domingo, 1 de fevereiro de 2026

De um transformismo a outro. Por Alberto Aggio

Estado da Arte / O Estado de S. Paulo

Da experiência democrática brasileira construída no contexto da globalização desde 1985 às inflexões recentes que vêm tensionando os avanços das últimas décadas.

É quase um consenso generalizado na literatura de linhagem histórico-política voltada para o tempo presente que, nos últimos 40 anos, o Brasil buscou concretizar o anseio de conjugar democracia política com sociedade democrática, carregando nesse processo êxitos marcantes bem como déficits expressivos.

A vitória no Colégio Eleitoral da ditadura, numa eleição indireta, e a posse do primeiro governo civil, em 1985, comandado por José Sarney, concretizou efetivamente a derrota política da ditadura e a abertura de um novo período que ficou conhecido como Nova República. Para o conjunto da sociedade, a Nova República significou a conquista da liberdade política integral para partidos, associações e movimentos sociais, ampliando de forma inédita a participação política. Substantivamente, de 1985 até os dias que o Brasil viveu o período mais longevo de democracia. 

A superação do regime ditatorial de 1964 anunciou para a sociedade brasileira a possibilidade de uma “mudança de época”. Tratava-se de uma superação não apenas da institucionalidade autoritária do regime militar, mas de traços profundos de autoritarismo presentes na sociedade brasileira — daqueles existentes desde o período colonial até os que sustentaram a modernização varguista imposta a partir da década de 1930. 

Em continuidade com o padrão histórico que caracterizou a formação social brasileira, mudança e conservação também iriam marcar a trajetória da Nova República. A chave analítica que detectou, historicamente, o predomínio da conservação sobre a mudança, isto é, o fato de que politicamente a conservação dirigia e controlava a mudança, caracterizou esse processo como revolução passiva. 

Em síntese se poderia dizer que, na construção democrática vivenciada pelo Brasil, o critério de interpretação ensejado pela teoria da revolução passiva permitiu (1) reconhecer avanços, sempre à sombra de arranjos e imposições normativas de arrefecimento da participação democrática para, por fim emergir ameaças concretas de atores antidemocráticos; (2) revelar a incapacidade dos novos seres sociais de se fazerem representar ativamente na política institucional e dirigi-la democraticamente a partir de uma orientação transformadora de caráter histórico — como afirmou Luiz Werneck Vianna, a democratização se configurou concretamente num “processo em busca de um ator”; e, por fim, (3) revelou bloqueios importantes na generalização de uma cultura política democrática no seio da sociedade, fazendo com que a conservação retomasse, ao final do período, o seu lugar como um ator desafiador à continuidade da mudança, isto é, à permanência e ao avanço da democracia.

E, como se poderia explicar, sinteticamente, esse tipo de resultado, cheio de contradições? Selecionaremos, em seguida, alguns pontos e momentos como fatores explicativos. 

A transição que resultou na superação do regime ditatorial de 1964 não se deu por um processo revolucionário, insurrecional ou mesmo de ruptura institucional. Mas nem por isso ela deixou de ser vigorosa e com grande participação popular, estando longe de ser conservadora. Com a Constituição de 1988 implantou-se no País uma nova ordem política e jurídica de perfil democraticamente avançado, de ampliação inaudita dos direitos de cidadania.

Nos governos de Fernando Henrique Cardoso (FHC), do PSDB, a democracia avançou e se sustentou por meio da reforma do Estado. Isso foi possível com a superação da hiperinflação, com o sucesso do Plano Real. Os dois governos de FHC (1994-2002) introduziram elementos de renovação institucionais e funcionais do Estado (na educação, nas comunicações, etc.), mudanças de perfil “modernizador” com um forte impulso às privatizações e uma vigorosa integração ao processo de globalização. Essas iniciativas não conheceram uma regressão ao estágio anterior nos governos do PT que o sucederam a partir de 2003.

Os “dois governos” em sequência — do PSDB e do PT —, que abarcam o período de 1994 a 2010 (Fernando Henrique Cardoso, 1994-2002, e Luiz Inácio Lula da Silva, 2003-2010), mesmo sendo de partidos diferentes, produziram resultados decisivos para a consolidação e avanço da construção democrática. Mais do que dois mandatos, foram efetivamente “dois governos”, em sentido amplo, sólidos e exitosos que, mesmo reconhecendo as aproximações e distanciamento entre ambos, deixaram heranças e foram capazes de projetar continuidades, mesmo depois que deixaram a presidência da República.

O processo político de construção da democracia no Brasil foi avançado, embora com limitações, porque as principais transformações que levaram à construção democrática da Nova República realizaram-se por meio de transformismos, todos eles expressos no perfil das principais lideranças políticas, bem como em coalizões políticas e de governo que se articularam em torno de setores tanto “progressistas” quanto “conservadores”.

