Brasil tem de se preparar para seca severa
Por O Globo
Chuvas em certas regiões transmitem sensação
falsa de segurança hídrica. Situação dos reservatórios é crítica
As chuvas dos últimos tempos transmitem um
recado ilusório. É crítica a situação hídrica do Brasil, como
mostrou reportagem do GLOBO. O país sofre escassez de água em boa
parte de seu território, sobretudo no Sudeste e no Centro-Oeste. Há 40 anos se
registra queda anual nas chuvas, e o período de seca no Sudeste aumentou 25
dias. Além do impacto no abastecimento das cidades, a situação põe em risco
agropecuária e geração de energia.
Não é necessário apenas que chova. É preciso que chova nos lugares certos, as cabeceiras dos rios. As bacias hidrográficas de Sudeste e Centro-Oeste estão em estado de alerta, por isso o Centro Nacional de Monitoramento de Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) recomenda que a gestão dos reservatórios no decorrer do ano seja feita considerando o pior cenário. As taxas escandalosas de desperdício de água tratada (da ordem de 40%, segundo os últimos dados do Instituto Trata Brasil) reforçam tal recomendação.
Com a exceção da Região Sul, de áreas da
Amazônia e parte da Bacia do São Francisco, os reservatórios estão à míngua. Na
Bacia do Rio Grande, onde fica Furnas, o nível está em 30%. As bacias do
Sistema Cantareira, que abastece a metrópole paulistana, estão em 21%, ante 60%
a 70% esperados para esta época do ano — e isso graças à ajuda da vizinha Bacia
do Jaguari, no Paraíba do Sul, essencial ao abastecimento do Rio (ela tem
fornecido metade da água que tem recebido, apesar de seu nível estar em 34%).
“Não choverá o bastante para recuperar os reservatórios, sobretudo no Sudeste”,
diz o meteorologista Marcelo Seluchi, do Cemaden.
Está em curso uma mudança no regime de chuva.
Entre 1961 e 2020, o volume caiu em áreas de Nordeste, Sudeste e Centro-Oeste,
enquanto aumentou no Sul e em parte dos estados de São Paulo e Mato Grosso do
Sul. Na década mais recente (2011-2020), houve quedas de 10% a 40%. Em Mucunaré
(BA), uma área de 5.700 km² deixou de ser classificada como “semiárida” e
passou a “árida”— primeira região do país a passar por tal transição.
A crise hídrica decorre não apenas da queda
na precipitação atmosférica resultante das mudanças
climáticas. Também é resultado do desmatamento, em especial nas áreas de
nascente. Menos cobertura vegetal equivale a menos evaporação, portanto menos
vapor d’água que leva a chuvas (numa pastagem, a evaporação equivale a um
quinto da verificada em florestas nativas). A vegetação também fixa água no
solo, evitando a erosão e o assoreamento de rios e alimentando lençóis
freáticos. Uma pesquisa do Movimento Viva Água nas bacias que abastecem a
Região Metropolitana de Curitiba constatou que, sob seca severa, a redução no
volume de água nos rios não passava de 10% nas áreas com mais de 50% da
cobertura vegetal preservada, enquanto chegava a 50% nas desmatadas.
“Manter a cobertura vegetal e restaurar áreas
desmatadas é uma medida de adaptação à mudança climática crucial no Brasil e
precisa do envolvimento de toda a sociedade”, afirma Guilherme Karam, gerente
de Economia e Biodiversidade da Fundação Grupo Boticário, apoiadora da
pesquisa. Para isso, é necessário que haja planos detalhados de ação nos três
níveis da administração pública, com medidas de curto, médio e longo prazos. A
seca deveria ter, no mínimo, função pedagógica para as autoridades e para a
sociedade.
