecimento das cidades recomeçou ontem lentamente. No Rio, a Ceasa recebeu verduras, legumes e frutas que chegaram aos consumidores em quantidades limitadas e com preços elevados. Postos de gasolina continuavam com longas filas. O Senado aprovou o projeto que reonera a folha de pagamento de 28 setores e manteve o texto enviado pela Câmara, em que os deputados zeraram a alíquota de PIS/Cofins do diesel, o que provocaria renúncia fiscal de R$ 12 bilhões. O presidente Michel Temer anunciou que vai vetar esse item do projeto.

A conta bilionária da crise

Setores acumulam perdas com greve. Infiltrados impedem volta ao trabalho de caminhoneiros

- O Globo

No nono dia de paralisação dos caminhoneiros, indústria, comércio e serviços já contabilizam perdas bilionárias. Algumas cidades começaram a receber mais combustível e alimentos, mas a situação ainda está longe da normalização. Segundo a Polícia Rodoviária Federal, os pontos de concentração de motoristas de caminhão aumentaram de 594 na segunda-feira para 616 na noite de ontem. O governo chegou a informar que não havia mais bloqueios, mas nas o cenário é muito diferente. Lideranças sindicais denunciaram que caminhoneiros que pretendem retornar ao trabalho estão sofrendo ameaças, agressões e temem mais retaliação. Desde o começo da semana, o governo tem afirmado que o movimento foi afetado por infiltrados com motivações políticas.

O presidente Michel Temer afirmou ontem que o governo já “espremeu” todos os recursos para atender às demandas dos caminhoneiros e que não há mais margem para negociação com a categoria.

Apesar dos esforços do setor produtivo, a economia vai demorar a voltar à normalidade, o que terá impacto negativo sobre o PIB do segundo trimestre. O abastecimento de combustíveis levaria até uma semana para voltar ao ritmo habitual. Já a produção de frangos levaria dois meses, e a de suínos, até seis meses.


No Rio, 15% dos postos tinham recebido garodovias solina ontem. Em São Paulo, o quadro era de maior dificuldade. Até a tarde de ontem, apenas 36 postos tinham combustível. As principais distribuidoras vão atuar em conjunto para agilizar o abastecimento. Nos supermercados, os alimentos começam a voltar às gôndolas, mas com preço muito acima do habitual. A Ceasa recebeu 178 caminhões, mas legumes e verduras ainda saíam pelo dobro ou até o triplo do preço.

Da agricultura à aviação, todos os segmentos contabilizam prejuízos

Normalização não será rápida. No caso da indústria de suínos, são 6 meses Descarte de produtos alimentícios e paralisação de fábricas terão impacto na economia

Daiane Costa, Glauce Cavalcanti e Ronaldo D’Ercole | O Globo

-RIO, SÃO PAULO E BRASÍLIA- Desde o início da greve dos caminhoneiros, no último dia 21, o setor produtivo acumula prejuízos bilionários. Os bloqueios nas rodovias têm deixado o varejo sem estoque e as indústrias e o setor de serviços sem matéria-prima e empregados, paralisando a produção. As companhias aéreas amargam cancelamento de voos devido à falta de combustível, e o Porto de Santos, o maior terminal da América Latina, opera com sérias restrições. E a situação levará algum tempo para se normalizar, o que significa impacto na economia.

A Confederação Nacional da Agricultura (CNA) estima as perdas em R$ 6,6 bilhões e alerta que haverá falta de alimentos e alta de preços nos supermercados. Segundo o superintendente técnico da CNA, Bruno Lucchi, esse prejuízo é apenas na produção primária e não considera o processamento e a indústria de insumos:

— Fora o que está por vir, porque a recuperação não é imediata.

Um dos setores mais afetados é o de frangos e suínos, que amarga um prejuízo de R$ 3 bilhões, segundo a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABTA). Praticamente todas as unidades de produção e 235 mil trabalhadores estão parados, 70 milhões de frangos morreram, e 1 bilhão de aves e 20 milhões de suínos ainda correm risco de morrer. A recuperação vai demorar, porque são ciclos longos de produção: a cadeia do frango levaria dois meses, e a dos suínos, 180 dias.

A produção de soja tem deixado de escoar diariamente 400 mil toneladas do grão, e 360 mil litros de leite foram descartados, um prejuízo de R$ 1,2 bilhão.

No setor têxtil, o drama é parecido. De acordo com o presidente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil (Abit), Fernando Pimentel, as perdas já beiram R$ 1,9 bilhão, e 70% das empresas representadas pela entidade já pararam ou estão prestes a parar:

— Não há previsão de retomar a produção. Estamos sem liderança (política), e essa situação já transcende o bom senso.

O presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (Cbic), José Carlos Martins, estima que 40% das atividades do setor tenham sido atingidas, comprometendo negócios de R$ 2,4 bilhões. E o Sindusfarma, que representa a indústria de medicamentos, estima perdas de R$ 1,6 bilhão, devido a interrupções na produção e problemas na entrega de medicamentos em farmácias e hospitais.

A produção automobilística está parada desde sexta-feira passada. A Federação da Indústrias do Estado do Rio (Firjan) calcula que isso causará uma perda de R$ 77 milhões no PIB da sua indústria de transformação.

De acordo com a Confederação Nacional do Comércio (CNC), as perdas do setor devem bater R$ 3,1 bilhões, considerando cinco estados — Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Paraná e Bahia — mais o Distrito Federal. Com isso, a CNC reduziu sua previsão para o crescimento do comércio este ano de 5,4% para 4,7%. O prejuízo se divide entre R$ 1,42 bilhão na venda de combustíveis e lubrificantes e de R$ 1,73 bilhão no comércio de hortifrutigranjeiros, até o dia 28.

87% apoiam a paralisação, mas rejeitam pagar a conta

Apoio à paralisação é de 87% dos brasileiros, diz Datafolha

56% dos entrevistados acham que a paralisação deve seguir, contra 42% que são a favor de seu fim

Igor Gielow | Folha de S. Paulo

SÃO PAULO - O brasileiro apoia maciçamente a paralisação dos caminhoneiros e defende sua continuidade, apesar de não estar disposto a pagar a conta que o governo federal aceitou receber dos manifestantes para tentar encerrá-la.

A conclusão é de pesquisa telefônica feita pelo Datafolha com 1.500 pessoas na terça (29). A margem de erro do levantamento é de três pontos para mais ou para menos.

Aprovam o movimento, que chega a esta quarta (30) ao décimo dia arrefecido mas ainda com bloqueios de estradas, 87% dos entrevistados. São contrários 10%, enquanto 2% se dizem indiferentes e 1% não souberam opinar.


Já 56% dos entrevistados acham que a paralisação deve seguir, contra 42% que são a favor de seu fim.

O apoio aos caminhoneiros é bastante homogêneo levando em conta as regiões do país, baixando um pouco entre os mais ricos e os mais velhos.

A origem da paralisação é o preço do diesel regulado pela Petrobras, que acompanha a variação internacional do combustível. Com o aumento recente do petróleo, aliado à alta do dólar, uma série de reajustes levou ao protesto.

Dando razão à análise de que há uma solidariedade difusa com o sentimento de injustiça tributária, consideram o pleito dos caminhoneiros justo 92%, índice que é de 57% mesmo entre aqueles que são contra o movimento.

Ainda assim, para 50% os caminhoneiros são mais beneficiados do que prejudicados pelo que eles chamam de greve --o governo trabalha com a hipótese de parte do movimento ter sido estimulado por donos de transportadoras. Esses, por sua vez, têm mais prejuízos, na visão de 60% dos ouvidos.

Já o cidadão se vê mais prejudicado (43% a 33% dos que se acham mais beneficiados) pessoalmente. Acham que o "brasileiro em geral" é mais prejudicado 56% dos ouvidos.

A pesquisa aferiu que o brasileiro não concorda em ser penalizado com aumento de impostos e corte de gastos federais para atender às reivindicações dos caminhoneiros.

Aprovam tais medidas, anunciadas de forma genérica dentro de uma paleta bastante variada de itens, apenas 10% dos entrevistados. São contrários 87%. Os entrevistados consideram que o governo vai favorecer empresários e caminhoneiros, e prejudicar mais a população.

Surpresa do BC e greve castigam investidores

Por Adriana Cotias, Juliana Machado, Victor Aguiar, Lucinda Pinto e Angela Bittencourt | Valor Econômico

SÃO PAULO - Maio foi um desastre para a maioria das aplicações financeiras de renda fixa e variável. À surpresa com a manutenção dos juros pelo Banco Central (BC) seguiu-se a greve dos caminhoneiros, um baque para as ações da Petrobras e para os ativos brasileiros em geral, num momento em que a cena externa já se mostrava menos favorável aos emergentes. Só em maio, os investidores estrangeiros em bolsa tiraram R$ 5,6 bilhões do país, segundo a B3. No ano, o saldo dos recursos estrangeiros é negativo em R$ 1,25 bilhão.

