domingo, 26 de dezembro de 2010

Os caminhos de Dilma :: Suely Caldas

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Até as eleições de 2012 a presidente Dilma Rousseff terá um ano e meio para aproveitar a força política das urnas e fazer o Congresso aprovar uma agenda que Lula desistiu de tocar, mas é fundamental para a economia prosperar, para tornar mais limpa a prática política, para a dívida social recuar e para acabar com a miséria. Se conseguir, seu governo será bem avaliado e dará a ela cacife para ser reeleita em 2014, desta vez sem apadrinhamento algum. Será um período difícil, concentrado no prazo exíguo e, ao mesmo tempo, ampliado em múltiplos segmentos em que a ação do governo é fundamental e determinante para fazer o País avançar.

Dessa agenda tudo é prioritário, mas a reforma política se sobrepõe, porque ela abre caminho para facilitar, acelerar e viabilizar todo o resto. É uma espécie de mãe de todas as reformas. Na visão limitada dos políticos, a reforma política é simplesmente prover dinheiro público para financiar campanhas eleitorais e ponto. Ela é muito mais. É a espinha dorsal do fortalecimento das instituições e da democracia, o anteparo ao fisiologismo e à corrupção, desencoraja o desvio do dinheiro público e força presidente, governadores e prefeitos a governarem melhor, com mais eficiência. O interesse público estará preservado e a população ficará agradecida se suas regras atenderem a esses objetivos. Importante também é não ceder a pressões para amansar a Lei de Responsabilidade Fiscal e não permitir que governantes gastem mais do que podem. Sancionada no governo FHC, essa lei é parte integrante da reforma política, embora a vinculação não tenha sido explicitada na época da sua aprovação.

Para aprovar as reformas e outros projetos do Executivo no Congresso é fundamental que a nova presidente resista à prática do toma lá dá cá, ao jogo de chantagem dos parlamentares. Se ceder na primeira vez, a chantagem se espalha e Dilma pode virar refém de uma prática que Lula e o mensalão fartamente provaram ser desastrosa para o País e para quem o governa. Não só porque avança sobre o dinheiro do contribuinte. Também porque vender dificuldades para obter facilidades leva tempo, deforma o conteúdo das matérias, atrasa sua tramitação e o Executivo acaba desistindo de projetos essenciais para o País. Foi o que aconteceu com Lula, que desistiu das reformas tributária, trabalhista, sindical e previdenciária, causando um lamentável atraso de oito anos.

Dilma acaba de escolher seu ministério, contemplando os dez partidos políticos da aliança que a elegeu. Em regimes democráticos, de representação partidária, essa prática é legítima, desde que os escolhidos tenham o passado limpo e agreguem competência e preparo técnico ao cargo. Em relação à maioria dos ministros escolhidos, tais critérios não foram, nem minimamente, observados. Mas está feito, vá lá. Agora ela vai enfrentar uma segunda etapa de pressões para nomear políticos em diretorias de estatais, agências reguladoras, órgãos públicos em Brasília e nos Estados e cargos no segundo, terceiro e quarto escalões.

Aí já é diferente. Mais uma vez, Dilma precisa resistir com força, mostrar-se irredutível. Para administrar com eficiência o bem público, o governante não pode entregar cargos técnicos, que executam decisões e projetos de governo, a políticos fisiológicos, cujo interesse é unicamente extrair do cargo vantagens para seu partido. Como julga que nunca erra, Lula recusou-se a aprender com erros. Mas Dilma deve ter na memória os últimos oito anos de enorme desgaste político com os eleitores e fracasso de gestão em estatais e órgãos públicos por Lula ter nomeado políticos oportunistas para cargos técnicos.

Esse é o arcabouço político e humano com que Dilma vai trabalhar nos próximos quatro anos. É imperfeito, sujeito a pressões políticas, lobbies e chantagens. Portanto, ela deve ficar permanentemente atenta para três objetivos: esgotar o calor das urnas para aprovar matérias difíceis - e de interesse do País - nos primeiros 18 meses de mandato; não nomear políticos incompetentes para funções técnicas; e adotar, desde já, por princípio não ceder a chantagens de parlamentares.

A agenda. Na campanha Dilma evitou falar das reformas (política, tributária, trabalhista, sindical e previdenciária). É um tema politicamente complicado para ser defendido em momentos de caça aos votos. Mas Dilma sabe que elas são tão essenciais quanto difíceis de passar no Congresso. Daí o esforço para tentar aprová-las nos primeiros 18 meses de governo. Além delas, fazem parte da agenda de curto prazo as microrreformas - dirigidas a apoiar o crescimento de longo prazo, criar ambientes propícios a novos negócios e a aumentar a eficiência do mercado. Eliminar papelada, encurtar prazos, facilitar, enfim, a burocracia para a abertura de empresas são providências bem-vindas para estimular novos investimentos, gerar emprego e renda. Correndo por fora desta agenda, a nova presidente vai enfrentar o complicado e minucioso trabalho de administrar o cotidiano da economia.

Dilma assume num momento em que a economia está mais aquecida do que deveria, pressionando a alta da inflação - o Banco Central (BC) elevou sua projeção para 2011 de 4,6% para 5% - e gerando expectativa de o BC voltar a elevar a taxa Selic na próxima reunião do Copom. Se quiser evitar isso, ela terá de endurecer no desempenho fiscal, cortar despesas, suspender contratações, frear a ambição do PT por cargos, recusar pressões e lobbies por gastos de toda ordem e, se necessário, cortar investimentos do PAC. Desequilibrado em razão do desajuste cambial e da crise nos países ricos, o déficit externo está em plena ascensão, devendo fechar 2010 em US$ 49 bilhões e, segundo o BC, em US$ 64 bilhões em 2011 - 31% maior do que este ano. Esse é um problema delicado que requer atenção e ação para não se agravar.

A boa notícia é que a maioria das empresas tem planos de investir em 2011, segundo pesquisa da Fundação Getúlio Vargas. Mais investimento, mais emprego, mais dinheiro circulando, mais receita tributária. E é com esse aumento de receita que Dilma deveria organizar um programa de pagamento gradual da dívida e de redução a zero do déficit público nominal.

No mais, boa sorte ao Brasil e à gestão da nova presidente. E um feliz ano-novo aos queridos leitores.

Jornalista, é professora de comunicação da PUC-RIO

O mundo do dinheiro em 2011:: Vinícius Torres Freire

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Bancão vê baixo risco de colapso chinês, reclama da inflação no Brasil e está otimista com "emergentes"

Os problemas da economia do Brasil não são, no curto prazo, lá muito dramáticos. A impressão geral vem das avaliações de investimentos e mercados do Goldman Sachs, o bancão de investimento mais bem-sucedido no mundo. O mais interessante nesses relatórios, dirigidos a clientes, é que o nível de hipocrisia é quase nenhum. Seus redatores não estão interessados em pregação ideológica e não dão a mínima para o bem-estar ou para o futuro do país. Ou melhor, tal perspectiva importa apenas quando se trata de analisar quais são os riscos e as oportunidades de investimento.

Como se trata de estudos de estratégia global de investimento, não há consideração sistemática sobre o caso de país algum, com exceção da China. A preocupação maior é avaliar o risco de bolhas, de crises financeiras e de mudanças dramáticas em políticas econômicas e preços de ativos. O pessoal está otimista.

A economia mundial estaria saindo da lama, "não emergentes" incluídos. O risco de colapso chinês seria baixo. Até o alardeado excesso no mercado imobiliário chinês não é levado muito a sério -na conta do pessoal do Goldman Sachs, os preços médios e relativos dos imóveis chineses estão num patamar aceitável. A inflação chinesa continua a acelerar, para mais de 6%, mas é administrável.

Uma reviravolta negativa nos mercados financeiros, ações em particular, não deve acontecer antes de 2012, afora a hipótese de alguma catástrofe. O mercado deve piorar com o fim do relaxamento monetário no mundo rico, com a alta de juros nos Estados Unidos e/ou com a baixa relevante do desemprego americano. As catástrofes por ora improváveis seriam uma crise da dívida europeia (agora detonada pela Espanha) ou de "pouso forçado" na China (com inflação explodindo).

No geral, o bancão continua a sugerir investimentos além da média em "emergentes", como o faz há uma década. Segundo economistas do banco, o "mercado" começaria a antecipar a hipótese de fim do crescimento dos "emergentes" apenas quando tais países passassem a ter grandes deficit em conta-corrente e sua dívida externa voltasse a aparecer, "o que está muito longe de acontecer".

Além do mais, continuam firmes os vetores do crescimento emergente: crescimento acelerado da produtividade, baixo endividamento do setor privado e público e moedas desvalorizadas. No Brasil, porém, o crescimento da produtividade é relativamente menor. Ainda mais discrepante, a moeda brasileira é a mais supervalorizada do mundo emergente em relação ao dólar, entre 30% e 40% mais cara do que seu "valor justo", na conta do banco.

O que parece incomodar mais o bancão é a economia crescendo além do "potencial", que, segundo o banco, é de 4%, e a inflação decorrente já atingiu um nível "problemático" (maior que 5% ao ano). De 19 "mercados emergentes" avaliados, Brasil, Argentina e Índia levam bandeira vermelha.

Porém, do ponto de vista do investidor global, o problema brasileiro estaria longe de ser crítico, como observado acima: o superaquecimento se torna um risco mais assustador depois de anos de elevados deficit em conta-corrente e da volta da dívida externa.

A perspectiva de tal coisa ocorrer no Brasil é remota, por ora.