Crescimento no lixo espacial requer solução
de alcance global
Por O Globo
Com o lançamento de mais e mais objetos ao
espaço, agrava-se o risco de colisões acidentais
Há perto de 14 mil satélites ao redor da
Terra, a maior parte deles nas órbitas mais cobiçadas, que representam economia
de combustível e custo de manutenção. Tal situação configura um
congestionamento sideral. Com o lançamento de mais e mais objetos ao espaço,
agrava-se o risco de colisões acidentais. Choques desse tipo liberam milhares
de fragmentos que podem deflagrar novos choques e pôr em risco sistemas de
comunicação, monitoramento, pesquisa e exploração, como
mostrou reportagem do GLOBO.
A gravitação faz com que parte do lixo
espacial reentre na atmosfera e, dependendo do tamanho, resista à combustão até
atingir o solo. Um pilar da Estação Espacial Internacional caiu em março de
2024 sobre uma casa na Flórida, felizmente sem atingir ninguém. A participação
de empresas privadas no setor tem contribuído para aumentar o congestionamento.
A SpaceX, de Elon Musk,
anunciou o rebaixamento da órbita de mais de 4 mil satélites da sua rede
Starlink numa medida preventiva. Mas evidentemente isso não resolve o problema.
Idealmente, em cada lançamento de satélite
deveria haver um plano para desativação e reentrada na atmosfera. Embora alguns
países hoje adotem tal prática, falta consenso global a respeito. Há uma rede de
troca de informações para evitar colisões entre detritos espaciais, mas não uma
solução duradoura, nem leis que obriguem quem lançou o satélite a tirá-lo de
órbita depois de desativado. “É uma conta elevada que ninguém quer pagar”,
afirmou ao GLOBO Antônio Bertachini de Almeida Prado, especialista em dinâmica
orbital do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). “A quem cabe a
responsabilidade?”
A exigência crescente de rastreamento do lixo
espacial criou um mercado para empresas privadas. Elas usam radares para
acompanhar objetos em órbita de baixa altitude, equipamentos de laser e outras
tecnologias. Operam no ramo desde gigantes, como a americana Lockheed Martin,
até startups, como a brasileira Safe on Orbit. Os principais clientes são
agências espaciais, operadores e lançadores de satélites. O monitoramento serve
também para ajudar seguradoras na avaliação de riscos.
Contratos de seguro não resolverão o problema
crescente do lixo espacial, pois não eliminam os riscos. Uma alternativa seria
destruir os destroços. Tanto China quanto Rússia já usaram mísseis para
bombardear satélites no espaço. Não há, porém, controle sobre os milhares de
fragmentos gerados, que podem atingir satélites em operação.
Satélites desativados deveriam ter, no mínimo, um plano de desativação que os deslocasse para uma espécie de “cemitério” distante. As Nações Unidas dão 25 anos depois do fim da vida útil para que sejam destruídos. É tempo demais. Nos Estados Unidos vigora uma norma que determina prazo de cinco anos, mais sensato. Novas regras de ocupação do espaço precisam ser estabelecidas com presteza pela comunidade internacional para evitar o crescimento dos riscos — e as tragédias.
Kassab joga como Kassab na disputa
presidencial
Por Folha de S. Paulo
Com três presidenciáveis no PSD, ex-prefeito
acena para todos os lados, sua especialidade
Eleitores se beneficiariam de um cardápio
mais variado de opções em outubro, para decidir se endossam novo embate entre
petistas e bolsonaristas
Nem de
direita nem de esquerda nem de centro. A esta altura profética, a
definição de quase 15 anos atrás de Gilberto
Kassab sobre o seu então novo Partido Social Democrático (PSD) voltou a
incidir no cenário eleitoral. O político agora dispõe de um leque que vai de
zero a três nomes para disputar o Palácio do Planalto em outubro.
A façanha se consumou com a filiação do
governador de Goiás, Ronaldo Caiado, cujas ambições presidenciais
colidiam sem remédio com o seu antigo partido, o União Brasil.
O político veterano, que disputou a eleição direta para a Presidência em 1989,
passa a compor com os seus colegas do Paraná, Ratinho Jr.,
e do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite,
o time de aspirantes pessedistas.