Transformismos que — sem solução de continuidade —, que se opuseram no plano político causando desconcerto e desorientação. O que ocorreu e quais as consequências? A tenaz resistência às reformas modernizadoras de FHC por parte do Partido dos Trabalhadores (PT) pode ser entendida como mais uma das oportunidades perdidas pela esquerda brasileira durante o processo de construção da democracia. O resultado foi que a esquerda brasileira não se dispôs a se “socialdemocratizar” e assim permitir sua atualização ao mundo globalizado, sob o impacto de grandes transformações tecnológicas. Como desdobramento, a esquerda brasileira deixou de assumir uma função de direção na “revolução passiva” da era da globalização, com petistas e peessedebistas digladiando-se numa polarização excludente e estéril. Abriu-se um vazio de hegemonia que redundaria em custos políticos enormes para o aís, permitindo que, em conjunturas posteriores, a direita mais extremada reerguesse a cabeça e passasse a disputar o centro do poder. 

O grande ator transformista na construção da democracia brasileira atual é o Partido dos Trabalhadores (PT). Valeria a pena refletir aqui sobre a natureza do seu transformismo1.

Petismo e lulismo se afirmaram na esteira dos governos FHC, mas em contraponto a eles. Os governos FHC estavam inseridos numa conjuntura em que, internamente, a partir da Constituição de 1988, foi possível um amplo processo de conquista de direitos, a superação da hiperinflação, o enfrentamento da pobreza e etc., e, internacionalmente, o programa político era a inserção do País na globalização triunfante do final do século 20. O período FHC abriu e instaurou um novo tempo na história política brasileira a partir de uma “ruptura em fogo lento”, que perdeu impulso e não conseguiria, como ator principal, continuar a implementar sua política de criar um novo ethos para esse novo tempo. Outro ator viria a ocupar esse lugar, assumindo a tarefa de atualizar o País ao mundo do capitalismo globalizado. 

Mas é preciso entender que, com FHC, se adotou a via de um transformismo fraco, impondo elementos corretivos à vigorosa onda de democratização precedente, que acabaria se transformando numa política de largo fôlego. O PT e o lulismo dariam continuidade a esse transformismo por meio de mecanismos e valores próprios que nasceram do social e se consolidaram no terreno permanentemente em disputa da vida democrática. 

O PT nasce no final dos anos 1970 em um contexto de abertura política e crise dos paradigmas. Na origem, o PT articulou lideranças do chamado “novo sindicalismo”, os católicos de esquerda e ex-guerrilheiros sobreviventes da aventura armada das décadas de 1960 e 1970. Além desses setores, ganhou a adesão dos movimentos sociais e de intelectuais das universidades públicas.

Desde o início, o PT adotou uma política de afirmação do seu entrincheiramento no social, colocando-se como hostil ao encaminhamento da transição democrática e da construção da nova ordem democrática levada a cabo pelos governos democráticos a partir de 1985. A partir do social, o PT buscou estabelecer-se como um polo externo à construção democrática postando-se contra a eleição de Tancredo Neves no Colégio Eleitoral, contra a aprovação da Constituição de 1988 e como um crítico radical à implementação do Plano Real que exterminou a hiperinflação que assolava o País. Como afirmou Vinícius Müller, o PT apostou no descrédito dos processos que deram sustentação da Nova República, contribuindo “decididamente para a polarização que antecipa a tragédia atual ao associar sem nenhum pudor o governo FHC à direita ideológica”2.

Essa postura é explicável por meio da inquirição sobre os fundamentos da cultura política do petismo. Uma cultura política insólita e específica que se articula em torno de três dimensões que se combinam e se alternam conforme as conjunturas políticas, a saber: o rechaço à política e aos políticos, a economia do afeto e a cultura da escolha racional.

Mais do que adaptação ao sistema, o transformismo que deu sustentação ao PT e ao lulismo afirmou-se na combinação do moralismo ético do rechaço com o vínculo emocional do afeto, identidade de ação e com o cálculo racional da escolha no plano da política eleitoral e governamental. Distante das doutrinas que marcam o discurso ideológico das esquerdas, o transformismo deu plasticidade ao PT na ação política, valorizado como uma imagem positiva — e independente de qualquer julgamento — o que permitiu a Lula— mas não apenas a ele — se autodefinir frequentemente como uma “metamorfose ambulante”. 

Mobilizado por essa cultura política insólita, o partido recusou todas as injunções ideológicas do mundo da esquerda, sem precisar negá-la, para alcançar, por fim, o seu “momento Maquiavel”. Em síntese, o transformismo permitiu que o PT realizasse um movimento, sem volta, de deslocamento da sociedade civil para o Estado.

Cristalizado nas entranhas do social, o PT sempre o entendeu como uma trincheira de onde pudesse atacar o espaço do político, como se este último avançasse para a democracia pela força da gravidade, como um fato natural, não como uma construção com muitas mediações. Pelos conteúdos da sua cultura política sumariados acima, o transformismo não significou uma assimilação passiva, mas uma interação ativa com os setores subalternos, embora esses mesmos conteúdos acabaram bloqueando a possibilidade de construção de uma hegemonia que virasse do avesso a política brasileira. 