O que pensa a mídia

Editoriais dos principais jornais do Brasil
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PMDB se queixa do espaço perdido para o PT no Ministério

DEU EM O GLOBO

Cristiane Jungblut e Gerson Camarotti

BRASÍLIA. A redução dos recursos orçamentários administrados pelo PMDB no futuro governo de Dilma Rousseff deu início a uma rebelião silenciosa na bancada do partido. Apesar de integrar a chapa com o vice-presidente Michel Temer (PMDB-SP), a legenda não se conforma por ter perdido espaço para o PT. No futuro governo, os petistas passarão a gerenciar um orçamento de cerca de R$250 bilhões, enquanto o PMDB ficará com R$84,9 bilhões, já descontando o Ministério da Previdência, porque os recursos da pasta são comprometidos praticamente em sua totalidade com o pagamento de benefícios previdenciários e assistenciais.

Os peemedebistas incluem na conta os orçamentos dos ministérios da Saúde, de R$77,1 bilhões, e das Comunicações, de R$4,4 bilhões, que foram para o PT, e o da Integração Nacional, de R$5,4 bilhões, que foi para o PSB.

SAE, uma pasta sem orçamento

Em troca, o PMDB passou a administrar pastas de menor expressão, como Turismo e Previdência, além de uma pasta sem orçamento, a Secretaria de Assuntos Estratégicos.

Mesmo descontando os orçamentos dos ministérios técnicos, como Fazenda e Planejamento, o PT somará, ainda, cerca de R$215 bilhões. Além da Saúde, que tem parte da verba bloqueada para o custeio do Sistema Único de Saúde, o PT continuará controlando o Ministério da Educação, que chegará a R$63,6 bilhões. Há ainda o Ministério do Desenvolvimento Social, com R$43,1 bilhões, sendo que apenas o Bolsa Família responde por R$13,4 bilhões.

O PMDB ficará com R$84,9 bilhões mas, como compensação, concentrará em suas mãos alguns campeões de emendas parlamentares, como o Ministério do Turismo, que teve sua verba inflada em quase R$2,8 bilhões na passagem do Orçamento pelo Congresso. Há também o Ministério de Minas e Energia e o Ministério da Agricultura.

Partido admite que Temer errou

A rebelião do PMDB já passou a ser monitorada na Granja do Torto pelos integrantes da equipe de transição. Líderes peemedebistas já avisaram que, no primeiro momento de dificuldade, o partido saberá mostrar sua importância. A expectativa no comando da legenda é que, na primeira reforma ministerial, o PMDB volte a recuperar o espaço perdido para o PT.

A estratégia peemedebista é não entrar em confronto com os demais aliados. Há o reconhecimento de que não houve crescimento expressivo de nenhum partido da base governista. O PMDB aguarda a insatisfação natural de legendas não contempladas, como o PSC e o PTB, que ficaram de fora do primeiro escalão, para acumular forças.

De forma reservada, o PMDB reconhece que houve um erro nas negociações encaminhadas pelo vice, Michel Temer, com Dilma. Na condição de integrante da chapa vitoriosa, Temer teria sido excessivamente tímido nas negociações, avaliou um influente peemedebista.

Diante disso, o partido admite que deveria ter indicado um negociador mais agressivo para tratar dos cargos do primeiro escalão. A ordem será escalar um interlocutor com esse perfil para discutir o loteamento do segundo escalão.

Diante da perda de ministérios estratégicos, o PMDB decidiu fazer uma espécie de silêncio obsequioso nesse momento. Isso porque as reclamações públicas feitas pelo partido estavam carimbando a imagem de uma sigla fisiológica, com grande desgaste para os peemedebistas.

Oficialmente, a ordem é relativizar a redução de espaço para evitar novos ataques.

- Esse assunto está superado. O partido é governo e tem que compreender as dificuldades da presidente Dilma para montar o Ministério. Não estamos preocupados com o orçamento, e nem com bilhões para mais ou para menos. Não estamos fazendo esta conta. Estamos, sim, preocupados com o conjunto do governo. Estamos contemplados, até porque agora nós somos governo - disse o líder do PMDB, deputado Henrique Eduardo Alves (RN).

Na Granja do Torto, a ordem é tentar pacificar o PMDB para evitar surpresas durante o governo Dilma. O futuro ministro de Relações Institucionais, deputado Luiz Sérgio (PT-RJ), argumenta que o PMDB não pode se sentir diminuído na composição do futuro governo, e lembra que é preciso incluir nesse cálculo o espaço político no Legislativo, como o cargo de presidente do Senado, que deve permanecer na cota do PMDB, com o senador José Sarney (AP). Ele acrescenta que é preciso incluir nesse cálculo também a vaga de vice-presidente para Temer.

- Não podemos olhar de forma fracionada para os partidos aliados. Temos que olhar o conjunto da obra. O que existe é uma coalizão, no qual a presidente eleita é do PT e o vice, do PMDB. O que existe é uma composição, que, além de Dilma e Temer, tem Sarney como candidato à presidência do Senado.

Petista minimiza o desgaste

Na prática, cada partido ficou com um grande filão. O PP ficou com o Ministério das Cidades, outro campeão de emendas parlamentares e onde se concentra boa parte dos investimentos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). O PSB ficou com Integração Nacional. O PR, com o Ministério dos Transportes, que também concentra o PAC. O PCdoB ficou com o Esporte, que receberá recursos por causa das obras da Copa do Mundo e das Olimpíadas de 2016. E o PDT manteve o feudo no Ministério do Trabalho.

No Planalto, há o reconhecimento de que o PMDB ficou com uma fatia menor. A ordem é minimizar o episódio e tentar consertar no futuro. Tampouco o PT quer se vangloriar de ter ficado com a maior.

- Não acredito que a divisão dos ministérios possa criar problemas, porque todos os partidos estão representados e satisfeitos. A presidente Dilma teve sensibilidade de ouvir todas as correntes de opinião das legendas aliadas - minimizou o líder do governo, deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP).

Marina usará institutos para tentar voltar em 2014

DEU EM O GLOBO

Terceira colocada na eleição deste ano, verde fica sem mandato e planeja manter capital de 20 milhões de votos

Sérgio Roxo

SÃO PAULO. Depois de deixar o Senado em 31 de janeiro, Marina Silva usará dois institutos para levar adiante o projeto de disputar a Presidência novamente em 2014. Marina ficará sem mandato no Senado. Apesar de ter afirmado em seu discurso de despedida do Congresso que, "a priori", não se colocará como presidenciável, seus aliados já traçam os planos para a verde continuar nos holofotes e manter o capital político dos quase 20 milhões de votos obtidos em outubro.

Marina planeja continuar morando em Brasília para ficar próxima dos filhos, radicados na cidade. Trabalha para criar na capital o Instituto Marina Silva, responsável por guardar o acervo acumulado nos dois mandatos de senadora e na passagem pelo Ministério do Meio Ambiente (2003-2008). A expectativa é que surjam convites para palestras no Brasil e no exterior. Um aliado acredita que ela irá se sustentar financeiramente com o dinheiro arrecadado nas palestras. Devem acompanhar Marina no projeto seus assessores mais próximos do gabinete no Senado, como Carlos Vicente, Pedro Ivo e Jane Villas Boas.

Em São Paulo, Marina irá reassumir a presidência do Instituto Democracia e Sustentabilidade (IDS), posto que deixou na eleição presidencial. A entidade propõe realizar debates de propostas e ideias que contribuam para aprofundar a democracia e a sustentabilidade. O IDS foi criado em 2009, com recursos do Instituto Arapyaú, do empresário Guilherme Leal, sócio da Natura e candidato a vice na chapa de Marina.

Decisão do Supremo gera confusão sobre quem deve assumir

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Tribunal garantiu vaga para suplente do mesmo partido, enquanto regra da Câmara leva em conta a coligação

Denise Madueño e Mariângela Gallucci

Decisão tomada no início do mês por ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) provocou atrito com a Câmara, deixou a assessoria jurídica da Casa atônita e suplentes desnorteados.

No último dia 9, o STF concedeu liminar, a pedido do PMDB, determinando que a vaga decorrente da renúncia em outubro do deputado Natan Donadon (PMDB-RO) seja ocupada pelo primeiro suplente do partido do titular, ou seja, do PMDB.

A exigência contraria a regra adotada ao longo de todos os anos pela Câmara. Na substituição dos titulares, a Casa convoca o suplente seguindo a ordem da lista de eleitos encaminhada pela Justiça Eleitoral, o que leva em conta a coligação partidária.

No caso de Donadon, a Mesa da Câmara deu posse ao deputado Agnaldo Muniz (PSC), eleito primeiro suplente pela coligação Rondônia Mais Humana no ano de 2006.

Descontente, o PMDB recorreu ao STF para garantir a posse de Raquel Duarte Carvalho, suplente da legenda, e teve apoio do ministro Gilmar Mendes, relator da ação. O ministro considerou que o mandato pertence ao partido, segundo decisões anteriores do próprio STF e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Mendes alegou que a formação de coligações tem caráter temporário e está restrita ao processo eleitoral. A posição saiu vitoriosa, apesar de três votos contrários. O ministro Ricardo Lewandowski disse que as coligações atuam na campanha e não podem ser excluídas apenas porque as eleições terminaram.

Respostas. Desde que a ordem do Supremo anulando o ato de posse de Agnaldo Muniz chegou à Câmara, a Mesa procura respostas: o que fazer com os 20 suplentes que estão atualmente no exercício do mandato e não são do mesmo partido do titular? Esses atos de posse deverão ser anulados e outros suplentes, chamados? O que fazer quando um deputado titular se afastar do cargo e o partido não tiver nenhum suplente para ser chamado? Haverá nova eleição?