Diante do aumento da percepção de risco, estrategistas e gestores ouvidos pelo Valor recomendam para os próximos meses investimentos mais conservadores, como os que garantam os "magros rendimentos" da Selic, de 6,5% ao ano.

Na dianteira da rentabilidade, mais uma vez, ficou o dólar, com valorização de 6,7% no mês até ontem e 12,8% acumulados no ano. O ouro subiu 5,8% no mês e 15,3% desde janeiro. O Ibovespa teve seus ganhos de 2018 praticamente anulados pela desvalorização de 11,7% em maio.

No Tesouro Direto, opção bastante utilizada por jovens investidores, os títulos indexados à inflação com vencimento em 2045 perdiam 11,6% no mês, enquanto os papéis prefixados com resgate em 2025 caíam 7,4%. Foram quedas bastante significativas para ativos que costumam ser o porto seguro do aplicador. Essas perdas são consequência da atualização dos papéis a preços de mercado. Quem puder levar esses títulos até o vencimento, entretanto, tem assegurada a taxa contratada na data da compra.

A corrida pelo dólar acabou se acelerando após o BC sinalizar queda dos juros e, depois, na reunião do Copom, adotar a posição mais conservadora de manter a taxa. A crise do desabastecimento provocada pela greve dos caminhoneiros e a discussão sobre os preços dos combustíveis arremataram a piora na percepção geral de risco.

Intervenção é ‘do século passado’, diz general

Ministro do Gabinete de Segurança Institucional afirma que ninguém nas Forças Armadas pensa em golpe

Manoel Ventura, Karla Gamba e Geralda Doca | O Globo

-SÃO PAULO E BRASÍLIA- O ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), general Sérgio Etchegoyen, considerou ontem que intervenção militar é “um assunto do século passado”, e que nenhum militar das Forças Armadas está “pensando nisso”. Etchegoyen é general da reserva e um dos principais auxiliares do presidente Michel Temer. Cartazes e faixas pedindo intervenção militar para derrubar o governo foram vistos com alguns grevistas no movimento dos caminhoneiros.

— Vivo no século XXI e o século XXI está divertidíssimo. Meu farol é muito mais potente que o retrovisor. Não vejo nenhum militar, Forças Armadas pensando nisso (intervenção militar), não conheço, absolutamente — disse o ministro, quando perguntado sobre o que pensa de faixas e cartazes pedindo a “intervenção militar” na paralisação dos caminhoneiros.

Etchegoyen faz parte do gabinete de crise montado pelo governo para acompanhar o movimento dos caminhoneiros e participou da entrevista sobre a paralisação, no Palácio do Planalto.

— Absolutamente, é um assunto do século passado, uma pergunta em que não vejo mais nenhum sentido — disse o ministro.

Para ele, é preciso saber por que algumas pessoas pedem a volta de governos militares.
— O que eu sugiro é saber por que chegamos a isso. Quando nós estudamos álgebra, íamos atrás do X e do Y. Tem uma incógnita nessa questão que é: por que chegamos a isso? Por que chegamos a uma situação em que parte da sociedade acha que isso é uma solução razoável, sobre a mesa? (...) Não busquem encontrar problema onde ele está eliminado.

ALERTA PARA INFORMAÇÃO FALSA
Já o comandante da Aeronáutica, brigadeiro Nivaldo Rossato, assinou um comunicado para alertar a todos os integrantes da Força, militares e civis, sobre o crescimento de notícias “falsas e tendenciosas” que estão sendo divulgadas nas mídias sociais, durante a crise de desabastecimento pela qual passa o país por causa da greve dos caminhoneiros. No texto, Rossato aconselha seus subordinados a serem críticos antes de aceitar qualquer informação como verdadeira. Ele também aconselha a tropa a procurar os canais oficiais de comunicação.

‘Único caminho de acesso ao poder é pelo voto’, diz ministro da Defesa

General afirma que pedidos de intervenção incomodam os militares, por parecer que há conivência deles

Entrevista com Joaquim Silva e Luna

Tânia Monteiro | O Estado de S.Paulo

BRASÍLIA - Incomodado com as manifestações de pedido de intervenção militar, principalmente na greve dos caminhoneiros, que parou o País nos últimos nove dias, o ministro da Defesa, general Joaquim Silva e Luna, rechaçou essa possibilidade, em entrevista ao Estado. O ministro lembrou que as Forças Armadas só agem dentro da legalidade e declarou que o “único caminho” para os militares chegarem ao poder “é pelo voto”. Primeiro militar a assumir o Ministério da Defesa, o general Silva e Luna disse ainda que as Forças Armadas estão 100% empenhadas no estabelecimento do abastecimento do País. A seguir, os principais trechos da entrevista.

• Estamos vendo seguidos apelos de grupos pedindo intervenção militar. Existe essa possibilidade diante dos problemas que estamos enfrentando?

As Forças Armadas trabalham 100% apoiadas na legalidade, com base na Constituição e sob a autoridade do presidente da República. E esse dispositivo, intervenção militar, não existe na Constituição.

• Incomoda a vocês, militares, esses pedidos de intervenção?

Incomoda sim, porque pode dar a impressão de que as Forças Armadas estão por trás de uma insuflação, o que não é verdade. Além disso, intervenção militar é inconstitucional. O caminho do acesso ao poder é pelo voto. É o único caminho.

• A que o sr. atribui esses pedidos de intervenção?

Com relação a manifestações políticas, não nos cabe comentar intenções partidárias de segmentos da população, que tem direito de se manifestar.

• As paralisações que se mantêm são por interferência política ou ainda por reivindicações não atendidas?

O movimento reivindicatório se esgotou depois do acordo que o presidente da República fez com os representantes dos caminhoneiros, concedendo tudo que foi pedido. Daí para a frente, as resistências têm pouco a ver com essas reivindicações. Passa a impressão de que há mais fundo político-partidário.

Alckmin critica quem ‘flerta’ com ‘intervenção militar’

Em Brasília, pré-candidato do PSDB ao Planalto disse que concorrentes que promovem a 'bagunça' e a 'ditadura' deveriam deixar a disputa

Leonencio Nossa | O Estado de S.Paulo

BRASÍLIA - O pré-candidato do PSDB ao Planalto, Geraldo Alckmin, disse nesta terça-feira, 29, que os concorrentes que promovem a “bagunça” e a “ditadura” deveriam deixar a disputa. Questionado sobre a postura do pré-candidato Jair Bolsonaro (PSL) na defesa da greve dos caminhoneiros, Alckmin afirmou que propostas de golpes – que partiriam especialmente da rede de apoio ao ex-capitão do Exército – são “inaceitáveis” e “absurdas”.

“Esses pré-candidatos que flertam com a intervenção militar e a ditadura não deveriam ser candidatos”, afirmou Alckmin. “Eles não acreditam no regime democrático”, disse ele, após se reunir com as bancadas tucanas no Senado e na Câmara.

No dia em que manifestantes foram para o gramado do Congresso com faixas em defesa de uma intervenção militar, Alckmin percorreu gabinetes e participou de reuniões com lideranças tucanas. Os encontros, segundo participantes, foram marcados por um clima de “ansiedade” por uma presença mais incisiva do pré-candidato no debate eleitoral.

“Neste momento, certas ações podem soar como oportunismo político, sem consistência”, argumentou o deputado Floriano Pesaro (PSDB-SP). “O momento é de trabalhar nos bastidores.” Para Alckmin, a disputa começa mesmo em 15 de agosto, depois da Copa do Mundo. “As pessoas não estão com cabeça agora para eleições.”

Alckmin disse que não vê “razões” para apostar num crescimento, agora, da campanha do pré-candidato do PSL. “Pelo contrário”, disse. “Esse caos que foi criado é fruto do radicalismo, e o radicalismo leva o País para o buraco. A democracia é o regime que levou o mundo inteiro a uma vida melhor”, ressaltou. Procurada, a assessoria de Bolsonaro não se pronunciou até a conclusão desta edição.

Paulo Fábio Dantas Neto*: Pela política de volta aos seus postos: espantar fantasmas, evitar esquinas

Entre 2013 e 2018, alusões a 1964 têm sido abundantes como retórica do embate político e midiático. Sérios transtornos sociais, prejuízos econômicos, complicação do problema fiscal e desdobramentos políticos do locaute das empresas transportadoras de carga que encorpou o movimento dos caminhoneiros deram, nos últimos dias, ainda mais audiência a quem difunde esse tipo de analogia.

Na mesma direção vai a percepção geral da fraqueza política do governo para deter a sabotagem perpetrada contra o país. O mesmo governo que vem saneando e recuperando a Petrobras caminha agora em direção ao passado recente, quando a instrumentalização política da empresa, associada a uma política de desoneração de empresários, afundou o tesouro nacional e ajudou a desarmar estado, economia e sociedade no enfrentamento de uma recessão que vinha então a galope, uma tempestade ocultada pela maquiagem marqueteira da campanha governista de 2014.