Foi mais uma oportunidade perdida no sentido de se construir um Bloco pelas Mudanças, isto é, um Bloco Reformista, claramente delineado com forças políticas com objetivos sociais e políticos comuns de perfil progressista e democrático. As alianças de governo patrocinadas por Lula, sempre limitadas à cooptação de setores políticos diversos, em geral tendentes à direita — especialmente no terceiro mandato — explicitam esse resultado de maneira bastante clara. O transformismo deu força ao PT e ao lulismo, mas também está na razão direta de suas fragilidades e limites. 

Mas o tempo não passou em vão e o transformismo do PT hoje não se sustenta nos termos originais. Hoje a globalização triunfante do início do século 21 deu lugar a um cenário cheio de dificuldades. O diálogo e a representação quase automática da classe trabalhadora tornou-se mais difícil. O mundo do trabalho atual carrega consigo, agora muito mais que antes, uma aspiração individual empreendedora. O problema é que, hoje, pulsa na sociedade a mesma lógica anti-Estado dos idos dos anos setenta e que, agora como um bumerangue, se volta contra o “transformismo positivo” que permitiu a conquista da democracia e o avanço da democratização. 

Emerge desse cenário um “transformismo sem revolução passiva” que vem marcando o terceiro mandato de Lula e que nasce dessa deriva. Isso acaba gerando mal-estar, desorientação e incapacidade de colocar um rumo novo para o País. O cenário do terceiro mandato é, portanto, de vazio de hegemonia. 

É o resultado de decisões políticas que atravessaram esses últimos 40 anos e que têm muito a ver com o que o PT colocou em prática, explorando o confronto entre o “espírito das instituições” e o modo como os “jogadores” se comportaram. O que produziu uma recusa de ambos, permitindo a radicalização contra as instituições democráticas e, simultaneamente, a desconfiança em relação a todos os atores políticos. No essencial desses 40 anos, o PT pode celebrar sua vitória, mas foi um “mau jogador” e o resultado não poderia ser outro: a ascensão da extrema-direita com o seu lastro de ameaças de ruptura com a democracia3.

O tempo das fabulações se exauriu. A metafísica da democracia do início da transição sucumbiu diante da física dos interesses que a partir do social invadiu a esfera da política e, sem uma cultura política que fortalece a democracia, agora se degenera em ações políticas, no Parlamento e fora dele, que apenas têm olhos pelos negócios da política. A crise de hegemonia que assistimos ao final do período de 40 anos da democratização brasileira assume, portanto, um caráter dramático, em sentido invertido ao início do período. O drama, no início, era lutar e mesmo morrer para conquistar a democracia; hoje é salvá-la das ameaças cada vez mais crescentes à sua derruição. 

Os partidos de extração democrática passam a se descolar da agenda democrática, consagrada pela Constituição de 1988. Há um novo tipo de transformismo que acabou se estabelecendo, com partidos políticos preocupados apenas com o fortalecimento do poder pessoal de sua elite dirigente, sem nenhuma responsabilidade com a eficácia ou o êxito das políticas públicas. É notório que todos os partidos foram capturados pela “transa” política e não se orientam mais por programas e, sim, por interesses particulares e narrativas orientadas por pesquisas eleitorais e pela audiência das “bolhas” nas redes sociais.

De um ponto de vista mais geral, como afirmamos, está claro que a democracia que se construiu no Brasil depois de 1985 se estruturou com base num transformismo vinculado à revolução passiva da globalização triunfante. A perda desse vínculo internacional, somada à ausência de uma cultura política democrática sólida a permear a vida política dos atores e o próprio sistema político, faz com que esse arranjo venha, há tempos, dando sinais de esgotamento, ao mesmo tempo que as ameaças à democracia assumem contornos dramáticos. Tanto mais com a emergência de um outro tipo de transformismo, desconectado de qualquer modalidade de revolução passiva”. Consolidado, esse tipo de transformismo poderá fazer retroagir os avanços democráticos e civilizatórios dos últimos 40 anos. 

A construção democrática no Brasil parece hoje um processo paradoxal, com instituições fortes e consolidadas e ao mesmo tempo uma baixa estima pelo que foi feito, geradora de muitas desconfianças em relação aos atores democráticos e à própria democracia. Não foi casual que, em sintonia com o que ocorre no mundo, a extrema direita que saiu das sombras às quais a luta contra a ditadura a havia relegado, conseguiu chegar à presidência da República com Jair Bolsonaro e ainda fustiga as instituições democráticas com novas ameaças de golpe e de erosão da convivência democrática entre os brasileiros.

*Alberto Aggio é Professor Titular da UNESP. Historiador, com doutorado pela USP, é autor do livro A Construção da Democracia no Brasil, 1985-2025: Mudanças, metamorfoses, transformismos (Annablume Editora, 2025).

Notas:

Desenvolvo com mais profundidade o argumento em torno do transformismo que marca o PT e o lulismo bem como sobre outros aspectos da história política brasileira mais recente em AGGIO, A. A construção da democracia no Brasil, 1985-2025 – mudanças, metamorfoses, transformismos. Brasilia/São Paulo: FAP/Annablume, 2025. 

 MÜLLER, V. “Os maus jogadores da Nova República e os 40 anos de democratização”. Estado da Arte, 26 de março de 2025. 

 Tomo emprestado aqui o argumento desenvolvido por Vinicius Müller citado na nota anterior. 

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