sábado, 14 de fevereiro de 2026

Puxando o saco de Lula na Sapucaí, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Enredo chapa-branca é um produto que se destina mais às redes que ao Sambódromo

Acadêmicos de Niterói periga cair, causando efeito desagradável na campanha da reeleição

Enredos qualquer nota e escancaradamente patrocinados não são novidade no Carnaval. A Marquês de Sapucaí já viu homenagens para Silvio Santos, Chico Recarey e Beto Carrero. Em 2012, a Porto da Pedra falou de leite e iogurte; no ano seguinte, a Mocidade se misturou ao Rock in Rio. O que os une, além da bajulação, é o resultado. Não raro, a escola fracassa.

A escola Acadêmicos de Niterói, ex-Sossego, ao contar a história do "operário do Brasil" em sua estreia no grupo Especial, comprou um barulho. Periga cair e o enredo chapa-branca provocar efeito desagradável na campanha de Lula, com piadas e provocações.

Getúlio Vargas (duas vezes) e Juscelino ganharam seus confetes. A ditadura militar foi endeusada pela Beija-Flor em 1975 —os compositores tiveram que arrumar rimas para o Funrural e o PIS-Pasep. Em 1990, a Cabuçu mimou Collor, recém-eleito. Em 2006, a Vila Isabel recebeu uma mala cheia de petrodólares para elogiar a Venezuela de Hugo Chávez. Lula é o primeiro a merecer a cortesia no ano em que tenta a reeleição. "Vale uma nação/ Vale um grande enredo/ No Brasil, o amor venceu o medo", diz o samba.

O enredo da Niterói é um produto que se destina mais às redes que ao Sambódromo, opondo os petistas à turma cuja tara é a Lei Rouanet. Uma operação para xingar, não para sambar. Tiro no pé político, deu munição a opositores e abriu brecha para liminares no TSE. Além disso, está na contramão do que as escolas de samba têm apresentado de melhor nos últimos tempos.

Um livro recém-lançado, em edição revista e ampliada ("Pra Tudo Começar na Quinta-feira", de Luiz Antônio Simas e Fábio Fabato), mostra que, a partir de 2016, ocorreu uma espécie de "primavera temática" com a chegada de novos carnavalescos e pesquisadores, que conferiram um caráter contestador aos enredos. Era uma segunda revolução, semelhante à comandada por Fernando Pamplona na década de 1960, com "Quilombo dos Palmares" e "Xica da Silva".

Um enredo puxa-saco é o avesso da arte e da transformação, fundamentos do Carnaval.

 

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