Analisado isoladamente, o caso da atual gestão da Petrobras é dos mais bem sucedidos. Pode-se discordar da orientação adotada mas ali há (ou houve) política pública. Ali não houve (ou não havia) o vaivém do governo na busca do equilíbrio das contas públicas, visível em outros setores. Porém, o governo paga alto preço por ter permitido um tal grau de insulamento à Petrobras que a desconectou da grande política. Colocar fim na política de varejo e na instrumentalização partidária no atacado, marcas do período anterior, é um mérito, mas era preciso fazer isso com régua e compasso, atento à necessidade de ir ganhando mais aliados no curso da política adotada. Num país onde o novo e o antigo sempre estão a se misturar, ir pelo incremental é sempre bom conselho. A gramática política do Brasil, como mostrou Edson Nunes, é sincrética e foi ignorada ao se fazer um tratamento de choque radical. Perdendo o compasso, o governo passou só a régua e - vê-se agora - produziu amplo leque de adversários, além dos inevitáveis. Implacáveis na defesa de seus interesses corporativos, transportadoras e caminhoneiros legaram um rombo financeiro ao país e abriram aos pés do governo uma cratera política, com aplauso ou silêncio de políticos acovardados e eleitoralmente ansiosos.

A realidade é que os defensores do status quo anterior ganharam de volta um discurso, ainda que mistificador. A imprudência encontra um limite espantoso quando gente de esquerda sai a reboque do locaute empresarial e de sabotagens populistas e autoritárias ajudando a mergulhar o país no caos. Mas o que querem? Deixar faltar gasolina para que o preço baixe? ou pensam em usá-la para atiçar o fogo no qual eleições podem ser incineradas? Fazem o jogo da direita na ilusão de que rirão por último. Essa fantasia e a aventura que dela decorre levam, à primeira vista, a nos lembrar 1964.

Apesar das aparências é o caso de distinguir, não de confundir as coisas. Proponho que recusemos o raciocínio anacrônico que tenta exumar, como assombração, um fato relevante ocorrido no passado, como se fosse parte de uma tradição, daquelas tradições através das quais, conforme Marx, gerações mortas oprimem os cérebros dos vivos. Conferindo a conspirações e golpes o status de uma tradição nacional, essa narrativa agride o método de Marx, pois oculta, ideologicamente, um traço forte da tradição política brasileira: a aceitação, pela elite política, da sugestão de Tocqueville, de tratar a mudança mental de uma sociedade como se fosse desígnio da Providência, ao qual não cabe resistir, mas que é preciso fazer deslizar, o mais suavemente possível, para que não se torne um liberticídio.

A adoção dessa sugestão por uma elite politicamente ativa está na raiz da propensão ao acordo e à negociação que marca, mais que os momentos de ruptura, a nossa história política e a faz contínua enquanto a sociedade se transforma. Os riscos que nossa democracia atual enfrenta – e eles não são desprezíveis – estão menos nessa nossa tradição e mais em desconsiderá-la, como fez o governo na condução política da mudança na Petrobras. Agora tenta retomá-la, para tentar diminuir o estrago.

Os riscos não compõem um flashback. Invisíveis pelo retrovisor, são próprios da complexidade e da intensidade inaudita de mudanças políticas, sociais, culturais e tecnológicas possibilitadas, inclusive, pela avenida institucional que se abriu, há 30 anos, com a promulgação da atual Constituição. O quadro é preocupante mas não porque as instituições políticas tenham trincado ou sejam más. O problema, está, em parte, na fortuna, ou seja, na objetiva e farta oferta de novos fatos sociais realmente difíceis de compreender e de incorporar ao cotidiano institucional. Mas está, também, em boa medida, na escassez de virtú, a virtude política que se tornou rara onde precisa ser comum.

Com as exceções de praxe – que devem ser valorizadas – as instituições políticas e outras, que as devem controlar, estão sendo pilotadas sem imaginação e sem suficiente responsabilidade política. Refiro-me não só ao patrimonialismo tradicional e ao oportunismo raso, presentes na elite política propriamente dita. Ela é alvo de contundentes operações policiais e judiciais e recebe reprovação da sociedade pelo que faz, pelo que não faz e também pelo que lhe imputam demagogos de vários matizes, que batem ponto na própria política, em corporações estatais e empresariais e na imprensa. Refiro-me, também, ao corporativismo e messianismo difusos em elites que se pretendem moralizadoras, bem como no discurso e na práxis de sindicatos e outros entes da sociedade civil, entregues a um varejo medíocre. Amantes de esquinas de variados tipos, com seus fundamentalismos e/ou pragmatismos, contribuem para travar a fluência do trânsito na avenida. A busca de atalhos e cirurgias, de tão insistente, pode acabar mesmo nos levando a novas esquinas. E uma vez diante delas, improvisos de má qualidade ou scripts inaptos à via democrática e pluralista aberta em 1988 podem nos enredar em becos. O locaute do setor de transportes apontou para um deles.

Hamilton Garcia: Por que somos assim? (A evolução da esquerda – I)

A esquerda moderna no Brasil, que compreende a organização dos trabalhadores em movimentos de luta por direitos econômico-sociais associados a correntes ideológicas de viés socialista, nasce em meio à confluência, na passagem do séc. XIX ao XX, da industrialização propiciada pela acumulação dos excedentes econômicos da cafeicultura paulista, da urbanização incrementada pelo fim da escravidão e do incentivo governamental à imigração europeia visando o aumento da produtividade do trabalho.

É daí que surgem as primeiras greves e organizações sindicais que iriam colocar em xeque a Primeira República por meio de inéditas reivindicações político-sociais, que abarcavam do direito de organização política à regulamentação da jornada de trabalho, passando por melhorias salariais e de condições de trabalho; reclamos inassimiláveis pelo Estado liberal-oligárquico de então.

A reação conservadora-liberal a tais movimentos, que se seguiu, com repressão violenta das greves, perseguição aos líderes e deportação de estrangeiros anarquistas, acabou, ao contrário do que se esperava, impulsionando o ideário revolucionário entre os indivíduos mais ativos das classes trabalhadoras e camadas médias. A partir do bloqueio ao diálogo e à participação, emergem, de um lado, o anarcossindicalismo como força mobilizadora de greves nos maiores centros industriais – cujo ápice foram as greves de 1917-1918 – e, de outro, os tenentes, jovens Oficiais Subalternos do Exército com capacidade de organização e liderança para deflagrar rebeliões políticas nos quartéis, a partir de 1922, contra o domínio oligárquico-liberal.

O fracasso, de ambas as vertentes, propiciará a convergência de classe entre operários e setores médios a partir da criação do PCB (1922) e das repercussões da Coluna Miguel Costa-Prestes (1925-1927) dentro e fora da caserna. Os comunistas aparecem, então, em meio aos impactos da Revolução Soviética (1917) – que populariza o marxismo entre nós pela chave russa do “marxismo-leninismo” –, deslocando a influência anarcossindicalista para o segundo plano – influência esta já abalada pela deportação de seus líderes, a partir de 1921, e pelo isolamento político ocasionado por uma radicalização que propunha destruir as instituições vigentes por meio da ação direta de indivíduos de uma classe ainda em formação, e que, ademais, era preponderantemente católica e de engajamento sindical majoritariamente moderado.

Rosângela Bittar: O líder sem rosto

- Valor Econômico

A nova oposição está fora dos partidos políticos

Os preços da Petrobras vinham sendo calculados, tanto quanto criticados, com muita soberba e sofisticação, de parte a parte. Inclusive por acompanhar países que nada têm a ver com o Brasil, sem levar em conta carga e alertas dos caminhoneiros, desde o ano passado. Eles, também movidos a modernidade, conectados e rastreados pela empresas por satélite, já não aceitavam qualquer solução. A greve pegou um governo em seu ocaso, fragilizado, fazendo o que pode para mostrar que ainda tem condições de gerir o país. Sem informação, com órgãos de segurança distanciados da realidade, está e continuará no escuro, mas ainda se vira. O movimento não tem um líder, orquestra sem maestro, onde já se viu? Numa reunião no Palácio do Planalto Temer perguntou duas vezes quem era o líder, e não obteve resposta. Havia na sala quase 100, menos a pessoa capaz de fazer os caminhões voltarem a circular.

O verdadeiro líder está oculto, no 9º dia de greve ainda não apareceu. Agora tudo ficou mais embaralhado porque começou a se apropriar do movimento uma certa marginalidade, que misturou as estações. Acrescentou às reivindicações sobre preço do frete e do diesel, de atendimento possível e provável, os pedidos de renúncia do presidente da República e intervenção militar, de atendimento impossível e improvável. Uma confusão proposital que, embora tenha teoricamente beneficiado o candidato Jair Bolsonaro, que faz o discurso da lei e da ordem, não parece ter conexão com as eleições, tão próximas.

