domingo, 8 de fevereiro de 2026

Monetização do jeitinho nacional. Por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Crime comum negocia com elite política e econômica; poderosos agem como bandidos comuns

Mais que desviar dinheiro, corrupção cria feudos políticos e sistema que apodrece economia

Em 2024, Ricardo Lewandowski comprou uma casa de Anajá de Oliveira Santos Yang por R$ 9,4 milhões, segundo relato de O Estado de S. Paulo, confirmado pelo próprio Lewandowski. Anajá é casada com Alan de Souza Yang. Faz década e meia, Alan, o "China", é investigado por adulteração de combustível, pelo que já foi condenado, e rolos maiores.

Não há indício de que a compra de Lewandowski tenha relação com rolos de China. Na verdade, o ex-ministro da Justiça e do STF deve ter sido vítima de golpe. Se a empresa de administração de patrimônio imobiliário de Lewandowski e família, que comprou a casa, tivesse verificado quem era o marido de Anajá, poderia ter descoberto com pesquisa corriqueira de internet que China era enrolado.

Mas esse é um problema privado, até onde se sabe. Interessa é que os "Chinas" passeiam no mundo do poder. Por outro lado, cada vez mais gente da elite é flagrada agindo como "Chinas" —negocia imóveis com dinheiro vivo, oculta participações societárias por meio de fundos de investimento, faz do crime ambiental um negócio ou escraviza trabalhadores.

China é associado a cabeças de empresas criminosas de combustíveis, segundo investigações da Carbono Oculto. São eles Roberto Augusto Leme da Silva, o "Beto Louco", e Mohamad Hussein Mourad, o "Primo", foragidos e que negociam delação premiada.

Beto Louco e Primo se valiam de fintechs e fundos de investimento para lavar dinheiro, em parte talvez do PCC, segundo investigadores. Alguns desses fundos eram geridos pela Reag. Antes da ruína, era a maior empresa do ramo, afora aquelas de bancões. A Reag era de João Carlos Falbo Mansur, acusado de se associar a rolos de Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master. Vorcaro contratou serviços de Lewandowski, da família de Alexandre de Moraes e de Guido Mantega, ex-ministro da Fazenda. Fundos da família de Vorcaro tinham negócios com a família de Dias Toffoli.

Tudo isso é sabido, quanto a indícios gritantes do esquemão criminoso. No mais, inexiste indício material de associação de Lewandowski, Moraes, Mantega e Toffoli com irregularidades.

Evidente é que a elite se relaciona ou confraterniza com "Chinas" ou é variante "lavada" de "Chinas". Não deveria causar escândalo novo. Por exemplo, um só, Jair Bolsonaro e família além de tudo confraternizavam e trocavam dinheiros com gente da milícia do Rio de Janeiro. Por falar nisso, Flávio Bolsonaro, pré-candidato a presidente, comprava imóveis com dinheiro vivo, na tradição familiar.

Sob certo aspecto, o problema da corrupção é superestimado. É a explicação preferida da ciência política e da economia dos pobres de espírito e assunto de demagogo. Sem corrupção e "gastos com político", haveria dinheiro até para tapar déficits, se diz —não é o caso, nem de longe.

Mas a corrupção é um sistema de apodrecimento institucional que se autoperpetua, não só porque o dinheiro financia carreiras e feudos da política. É fator de desgraça econômica, como na ineficiência no uso do Orçamento. No mínimo corrupção moral (networking de favores) pode ser o motivo de tanta lei de efeito econômico desastroso ser aprovada, de subsídios para empresas, como no setor elétrico, a favores como escapar da reforma tributária ou do corte de benefícios tributários.

Tem gente que chama de "lobby" essa variante da monetização do jeitinho nacional. O "lobista" pode ser um "China" muito maior e pior.

 

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