As dúvidas não terminam por aí. A Câmara ainda não sabe o que fará, em 31 de dezembro, quando os deputados que assumirão ministérios e secretarias estaduais e os que tomarão posse como vice-governadores se afastarem da Casa.

Até lá, o presidente da Casa, Marco Maia (PT-RS), terá de decidir se chamará os suplentes do mesmo partido, acatando o novo entendimento do Supremo, ou da coligação, seguindo a ordem da Justiça Eleitoral.

O suplente Francisco Escórcio (PMDB-MA) já avisou a secretaria da Mesa que está recolhendo os documentos para assumir a vaga do deputado Pedro Novais (PMDB-MA), que tomará posse como Ministro do Turismo no dia 1º de janeiro.

O primeiro suplente da coligação, no entanto, é Costa Ferreira (PSC-MA). A assessoria jurídica da Câmara já prevê uma enxurrada de ações na Justiça movida pelos suplentes que se sentirem prejudicados.

Tempo. No caso de Muniz, por enquanto, a Mesa da Câmara deu tempo ao deputado para defender o seu mandato. Ele tem o prazo até 29 de dezembro para apresentar defesa em um processo aberto na corregedoria da Casa. O corregedor, deputado Antonio Carlos Magalhães Neto (DEM-BA), deverá apresentar um parecer antes de a Mesa decidir o que fazer.

Esse é mais um embate entre o Supremo e a Câmara. Atualmente os dois Poderes estão em litígio por conta do reajuste salarial. Os ministros querem a votação do projeto que aumenta os seus salários de R$ 26,7 mil para R$ 30,6 mil e o que reajusta os salários dos servidores em 56%.

Cresce diferença entre salário público e privado

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Renda média do funcionalismo sobe 31% além da inflação nos oito anos de Lula

A desigualdade salarial entre o setor público e a iniciativa privada aumentou durante a gestão do presidente Lula, mostra levantamento feito pela Folha a partir das pesquisas mensais de emprego do IBGE.

As diferenças de rendimentos se acentuaram a partir de 2006, quando o governo lançou o primeiro pacote de reajustes para funcionários do Executivo.

Às vésperas do primeiro governo Lula, o rendimento médio mensal no setor privado era, em valores corrigidos, R$ 1.173. Em novembro deste ano, atingiu R$ 1.323, com um aumento de 13%.

Já a renda média no serviço público apresentou, no mesmo período de oito anos, aumento de 31% acima da inflação, passando de R$ 1.909 para R$ 2.494.

Os salários de advogados da União, auditores-fiscais, diplomatas e gestores do Executivo federal, por exemplo, subiram 70% no governo Lula.

Sob Lula, cresce fosso entre salários público e privado

Ganho de servidores cresceu 31% contra 13% de empregados particulares

Diferença se acentuou em 2006 quando petista fez primeiro pacote de reajustes generalizado para o funcionalismo


Gustavo Patu e Pedro Soares

BRASÍLIA e RIO - Os mesmos dados que mostram a queda do desemprego e o aumento da renda ao longo do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva também apontam, ao serem decompostos, o aumento da desigualdade entre o emprego público e o trabalho no setor privado.

Segundo levantamento feito pela Folha a partir das pesquisas mensais de emprego do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), os rendimentos médios dos servidores públicos federais, estaduais e municipais, que já eram superiores, cresceram ainda mais que os da iniciativa privada nos últimos oito anos.

As diferenças começaram a se acentuar em 2006, ano em que a administração petista lançou o primeiro de dois pacotes de reajustes salariais generalizados para os funcionários do Poder Executivo. Governadores e prefeitos também aproveitaram os ganhos de receita para beneficiar o funcionalismo.

Em valores corrigidos pela inflação, o rendimento médio mensal no setor privado, incluindo assalariados, autônomos e empregadores, era de R$ 1.173 em dezembro de 2002, às vésperas do início do governo Lula.

De lá para cá, um aumento de 13% levou o valor a R$ 1.323 em novembro passado, pela pesquisa feita nas seis principais regiões metropolitanas -São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador, Porto Alegre e Recife.

No mesmo período, a renda no serviço público, formada basicamente por salários, teve expansão de 31% acima da inflação, passando de R$ 1.909 para R$ 2.494.

SINDICALISTAS

As tabelas de remuneração do Executivo federal, publicadas periodicamente, apresentam cifras maiores e exemplos mais concretos dos ganhos obtidos pelo funcionalismo, cujos sindicatos estão entre as principais bases políticas do PT.

Uma disputa entre as carreiras da elite da administração direta levou os salários máximos pagos regularmente pelos ministérios para perto dos R$ 20 mil mensais atualmente.

Desconsiderando perdas em gestões anteriores, os salários de advogados da União, auditores-fiscais, diplomatas e gestores foram elevados em quase 70% acima da inflação no governo Lula, aproximando-se do topo do Executivo, ocupado pelos delegados e peritos da Polícia Federal.

Segundo o IBGE, o contingente de servidores federais, estaduais e municipais também cresceu nos últimos anos e atingiu 3,4 milhões de pessoas nas seis regiões.

Cerca de 65% deles eram contratados pela regras do regime estatutário do funcionalismo e militares; os demais tinham vínculo temporário ou regido pela CLT.

Para Cimar Azeredo Pereira, gerente da Pesquisa Mensal de Emprego do IBGE, houve nos últimos anos "uma valorização clara" do serviço público, que resultou no crescimento do contingente de empregados.

Tal tendência, afirma, só foi interrompida pela crise, que repercutiu em 2009 e no início deste ano. Mas em meados de 2010, diz Pereira, o efetivo de trabalhadores voltou a subir.

O mesmo, diz, ocorreu com os rendimentos, que avançaram com reajustes maiores a servidores concedidos nos últimos anos.

Os anos de Lula :: Flávio Tavares

DEU ENO ZERO HORA (RS)

Chegam ao fim os oito anos de Lula da Silva no poder e não há como deixar de admirá-lo. Ele não é um estadista (ao contrário, faz tudo o que um estadista jamais faria), mas nunca houve um presidente tão gracioso e simpático. É impossível imaginar Getúlio Vargas dizendo o que Lula diz em público, numa simplificação vulgar, às vezes quase baixo calão. Nem o general João Figueiredo foi a tanto, naquelas imagens espontâneas em que dizia preferir cheiro de cavalo a cheiro de povo. Em Lula, a atração surge da facilidade com que diz coisas estapafúrdias como se fosse ciência pura ou verdade absoluta. Provoca risos, mas o jeito de menino travesso o absolve de pecado.

Em 2005, a corrupção do “mensalão” ameaçou devastá-lo e ele pensou que teria o mesmo destino de Collor. Mas insistiu em que “não sabia de nada” e que fora “traído”. Negou o inegável. Fingiu ser um paspalhão, alheio a tudo ao seu redor e foi reeleito em 2006.

No governo, tudo é “show”, termo inglês que conhece (mesmo sem saber idiomas) pois é exímio em representar. Se inaugura consultório odontológico, posa de dentista e assim por diante. Onde está, representa um papel. É o grande artista do grande espetáculo.

Em oito anos, o governo gastou cerca de R$ 10 bilhões em propaganda, segundo a Secretaria de Comunicação Social (Secom), sem contar a “publicidade legal”, produção e patrocínios. Para mostrar que o Brasil é “um país de todos”, em 2010 os gastos vão a R$ 1,1 bilhão, uns R$ 3 milhões ao dia, dos quais 64,2% para as emissoras de TV. A propaganda tornou-se inteligente e persuasiva quando Franklin Martins assumiu a Secom, após os escândalos de 2005 e foi fundamental para fazer esquecer a corrupção.

Todos falam da popularidade do presidente e não toco nisso. Fico com a análise dos que vivem perto do poder:

“Na economia, o ‘mito Lula’ não se sustenta em fatos, é só a repetição de versão triunfalista e truques numéricos. Em 2010, houve o maior crescimento em 25 anos, mas porque em 2009 caiu 0,6%, a pior recessão desde 1990. No primeiro ano, Lula aumentou o superávit primário; nos últimos, promoveu orgias de gastos. Consolidou amplo programa de transferência de renda aos pobres e fez forte doação de recursos públicos aos ricos. Quem vê só a cena final, não entende o filme”, escreveu Miriam Leitão, lúcida analista econômica. E lembrou: “Com Lula, desmataram 125 mil km2 da floresta amazônica (Portugal e Bélgica somados) e tudo aumentará com a hidrelétrica de Belo Monte e outras. Na crise de 2008, o Banco Central acumulou reservas, mas em 2010 o déficit em transações correntes vai a US$ 50 bilhões. Em oito anos, o Brasil cresceu menos que a América Latina, com os juros mais altos do mundo”.

Frei Betto, que integrou o programa “Fome Zero” (substituí-do pelo Bolsa-Família), recorda: “Com Lula, os mais pobres mereceram recursos anuais de R$ 30 bilhões; os mais ricos, através do mercado financeiro, foram agraciados com mais de R$ 300 bilhões/ano. O país continua sem reforma agrária, política e tributária. O investimento na educação não superou 5% do PIB e a Constituição exige 8%, ao menos. Em qualidade de educação, o Brasil se compara ao Zimbábue, pelos índices da ONU”.