Os candidatos têm dado declarações adjetivas mas, na verdade, não sabem o que fazer com o problema.

A informação que circula no exterior, a reportagem internacional da crise brasileira atual, está equivocada, como esteve a do impeachment, e não há quem consiga audiência para mostrar a realidade: dizem que Lula está por trás do movimento dos caminhoneiros, que o Fora Temer está relacionado com a prisão do Lula, e assim se segue um equívoco atrás do outro.

A população vai à rua fazer fila em postos de combustíveis e estocar gasolina, em galões, querendo mais do que encher o tanque do seu carro. Muitos lotam o carrinho de supermercado com caixas de leite, esperando o toque de recolher, sem saber que nas casas comerciais mais acostumadas à crise de desabastecimento no exterior, as prateleiras estão cheias porque há limite de produtos para cada consumidor.

O protesto é difuso, as pessoas não querem ver políticos pela frente, o Legislativo não consegue participar das soluções de forma adequada porque seus dirigentes disputam os holofotes. Dizem bobagem o dia inteiro e assim temos o retrato da política às vésperas de uma eleição aguardada com esperança.

Merval Pereira: Mentes analógicas

- O Globo

A pouco menos de cinco meses das eleições, não há no horizonte dos candidatos uma perspectiva de solução para os nossos graves problemas. Ao contrário, candidatos e parlamentares procuram se proteger de previsíveis confrontos com a população, irritada com desgovernos sucessivos no plano federal, estadual e municipal, e com os péssimos serviços que são gerados pela alta carga tributária.

Esse ambiente de revolta permanente, como definiu o cientista político Sérgio Abranches, latente desde as manifestações de 2013, gera movimentos reivindicatórios legítimos e outros meramente políticos, e sem um governo para mediar esses conflitos a instabilidade se instala.

O apoio à greve dos caminhoneiros nos primeiros momentos já vai refluindo, e os que apoiam não entendem que serão eles que pagarão a conta das mudanças negociadas por um governo fraco, que não teve condições de impor limites na ação dos grevistas.

O economista Marcos Lisboa diz que regredimos 20 anos em dois, parafraseando o infeliz mote publicitário do governo Temer: “O país voltou, 20 anos em 2”. A vírgula não impediu que o ato falho freudiano fosse compreendido pela população, um tiro que saiu pela culatra, revelando a verdadeira situação do país.

Vera Magalhães: A ressaca da ‘greve’

- O Estado de S.Paulo

A ressaca do fim da greve dos caminhoneiros será longa e deixará mareado não só o governo Michel Temer, que, um ano depois de ser ferido de morte pelo caso JBS, veio a óbito político neste outro maio.

A dor de cabeça será sentida pelos pré-candidatos à Presidência, por todos os setores da economia e pela sociedade, essa que é sempre convidada a fazer figuração em festa estranha com gente esquisita, acaba bebendo demais e fica sozinha para limpar o salão quando a farra acaba.

O governo foi liquidado por não ter conseguido se antecipar à chantagem dos caminhoneiros e, uma vez feito refém, ter negociado mal. Cedeu em tudo, sem garantia de que os grevistas cumpririam os sucessivos acordos. Ameaçou endurecer para depois assoprar e só foi tentar fazer valer sua autoridade quando o protesto já minguava.

Os presidenciáveis, submetidos ao primeiro teste de fogo da campanha, se perderam entre o oportunismo e a covardia. No primeiro bloco, pontificaram Alvaro Dias (Podemos) e Jair Bolsonaro (PSL), que, afoitos em surfar num apoio algo irracional aos grevistas, saíram pregando mão grande na Petrobrás e na definição dos preços dos combustíveis, como se não houvesse uma conta decorrente disso e já não tivéssemos visto este filme.

No grupo dos que foram tímidos em defender a independência da petroleira estão Geraldo Alckmin (PSDB) e Marina Silva (Rede). Que, aliás, não questionaram os métodos de um movimento que parou o País – o tucano só o fez na segunda-feira.

Bruno Boghossian: Bolsonaro e militares mudam discurso para buscar poder nas urnas

- Folha de S. Paulo

Bancada da farda quer evitar ruptura que pode prejudicar pretensões eleitorais

A cobrança de Jair Bolsonaro (PSL) pelo fim da paralisação dos caminhoneiros e a reação de militares aos pedidos de golpe para derrubar Michel Temer refletem uma guinada estratégica. Os políticos alinhados à farda querem assumir o poder pela porta da frente. Para isso, precisam manter o ambiente de crise até a eleição, mas no limite da ruptura.

O sucesso de Bolsonaro nas pesquisas presidenciais e a multiplicação de candidatos com origem nas Forças Armadas elevou a expectativa de sucesso desses grupos nas urnas.

“Na minha opinião, dos meus amigos generais, se tiver de voltar um dia, que volte pelo voto. Aí chega com legitimidade”, disse o presidenciável do PSL, em sua entrevista à Folha.

Luiz Carlos Azedo: Caiu a ficha

- Correio Braziliense

Como o governo, deputados e senadores foram surpreendidos pela greve dos caminhoneiros e, mais ainda, pelas consequências dramáticas para o abastecimento e os serviços públicos

Parece que caiu a ficha de que o governo Temer e a cúpula do Congresso são sócios da crise e não adianta ninguém tirar casquinha, porque a situação é desastrosa. Estão em risco a economia do país e a estabilidade política. Ontem, Temer e os presidentes do Senado, Eunício de Oliveira (MDB-CE), e da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), divulgaram uma nota na qual se comprometem a colocar em prática o acordo feito com os caminhoneiros: “Neste momento, os poderes Executivo e Legislativo estão unidos na defesa dos interesses nacionais. Assumem o compromisso de aprovar e colocar em prática, no menor tempo possível, todos os itens do acordo”. Maia vinha se estranhando com Temer; Eunício, com Maia. Enquanto isso, caminhoneiros radicalizados dificultam a normalização do abastecimento e pregam uma intervenção militar.

Apesar da nota, o clima no Congresso é de apreensão e perplexidade. Como o Palácio do Planalto, deputados e senadores foram surpreendidos pelo vigor da greve dos caminhoneiros e, mais ainda, pelas consequências dramáticas do movimento para o abastecimento da população e funcionamento dos serviços públicos. Os políticos estão descolados da sociedade e demonstram incapacidade de respostas positivas para situações complexas e graves.

Resultado: o país ainda não saiu do sufoco causado pela greve dos caminhoneiros, e os petroleiros já anunciam uma paralisação de 72 horas, com apoio das centrais sindicais. Detalhe: fora da data-base, com o objetivo de inviabilizar a normalização do abastecimento de combustível. É uma greve política, na linha do “Fora, Temer!”, cuja intenção imediata, a deposição do governo, não difere em nada da “intervenção militar” defendida pelos caminheiros que permanecem em greve: derrubar o governo.

Ricardo Noblat: Temer fica e os políticos respiram aliviados

- Blog do Noblat | Veja

Vida que segue à espera do próximo desastre

Ainda não foi desta vez que Michel Temer renunciou à presidência da República obrigado pelas circunstâncias, ou acabou removido dela por iniciativa de amigos, ex-amigos e adversários inconformados com seus erros.

Por mais que muitos o critiquem, insultem e até peçam sua cabeça, todos preferem que ele governe ou desgoverne até o último dos seus dias. Forçá-lo a sair seria investir no imprevisível e contrariar os próprios interesses.

Nenhum partido tem candidato com pinta de vencedor da próxima eleição presidencial. Eleger um presidente tampão seria perda de tempo e de energia a ser concentrada nas eleições gerais de outubro. Que ele fique, portanto.

Temer é conveniente para todos. Para seus aliados que arrancam dele quase tudo o que querem. E para a oposição que precisa de um governo fraco e de um presidente morto-vivo para tentar extrair vantagem nas urnas.

Como Dilma foi um desastre e estava destinada a ser se governasse até o fim, o PT não chorou lágrimas sinceras quando ela foi deposta. Livre do desgaste de sustentá-la, contaria com Lula para voltar ao poder.

Lula não tem mais. Então o PT agarra-se a Temer como meio de salvar-se do buraco. Nem nos seus mais absurdos sonhos o PT imaginou que Temer faria um governo tão acidentado e impopular. Quanto pior, melhor para ele.

Não há possibilidade de que Temer se recupere. Sua companhia tornou-se corrosiva para os que antes o exaltavam. Espancar Temer e atribuir-lhe todos os males do país é o esporte nacional de 10 em cada 10 brasileiros.

E assim será até que ele transfira a faixa ao seu sucessor. Vida que segue.