Ninguém hesitaria em classificar o trio nas
trincheiras ideológicas da centro-direita, em oposição frontal ao presidente
Luiz Inácio Lula da
Silva (PT). Kassab, no entanto, dá o seu jeitinho. Promete que, caso haja um
presidenciável do PSD oficializado nas convenções até o início de agosto, o postulante
não atacará Lula.
Acredite quem quiser. O malabarismo
kassabista cumpre a função de manter o ex-prefeito paulistano equilibrado entre
lulistas e antilulistas, uma de suas especialidades. No PSD ninguém corre o
risco de ser punido por escolher qualquer um dos lados da disputa, pois é
justamente para ocupar todos os cantos dos embates e governos que o partido
existe.
A manobra, além disso, incomoda como um
espinho a estratégia de Jair Bolsonaro (PL) de impor o seu filho senador,
Flávio, como candidato único da oposição. Kassab contra-argumenta, no seu
enxadrismo, que candidato consensual haverá apenas se o seu
aliado governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), concorrer
ao Planalto.
Na hipótese de o ex-presidente preso e
condenado por tentativa de golpe insistir na sua obsessão familiar, haveria
mais postulantes com peso político e partidário a disputar com o filho de
Bolsonaro a primazia de enfrentar Lula num provável segundo turno.
Um cardápio variado de opções seria decerto
mais benéfico para o eleitorado. Ele teria a oportunidade de refletir sobre se
vale a pena endossar pela terceira vez consecutiva o embate entre petistas e
bolsonaristas, que já se tornou um campeonato para definir quem tem menos
rejeição.
É cedo, contudo, para determinar que
consequências a jogada de Gilberto Kassab produzirá no pleito presidencial de
outubro. Por ora o cacique do PSD apenas ampliou as suas opções de lances numa
fase preliminar do certame. A cartada decisiva poderá revelar-se um novo blefe.
Em 2022 Kassab também prometeu com veemência um candidato pessedista, que não
houve.
O horizonte começará a ficar mais desanuviado
em abril, quando governadores que pretendem disputar a eleição presidencial
terão de deixar o cargo por obrigação legal. Por enquanto Kassab apenas faz o
que sempre fez e acena para todos os lados.
Dúvidas sobre o Fed não se dissiparão tão
cedo
Por Folha de S. Paulo
Trump escolhe economista de boa reputação,
mas suas pressões pela queda dos juros semearam desconfiança
A melhor hipótese é que se repita nos EUA o
que se dá no Brasil; Lula atacou o BC, mas não escolheu diretoria alinhada ao
discurso do PT
A incerteza gerada pelas múltiplas decisões
erráticas e irracionais de Donald Trump provoca,
desde o ano passado, um enfraquecimento do dólar e dos títulos da dívida dos
EUA como portos seguros do mercado global. O republicano evitou aprofundar essa
tendência, ao menos de imediato, com sua indicação para o Federal Reserve,
o banco central do
país.
O escolhido,
anunciado nesta sexta-feira (30), foi Kevin Warsh, cujo currículo
não se se encaixa bem na pregação populista de Trump contra as taxas de juros hoje
elevadas, para os padrões americanos, com a finalidade de conter a inflação.
Trata-se de economista com experiência anterior de dirigente do Fed, quando
ganhou reputação de intolerância com a alta de preços.
Mais recentemente, Warsh tem se posicionado a
favor de cortes nos juros, mas a partir de argumentos técnicos, não de
voluntarismo político —e as taxas de fato vinham caindo, até a deliberação de
quarta-feira (28), quando foram mantidas no intervalo entre 3,5% e 3,75% ao
ano. Com a indicação, que ainda precisa passar pelo Senado, o primeiro
movimento do dólar foi de alta.
As dúvidas não se dissiparão tão cedo, porém.
Neste segundo mandato, Trump tem levado a cabo o que outrora pareciam só
bravatas, e os ataques ao atual presidente do Fed, Jerome Powell,
já semearam desconfiança quanto à autonomia da instituição nos próximos meses e
anos.
Powell, recorde-se, foi nomeado pelo mesmo
Trump em sua primeira passagem pela Casa Branca. Nem por isso
escapou do assédio por parte do republicano, que envolveu até uma
investigação criminal movida pelo Departamento de Justiça.