Resta o petróleo do pré-sal, dádiva da natureza, que a Petrobras descobriu e “o governo joga fora”, diz Ildo Sauer, do Instituto de Energia da USP e, até 2007, diretor de Petróleo e Gás da Petrobras: “Sem debate e sem um pio, entregamos de 2,6 a 5,5 bilhões de barris e toda a tecnologia da Petrobras a uma empresa de Eike Batista, aquele que, num leilão, pagou R$ 1 milhão pelo terno de posse do Lula”.

Ou, na síntese de Delfim Netto, conselheiro do presidente, “o governo Lula consolidou o capitalismo no Brasil”.

*Jornalista e escritor

Pintando a guerra e a paz :: Affonso Romano de Sant'Anna

DEU NO ESTADO DE MINAS

Ali mesmo, naquele palco, mas diante de JK, então presidente da República, essa obra de Portinari foi exposta pela primeira vez

Repete-se assim a cena de 1956, quando ali mesmo, naquele palco, mas diante de Juscelino Kubitschek, então presidente da República, essa obra de Portinari foi exposta pela primeira vez.

Volto no tempo, estou em duas épocas. Já no hall do teatro converso com Maristela, filha de JK. E lhe digo: “Você sabe que te vi meio menina, meio adolescente, lá no Palácio da Alvorada, correndo naqueles salões, quando lá ia cantar com o Madrigal Renascentista?”.

Ela se emociona, e eu também. Agora está ali no camarote assistindo, como eu, à história ser reencenada. Já mostraram um filme rápido sobre os horrores da guerra. Milton Nascimento e seu grupo já cantaram, Ana Botafogo já dançou a coreografia que tematiza figuras pintadas por Portinari. Fernanda Montenegro já fez sua fala e os painéis (estupendos) estão ali no palco. Falou Luciano Coutinho, do BNDES, falou o chanceler Celso Amorim, historiando o esforço que o Brasil faz em favor do diálogo, e não da guerra. Até arriscou um comentário estético, indicando a possível influência de Paolo Ucello e ressaltando que o azul, que geralmente lembra a paz, foi posto ousadamente no quadro da guerra, e na parte da paz estão o vermelho e o laranja.

Agora é a vez de João Portinari, filho do pintor, falar e agradecer. Ele menciona várias pessoas em seu discurso. Duas delas estão presentes e ajudaram Portinari a fazer os painéis: os pintores Enrico Bianco, de 94 anos, e Maria Luiza Leão. Ambos fazem parte da história da pintura brasileira. Ao final, o público foi convidado, em grupos de oito, a subir ao palco e ver de perto a obra monumental do pintor, que viveu para a pintura e morreu envenenado pelas tintas que usava em suas obras. Entre tantos artistas presentes, Carlos Bracher me diz que vai para a fila, pois tem que tocar e ver de perto a obra do mestre.

Esse João Portinari é uma pessoa excepcional. Conheci-o na PUC Rio, em 1970. Ele havia regressado dos Estados Unidos com doutorado em matemática, mas jogou tudo para o alto e resolveu dedicar a vida à preservação da pintura e da memória do pai. Dentro daquela universidade, criou o Projeto Portinari, um modelo. Se todo descendente de artista tivesse esse desvelo pelas obras herdadas, o Brasil seria melhor e mais nosso.

Esses dois painéis, por exemplo, vieram da ONU para serem restaurados aqui. Estarão expostos, durante o restauro, no famoso prédio do Ministério da Educação, que já reunia os talentos de Corbusier, Niemeyer, Lucio Costa, Portinari e outros. Depois percorrerá o mundo, pedagogicamente, expondo a arte brasileira. Inclusive acompanhado dos extraordinários tapetes feitos a partir do Guerra e paz pela família Dumont. Vocês sabem, são a mãe e os cinco filhos, originários lá de Pirapora, fazendo uma obra sem paralelo em nossa cultura.

Essa obra de Portinari foi feita no pós-guerra, no tempo da Guerra Fria. Em nossa memória estava ainda vivo o horror do nazismo, do fascismo e das explosões atômicas em Hiroshima e Nagasaki. Mas surgia o sonho de conter a guerra e gerar a paz.

Conseguimos?

A obra de arte registra nossas perplexidades e anseios.

E continua chovendo... :: Ferreira Gullar

DEU NA FOLHA DE S. PAULO/ ILUSTRADA

Foi numa visita de Vinicius que lhe mostrei o retrato e, como ele disse ter gostado, dei-lhe de presente

Em 1975, em Buenos Aires, dei a Vinicius de Moraes um quadro pintado por mim. Mas foi o de menos, tantas outras coisas que aconteceram naquela época. Embora já conhecesse Vinicius de antes, em Buenos Aires, quase dez anos depois, é que nos tornamos amigos.

E a amizade se consolidou mesmo depois da manjada leitura do "Poema Sujo", que fiz, a pedido dele, na casa de Augusto Boal. Como se sabe, me fez gravar o poema numa fita e o trouxe para o Brasil.

Naquela ocasião, Vinícius começava a namorar uma argentina, bem mais jovem que ele e, por causa disso, mudou-se provisoriamente para Buenos Aires, instalando-se num apart-hotel, no centro da cidade. Desse modo, mantinha-se a salvo de qualquer reação da outra namorada, uma bela mulata baiana, com quem vivia em Salvador.

Essa permanência do poetinha na Argentina tornou frequentes nossos encontros e, mais ainda, porque recebeu a encomenda de uma editora francesa para fazer o texto de um álbum fotográfico do Rio de Janeiro. Sabendo de minha situação financeira periclitante, convidou-me para escrever o livro com ele.

Foi então que os militares derrubaram o governo de Isabelita Perón e instauraram mais uma ditadura na América Latina.

Dias depois, Tenório Júnior, o pianista do show que Vinicius apresentava ali, desapareceu.

Embora casado, Tenório Júnior viera com uma namoradinha, que conheci no apart-hotel de Vinicius, naquele dia em que me falou do sumiço do pianista. Pedira a ajuda do ex-genro, alto funcionário da embaixada brasileira, que nada conseguira. É que a ditadura militar recém instaurada prendera e executara muita gente e mantinha esses fatos em sigilo.

Diante disso, ofereci a ajuda que estava a meu alcance: consultar uma vidente que havia localizado um filho meu, desaparecido, um ano atrás. Como o telefone da vidente não estava comigo, teria que ir a meu apartamento e, de lá, ligar para ela. Assim, acompanhado de Maria Julieta, filha do poeta Carlos Drummond, que naquela época trabalhava na Argentina, e da namoradinha de Tenório Júnior, segui para lá e liguei para dona Haydé, a vidente.

Após dizer-lhe o nome completo do desaparecido, ela me informou que o pianista deveria estar inconsciente ou morto, uma vez que não conseguia contatá-lo .(É que esse tipo de comunicação se faz de mente a mente). Em seguida, para meu espanto, advertiu: "Diga a essa mocinha, namorada dele, que está aí com o senhor, que trate de ir embora para o Brasil, enquanto é tempo".

Como ela podia saber da moça? Mistério que a razão não explica. No dia seguinte, me deu a notícia final: Tenório Júnior tinha sido espancado até a morte por policiais, numa boca de fumo, onde fora comprar cocaína. Disse isso a Vinicius, que chorou.

Enquanto isso, sua namorada baiana recorria às entidades do candomblé para ver se o separava da rival argentina. Como os pais de santo não conseguiram resolver o problema, viajou para o Rio, entrou no apartamento do poeta e, lá, sobre a cama de casal, fez rezas e depositou fetiches, que também de nada adiantaram.Vinícius trouxe a argentina para o Rio e com ela viveu um intenso, ainda que efêmero, romance.

Mas foi numa visita que me fez, ainda em Buenos Aires, que lhe mostrei o autorretrato e, como ele disse ter gostado, dei-lhe de presente. Nunca mais vi o quadro, que ele trouxe para o Brasil. Se o deu alguém, não sei.

A verdade é que, recentemente, minha amiga Guguta Brandão me informou que o cineasta Ruy Solberg era o atual proprietário do quadro e decidira dá-lo a mim de presente. E o fez num almoço com muitos amigos, na casa de Vera e Zelito Viana, há umas três semanas.

Quase uma solenidade, que me comoveu. Foi como se uma estrela, que se extraviara, voltasse do fundo da vida e me pousasse nas mãos. "Ao ouvir você na Flip, pensei: tenho que devolver o quadro ao Gullar, que é seu legítimo dono", disse-me ele. Gente fina, esse Ruy Solberg. E Zelito, de gozação: "Se fosse eu, não devolvia".

Outro dia foi a revista de Artaud, que voltou a minhas mãos, agora o autorretrato.

Continua a chover na minha horta...

Chico Buarque & Milton Nascimento - O que será (1976)

Natal da falta!!! :: Graziela Melo

Natais tristes
que longe
vão...

Tristes natais
que aqui
estão...

os natais
da fome
da pobreza
extrema
da solidão!!!

Da falta
de afeto,
da falta
de teto,
da falta
de pão!!!

Da falta
de solidariedade
da presença
da crueldade,

da falta
de coração...

de um coração
batendo
carregado
de emoção!!!

Da falta
de um gesto
simples

como o de
estender
a mão!!!

Natal
do sim
para
os ricos

E para
os pobres...

o natal
do não!!!