*José Nêumanne: No país do quem pode grita mais e chora menos

- O Estado de S.Paulo

Direita bárbara e esquerda cínica tentam usar o caos para acabar com Estado de Direito

Caminhoneiros autônomos, transportadoras de cargas e empresas que possuem frotas movidas a diesel sequestraram o Brasil, recorrendo apenas a bloqueios rodoviários para impedir a distribuição de combustíveis e alimentos. E o débil e inerme desgoverno lhes doará R$ 13,5 bilhões em sete meses, sacados dos impotentes cidadãos. Mas esse não é o preço mais alto a ser cobrado da Nação pelas carretas paralisadas: há um golpe em pleno curso por ditaduras acalentadas por bandos irresponsáveis da direita bárbara e da esquerda cínica. A primeira exige intervenção militar e a segunda, Lula livre e presidente de novo. Quem vai ganhar? Melhor não apostar. O prezado leitor certamente perderá, no mínimo, o valor da aposta.

O apressadinho de cotovelos apoiados na janela da frente de casa pode até imaginar: “A culpa é do Temer, então, que ele se dane”. É mesmo? Vamos aos fatos. O autor destas linhas tem 67 anos de idade e é do tempo do trem de ferro e das eclusas permitindo a navegação de balsas e barcaças pelas inúmeras bacias hidrográficas brasileiras. Tinha 4 anos quando o mineiro Juscelino Kubitschek, descendente de checos e telegrafista de origem profissional, apostou todas as nossas fichas no modal rodoviário. Desde que o simpático pé de valsa de Diamantina deixou o governo, há 57 anos, as ferrovias enferrujaram-se, o transporte hidroviário é um sonho distante e as rodovias são um imenso buraco com bordas asfaltadas, à exceção das privatizadas a custo de pedágio.

Míriam Leitão: Solução temporária

- O Globo

O ministro Eduardo Guardia disse que a solução usada para a queda do preço do diesel é temporária. Ele defende a fórmula encontrada, afirmando que, mesmo sendo um novo subsídio, será compensado com a queda de outro benefício tributário. “Pode-se não gostar da solução que demos, mas está sendo feita de forma transparente, estará no Orçamento e não estamos jogando custo para o próximo governo.”

O ministro da Fazenda ficou no meio de uma polêmica nas últimas horas por ter falado em criação de imposto, o que negou depois. Ele me disse que se referiu a isso ao explicar que essa é uma das possibilidades estabelecidas pela Lei de Responsabilidade fiscal para compensar o corte de um tributo. Outra é elevação de alíquota, e a terceira opção é redução de benefício tributário:

— Nós já tínhamos decidido por redução de benefício e é isso que sempre esteve na nossa cabeça e temos preparado. Nós apenas não anunciamos na entrevista, mas após a aprovação do projeto de reoneração vamos dizer o que será feito.

Ontem, o Senado aprovou a reoneração da folha, e hoje já será possível editar a Medida Provisória e o decreto com o pedido de crédito extraordinário e a criação do programa de subvenção econômica.

Guardia explica que a solução para o diesel teve que ser pensada no meio da emergência, no fim de semana, e admite que por isso só pode ser entendida como uma solução temporária. A preocupação foi evitar fórmulas como controlar preços da Petrobras ou criar um subsídio oculto, como foi feito no passado. A solução foi mover recursos do Orçamento, explicitar os custos da decisão, e cobri-los com redução de outros benefícios:

Monica de Bolle: Barata-voa

- O Estado de S.Paulo

Quem não haverá de revoltar-se com a proposta de aumentar impostos para cobrir o novo rombo criado?

Não foi fácil intitular este artigo. Passei algumas horas entre “barata-voa” e “semianarquia” – no fim, a imagem do inseto pareceu mais apropriada para ilustrar os dias de balbúrdia que assolam o País. Como mostrou o governo, estamos à deriva, sem lideranças capazes de gerir o caos. Como mostrou Temer em discurso desvelando medidas de última hora para tentar desfazer a impressão de que voltamos 20 anos em 2, só faltou ao presidente ajoelhar-se e implorar o perdão dos caminhoneiros e dos donos das transportadoras que paralisaram o Brasil. O vácuo de poder e o déficit de legitimidade do governo Temer têm sido temas de artigos meus para este espaço desde 2016. No entanto, embora a confusão geral da nação fosse previsível – uma quase certeza, até – como exatamente ela se daria era outra história. Deu-se no travamento logístico que estamos a presenciar.

Há quem tenha apontado que a greve dos caminhoneiros era carta marcada. Afinal, já tínhamos visto o filme em 2015, quando o preço do diesel subiu em razão das pressões provocadas por anos de congelamentos de preços de combustíveis para conter os efeitos inflacionários – prática comum entre 2008 e 2014. Em 2015, o governo de Dilma havia decidido elevar as alíquotas do PIS/Cofins e da Cide para aumentar a arrecadação em meio aos temores de crise fiscal que rondavam o País.

Desta vez, o estopim foi a mudança na política de preços da Petrobrás e os reajustes mais frequentes desde meados de 2017, combinados com a desvalorização do real provocada pela saída de investidores dos mercados emergentes, além da alta do preço do petróleo proveniente de fatores diversos. Evidentemente, esse não é o fim da história.

Cristiano Romero: Reféns do populismo

- Valor Econômico

Desde 2013, só há resposta populista por parte do setor público

Em 2002, o então presidente da Petrobras, Francisco Gros, advertiu investidores americanos, em conferência em Washington, de que, se chegasse ao poder, o PT usaria a estatal para colocar em prática política de preços irrealista e, portanto, nociva à companhia e também aos cofres públicos. O alerta foi corajoso porque, como CEO, Gros em tese não deveria desestimular seus acionistas a continuarem acreditando na empresa. Por outro lado, é missão do dirigente de uma sociedade de capital aberto prevenir investidores dos riscos que correm, não esconder informações (naquele caso, desconfianças) quanto aos possíveis rumos do negócio. Na verdade, o que Gros fez foi dar um grito contra o populismo que grassa na política brasileira, à esquerda e à direita, desde sempre.

Presentes ao evento, diplomatas e funcionários do governo comandado pelo tucano Fernando Henrique Cardoso ficaram constrangidos com as declarações de Gros. Aquela mesma audiência já havia se sobressaltado com o pronunciamento do então presidente do Itaú, Roberto Setúbal, sustentando, semanas antes do pleito presidencial, que o petista Luiz Inácio Lula da Silva ganharia a eleição e que não havia razões para preocupação - a história mostrou que Setúbal estava certo, embora Gros não estivesse necessariamente errado.

Falecido em 2010, Francisco Gros era um economista liberal, formado em Princeton, uma das mais renomadas universidades americanas. Antes de assumir, em 2002, o comando da Petrobras, presidiu o BNDES e, por duas vezes, o Banco Central (BC). Foi em sua segunda gestão no BC - entre 17 de maio de 1991 e 16 de novembro de 1992 - que um jovem economista chamado Armínio Fraga iniciou a crucial abertura da conta de capitais do Brasil.

Perigos da democracia: Editorial | O Estado de S. Paulo

Ainda que a crise de abastecimento gerada pelo protesto dos caminhoneiros se resolva totalmente nos próximos dias, o que parece improvável, as imensas perdas econômicas resultantes dessa greve estão longe de ser inteiramente contabilizadas. No entanto, talvez o maior prejuízo nem seja econômico, mas sim democrático. A emergência de uma força descontrolada e difusa, capaz de colocar um governo de joelhos em poucos dias, deixou aos brasileiros a sensação de que não há autoridade no País – vence aquele que grita mais alto.

Não à toa, o protesto dos caminhoneiros, que começou com uma pauta específica de reivindicações para a categoria, como a redução do preço do diesel, derivou em pouco tempo para um exercício do mais puro voluntarismo. Ante a inação do poder público, grupos radicais de manifestantes sentiram-se incentivados a deixar de lado as exigências de caráter econômico e passaram a agir com o intuito deliberado de tornar o Brasil ingovernável.

Trata-se de pessoas que se consideram acima da lei e das instituições e que desprezam profundamente a política tradicional – por elas considerada irremediavelmente corrupta e incapaz de resolver os problemas do País. Sua natureza despótica é evidente.

A greve traz mais Estado e mais gastos: Editorial | O Globo

A capitulação integral do governo transfere custos para a sociedade, inclusive na forma de mais intervenção, e repete o alerta de que não existe presente tributário

Além de sofrimento para a população, a greve de caminhoneiros trouxe rico material para cientistas políticos, economistas e analistas em geral. O impacto no movimento do uso de meios digitais de comunicação instantânea; a inapetência do Congresso para enfrentar a crise, salvo exemplos de oportunismo eleitoreiro; a dificuldade de um governo dessintonizado da realidade para identificar seus interlocutores e assim por diante.

Em um aspecto da crise, não há divergências: o governo capitulou e transferiu a conta da capitulação para um contribuinte já sufocado sob uma carga tributária na faixa de 35% do PIB, a mais elevada entre os emergentes. Os prejuízos não vêm apenas na forma de tributos e/ou corte de isenções — alguns justificáveis, mas só dentro de um amplo programa de revisão criteriosa de incentivos. As perdas da sociedade também ocorrerão na forma de mais interferência do Estado.