A esta altura, a melhor hipótese é que se
repita nos EUA o que ocorre hoje no Brasil, guardadas asa proporções dos PIBs.
Aqui, Luiz Inácio Lula da
Silva (PT) vociferou contra os juros e o então presidente do Banco
Central, Roberto
Campos Neto, oriundo do governo anterior. Quando teve a chance de
escolher uma diretoria alinhada ao discurso petista, contudo, Lula não o fez.
Com um mínimo de pragmatismo, um populista
pode ser capaz de reconhecer que a leniência com a inflação se volta
rapidamente contra sua imagem perante o eleitorado. A maioria pobre e
remediada, afinal, é quem mais sofre com a perda do poder aquisitivo da moeda.
No comando da maior economia, Trump pode pôr muito mais a perder. A preservação de seu capital político, de todo modo, é a esperança mais concreta para a preservação do Federal Reserve.
Como nos tempos de Dilma
Por O Estado de S. Paulo
Governo ‘cumpre’ meta fiscal com manobra para
excluir gastos da conta, mas os números não mentem: a dívida galopa, e Lula
parece empenhado em reviver o pesadelo de sua criatura no poder
O governo de Luiz Inácio Lula da Silva
formalmente cumpriu a meta fiscal de 2025, isto é, as contas públicas fecharam
o ano com déficit de 0,1% do Produto Interno Bruto (PIB), dentro da margem de
até 0,25%. No mundo real, porém, o déficit foi de R$ 61,7 bilhões (0,48% do
PIB), quase o dobro do limite fiscal tolerado e 32% acima do rombo verificado
em 2024.
Para “cumprir” a meta, o governo petista
esmerou-se em excluir da contabilidade diversos itens, como as despesas com
sentenças judiciais (precatórios), o ressarcimento a aposentados do INSS
lesados em seus benefícios e os gastos extras com defesa, saúde e educação,
entre outras saídas de caixa não contabilizadas. Tirando tudo isso, o saldo
negativo entre receitas e despesas caiu para R$ 13 bilhões. Parece mágica, mas
pode ser chamado de manobra, artifício ou solução alternativa, e não é
novidade, pois foi usado também em 2024.
Durante o desastroso governo de Dilma
Rousseff, expediente semelhante ficou conhecido como “contabilidade criativa” e
foi um dos fatores que levaram à abertura do processo de impeachment contra a
petista. Reconheça-se que há uma diferença importante: na era Dilma,
escondia-se o déficit sob pesada maquiagem; na gestão Lula, a manobra para
chegar à meta foi feita às claras.
A sem-cerimônia do governo Lula não muda o
fato de que a inventividade que faz caber no Orçamento a expansão desmedida das
despesas não consolida a política fiscal. Ao contrário, apenas evidencia o
enfraquecimento das regras fiscais que o governo Lula faz questão de
desconsiderar. O ano de 2025 registrou o recorde de R$ 2,366 trilhões em
receitas federais, alta real de 2,8% em relação a 2024, mas os gastos chegaram
a astronômicos R$ 2,427 trilhões. E muito pouco disso é investimento, algo em
torno de R$ 84,255 bilhões, o que representa uma queda real de 7,6% em relação
a 2024. O grosso mesmo é gasto obrigatório.
No primeiro Relatório de Acompanhamento
Fiscal (RAF) deste ano, a Instituição Fiscal Independente (IFI) do Senado chama
a atenção para o risco que representa para o exercício de 2026 a exclusão de
gastos que somam, pelos cálculos da instituição, R$ 230,7 bilhões, ou 8,2% das
despesas primárias. No projeto original da lei orçamentária encaminhado pelo
Executivo ao Congresso, essas exceções correspondiam a 6,7%, ou R$ 174,4
bilhões. A principal razão para o aumento foi a retirada dos precatórios, antes
incorporados ao limite de despesas.
A IFI chama a atenção para o risco de que
essa “folga”, que é meramente contábil, seja usada para aumentar gastos reais.
