O Globo
As crises do mensalão, e depois do petrolão, levaram ao caos partidário em que vivemos hoje
Não é possível chegar-se a uma conclusão sobre os acordos eleitorais para a eleição presidencial por causa da miscelânea da nossa política partidária. As fotos dos pré-candidatos do PSD podem dar a impressão de que a união deles faria a diferença no segundo turno, pois, nas pesquisas eleitorais, a soma dos candidatos de direita é maior do que os votos dados a Lula. Essa conta simples mostra que a maioria prefere um candidato de direita ao eterno representante da esquerda, o presidente Lula. Mas, se no Brasil até o passado é duvidoso, o que dizer do futuro?
Quem disse que a direita se unirá? Quem
afirma que o presidente Lula não terá o apoio de parte do eleitorado de
centro-direita? Quem disse que nenhum candidato da direita correrá para o colo
de Lula assim que for desdenhado por seus companheiros de partido? Lembrar que
o presidente do PSD, Gilberto Kassab é secretário do governador de São Paulo,
mas também tem ministérios no governo Lula, serve para algum parâmetro?
Existe, claro, o antipetismo, assim como o
antibolsonarismo. Mas os eleitores escolhem seus candidatos por ideologia ou
por simpatia? Há os que achem Lula comunista, ou Bolsonaro fascista. Mas a
maioria os coloca nessa categorização, ou o jeito popularesco dos dois está
acima das ideologias? O fato é que o país há muito não tem uma disputa na base
de um programa. A mais recente dessas ocorreu no Plano Real, quando havia um
projeto tucano de superação da crise econômica, e um projeto petista de
assistência social que se combinavam, mas não combinavam suas lideranças.
Fernando Henrique Cardoso e Lula vinham da
mesma vertente da social-democracia, mas disputavam entre si a liderança
nacional. Os tucanos tinham internamente disputas que, na hora da definição da
candidatura depois de dois governos seguidos de Fernando Henrique, vencidos no
primeiro turno, não encontraram um denominador comum. Serra, ministro do
Planejamento, era um crítico do ministro da Fazenda Pedro Malan, e a sua
derrota não foi muito lamentada por uma parte do tucanato. Havia a íntima
percepção dessa ala de que o PT no poder chamaria o PSDB para governar, dando
continuidade ao Plano Real.
Mas Lula decidiu continuar com o Real, mas
sem o PSDB. Foi buscar ajuda na periferia do PSDB: Henrique Meirelles para o
Banco Central foi uma escolha política perfeita. Alguns outros assessores de
DNA tucano, como Marcos Lisboa, foram convocados, e o PT fez o que FHC previa,
mas a seu jeito. A partir do segundo governo Lula, o petismo começou a dar
vazão a seu próprio projeto de governo, que culminou com uma vitória na
sucessão com a eleição de Dilma, mas degringolou com os equívocos na economia.
Mais uma vez o PT correu atrás de uma solução
tucana, convocando Joaquim Levy para tentar corrigir os rumos. Não houve
solução possível, mesmo porque petistas boicotavam Levy assim como boicotaram
assessores ligados aos tucanos no primeiro mandato. Enquanto o ministro da
Fazenda Antonio Palocci teve força política para sustentar a guerra interna,
deu certo. Depois, a “nova matriz econômica” de Guido Mantega levou à crise do
impeachment.
Outras crises, a do mensalão, e depois o
petrolão, levaram ao caos partidário em que vivemos hoje. Apoios políticos
comprados não olhavam legendas, mas oportunidades fisiológicas. Qualquer
partido, qualquer político, passou a ser acolhido em qualquer governo, fosse de
esquerda, fosse de direita. O Centrão passou a dominar o Congresso, graças ao
desapego de Bolsonaro pelas instituições democráticas, pois preparava-se para
um golpe, e alterou as regras aos poucos, tornando-se o controlador das emendas
partidárias que deram aos políticos o controle do Orçamento da União e, por
consequência, do processo congressual.
Mesmo que a esquerda vença este ano, não
conseguirá o controle da Câmara e do Senado, e será sempre pressionada pela
maioria de direita que provavelmente se formará. Os jogos de poder que serão
disputados atingirão o Supremo Tribunal Federal (STF) e o próprio governo, com
mais intensidade que hoje. E se a direita bolsonarista vencer, tendo nos
Estados Unidos o governo Trump, os desafios serão maiores.

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