Custos do desgoverno: Editorial | Folha de S. Paulo

Apoio popular a demandas dos caminhoneiros não justifica abusos da paralisação

Após oito dias do mais intenso boicote ao abastecimento de gêneros de primeira necessidade já registrado no Brasil, a paralisação dos caminhoneiros deu nesta terça (29) o primeiro sinal de arrefecimento. Combustível, embora em pouca quantidade, começou a chegar aos postos em várias cidades do país.

É preciso acompanhar com cautela os desdobramentos dessa crise pelos próximos dias, mas não é improvável que o impasse se dissolva paulatinamente.

Justifica-se o alívio com essa expectativa de desfecho, pois a asfixia progressiva de bens e serviços indispensáveis à manutenção da vida e da paz nas cidades é uma perspectiva realista e em marcha.

Mas seja para evitar que o espectro do colapso urbano volte a avultar-se, seja para distribuir com mais justiça a conta a ser paga, não deveriam ser esquecidos os papéis censuráveis desempenhados pelos principais atores desse drama.

Os caminhoneiros e os empresários de transportes têm um problema de custos crescentes, causado pelo surto de alta internacional do petróleo e pela desvalorização do real em relação ao dólar. A retomada macambúzia da atividade econômica dificulta o repasse dessa carestia ao preço final do frete.

Cenário desfavorece uma retomada vigorosa do crédito: Editorial | Valor Econômico

O Banco Central (BC) tem reiterado sua confiança em relação ao desempenho do crédito. Na segunda-feira o presidente do BC, Ilan Goldfajn, em evento com empresários, disse que o mercado "apresenta melhoras". As taxas de juros medidas pelo Indicador de Custo de Crédito (ICC) seguem em queda, assim como o spread, contrapondo, porém, que deseja que a redução seja mais rápida.

Também na segunda-feira o BC divulgou dados que mostram que a taxa média de juros para os empréstimos contratados em abril ficou em 25,9% ao ano, com redução de 4,2 pontos percentuais em 12 meses - uma melhora considerada tímida diante do vigoroso corte de quase 5 pontos nos juros básicos no período. A taxa das pessoas jurídicas caiu de 16,6% em março para 16% em abril; e para pessoas físicas, de 33% para 32,8%.

O que avança mais lentamente ainda, no entanto, é a oferta de recursos. O saldo das operações de crédito subiu 0,3% em abril, para R$ 3,09 trilhões, mas estacionou no ano e acumula expansão de 0,6% em 12 meses, em termos nominais, o que significa um decréscimo em termos reais na comparação com a inflação do período. Mas o BC comemorou que o saldo total, que vinha em queda desde agosto de 2016, teve variação positiva nos últimos dois meses na comparação anual. O que permanece segurando os números é o crédito direcionado para empresas, em função das operações do BNDES. O saldo do crédito direcionado encolheu 0,1% de março para abril, e 5,5% em 12 meses, totalizando R$ 1,48 trilhão. O saldo das operações com pessoas físicas cresceu 0,6% no mês e 6,4% em 12 meses.

Sergio Augusto de Moraes: Armênio Guedes - completaria 100 anos neste 30 de maio

- Blog Democracia e Socialismo

Estávamos exilados no Chile. Corria o Governo de Salvador Allende, meses depois derrubado pelo golpe militar de 1973. Numa noite, tomando um bom vinho chileno Armênio me revelou, emocionado, que acabava de saber que seu irmão Célio Guedes, que trabalhava na seção de organização do Comitê Central do PCB, havia sido torturado e morto nos porões da ditadura brasileira.

A dor que aquela revelação causava em meu amigo era visível nos seus olhos e quase possível de se tocar com as mãos. Emocionei-me junto com ele e constatamos que a política da ditadura e de seus órgãos de repressão estava mudando para com o PCB: o assassinato se somava às mais bárbaras torturas.

Mesmo assim, naquele momento, Armênio fez questão de reafirmar que tal fato não mudava sua avaliação de que a política de amplas alianças, o aproveitamento de qualquer espaço legal para organizar o povo na luta pela democracia, adotada por nosso Partido, era a única que poderia derrotar a ditadura, sem permitir que a dor, a revolta e a indignação toldasse sua lucidez.

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“Viver e morrer no Chile”, de Sergio Augusto de Moraes, Ed. FAP e Contraponto, 2010

100 anos - Armênio Guedes(30/5/1918-2015): Comunista avulso

Aos 92 anos, Armênio Guedes espera duas biografias e uma indenização de R$ 1,4 mi

Natalia Viana | Folha de S. Paulo / Ilustríssima (19 de dezembro 2010)

RESUMO Armênio Guedes, 92, é um dos poucos militantes remanescentes dos tempos do líder Luiz Carlos Prestes, a quem fez um contraponto nos debates internos do Partido Comunista Brasileiro, em favor de alianças e da democracia. Interlocutor de partidários do PSDB, PPS, PSOL, ele espera uma indenização trabalhista e duas biografias.

Quem costuma ir aos concertos da Sala São Paulo tem grande chance de encontrá-lo no mezanino superior, na última fileira. Armênio Guedes é um homem miúdo, calvo, o corpo já curvo, de gestos econômicos e elegância discreta. Aos 92 anos, o último dos figurões do velho Partido Comunista Brasileiro -além de Oscar Niemeyer- não chama especialmente a atenção, durante o intervalo, caminhando a passo lento em meio a tantos casais. E, no entanto, é uma figura central no pensamento democrático brasileiro. Por ele, José Serra, que o conheceu no exílio chileno, foi capaz de deixar seu gabinete de governador para ir pessoalmente à gravação do "Roda Viva", na TV Cultura, prevendo que o amigo ficaria nervoso, desacostumado com os holofotes. "Ele sabe que eu gosto dele e do seu jeito de ser e de pensar", diz Serra. "E eu sei que ele me aprova, concorda com o que faço no atacado, mesmo à distância. Sempre foi assim desde que convivemos por alguns anos no exílio." Não está só. O velho comunista tem, entre seus admiradores, políticos de variadas matizes da esquerda, muitos dos jornalistas que dirigem as principais redações do país e alguns de seus principais intelectuais. Conviveu com muitos deles, seja quando militava no Partidão nas décadas de 40 e 50, seja no exílio, durante a ditadura, ou após deixar o PCB, na década de 80. Um deles notou jamais ter conhecido alguém que não gostasse de Armênio. "Se existe um ser humano que deu certo, foi Armênio Guedes", resume o historiador Ivan Alves Filho.

FAMÍLIA Armênio Guedes nasceu em Mucugê (BA), em 1918 ("um ano depois da Revolução Russa", como gosta de frisar), no seio de uma família de 11 irmãos cujo pai, lapidário, se preocupava com a educação dos filhos. Para isso foram a Salvador e ali, coisa raríssima naqueles dias, quase todos fizeram curso superior. Foi ali também que Armênio vibrou pela primeira vez com a política. O pai comprara um aparelho de rádio e, à noite, muitos vizinhos se reuniam para ouvir as notícias sobre a Revolução de 1930. Entrou para o PCB pouco depois de ingressar na Faculdade de Direito da Bahia, em 1935. "Era a época da frente mundial contra o fascismo", lembra. "Eu participei daquilo." Setenta e cinco anos depois, em 20 de julho deste ano: "O que você não esperava que tivesse acontecido?" "O fim da União Soviética. Que ia desmoronar daquele jeito." "O que é ser comunista hoje?"

"Uma pessoa de cultura socialista, também antifascista, internacionalista, contra a xenofobia, pela melhoria da situação do povo. Uma pessoa impregnada desses valores que só podem se desenvolver na democracia."

TEIMOSO Armênio Guedes está ao volante do seu Honda 99, dirigindo com zelo pelo centro de São Paulo. É teimoso, faz questão de levar a repórter e outro acompanhante de carona até um ponto melhor para cada um, mesmo que seja fora do seu trajeto de volta para o apartamento onde mora, em Higienópolis. No encontro com a repórter, em julho, ao volante do seu carro, não teve dúvidas: "Olha, se precisar de um carro emprestado é só falar, eu empresto". Era a terceira vez que a encontrava. Antes, na segunda vez, preocupado em chegar atrasado à entrevista no seu apartamento, avisou que deixaria a chave na portaria. O Armênio é assim. "Tenho um ódio disso!", diz, meio brincando, meio séria, a mulher, Cecília. "Tenho medo de ele ser enganado, mas ele não é uma pessoa enganável. Não é burro, de jeito nenhum. Ele empresta dinheiro pra as pessoas, ajuda o cara que foi torturado e ficou sem dente, paga o dentista..." Não é sempre que ele se perde no caminho, pelo contrário. Faz questão de guiar seu carro todos os dias para o trabalho - no escritório da Imprensa Oficial, onde edita uma agenda cultural. Leva a mulher, Cecília, 26 anos mais jovem, aonde ela precisar. Vai conversando, sua principal arte: "Foi um século fantástico, esse. Vi a coletivização da agricultura na União Soviética, a ascensão do fascismo, a Segunda Guerra Mundial, o franquismo na Espanha, aqui no Brasil o Estado Novo, a ditadura...". Armênio ingressou para o núcleo do partido em 1943, quando ajudou a organizar a histórica Conferência da Mantiqueira, que decidiu pelo apoio a Getúlio Vargas na guerra. Nunca mais saiu, mas permaneceu a maior parte do tempo como suplente por causa de suas posturas "liberais", em busca de alianças e do caminho político ("a arte do possível", costuma lembrar). Foi membro efetivo do Comitê Central apenas entre 1975 e 1980.