Trata-se de preocupação óbvia diante do fato de que o Orçamento certamente será
ainda mais desvirtuado, porque estamos em ano eleitoral, período no qual a
criatividade na invenção de recursos para objetivos eleitoreiros fica
particularmente fértil.
E não se pode perder de vista que estamos
falando de déficit como “meta” para as contas públicas, um absurdo em si mesmo.
Desde 2014, quando o governo Dilma já arruinava o País, o governo vive no
vermelho, sinalizando reiteradamente que não tem recursos para abater os juros
da dívida. Resultado: a dívida galopa.
Neste terceiro mandato de Lula, a dívida
pública em relação ao PIB saltou de 71,7% quando ele assumiu para 78,7% no
final do ano passado. A previsão do Tesouro é de que chegue a 83,6% em 2026. Ou
seja, uma alta de quase 12 pontos porcentuais num único mandato, que nos remete
ao pesadelo do governo Dilma, que entre 2011 e 2015 fez a dívida saltar de 51%
para 65% do PIB. Um fenômeno que Lula parece empenhado em superar.
Interromper essa escalada não é um capricho.
Com as contas em evidente descontrole, a inflação persiste e os juros não
baixam, o que reduz o crescimento e afeta emprego e renda, fazendo com que seja
mais vantajoso investir em papelório no mercado financeiro do que em produção.
Mas Lula já prometeu que não pretende cortar gastos, nem agora nem nunca. Ao
fazê-lo, o petista pode até ganhar a eleição, mas arruinará o País.
O mundo sob as regras do PT
Por O Estado de S. Paulo
Celso Amorim está escandalizado com a
subversão das regras internacionais pela força. Mas sua conivência com tiranias
sugere que o real incômodo é com o uso da força contra seus ‘companheiros’
Em artigo na revista The Economist, o chanceler de facto do governo Lula,
Celso Amorim, lamenta a erosão das normas internacionais e pergunta, em tom
dramático: como viver em um mundo sem regras?
Mas quais regras? As de ideólogos petistas
como ele são peculiares. Conforme Luiz Inácio Lula da Silva, a democracia é
“relativa” e tudo é uma questão de “narrativas”: princípios cedem lugar à
conveniência ideológica, e o Direito Internacional é maleável como retórica de
palanque. Segundo esses parâmetros, ditaduras que não sejam do “Sul Global” são
sempre detestáveis, e as únicas violações intoleráveis são as dos países
“ricos”. Nessa mitologia geopolítica, o verdadeiro problema não é a ausência de
normas, mas a presença incômoda de princípios universais que limitam o arbítrio
dos comissários que estão “do lado certo da História”.
A queda do ditador Nicolás Maduro ofereceu a
Amorim um pretexto para defender o que realmente importa: não os direitos do
povo venezuelano, mas a imunidade de um déspota aliado. O problema não é tanto
o que Amorim diz, mas o que não diz. A abdução de Maduro pelos EUA é de fato
questionável sob qualquer ótica jurídica. Mas as prisões de milhares de
opositores venezuelanos pela cleptocracia chavista, o êxodo de 8 milhões de
refugiados, as execuções, a censura, a fome, o colapso institucional e
econômico seguem sem reparos por parte dos petistas, como acontece há anos.
Como se vê, o que inquieta Amorim não é o uso arbitrário da força em si, mas
seu uso contra aliados ideológicos.
Enquanto Amorim clama por diálogo e respeito
ao Direito Internacional, seu governo se abstém de votar resoluções na ONU
exigindo o retorno de crianças ucranianas sequestradas por Moscou ou condenando
massacres e torturas de dissidentes e minorias no Irã. Enquanto rompe relações
diplomáticas e lança acusações hiperbólicas contra a democrática Israel,
prestigia a posse presidencial de um fantoche da teocracia dos aiatolás do Irã,
a principal patrocinadora do terrorismo global – ao mesmo tempo em que seu
partido celebra as inúmeras eleições fraudulentas na Rússia e na Venezuela como
verdadeiras festas da democracia. Enquanto abraça entusiasticamente a conversão
do Brics em um sindicato de autocracias revisionistas, sabota o ingresso do
Brasil na OCDE, o fórum das democracias desenvolvidas que exige compromissos
com transparência, pluralismo e racionalidade institucional – regras
indisfarçavelmente inconvenientes para o lulopetismo.
