domingo, 8 de fevereiro de 2026

O racismo como método. Por Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

O método consiste em induzir o adversário a uma reação agressiva, para depois retratá-lo como violento

O vídeo retratando Michelle e Barack Obama como macacos, compartilhado e depois removido por Donald Trump em sua rede social, não é um ato impensado. É uma arma de guerra psicológica testada, validada e aprimorada. Chamado de “isca e contragolpe”, o método consiste em induzir o adversário à reação agressiva, para então retratá-lo como violento. O autor apaga aquilo que provocou a reação do oponente, deixa visível apenas essa reação, e reposiciona a si mesmo como vítima da violência do outro.

A mensagem inicial não visa convencer pelo conteúdo, mas criar um gatilho emocional. Os vestígios da causa da reação desaparecem, graças à engenharia dos algoritmos das redes sociais. Preso em bolhas cognitivas, o público-alvo, no caso a maioria branca, esquece a provocação inicial.

A técnica é empregada regularmente pelo time Trump. No dia 22, Nekima Armstrong, negra de 49 anos, foi presa ao protestar em uma igreja cujo pastor é agente do ICE, em Minnesota, onde a polícia anti-imigração matou dois cidadãos americanos à queima-roupa. Armstrong foi fotografada ao ser presa. Estava calma, com olhar determinado, embora algemada e acorrentada pela cintura e pelos pés – “o mais próximo que me senti da escravidão”, disse. Em imagem alterada pela Casa Branca, ela parece desesperada e agressiva, chorando e com a pele escurecida. “É só um meme”, defendeu o governo.

Armstrong, mãe de quatro filhos, contou que a manipulação de sua imagem a abalou porque ela se sente responsável por levar adiante o legado de seus antepassados, que mantiveram a dignidade mesmo tendo sido trazidos como escravos da África. Uma sensibilidade que se perde na convulsão das narrativas.

Em setembro, Trump compartilhou vídeos gerados por IA que mostravam o líder democrata na Câmara, Hakeem Jeffries, que é negro, com sombrero e bigode mexicanos, ao som de mariachi. A sugestão era que Jeffries está do lado dos imigrantes. Em 2015, Trump lançou-se candidato espalhando que Obama não tinha nascido nos EUA e era muçulmano.

Trump ironizou a mistura racial de negra e indiana de sua adversária Kamala Harris. Em 2019, ele tuitou sobre quatro deputadas não brancas, três das quais nascidas nos EUA: “Por que elas não voltam para os lugares de onde vieram?”

Durante protestos em 2020 contra a violência policial, Trump tuitou “quando os saques começam, os tiros começam”, frase de um chefe de polícia, em 1967, que remete à repressão de protestos de comunidades negras. Os exemplos são abundantes.

 

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