Discurso de Roberto Freire nos noventa e cinco anos de Armênio Guedes

Senhor Presidente.
Senhoras e Senhores Deputados.

De uns tempos para cá, o advogado e jornalista Armênio Guedes vem tendo evidência pública, a começar pela bela entrevista por ele concedida à repórter Natália Viana para o suplemento dominical “Ilustrissima”, do jornal Folha de S. Paulo (edição de 19 de dezembro de 2010). Evidência pública – destaco eu –, porquanto, Armênio é um daqueles homens imprescindíveis, como dizia o poeta alemão Bertolt Brecht, um daqueles intelectuais brasileiros que trabalharam e publicaram longamente na imprensa partidária – refiro-me em especial à imprensa do PCB, do velho Partidão –, ajudando a consolidar a longa tradição de esquerda referenciada pelas questões da democracia. Não foi outro o sentido da participação dessa mente privilegiada em iniciativas notáveis, como as revistas Estudos sociais e Novos rumos, antes de 1964, da revista Presença, e o próprio jornal Voz da Unidade, já nos anos 1980.

Armênio sempre se viu como militante a serviço de uma causa maior, o socialismo e a democracia em nosso país. Ultimamente, mereceu dois livros: o primeiro, emblematicamente chamado de O marxismo político de Armênio Guedes (Fundação Astrojildo Pereira, 2012), mostra seu pensamento político e nos permite ler seus textos escritos a partir do final dos anos 1950. De fato, ele é figura essencial na atualização do pensamento político do PCB, desde a “Declaração de Março de 1958” até os anos da transição democrática entre nós, iniciada sem governo de transição, como ele próprio nos ensinou, ao valorizar a forma peculiar da transição para a democracia que se intensificou a partir da anistia de 1979.

No próximo dia 17, segunda-feira que vem, será lançado em São Paulo, pela Editora Barcarolla, o não menos expressivo livro escrito pelo jornalista Sandro Vaia, chamado Armênio Guedes – sereno guerreiro da liberdade. Este lançamento está diretamente vinculado aos festejos dos seus 95 anos de existência, a maior parte dos quais traçou a trajetória de um militante comunista que sempre soube se renovar, especialmente no tempo do exílio e na conjuntura de crise crescente do regime soviético, superando com seu marxismo gramsciano as antigas limitações doutrinárias de que tantos não puderam ou quiseram escapar.

Raimundo Santos: Armênio Guedes e a valorização da política (17/6/2013)

A partir de março de 1958, quando o PCB anunciou a nova política de reforma do capitalismo a partir da vigência da democracia política, Armênio Guedes sempre aparece como um dos seus formuladores.

A rigor, desde de 1956 ao publicar o texto seminal “Algumas ideias sobre a frente única no Brasil” (cf. Guedes, 1956), Armênio Guedes e Marco Antônio Coelho com seu texto de 1960 “A tática das soluções positivas” (no qual cita Enrico Berlinguer, dirigente do PCI do “caminho italiano ao socialismo”) são os quadros pecebistas concretizadores da nova política. Pensando na trajetória do seu PCB, o mesmo Marco Antônio Coelho registra que Armênio Guedes tornar-se-ia a figura que mais influiu durante várias décadas na orientação política do partido (Coelho, 2010).

Ao completar 95 anos, nesta 2ª. feira, dia 17/6, quando a editora Barcarola lançará a partir das 18.30h na Livraria da Vila da Alameda Lorena, em São Paulo, o livro Armênio Guedes – Sereno guerreiro da liberdade, de autoria Sandro Vaia, Armênio Guedes significa muito para o país, hoje sob pleno Estado democrático de direito.

Na Era Lula, mais nos últimos tempos, tem-se divulgado extensamente uma versão de sobre a derrota do regime de 1964 sem se realçar os grandes protagonistas, o MDB/PMDB, os pecebistas ativos neste campo democrático. Esquece-se o dado fundamental: a estratégia que derrota o regime de 1964 teve como seu centro a política.

Armênio Guedes emerge em meio a essa diluição justamente como um dos artífices daquela estratégia de resistência. E mais: ele continua a ser referência da esquerda democrática, como disse o deputado Roberto Freire no seu discurso na Câmara, 3ª. feira da semana passada, dia 11/6. Como expressão de um campo que está disponível à interpelação das atuais esquerdas (em particular do PT), não só pelo seu valor de cultura política, mas “por sua projeção futura para a política e a cultura em nosso país” (Freire, 2013) “Um campo formado, entre muitos outros, por Astrojildo Pereira (ele mesmo um dos mestres de Armênio), Graciliano Ramos, Jorge Amado, Mário Lago, Caio Prado Jr., Alberto Passos Guimarães, Nelson Werneck Sodré, Oduvaldo Viana Filho, Ferreira Gullar e Luiz Werneck Vianna” (idem). Assim terminou o presidente do novo partido Mobilização Democrática o seu pronunciamento parlamentar: “Armênio Guedes continua a ser uma das maiores referências da esquerda democrática do nosso país”.

Durante sua longa militância e em toda sua publicística, Armênio se idenficava com a valorização da política em si mesma. Ainda ontem, ele voltou ao tema no qual já insistira no Programa do Jô da semana passada, ao dizer ao Estado de São Paulo que sua postura no grande debate dos socialistas do último quartel do século XX (trazido pelo PCI e por Berlinguer) sobre o “caminho democrático ao socialismo”, ele o situava noutro plano, o do “caminho democrático para a democracia”. E precisava a O Estado de São Paulo esse ponto: “A democracia não é o fim da História”; a democracia traz novos problemas que se resolvem democraticamente” (Programa do Jô).

Referências bibliográficas

Guedes, Armênio Guedes, “Algumas ideias sobre a frente única no Brasil, in Novos Rumos, out.-nov. de 1956.
----------. “Uma ação positiva das forças nacionalistas”, Voz Operária, 28/6/57.
Coelho, Marco A. “A tática das soluções positivas”, in Novos Rumos, São Paulo, 19 de jul a a 4 de agosto 1960.
________. Entrevista a Ilustríssima, Fôlha de São Paulo, 19/12/2010.

Programa do Jô, dia 10/6/2013.

Luiz Sérgio Henriques: Armênio Guedes (1918-2015)

- Gramsci e o Brasil 

Faleceu ontem em São Paulo (11/03/2015), aos 97 anos, Armênio Guedes, dirigente histórico do antigo Partido Comunista Brasileiro e presidente de honra da Fundação Astrojildo Pereira. Baiano de Mucugê, criado em Salvador e tendo passado por sua Faculdade de Direito, que abandonou pouco antes de se formar, Armênio participou de uma geração brilhante de políticos e intelectuais democráticos e de esquerda, entre os quais João Falcão, Aydano Couto Ferraz, Jorge Amado, Edson Carneiro, Carlos Marighella e muitos outros.

Tendo aderido ao PCB nos anos 1930, sob a inspiração do antifascismo, Armênio guardou desta experiência original a marca das posições de frente com os adeptos do pensamento liberal, que carregou mesmo nos momentos de maior sectarismo do comunismo brasileiro e internacional. Assim, logo depois do célebre XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética, que denunciou os crimes que haviam acompanhado a construção do socialismo de Estado sob a direção de Stalin, Armênio esteve entre os que mais se empenharam, no PCB, por uma profunda revisão de métodos, que atualizasse a teoria e a prática dos comunistas brasileiros.

Não por acaso, Armênio participa da redação do “Manifesto de Março de 1958”, ao lado de outras personalidades com pensamento mais ou menos próximo do seu, como Luiz Carlos Prestes, Giocondo Dias e Jacob Gorender. Este “Manifesto”, ao destacar de modo inovador a importância da “questão democrática”, ao lado da “questão nacional”, assinalou uma mudança de rumos na cultura dos comunistas, em direção à plena incorporação, que se daria nos anos seguintes, dos métodos da democracia política e sua valorização acima de qualquer ambiguidade.