Ao longo de suas gestões, o PT abastardou os
padrões morais da diplomacia brasileira para acomodar regimes que partilham de
seus rancores de grêmio estudantil e sua repulsa ao pluralismo liberal. O
“mundo com regras” que Amorim se propõe a restaurar é o de um multilateralismo
para ditadores de estimação, onde a “soberania” é escudo para abusos internos,
o “diálogo” é sinônimo de inação e a cumplicidade é travestida de
“neutralidade”.
Os mesmos que denunciam com fervor
missionário o “imperialismo estadunidense” contemporizam o roubo de territórios
ucranianos pela Rússia. Os que escrutinam com lupa quaisquer desvios de
democracias liberais fazem vista grossa quando direitos fundamentais são
ignorados em Pequim, Havana ou Manágua. Sob o comando de Amorim, a política
externa brasileira tornou-se um exercício de cinismo metódico: o valor de uma
norma depende de quem a viola.
Seu artigo ecoa o discurso lulista que se
pretende voz moral da humanidade, mas sob os governos do PT o Brasil é menos
vítima de um mundo em colapso do que cúmplice do caos – toda vez em que se
omite, silencia e justifica atrocidades em nome de afinidades políticas. Amorim
apenas disfarça com um luto performático pela ordem global o seu incômodo com o
fato de que o uso arbitrário da força deixou de ser apanágio de ditadores “companheiros”
para atingir um deles, o tirano Maduro.
Talvez o mundo esteja mesmo sem regras. Mas
sabemos como o petismo joga o jogo das relações internacionais: relativismo
para amigos, intolerância para críticos e silêncio para vítimas inconvenientes
à sua “narrativa”. Amorim não quer um mundo com regras. Quer um mundo com as
regras do PT.
Tensão no IBGE
Por O Estado de S. Paulo
Às vésperas da divulgação do PIB, exonerações
causam inquietação sobre credibilidade do instituto
Após uma ligeira trégua, 2026 começou
bastante agitado no Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em
19 de janeiro, o instituto confirmou a exoneração da pesquisadora Rebeca Palis,
até então à frente da Coordenação de Contas Nacionais, área que responde pelo
cálculo do Produto Interno Bruto (PIB). Em solidariedade, pelos menos outros
três gerentes da área que era coordenada por Rebeca pediram exoneração, mas
seguirão nos postos até a divulgação do PIB, no dia 3 de março.
Além disso, na quarta-feira passada, outra
servidora, a gerente Ana Raquel Gomes da Silva, foi exonerada da Gerência de
Sistematização de Conteúdos Informacionais (GECOI).
Com isso, reacende-se um clima de tensão
entre o presidente do instituto, Marcio Pochmann, e os servidores. Para o
sindicato da categoria, Pochmann dá continuidade a uma caça às bruxas “contra
servidores que se posicionam na defesa técnica, institucional e histórica do
IBGE”.
Antes da exoneração de Ana Raquel, Pochmann
já havia rebatido as acusações de autoritarismo e afirmou que sua gestão serve
para “tomar decisões”. Ele também propôs que seus críticos estudassem o que foi
o instituto nos anos 1960 e 1970, sob a ditadura militar, e indagou “quantos
colegas de IBGE foram presos, demitidos, perseguidos” naquela época.
Além disso, nas redes sociais, Pochmann
afirma que sob sua administração o IBGE está passando por um salto
organizacional e produtivo. Já entre os servidores há relatos de deterioração
do clima no ambiente de trabalho.
Os desentendimentos entre Pochmann e os
técnicos do IBGE não são de hoje. Pochmann tentou emplacar uma fundação
batizada de IBGE+, que prestaria serviços para organizações privadas. Já os
servidores apelidaram o projeto de “IBGE paralelo”, por entenderem que ele
representava “risco institucional”. Após muita celeuma, o projeto foi suspenso.