Rio de Janeiro – RJ, 25/12/2010


(Graziela Melo, poetisa, autora do livro “Crônicas, contos e poemas”, - Brasília, 2008)

sábado, 25 de dezembro de 2010

Reflexão do dia – Carlos Lessa

"O Brasil parece uma nau sem rumo no oceano da globalização. A crise mundial não parece ter dado indício a nenhuma mudança de rumo. Alguns produtos primários continuam tendo preços especulativos e conferiram aos Anos Lula uma bonança nas contas externas e sucesso no controle da inflação; esse resultado foi obtido sem mudança estrutural relevante. A promessa para o futuro repousa no pré-sal, porém permanece a dúvida de nos convertermos ou não em exportadores de óleo cru. Nesse caso, a República Velha (que foi embebida em café) será recomposta em mais uma nação periférica e infeliz, de soberania curta, pasto prioritário da geopolítica imperial."

Carlos Lessa, Valor Econômico, 23 dez. 2010.

Seguir em frente :: Marco Aurélio Nogueira

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Ano de eleições gerais nunca termina como os demais. Dezembro surge animado e cheio de promessas, menos como fim de período e mais como porta de entrada de um novo ciclo, carregado de esperanças. Há dúvidas e incertezas também, é evidente, mas o clima é de réveillon. O tradicional balanço do que se fez e passou é substituído pela excitação de decifrar o que vem pela frente.

A movimentação frenética dos vencedores é reveladora. No curto espaço de tempo que separa a apuração dos votos da posse dos novos governantes, atiram-se todos na disputa por cargos, na formatação do Ministério e dos secretariados estaduais, na distribuição das fatias nobres e das migalhas do poder. O País assiste a tudo parado, com mãos e bocas travadas, entre o indiferente e o curioso. A hora é dos políticos, não dos cidadãos. É quando se destacam os mais hábeis, os mais insistentes, os mais persuasivos, quando fica claro o real poder de fogo das coalizões que irão governar.

O momento também ajuda a que se perceba quem coordenará as ações dos novos governos e decidirá sobre a vida e a morte, isto é, terá a ultima palavra. No plano federal, a pergunta reverberou durante todo o mês: dado o protagonismo e o brilho acumulados por Lula, que papel exercerá ele no governo de Dilma Rousseff e, portanto, nas definições que precederão seu início efetivo? Sairá de cena ou permanecerá nos bastidores, influenciando, pressionando, "aconselhando"? Terá cargo compatível com sua estatura real ou presumida? Conseguirá se manter em evidência, de modo a se valorizar como candidato para 2014? Agirá como "reserva moral" da Nação ou como "partidário", como homem público ou como cidadão comum?

A resposta a essas questões respinga evidentemente no que se imagina estar reservado à presidente Dilma. Terá ela força suficiente para se descolar de seu antecessor e provar a todos que uma criatura pode muito bem ter vida autônoma perante seu criador? Imprimirá marca pessoal a seu governo, seja em termos de estilo e linguagem, seja em termos de políticas e escolhas?

Estamos há duas décadas vivendo um ciclo virtuoso no Brasil. Sua tônica tem sido a continuidade, não a ruptura ou a mudança de padrão. O segundo governo Lula deu maior visibilidade à questão social - ainda que não propriamente à política social - beneficiado pela recuperação da racionalidade econômico-financeira alcançada por FHC. Ambos contribuíram para ajustar o Estado e imprimir mais profissionalismo à administração pública. Projetaram o País no mundo, dando nova consistência à política externa. Diatribes partidárias à parte, trabalharam na mesma direção e se complementaram. Não fizeram mais porque se deixaram consumir por uma obstinação mal calibrada de acumular recursos de poder. Os 16 anos de FHC e Lula só não foram excepcionais porque seus principais operadores - o PSDB e o PT - não estiveram à altura do momento.

Nada indica que esse ciclo esteja para se romper, ainda que já se possam notar sinais de saturação. A sociedade quer mais, necessita de governos melhores, que se mostrem mais sensíveis às suas demandas e expectativas. Embora tenhamos progredido bastante, continuamos toscos na arte de governar. Faltam-nos estadistas, lideranças respeitáveis, cidadãos ativos e partidos qualificados para estruturar as correntes de opinião da sociedade e delinear um rumo para o País. Carecemos de políticas públicas mais criativas, especialmente na área social, que viveu os últimos anos à sombra da benevolência e das coreografias presidenciais e ameaça se acostumar a isso.

A partir de 2011, com uma presidente que não poderá repetir o figurino Lula e será obrigada a inventar um guarda-roupa afinado com sua personalidade e sua biografia, tenderão a ganhar preeminência dois elementos que ficaram secundarizados nos últimos oito anos. A política, por um lado, será mais exigida e os políticos precisarão mostrar mais seriedade e competência. O Brasil está mais complexo e depende, agora, de operações que articulem seus grupos, classes e interesses no plano da representação política, sem pagar preço alto demais para as coalizões de conveniência. Por outro lado, não haverá nenhum encantador de serpentes no Planalto, mas uma governante treinada para agir de modo pragmático e com menos propensão a querer agradar a todos. Uma dose extra de racionalidade técnica poderá impregnar seu governo, com impactos no desenho das políticas e no discurso com que se buscará legitimá-las.

Com mais política e mais racionalidade técnica, maior espaço haverá para a recuperação de alguns fios que se perderam no decorrer dos últimos 16 anos. Fios que não se romperam, mas que permaneceram desatados, atrasando o desfecho de certos processos vitais. O fio do desenvolvimento sustentável, por exemplo, que foi bloqueado pela fúria de um desenvolvimentismo mal compreendido.

O da justiça social, que não progrediu satisfatoriamente e não se aproximou com firmeza dos parâmetros dos direitos de cidadania, confundindo-se com assistencialismo e generosidade. O da democracia política, que, embora se tenha consolidado, ainda deixa a desejar, seja porque não dispõe de uma boa cultura política, seja porque carece de instituições atualizadas e não tem sido embebida do necessário protagonismo social.

Desenvolvimento sustentável, justiça social e democracia política formam o tripé mágico que pode, mais que as habilidades e os atributos de um líder acima do bem e do mal, abrir caminho para a consecução da etapa mais importante da modernização capitalista brasileira, que conduzirá o país ainda marcado pelo passado colonial, pela dependência econômica e pela mediocridade política para a condição de Estado fundado num livre pacto de cidadãos.

São conjecturas e especulações de um dezembro aberto para o futuro. Adequadas, portanto, ainda que não necessariamente corretas e factíveis.

Bom ano-novo a todos.

Professor titular de Teoria Política da UNESP.

A herança lulista na política:: Fernando Rodrigues

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

BRASÍLIA - Lula está a uma semana de deixar o Palácio do Planalto. Depois de oito anos de poder, seu maior legado político foi ter conseguido terminar o mandato e ajudado a consolidar a democracia.

Há muitas décadas um presidente não era eleito pelo voto direto para suceder alguém escolhido da mesma forma. É comum ouvir comentários sobre como está enfadonha a política durante disputas presidenciais. Trata-se de um sinal de maturidade. Lula tem crédito por ter ajudado a criar esse ambiente.

Mas há aspectos negativos na herança lulista na política. Os péssimos costumes na relação entre Poder Executivo e Congresso continuaram a ser uma praxe.

Lula, é claro, não inventou as maracutaias na política. Seu pecado foi ter feito pouco ou nada para ajudar a melhorar os padrões. Pelo contrário, o petista jogou a favor de procedimentos que turbinaram o pior do varejo não ideológico.

Basta olhar para a inédita fragmentação dentro do Congresso. Em 2002, quando Lula foi eleito presidente, havia 15 agremiações representadas. Em 2011, serão 22 legendas. Desde 1990, quando o Brasil adotou um modelo mais estável de regras eleitorais, nunca houve tantas siglas no Poder Legislativo.

Nada contra a existência de partidos variados. Que floresçam as mil flores. Mas há dois problemas. Primeiro, só deve ter assento no Congresso quem tem real apoio popular (não é o caso de muitos nanicos). Segundo, não é plausível existirem no Brasil -ou em qualquer outro país do planeta- 22 ideologias diferentes e irreconciliáveis.

Parte expressiva dos nanicos só está no Congresso por desejo de Lula. Foi a estratégia para eleger Dilma Rousseff como sua sucessora. O PT submeteu-se ao lulismo "con gusto". Aliou-se a uma certa escória partidária nos Estados. A presidente eleita, beneficiária desse truque nas urnas, terá a difícil missão de tentar consertar essa anomalia nos próximos quatro anos.

Um personagem marcante da recente história do país :: Jorge Bastos Moreno

DEU EM O GLOBO

O ex-governador Orestes Quércia, falecido nesta sexta, teve participação decisiva em alguns dos mais marcantes espisódios da história recente, como na criação da CPI do PC, que levaria ao impeachment do presidente Collor, em 1993. Quércia destacou-se nacionalmente quando se elegeu, em 1974, o senador até então mais votado de São Paulo, derrotando o então poderoso e tradicional político paulista, o ex-governador Carvalho Pinto. Nessa enxurrada de votos, na chamada "enchente de 74", que fez o MDB enfranquecer, politicamente, a ditadura, derrotando a Arena em 16 estados, Quércia recebeu o título de "o homem de seis milhões de votos", numa referência a uma famosa série de tv.

Quércia assumiu o mandato prometendo no seu discurso de estréia no Senado denunciar toda a perseguição sofrida pela ditadura durante a campanha e pelas suas atividades de próspero empresário em Campinas, seu reduto eleitoral. Criou-se aí uma grande expectativa em torno desse pronunciamento, mas, no dia marcado para a sua estréia, o jornal "Correio Braziliense" estampou em manchete: " Quércia é corrupto", com matérias sobre supostas irregularidades fiscais em suas empresas. Isso foi entendido como recado da ditadura ao então mais festejado político da oposição. E o discurso de Quércia acabou sendo uma peça pífia, numa clara demonstração de que mudara o tom e o conteúdo.