Se não foi suficiente para impedir açodamentos e equívocos na grande e terrível crise de 1964, o “Manifesto de 1958” forneceu instrumentos para a política de resistência pacífica e legalista do PCB ao regime ditatorial, uma política que teve Armênio como um de seus defensores mais destacados e coerentes. Armênio, então no estado da Guanabara, era a referência para o trabalho partidário tanto com os jovens intelectuais, quanto com a velha “classe política”, que a seu modo se opunha tenazmente ao regime, e as novas lideranças que surgiam no interior do MDB e do movimento democrático em geral. Aqui, seu nome deve ser permanentemente lembrado ao lado de singulares personalidades do comunismo brasileiro, como Luiz Inácio Maranhão Filho, Giocondo Dias, Marco Antônio Tavares Coelho, Salomão Malina, João Massena e outros dirigentes com clara visão política dos problemas e perspectivas postos pela “frente democrática” contra o regime militar.

Sandro Vaia: Armênio e o choque de valores

Armênio morreu acreditando que não existe no horizonte da ação política nenhum espaço para a intolerância ou para a ditadura. Nenhuma ditadura. Nem a do proletariado

- Blog do Noblat, (13/3/2015)

Morreu Armênio Guedes com quase um século de vida, exatamente na semana em que um choque de valores ameaça marcar com uma cicatriz a democracia brasileira, que alguns ainda insistem em tratar como uma “plantinha tenra”.

Dos 96 anos vividos, Armênio passou metade dentro do Partido Comunista Brasileiro, onde nunca foi um burocrata saliente, daqueles cheios de medalhas honorificas, mas sempre foi um estrategista sábio e silencioso, um polo de ideias que tonificaram uma organização esterilizada pelo “centralismo democrático”.

Armênio poucas vezes teve liderança formal dentro do partido, mas nunca precisou disso para ser um catalisador de ideias e valores.

No prefácio do livro “Armênio Guedes, o Sereno Guerreiro da Liberdade”, que escrevi, o poeta Ferreira Gullar, que conviveu com ele durante anos dentro do PCB e foi seu companheiro de exílio no Chile, durante a ditadura militar, escreveu:

“(….) a luta de Armênio pela democratização do PCB e de sua visão revolucionária confundia-se com a necessidade de derrotar a ditadura militar que se instalara no Brasil em 1964. Também nesse plano, as divergências dificultavam o trabalho político, uma vez que a opção dos radicais de esquerda pela luta armada, veio fortalecer os setores mais repressivos do regime militar. Armênio estava entre os que mais atuaram para impedir que o regime fosse arrastado à desastrosa aventura guerrilheira. “

Disciplinado e discreto, mas firme em suas ideias e convicto de seus valores, Armênio rompeu com a ortodoxia de Luiz Carlos Prestes sem nunca precisar romper. Gestos teatrais e grandiloquentes nunca fizeram parte do seu modo de ser. Simplesmente ele e Prestes tinham ideias e concepções diferentes sobre estratégia e sobre democracia, e o tempo se encarregou de mostrar quem estava com a razão.

Depois de fazer o PCB, ainda que na ilegalidade, participar da luta pela redemocratização através da atuação política legal e parlamentar, com as brechas abertas pelo MDB, único partido de oposição tolerado pela ditadura, Armênio se convenceu ainda mais de que não existe sentido em qualquer luta para melhorar o mundo que não tenha como valor fundamental o respeito à liberdade.

Além das lições deixadas pela própria história de vida, pela generosidade e espírito de tolerância que transmitiu às pessoas que o acompanharam, que o cercaram e que conviveram com ele, Armênio Guedes deixou plantadas sementes que levam à compreensão da práxis política não como uma batalha de vida e morte, mas como uma forma de construir utopias possíveis e racionais sem nunca sacrificar os valores essenciais da democracia, que são o pluralismo e a liberdade.

Armênio morreu acreditando que não existe no horizonte do futuro a ser construído através da ação política nenhum espaço para a intolerância ou para a ditadura. Nenhuma ditadura. Nem a do proletariado.

Como Giuseppe Vacca, teórico do Partido Democrático da Itália, resultado da fusão entre o antigo Partido Comunista Italiano e o antigo Partido Democrata Cristão, Armênio, convencido da importância da democracia como valor universal, não acreditava mais que socialismo e capitalismo fossem excludentes. A ousadia teórica que ele defendeu ao final da vida, foi a de que o capitalismo é “um modo de produção" e o socialismo “um modo de regulação”, e que eles podem conviver e se complementar.

Uma utopia irrealizável, como todas as utopias? Pois foi para isso que ele viveu.

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Sandro Vaia, Jornalista, foi editor do Jornal da Tarde, diretor de Redação da revista Afinal, da Agência Estado e do jornal “O Estado de S.Paulo”. Escreveu “A Ilha Roubada”, (Barcarolla) sobre a cubana Yoani Sanchez e "Armênio Guedes, Sereno Guerreiro da Liberdade"

Resolução política do CE da Guanabara do PCB (março de 1970)

Apresentação: Armênio Guedes

Em 1970, o Partido Comunista Brasileiro (PCB) vivia um momento de grandes dificuldades políticas. E não era diferente a situação dos comunistas da antiga Guanabara, cujo Comitê Estadual havia sido eleito em 1967, na conferência preparatória do VI Congresso do Partido.

A derrota do movimento de massas em 1968/69 e a promulgação do AI-5, que liquidou os últimos restos de liberdades existentes no país após o golpe de 1964, colocaram as correntes políticas e o movimento operário e popular perante uma situação nova e complexa. As formas de luta e de organização que as forças democráticas deviam adotar a partir de posições necessariamente defensivas, de resistência, impostas por derrotas sucessivas após 64 e principalmente no período que se seguiu ao insucesso político de 68, nem sempre foram assimiladas com a rapidez que a situação do país exigia. Faltaram para isso a todas essas organizações – e entre elas o PCB – lucidez e agilidade políticas.

Muitos – pessoas e organizações –, levados pelo desespero e pela falta de perspectiva, se deixaram arrastar, com base numa análise falsa, para as posições da luta armada e do uso indiscriminado da violência, como formas únicas e exclusivas de ação política no combate para liquidar a ditadura. A um tal comportamento não estiveram alheios militantes e setores do PCB, que posteriormente dele se desligaram.Em 1970, apesar da condenação do VI Congresso ao "foco guerrilheiro" e a outras formas de luta que não apresentavam caráter de massa, ainda tinham influência nas fileiras do PCB muitas das idéias defendidas pelos "foquistas". Parcialmente influenciados por tais idéias, muitos membros do PCB vacilavam em realizar esforços para reconstruir o movimento de massas e, assim, colocar em prática a linha de resistência ao processo de fascistização do país, executado pelo regime mais abertamente após a adoção do AI-5. Essa não era certamente uma tarefa simples nas condições de repressão e terror então existentes; mas era o único caminho possível e viável para a resistência e o gradativo avanço das forças democráticas.

Foi para reagir a esse momento de dificuldades e confusões que a Comissão Política do CE da Guanabara decidiu lançar o documento de março de 1970. Tratava-se, de um lado, de um esforço para colocar em prática a linha aprovada pelo VI Congresso; e, de outro, para dar continuidade à tradição do Partido no Estado de ligação com as massas e de alianças com um amplo arco de forças democráticas e liberais.

Para a elaboração do presente documento, de minha autoria, foi decisiva a participação que pude ter nas discussões realizadas no interior da Comissão Política do CE, integrada também, entre outros, por Élcio Costa e João Massena de Mello, ambos eliminados pela ditadura durante os anos da repressão sangrenta de 1974/76. Depois de elaborado, o documento foi aprovado por unanimidade na Comissão Política e no Comitê Estadual, praticamente sem qualquer emenda.

Ao republicá-lo hoje, é relevante observar que algumas das teses nele defendidas só seriam levadas em consideração pela direção nacional do PCB alguns anos mais tarde, em 1973. Pode-se constatar, também, o acerto da análise e das previsões, o que é mais significativo quando se pensa que aquela era praticamente a primeira intervenção dos comunistas no novo quadro inaugurado com a edição do AI-5 e com o início do "milagre brasileiro", com todas as suas conseqüências e características. O texto resistiu ao tempo, dez anos após sua publicação.

Exatamente por isso, o documento não pode deixar de ser lido se se deseja conhecer um pouco da história da ação e das concepções do PCB durante os anos mais negros do regime criado pelo golpe de 64. Vem daí a idéia de republicá-lo.

Ao fazer isso, cumpre registrar, alto e bom som, que o documento não existiria sem a atividade do conjunto do Partido na Guanabara, em particular de seus organismos dirigentes e de base. Foi em nome dessa atividade, integralmente voltada para a organização da classe operária e das amplas massas do Brasil e para a conquista de uma democracia que se abrisse para o socialismo, que diversos companheiros foram presos, torturados e mortos, amargaram o exílio e tiveram suas vidas destroçadas. A eles, pois, e em particular a Élcio Costa e João Massena de Mello, deve ser sempre dedicado o documento que se segue.

São Paulo, março de 1981.