Fato é que o clima beligerante no principal
provedor de estatísticas do País em nada contribui para a solidez institucional
do Brasil. Muito pelo contrário.
Credibilidade, como se sabe, se constrói
lentamente, mas desvanece em um estalar de dedos. Tudo o que o Brasil não
precisa é de que a população, os agentes econômicos e os investidores coloquem
sob suspeição o trabalho de uma instituição de serviços tão fundamentais quanto
o IBGE.
Nos EUA, por exemplo, o presidente Donald
Trump demitiu, em agosto de 2025, a chefe do BLS, o órgão estatal que compila
estatísticas de emprego, porque discordou dos dados divulgados. Pior: acusou o
órgão de fraudar números para favorecer seus adversários, sem apresentar
provas. Não é possível dimensionar o estrago que isso causa na confiança sobre
o trabalho do BLS.
Por aqui, espera-se que a beligerância no
IBGE seja apaziguada o quanto antes, e que o instituto possa continuar
realizando seu importante trabalho com o rigor técnico necessário, cumprindo o
calendário de divulgações determinado.
É preciso reconhecer, porém, que, em meio a uma onda de exonerações e troca de acusações, a execução a contento desse trabalho torna-se mais difícil.
Orelha e a crise moral brasileira
Por Correio Braziliense
Para muitos, a morte de Orelha sintetiza uma
face conhecida da sociedade brasileira: jovens bem nascidos, com acesso a
escolas de qualidade e pertencentes a famílias supostamente "de bem",
são capazes de cometer atos chocantes
Nos últimos dias, o Brasil experimentou um
misto de revolta e comoção com a morte do cachorro Orelha, vítima de uma brutal
sessão de violência em Praia Brava, região de alto poder aquisitivo em Santa
Catarina. As informações disponíveis até aqui dão conta de que pelo menos
quatro adolescentes são autores da barbárie. Mais grave: há suspeitas de que
adultos familiares dos jovens cometeram o crime de coação, por pressionar uma
testemunha que teria imagens comprometedoras do ato brutal cometido contra
Orelha.
Há várias leituras possíveis desse episódio
lamentável. Para muitos, a morte de Orelha sintetiza uma face conhecida da
sociedade brasileira: jovens bem nascidos, com acesso a escolas de qualidade e
pertencentes a famílias supostamente "de bem", são capazes de cometer
atos chocantes. Nos anos de 1990, Brasília foi palco de uma tragédia
traumática, com ingredientes perturbadores. Na alta madrugada, cinco jovens
atearam fogo no pataxó Galdino de Jesus, que dormia em uma parada de ônibus na
Asa Sul. À polícia, os assassinos deram uma justificativa desconcertante:
pensavam que se tratava de um mendigo. Como se tirar a vida de um mendigo fosse
menos grave do que a de um indígena.
Naturalmente, não se trata de comparar
mendigos, indígenas e cães nos crimes citados acima. O foco aqui é a
perplexidade causada pelo absoluto desprezo de jovens pela vida alheia. Em um
país marcado por tanta desigualdade e tanta violência, é de fato revoltante ver
adolescentes privilegiados imporem esse martírio a uma criatura dócil — Orelha
era um cão comunitário de 10 anos em Praia Brava. O crime motivou uma série de
questionamentos pertinentes para o Brasil contemporâneo: o que se passa na
cabeça dessa juventude que encontra diversão em agredir de forma gratuita? Que
tipo de pais e parentes são capazes de coagir testemunhas para acobertar um
crime? Esse caso é pertinente para se falar em redução da maioridade penal,
tema que, mais uma vez, tem sido polarizado no debate político? A legislação
vigente é suficiente para proteger animais de maus-tratos?