Liberal, embora tendendo mais pelo lado conservador, Quércia, no MDB, aliou-se aos partidos e movimentos clandestinos que se abrigavam na legenda, como o então PCB e MR-8, e ajudou a carreira de muita gente, como a do hoje governador Alberto Goldman, do senador eleito Aloysio Nunes Ferreira; Audálio Dantas, Fernando Morais e Luiz Antônio Fleury, que foi seu vice-governador, secretário de segurança e a quem elegeu seu sucessor.

Orestes Quércia foi o estompim para o grupo rebelde do PMDB de São Paulo deixar o PMDB e criar o PSDB. Como vice-governador de Franco Montoro, Quércia foi assumindo o controle do PMDB paulista, derrotando as lideranças de Mário Covas, Fernando Henrique Cardoso e outros. Seu principal adversário interno era Mário Covas, com quem veio mais tarde disputar novamente o governo do estado. É famosa a sua afirmação de que Covas era "um candidato bunda-mole", desnorteando o opositor que, somente dias depois, respondeu: " A bunda é mole mais é minha".

Quércia teve vários embates com Fernando Henmrique Cardoso, como este:

--- Na verdade, eu não tenho nada contra o Fernando Henrique. O problema é que intelectual não gosta de caipira como eu.

Resposta, muito acima do tom, de Fernando Henrique:

-- Não é verdade que intelectual não goste de caipira. Intelectual não gosta é de ladrão.

E Quércia, decretando guerra e atirando seu primeiro míssel contra o alvo:

--- Tem intelectual que não gosta de ladrão, mas gosta do roubo, como o Fernando Henrique que deixou seus apadrinhados roubarem na companhia de águas e esgostos de São Paulo na gestão Montoro.

Mas o melhor embate de Quércia foi com o senador eleito do Paraná, Roberto Requião, com quem travou uma briga ferrenha dentro do PMDB, Requião criou um serviço telefônico de 0800 para receber denúncias contra Quércia, chamado de "Disque-Quércia" e fez uma série de denúncias contra ele. Quércia, como resposta, divulgou o seguinte comunicado à imprensa:

--- Deixo de responder ao Requião porque no Paraná ele é conhecido por 'Maria, a louca". Para alguns, "mais louca que Maria", e, para outras " mais Maria do que louca".

Na primeira eleição direta de presidente, em 89, Quércia era o candidato preferido do partido, mas tinha como discretos concorrentes os governadores Pedro Simon e Miguel Arraes. Acabou apoiando a candidatura de Ulysses Guimarães. Ulysses e Quércia sempre tiveram uma relação cordial e respeitosa, mas sempre belicosa. Um dos motivos, diria Ulysses, depois de ter sido destronado por Quércia da presidência do partido, foi este:

-- Num momento difícil da campanha de Quércia ao governo de São Paulo, com alguns companheiros querendo abandonar o barco, como comandante, tive de gritar: "Ruim com Quércia, pior sem Quércia". Ele não me perdoa por isso.

De toda a trajetória política do ex-governador Orestes Quércia consta um fato pouco conhecido da maioria dos brasileiros: não fosse ele, não teria havido a deposição de Collor. Na época do escândalo, Quércia era presidente do PMDB, mas todos os homens mais importantes do partido, a começar por Ulysses Guimarães e pelos então presidentes da Câmara, Ibsen Pinheiro, e do Senado, Mauro Benevides, eram contra a instação da CPI.

O hoje presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, era presidente do PT, e o hoje senador não reeleito Tasso Jereissati era presidente do PSDB. As restrições dentro do PSDB para a CPI também eram muitas. Mas, apoiado por Lula, Tasso fez um forte trabalho de convencimento. Os dois então partirarm para o alvo maior: o PMDB. Logo na primeira conversa, Lula e Tasso obtiveram o apoio de Quércia.

Quércia agiu como um rolo compressor dentro do partido, abatendo o próprio Ulysses. O velho comandante do PMDB, como era seu estilo, para não ser atropelado acabou dando a volta por cima e assumiu a dianteira do movimento e passou a ser chamado de 'Senhor Impeachment". Os louros ficaram para Ulysses, mas o mérito foi de Quércia. Quem sabe, um dia, a história repare isso.

O recado de Lula para Dilma:: Villas-Bôas Corrêa

DEU NO JORNAL DO BRASIL

Sejamos justos: é um desafio que vai além da resistência humana passar incólume pela consagração nacional da despedida do presidente Lula ao fim do seu segundo mandato.

E o presidente não apenas entregou os pontos, seja não dizendo coisa com coisa ou nas contradições do deslumbramento. Até poucos dias, controlava os nervos e a língua para não bater de frente com a presidente eleita, Dilma Rousseff, que a ele deve a escolha da sua substituta, com a consagração do voto nacional. Mas, Lula passou a priorizar os próximos lances da sua vida. E deu uma cambalhota na tontura da sua consagração como o líder mais popular do Brasil e do mundo, que ainda tem muitos anos para o fecho de ouro de mais um mandato, o próximo, como presidente. Enquanto espera de olho na folhinha, visitará os cinco continentes e dará voltas pelo país para fiscalizar e cobrar as obras do PAC. Como um fiscal com apoio de 80% da população.

É provável que quando o mar serenar, depois das derradeiras homenagens, o presidente Lula baixe o tom das críticas e a dose de veneno das indiretas para não deixar feridas abertas. E nem terá tempo a perder com a maratona de viagens pelo mundo e da fiscalização doméstica do governo da sua sucessora.

O poder deslumbra e maltrata. Lula acusa as bordoadas do fim do mandato. A sua ordem terminante de que “nenhum centavo será cortado do Programa de Aceleração do Crescimento, o PAC”, e a relatora-geral do Orçamento, a senadora petista Serys Slhessarenko (MT) fechou o seu parecer com a poda de R$ 3,3 milhões nas verbas do programa para 2011. E não está falando para o vento. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, foi o primeiro a defender a necessidade de redução no ritmo das obras do PAC.

Tal como o motorista de ônibus superlotado pisa no freio para a sacudidela que alivia a apertura dos passageiros em pé, a presidente Dilma ao assumir o governo precisa arrumar a casa. E mostrar que a sua equipe está em condições de disputar o campeonato.

Não é tão simples o desafio. Ao contrário, substituir o presidente mais popular da historia deste país, no primeiro teste para valer e no clima de fofocas e intrigas de Brasília, com um Congresso que começou com o reajuste os subsídios, vantagens e privilégios é um risco que, guardadas as proporções, empata com a ocupação do morro pela polícia do morro do Alemão, antro dos traficantes e bandidos.

Lula está deixando claro como água de mina que será candidato em 2014 e tem o seu quinto mandato como favas contadas. A presidente eleita Dilma Rousseff está devidamente informada, tal como o respeitável público, que o seu mandato é de quatro anos. Nem um minuto a mais.

E até lá, fazendo tudo que o mestre Lula mandar.

O que pensa a mídia

Editoriais dos principais jornais do Brasil
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Brasília-DF :: Luiz Carlos Azedo

DEU NO CORREIO BRAZILIENSE

com Leonardo Santos

Agenda
Segundo o presidente da Câmara, deputado Marco Maia (foto), do PT-RS, candidato à reeleição, as prioridades da pauta de discussões da Casa são os seguintes temas: a crise cambial, o pré-sal, o piso nacional dos policiais e dos bombeiros, a redução da jornada de trabalho e a ampliação da licença gestante para 180 dias.

Ho-ho-ho
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, na sexta-feira, tinha bons motivos para comemorar seu desempenho à frente do governo por oito anos. Neste Natal, os brasileiros usufruem da criação de 15 milhões de empregos, um aumento real do salário mínimo de 67% e um volume de crédito equivalente a 48% do Produto Interno Bruto, além da construção de quase 1 milhão de moradias e o acesso à energia elétrica para mais de 2 milhões de pessoas, em 600 mil pequenas propriedades.
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Esses números, a um só tempo, explicam a grande popularidade do presidente Lula e a eleição de Dilma Rousseff para a Presidência da República. José Honório Rodrigues, há 50 anos, dizia em suas Teses e antíteses da história do Brasil que todos os momentos marcantes da vida nacional aconteceram quando a União entrou em sintonia com a grande massa do povo, não lhe dando as costas para favorecer as oligarquias. Os presidentes Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek protagonizaram essa convergência; Fernando Henrique também, no primeiro mandato, mas no segundo, sucumbiu diante da crise cambial.
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Lula exagera quando renega as realizações de seus antecessores e minimiza a importância do Plano Real para os êxitos que colheu na economia. Mas, sob pena de errar nos próprios cálculos políticos, a oposição não pode ignorar que Lula jamais ignorou o povo ao exercer o poder. E soube enfrentar com presteza a crise econômica mundial. Também não cedeu à tentação de se tornar um caudilho e tentar mais um mandato à frente do governo, o que lançaria o país numa aventura institucional. O fato é que os brasileiros hoje comemoram um Natal bem-aventurado, como poucos na história.

Adeus
O senador pernambucano Marco Maciel (foto), do DEM, ex-vice-presidente da República, despediu-se do Senado. Era o último remanescente de uma geração de políticos da antiga Arena ligados a Petrônio Portela, ex-ministro da Justiça, que protagonizaram a abertura política do regime militar. Foi um dos articuladores da eleição de Tancredo Neves para presidente da República, em 1985, quando rompeu com a Arena e fundou o antigo PFL, hoje DEM. No dia de sua despedida do Senado, o senador eleito Jorge Viana (PT), ex-governador do Acre, lamentou sua derrota eleitoral. “Prefiro ele a alguns dos que estão chegando.”


