segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Cena externa e agenda de 2019 já preocupam | Angela Bittencourt

- Valor Econômico

Senna alerta para mudança estrutural na economia global

A prévia da inflação brasileira representada pelo IPCA-15 volta a subir em 12 meses até outubro após quase dois anos em queda. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulga o dado nesta semana e deve confirmar o retorno da inflação ao patamar de 2,7% na mesma base de comparação. Será o nível mais elevado em quatro meses, porém ainda inferior ao piso da meta brasileira, de 3%. A retomada de um ciclo de alta de preços não preocupa o mercado financeiro e tampouco o governo que ganha tempo - quase todo dedicado a evitar respingos da Lava-Jato no presidente Michel Temer e construir alternativas para tapar o rombo das contas públicas já espichado até 2019.

O próximo presidente receberá, com as chaves do Palácio da Alvorada, um déficit de R$ 159 bilhões. O governo dispõe de poucos meses para entregar alguma mudança na Previdência, mas depende de muito empenho e não deve contar com efeitos práticos imediatos de tão complexa reforma.

Na sexta-feira - espremida entre o feriado de Nossa Senhora Aparecida e o fim de semana - o presidente do Banco Central (BC), Ilan Goldfajn, e o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, ambos em Washington onde participaram da reunião do Fundo Monetário Internacional e Banco Mundial, reiteraram a importância das reformas para a perspectiva da economia brasileira. Ilan deu um parâmetro de inflação para os investidores. Disse que ela estará muito próxima à meta [4,50%] ao final de 2018. Até lá tem chão. Contudo, o Brasil já está na pista.

Nos próximos 12 meses, um pouco mais ou um pouco menos, a taxa básica, Selic, descerá alguns degraus e vai estrear um ciclo de manutenção; a economia, já na primeira marcha, ganhará tração e poderá crescer até 3%, mostram as projeções otimistas que se multiplicam e contemplam maior oferta de emprego.

Tudo certo até aqui, à exceção do ajuste fiscal, principal dever de casa do governo brasileiro desde sempre. Decisões importantes foram propostas e aprovadas pelo Congresso, mas insuficientes para reequilibrar as contas que terão resultados menos negativos com o aquecimento da atividade e consequente expansão de receitas. Mas o desarranjo fiscal se tornará mais e mais óbvio quanto menor o prazo a decorrer até as eleições de outubro de 2018.

No jargão dos operadores, esse cenário parece "dado" há tempos porque 100% dos economistas concordam que nesses 12 meses daqui até a eleição o mercado externo estará favorável ao Brasil. Contudo, quanto a 2019 não há consenso, mas uma embrionária preocupação. O próximo presidente do Brasil chegará ao Palácio do Planalto com agenda cheia e um país ávido por soluções, inclusive, porque o crescimento econômico - mais forte em 2018 - poderá não ser consistente o bastante para aplacar demandas de brasileiros de todos os quadrantes.

A coluna entrevistou dois especialistas em política monetária - José Júlio Senna e Marcos Mollica - com o objetivo de apresentar pontos de vista sobre o contexto internacional em que o Brasil vai navegar dentro de alguns meses. "2019 será diferente. O mercado internacional aposta em apenas um aumento de juro em 2018, mas o Federal Reserve (BC dos EUA) sinaliza três aumentos. É verdade que o Fed nem sempre cumpriu suas indicações. Também é verdade que o mercado duvidava de mais uma alta do juro em dezembro e, há semanas, essa probabilidade cresce", afirmou à coluna Marcos Mollica, sócio e gestor da Rosenberg Investimentos.

Na semana passada, chegou a quase 90% a chance de o Fed subir o juro na última reunião do ano sobre política monetária. E que poderá ser também a última comandada por Janet Yellen que deixa a presidência do Fed, em fevereiro.

A avaliação de Mollica, Ph.D em Economia pela Universidade de Chicago, é oportuna após a confirmação de que a inflação ao consumidor (IPC) nos EUA avançou 0,5% de agosto para setembro e 2,2% na comparação com o ano anterior. Aquém do esperado por analistas, a inflação se avizinha da meta de 2% perseguida pelo Fed. Descontados os preços de Alimentos e Energia, a inflação acumula a inflação subiu 1,7%.

"O Brasil tomou medidas relevantes no último ano, mas os déficits já contratados são gigantes e não serão equacionados neste governo. Os problemas vão se arrastar para o próximo presidente e esperamos que ele tenha compromisso com a agenda de reformas. O próximo presidente enfrentará questões delicadas como a definição da regra de aumento do salário mínimo e o reajuste do funcionalismo, aprovado para 2018 por Temer, mas adiado para 2019", comenta.

O impacto da elevação do juro pelo Fed não é trivial, diz Mollica, que considera provável que o Fed seja seguido pelo Banco Central Europeu (BCE) e Banco da Inglaterra. "O aperto monetário deve ser sincronizado entre os maiores BCs do mundo. Isso não significa explosão de taxas, mas importante mudança nas condições financeiras", explica.

José Júlio Senna, ex-diretor de Política Monetária do Banco Central e chefe do Centro de Estudos Monetários da Fundação Getulio Vargas, afirma que a política recente de juros mais baixos no mundo é o que está por trás do início de recuperação econômica no Brasil. "Eventual interrupção desse processo seria péssimo para o país. Mas nosso grande problema é fiscal. O mundo continuará nos ajudando."

Senna pondera que os participantes do mercado sabem disso. Ele pergunta por que essa leitura não afeta preços de ativos. Por que o mercado vive uma espécie de euforia? E responde: "Por que o ambiente internacional permanece favorável. Aliás, isso é da tradição brasileira. Vamos bem quando os ventos internacionais sopram a favor."

Senna lista fatores que ajudam o Brasil no momento: "O mundo mudou e talvez venha mudando desde o começo dos anos 2000. São mudanças estruturais: demanda por investimento sem força e grande desejo de poupar. Resultado: juro real neutro em queda no mundo desenvolvido, o que dispensa a prática de juros altos em outras economias. Há também ampla liquidez e os BCs parecem estar gostando desse 'novo modelo'. Parece baixa a vontade de reduzir os balanços expressivamente. Isso quer dizer que provavelmente teremos abundância de liquidez internacional ainda por muito tempo."

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