Em meio a tantos questionamentos, este espaço
prefere dar prioridade aos mais vulneráveis. No Brasil, abuso ou maus-tratos de
cães e gatos pode levar a dois a cinco anos de reclusão em regime fechado, além
de multa e proibição de guarda de animais. A legislação sofreu uma mudança em
2020 por meio da Lei Sansão, em homenagem ao cão pitbull que teve duas patas
decepadas após um desentendimento de vizinhos em Minas Gerais. Se considerado o
tráfico de animais, outra face da crueldade contra as criaturas indefesas, o
quadro é mais desalentador: estima-se que apenas 10% dos animais
contrabandeados cheguem vivos ao destino dos compradores. "É uma
carnificina", alertou o deputado federal Fred Costa (PRD-MG), em discurso
na tribuna da Câmara em 2024.
Punições mais severas para quem comete crimes contra animais domésticos e silvestres são uma alternativa. Mas há um aspecto moral que precisa ser enfrentado por toda família brasileira. Conhecida pela defesa de animais, a primeira-dama Janja da Silva fez uma reflexão pertinente ao comentar a morte de Orelha: "A perversidade não nasce do nada. Ela é cultivada na omissão, na falta de limites, de cuidado, de presença, e também na impunidade", disse a tutora de Resistência, Esperança e Paris.
Orelha: maus-tratos a animais é crime
Por O Povo (CE)
Tem havido intensa repercussão, na imprensa
nacional e internacional, a partir da morte do cachorro Orelha, um cão
comunitário que vivia em Florianópolis (SC) e foi brutalmente espancado por
quatro adolescentes. Eles estão sendo investigados por crime de maus-tratos e
foram intimados a prestar depoimento às autoridades.
O cachorro Orelha, que tinha cerca de 10 anos
de idade, foi brutalmente espancado pelos quatro adolescentes no dia 4 de
janeiro. A gravidade dos ferimentos foi tamanha que ele foi submetido à
eutanásia pelo veterinário. O animal era acolhido pela comunidade e cuidado por
moradores da região. Eram eles que o alimentavam, garantiam atendimento
veterinário e até construíram uma casinha para abrigar o cachorro.
Diante da brutalidade com que o cachorro foi
espancado, a comoção nacional se une à indignação popular a fim de retomar o
oportuno debate acerca da impunidade para quem comete maus-tratos a animais.
Segundo a polícia, parentes dos jovens, como
pais e um tio, são investigados por suspeita de ameaçar e coagir uma
testemunha.
O grupo de adolescentes teria tentado afogar
outro cachorro conhecido por moradores da região da Praia Brava, em
Florianópolis (SC). Nas redes sociais, a mobilização tem crescido, incentivada
pela hashtag #JustiçaPorOrelha, que tem agregado moradores da região, ativistas
da causa e personalidades públicas.
Sabe-se que, por se tratar de menores de
idade, é preciso mais cuidado com a divulgação de dados sobre os suspeitos. A
Vara da Infância e Juventude de Florianópolis determinou que as redes sociais
façam a remoção de fotos, vídeos e publicações que identifiquem, de qualquer
maneira, os investigados. A decisão é válida para plataformas como Instagram,
Facebook, WhatsApp e TikTok. Conforme a lei, é proibida a divulgação de dados
que permitam identificar menores de idade em investigação.
Se realmente comprovado o envolvimento dos
adolescentes com o espancamento do cachorro Orelha, eles receberão medidas
socioeducativas ou responderão por ato infracional. O Ministério Público de
Santa Catarina afirmou que as punições previstas em lei vão de advertências,
serviços à comunidade e liberdade assistida até, em casos excepcionais,
internações.
A agressão - lamentável sob qualquer ponto de
vista - a um animal, normalmente um ser vulnerável diante de quatro pessoas,
precisa ser enquadrada como um ato de crueldade. Não há razão humana que se
encaixe em qualquer entendimento para justificar o que ocorreu com Orelha, uma
vítima de quatro adolescentes que não mediram, em momento algum, a consequência
de seus atos brutais.
Que a racionalidade prevaleça no julgamento do caso, mas que a comoção que tomou conta do País ressoe nessa situação, fazendo com que a conscientização em prol dos cuidados com os animais predomine. E que, também, a punição devida aos adolescentes seja aplicada.

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