quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Tucanos paulistas

Marcos Coimbra
DEU NO ESTADO DE MINAS


"Passada a metade do período de propaganda eleitoral, a eleição em São Paulo está indefinida. A certeza é de que a decisão será no segundo turno"

Terminada metade do período de propaganda eleitoral, a eleição em São Paulo se mostra indefinida em um aspecto fundamental. Ninguém tem dúvidas de que a decisão vai se dar no segundo turno e que Marta Suplicy estará nele. Ela lidera com folga as pesquisas, mas não mostra ter condições de vencer já em 5 de outubro. Ninguém aposta na possibilidade de crescimento dos candidatos que estão nos postos inferiores, de Maluf para baixo.

Mas ninguém é capaz de dizer se o adversário da ex-prefeita será Alckmin ou Kassab. O candidato do PSDB parecia favorito ao posto, mas o bom desempenho do prefeito nestas semanas deixou o quadro incerto.

A explicação dessa situação tem uma dimensão atual e outra antiga. Olhando para o que está acontecendo, é nítida a vantagem de Kassab sobre o ex-governador em dois aspectos. De um lado, tem muito mais tempo de antena que ele, na razão de quase dois para um. Enquanto um telespectador comum tem cerca de 17 chances ao dia de ver um comercial seu (supondo que seus 8min44seg diários serão usados em inserções de 30 segundos), só tem nove de ver um de Alckmin.

De outro lado, a campanha do atual prefeito se mostra mais bem focada, usando soluções adequadas de estratégia e forma. O mesmo não se pode dizer do material que é veiculado por seu oponente direto.

Mas não são apenas os fatos de agora que se devem invocar na discussão do que ocorre em São Paulo. A disputa entre dois candidatos vindos do mesmo grupo político, com apoios fundamentalmente iguais, mas que concorrem, com ânimos cada vez mais acirrados, não começou na eleição de 2008.

O primeiro ato dessa história aconteceu em 2004, quando José Serra chegou à conclusão de que deveria disputar a eleição municipal. Depois da derrota para Lula em 2002, ele assumira, com toda justiça, a presidência nacional do PSDB, cargo que o deixava no palco para voltar a ser o candidato do partido na eleição seguinte. Fazendo a avaliação que Lula deveria disputar com vantagem sua reeleição, Serra preferiu o caminho da prefeitura. Ganhou e estava conformado a lá permanecer. Até jurou que não deixaria o cargo.

Veio o mensalão e um novo ato começou. Serra achou que Lula ia perder e se entusiasmou. Só que Alckmin tinha passado à sua frente na fila dos presidenciáveis do partido. Serra bem que tentou, mas, no embate entre o trator e o picolé de chuchu, Alckmin não cedeu.

Serra teve de se contentar em disputar o governo do estado, sem grande tristeza, pois, àquela altura, Lula já voltara a ser favorito. Como mais valia um pássaro na mão que dois voando, Serra cedeu. Mas as mágoas ficaram.

O terceiro ato se passou logo em janeiro de 2007. Serra fez sua primeira reunião pública de secretariado na presença do antecessor. Quem ouviu seu discurso ficou com a impressão de que tomava posse à frente de um governo de oposição, pois pouco do que recebia como legado foi sequer reconhecido. Ao contrário, críticas voaram para todos os lados, atingindo as principais marcas da gestão do correligionário. Daí em diante, essas situações sempre se repetiram.

No início de 2008, tivemos o quarto ato desse drama. Serra montou seu jogo, no qual queria um candidato a prefeito inequivocamente identificado consigo. Mais, que fosse uma candidatura que indicasse sua estratégia para disputar a eleição presidencial de 2010: em coligação com o DEM, apoiado pelo PMDB (pelo menos parte dele). Quanto a Alckmin, que acatasse e ficasse quieto.

Quem faz da força sua marca registrada tem de aceitar reações iguais a seus atos. Quando Alckmin percebeu que não teria mais espaço no PSDB do estado que ele governara com índices altíssimos de popularidade (mais altos que os de Serra), que ia desaparecer, ele reagiu. Paradoxalmente, o picolé passou (de novo) por cima do trator: Alckmin impôs a Serra sua candidatura a prefeito.

Quem vai com Marta para o segundo turno? Tão combalidos estão os dois que a questão pode ser irrelevante. A guerra tucana pode ter abatido ambos.


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