“Minha fé se alicerça em três fundamentos: as riquezas do Brasil, a força do seu povo e a competência da presidenta Dilma. Ela conhece, como ninguém, o que foi feito e como fazer mais e melhor”, disse Luiz Inácio Lula da Silva, em seu último pronunciamento oficial como presidente da República em cadeia de rádio e TV.

Cargos
Delcídio Amaral (MS) e Marta Suplicy (SP) são os nomes do PT mais cotados para a Vice-Presidência do Senado, uma vez que o partido abriu mão da Primeira-Secretaria. A avaliação é de que o cargo seria uma dor de cabeça para a legenda. Com isso, o posto pode permanecer nas mãos da oposição, provavelmente do DEM. A liderança da bancada do PT também está sendo disputada. Miram essa posição o senador Walter Pinheiro (BA) e José Pimentel (CE).

Otimista
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, aposta na queda dos preços das commodities e dos alimentos para evitar uma alta dos juros em janeiro. Segundo ele, a elevação da taxa de inflação não é estrutural. O último relatório trimestral do Banco Central aponta para o risco da alta de preços.

Líder
Com a saída de Fernando Coruja (SC), que não concorreu à reeleição, o secretário-geral do PPS, deputado Rubem Bueno (PR), resolveu disputar a liderança da legenda na Câmara. O deputado Arnaldo Jardim (SP), vice-líder, tem apoio da maioria da bancada, mas não pretende brigar pela posição. Prefere uma solução de consenso.

Doações
Entre as dezenas de denúncias recebidas pelo senador Magno Malta (PR-ES) que serão usadas para fundamentar a criação da CPI dos maus-tratos infantis, estão as de que muitas instituições de caridade se aproveitam das doações de cestas básicas na época do Natal para vendê-las em pequenos mercados.

Recorde
A atual legislatura da Câmara dos Deputados foi encerrada com recorde de produção. Entre 2007 e 2010, foram sancionadas ou promulgadas 912 leis, 12 leis complementares e 14 emendas constitucionais.

Nos estados, ameaças à ‘refundação’ do PSDB

DEU EM O GLOBO

Preocupação do partido é com falta de líderes regionais com força política para conduzir fortalecimento da oposição

Silvia Amorim

SÃO PAULO. - O plano de reestruturação do PSDB anunciado para 2011 vai encontrar dificuldades para ser viabilizado em alguns estados de forte peso eleitoral. As situações mais complicadas estão no Rio de Janeiro, na Bahia, no Rio Grande do Sul, no Ceará e no Distrito Federal.

A preocupação do partido nesses locais é a ausência de lideranças com força política para conduzir o fortalecimento da oposição na esfera regional.

A tese da “refundação” do partido, como defende o senador eleito Aécio Neves (PSDBMG), ou da renovação, como sugerem outros menos radicais, entre eles o grupo do exgovernador de São Paulo José Serra, vem sendo discutida pelos tucanos desde o fim das eleições de 2010. Tem como principal objetivo reorganizar o partido em todos os níveis (municipal, estadual e federal), da estrutura ao discurso, a fim de prepará-lo para os pleitos de 2012 e 2014.

No Rio Grande do Sul, o partido está conflagrado. Depois da derrota eleitoral, a avaliação da cúpula nacional é que suas lideranças precisam ser renovadas no estado. Mas o plano pode acabar inviabilizado por causa de uma disputa interna entre os grupos da governadora Yeda Crusius, derrotada na eleição, e do deputado federal eleito Nelson Marquezan Júnior. O parlamentar é visto como um nome com credenciais para conduzir esse processo de fortalecimento do PSDB na região, mas os aliados de Yeda têm maioria no partido e devem seguir no comando local após as convenções estaduais, em abril.

Na Bahia, o ex-prefeito Antônio Imbassahy e o deputado federal Jutahy Magalhães Júnior, apesar da expressão política nacional, têm dificuldade em fazer uma oposição local aguerrida por conta das alianças regionais.

A falta de uma base de militantes é apontada como o maior empecilho para a reestruturação do partido no Rio de Janeiro.

Já no Ceará e no Distrito Federal, o PSDB corre para encontrar novos quadros.

Ainda nos primeiros meses de 2011, o PSDB pretende formular um plano de expansão do partido no país. Os tucanos têm diretórios montados em cerca de 80% dos municípios brasileiros.

A proposta é chegar perto dos 100% de cobertura até as próximas eleições municipais.

Na esfera nacional, o assunto da pauta da oposição para o início de 2011 é implementar uma “sinergia” — a palavra vem sendo repetida à exaustão pelo presidente nacional do PSDB, Sérgio Guerra — entre os governadores tucanos e as lideranças do partido no Congresso, para qualificar o discurso oposicionista no governo Dilma.

— O que devemos buscar é uma sinergia entre os estados governados pelo partido e destes com nossos representantes no Congresso. A reestruturação tem que ter como meta a nacionalização do partido, no sentido de haver simetria entre o que falam os governadores e as bancadas na Câmara e no Senado — defendeu Guerra.

Fórum para alinhar discurso no país

DEU EM O GLOBO

SÃO PAULO. - Para ajudar no entrosamento entre governadores tucanos e líderes do partido no Congresso, a sugestão é a formação de um fórum, que reúna a cada três meses os oito governadores eleitos pelo PSDB, deputados e senadores. Esses encontros definiriam linhas de atuação a curto prazo, como posicionamento sobre questões em discussão no Congresso e discursos de contraponto ao governo Dilma. A falta de sintonia entre essas lideranças é apontada pelos próprios tucanos como um dos principais erros da oposição nos oito anos do governo Lula.

Janeiro também é a data das eleições de líderes de bancadas na Câmara e no Senado. O processo deve se dar sem disputas e rachas no PSDB.

No Senado, Álvaro Dias (PR) é o nome para conduzir a bancada até 2012. Na Câmara, deverá ser escolhido o paulista Duarte Nogueira. Num acordo avalizado por Aécio, os deputados mineiros retiraram a candidatura de Paulo Abi-Ackel, em troca do cargo de líder da minoria. Embora o tema não tenha sido tratado nas conversas, os mineiros também esperam ter seu gesto reconhecido, em 2012, com a eleição de um deputado de Minas para o próximo líder da bancada.

— Temos de ficar unidos para ajudar no projeto de refundação do partido. Não é hora de enfrentamentos — disse Abi-Ackel.

O deputado Zenaldo Coutinho (PA), que também havia tido seu nome colocado para o posto, abriu mão em favor de Nogueira. Agora, o paulista trabalha para ter o apoio de Otávio Leite (RJ), para oficializar uma candidatura de consenso.

— Essa convergência é sinal de maturidade, responsabilidade e desprendimento dessas lideranças para com o futuro do partido — afirmou Nogueira.

Com a situação sob controle, o foco de atenção agora deve ser Aécio e seus movimentos para se firmar como líder maior da oposição nos próximos anos.

Candidato do PT na Câmara se promoveu com verba pública

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Nome do PT à disputa da presidência da Câmara, o deputado Marco Maia (RS) usou R$ 230 mil do Ministério do Turismo para autopromoção. Maia destinou a verba para associação de lobby da aviação regional realizar, em 2008, evento de balanço da CPI do Apagão Aéreo - da qual foi relator. O petista, principal estrela do seminário, diz não ver irregularidade no caso e que achou "interessante" a proposta da associação.

Favorito na Câmara usou verba para autopromoção

Candidato do PT destinou R$ 230 mil a evento em que foi principal estrela

Petista foi a seminário, onde era único político, para mostrar relatório da CPI do Apagão Aéreo, da qual foi o relator

Dimmi Amora, José Ernesto Credendio e Andreza Matais

BRASÍLIA - Nome do PT para disputar a presidência da Câmara, o deputado Marco Maia (PT-RS) usou dinheiro público, do Ministério do Turismo, para se autopromover.

Maia destinou R$ 230 mil do Orçamento da União para a Abetar, entidade de lobby da aviação aérea regional, com sede em São José dos Campos (SP), realizar um evento, em 2008, do qual foi o único político a participar e a principal estrela.

O presidente da Câmara foi ao evento apresentar o balanço da CPI do Apagão Aéreo, da qual foi relator.

Além do Ministério do Turismo, o seminário foi bancado pela Embraer, sócia e colaboradora da Abetar. A empresa é a fabricante do jato Legacy que se chocou com um avião da Gol, em 2007, acidente investigado pela CPI relatada por Maia.

O relatório do petista, aprovado pela comissão, defende que o governo injete recursos na aviação regional, um dos lobbies da Abetar.

A entidade é dirigida pelo empresário Apostole Lazaro Chryssafidis, presidente do PP de São José Campos (SP), sede da Embraer e uma das mais ricas cidades do país.

Em São José, Chryssafidis se aproximou do principal líder do PT no Vale do Paraíba, o deputado estadual e deputado federal eleito Carlinhos de Almeida, de quem foi coordenador da campanha para prefeito em 2008.

Entre 2007 e 2010, o Ministério do Turismo firmou 16 convênios com a Abetar, no valor de R$ 3,9 milhões para uma série de projetos, sem licitação, o que despertou a atenção do Ministério Público Federal na cidade, que abriu inquérito para verificar a prestação de contas.No último convênio, a Abetar, uma entidade voltada à aviação, obteve R$ 1,09 milhão do Ministério do Turismo em um programa de treinamento para 1.500 pessoas para a Copa do Mundo.

O deputado federal Vanderlei Macris (PSDB-SP), após notícias da imprensa regional, apresentou na Câmara um requerimento em que pede explicações do governo sobre a relação com a Abetar.

OUTRAS LIGAÇÕES

Há outras conexões entre a entidade de lobby e o grupo político de Maia em Brasília.A Abetar também tentou subcontratar o IBDES, uma ONG de Brasília que tem como dirigente Heitor Kuser, irmão de um assessor parlamentar do deputado Maia.

O IBDES receberia dinheiro da Abetar para gerenciar um programa de competitividade do setor aéreo. Segundo a Abetar, a ONG não tinha capacidade técnica para o estudo, e o contato fracassou.

O deputado também destinou recursos do Orçamento, em 2009, para a entidade presidida pelo irmão do assessor. Neste caso, porém, o Ministério do Turismo não liberou o dinheiro.

PSDB e DEM apoiam petista para liderar Casa

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Johanna Nublat

BRASÍLIA - Os líderes do DEM e do PSDB, os dois principais partidos da oposição, formalizaram na quarta-feira apoio à candidatura do deputado Marco Maia (PT-RS) para a presidência da Câmara na legislatura que começa em 2011.

Pelo entendimento, o PT comandaria a Casa nos próximos dois anos, e o PMDB, nos dois seguintes. A argumentação utilizada pela oposição, pelo PT e pelo PMDB é a permanência da proporcionalidade estabelecida nas urnas.

O PT, com a maior bancada, tem direito de indicar o presidente. Por um acordo anterior, o PT definiu um rodízio com o PMDB.

No entanto, um grupo de deputados insatisfeitos anunciou uma consulta aos demais colegas para avaliar a possibilidade de uma candidatura alternativa.

O nome escolhido pertenceria, necessariamente, à base do governo e seria tornado público na primeira quinzena de janeiro.

"A escolha do presidente, como vem sendo conduzida, gera desconforto e insatisfação em grande número de deputados de vários partidos", afirmou o deputado Aldo Rebelo (PC do B-SP).

O assunto foi tratado em reunião organizada pelo chamado "bloquinho" (PC do B, PSB e PDT), com a presença de deputados do DEM e PPS. As conversas também se estendem a PSDB, PMDB, PP, PTB e PR.

Franklin volta a atacar mídia e diz que falta credibilidade a jornais

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

"No mundo inteiro ninguém acha que é censura", afirma ministro, sobre regulação

BRASÍLIA - Às vésperas de deixar o governo, o ministro Franklin Martins (Comunicação Social) voltou a fazer críticas à mídia brasileira.

Em entrevista ao site "Congresso em Foco", Franklin acusou a imprensa brasileira de ser "partidária", de ter "má vontade" com o governo e de fazer "dobradinha" com a oposição.

O ministro fez ataques aos grandes jornais-chamados por ele de "jornalões"-ao afirmar que esses veículos vivem hoje um "seriíssimo problema de credibilidade".

"Um grande número de leitores não acredita mais no que o jornal diz. (...) Muitas vezes os leitores perceberam que havia má vontade com o governo, desproporcional. E havia uma leniência com a oposição", afirmou.

Franklin disse que os jornais distorceram números favoráveis ao governo e vão terminar a gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva "vendendo menos do que vendiam antes".

REGULAÇÃO DA MÍDIA

Ao falar sobre o projeto de regulação da mídia que vai encaminhar à presidente eleita, Dilma Rousseff (PT), o ministro disse que a sociedade vai ser a "mais prejudicada" se ele não sair do papel.

"Há certas obrigações que devem ser contempladas. Isso se faz no mundo inteiro e ninguém nunca achou que é censura", disse Franklin.

A Folha revelou no início do mês uma minuta do projeto de regulação da mídia, elaborada por um grupo coordenado por Franklin, que prevê a criação de uma Agência Nacional de Comunicação.

O órgão teria poderes para multar empresas que veicularem programação considerada ofensiva, preconceituosa ou inadequada ao horário.

"Segundo o ministro, o projeto a ser enviado a Dilma vai incluir "pluralismo, equilíbrio e respeito à privacidade das pessoas".

Inflação foi maior este ano para os mais pobres

DEU EM O GLOBO

Pressão da alta de alimentos deve continuar em 2011

Com a disparada do preço dos alimentos, a inflação este ano teve um peso maior no bolso dos brasileiros mais pobres, que gastam um terço do que ganham com comida. Até novembro, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), que se refere às famílias com renda de um a seis salários mínimos, variou 5,83%. O resultado foi influenciado pelos preços dos alimentos, que subiram 9,59% em média. Já o IPCA - índice usado no regime de metas do governo - acumula alta menor no ano, de 5,25%, assim como os alimentos: 8,95%. O alívio para os brasileiros de todas as faixas de renda, no entanto, não deverá chegar em 2011. Os preços internacionais dos alimentos estão próximos às máximas históricas, segundo a ONU.

Pesou no andar de baixo

Preço de alimentos sobe quase 10% e afeta mais pobres. INPC acumula 5,83% no ano

Fabiana Ribeiro

A alta dos preços dos alimentos pesou mais no orçamento dos mais pobres — que gastam um terço do que ganham com comida. Até novembro, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), segundo o IBGE, que se refere às famílias com rendimento de um a seis salários mínimos, variou 5,83%. Um resultado fortemente influenciado pelos preços dos alimentos, que, pelo índice, subiram 9,59% no ano. Já o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) — usado no regime de metas do governo — fechou até novembro em 5,25%, e os alimentos, em 8,95%.

O alívio para os brasileiros de todas as faixas de renda, no entanto, não deverá chegar no ano que vem. Os preços internacionais dos alimentos estão, de acordo com informes da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), próximos às máximas históricas que registraram em junho de 2008, apesar da melhora de projeções para produção global de cereais nesse ano.

Impacto direto sobre renda menor

— O impacto dos alimentos é muito maior entre os brasileiros de menor renda. É um impacto direto na veia e o governo deveria olhar mais atentamente para isso.

O poder de renda dessa camada da população se deteriora mais do que aqueles com mais renda — di z Eduardo Velho, economista- chefe da Prosper Corretora, acrescentando que, com os preços salgados, o comércio que vende alimentos já apresentou retrações nas vendas em novembro.

— Preços altos levam a substituições ou mesmo a um freio no consumo.

O economista André Braz, da Fundação Getulio Vargas (FGV), lembra que, a despeito da alta dos preços, houve uma expansão na renda dos trabalhadores. E essa expansão é o que garante que os brasileiros mais pobres continuem a manter os produtos básicos à mesa.

Estudo complementar da POF 2008/2009 do IBGE, contudo, faz um alerta: o brasileiro está comendo mais, mas a qualidade da alimentação piorou.

— Ainda que muitos analistas apontem para alta nos preços dos alim e n t o s n o a n o q u e vem, ainda há dúvidas.

Muitos alimentos encareceram muito e, portanto, há gordurinhas no preço que podem ser cortadas. É o caso do feijão e das carnes que já tiveram um recuo nos preços — afirma André Braz.

A recepcionista Daniele da Silva, de 25 anos, sentiu na mesa os efeitos dos preços mais altos. Para se adaptar aos novos preços dos alimentos, foi necessário fazer alguns ajustes no cardápio da família.

— Eu costumava comprar contra filé , mas agora estou substituindo por acém. Estou sem fazer compras grandes há dois meses. Vou abastecendo o que vejo que está faltando, prestando atenção nas promoções. Substituindo um produto mais caro por outro que sei que não é a mesma coisa, mas é mais barato — afirma ela. — Natal tem que ter a ceia, vou dar um jeito, comprar um peru. Mas não vai ser “aquela ceia”.

Apesar das substituições dos produtos, a família de Daniele não vai passar por nenhum risco de insegurança alimentar. É o que espera Pierre Vilela, coordenador da assessoria técnica da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais, entidade ligada à Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). Para ele, os avanços do salário mínimo, com ganhos acima da inflação, permitem que a alimentação dos brasileiros não perca qualidade.

— Não há o que temer em relação à segurança alimentar nem em relação ao aumento da pobreza.

Pode até haver uma redução no consumo, mas os produtos básicos, menos influenciados pelos preços das commodities, continuarão no cardápio das famílias.

Vilela acrescenta, contudo, que os preços das commodities agrícolas continuarão elevados em 2011. Com preços acima da média histórica, diz ele.

— É claro que tudo também depende de como andará a economia internacional no ano que vem — afirma Vilela.

Aperto fiscal de Dilma provoca controvérsia

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Especialistas se dividem entre os que só "acreditam vendo" e os que acham inexorável

Lu Aiko Otta / BRASÍLIA

Dilma Rousseff começará seu governo cortando a previsão de gastos, mas sem muita pressa. "Vai ter de contingenciar, com certeza", disse ao "Estado" o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, referindo-se ao Orçamento Geral da União de 2011, aprovado na noite de quarta-feira pelo Congresso Nacional. Ele evitou, porém, confirmar se será algo na casa dos R$ 20 bilhões, como se especula.

"Pode ser, mas vai depender da arrecadação de janeiro e fevereiro", disse. "O decreto (com o contingenciamento) só sai em março." Apesar do discurso da equipe econômica de Dilma pregando a contenção de gastos, a real disposição da futura presidente em apertar o cinto causa controvérsia entre os economistas. Eles até acreditam em alguma austeridade em 2011, mas ninguém garante que a tendência será essa para os anos seguintes.

"A nossa expectativa é que o ajuste fiscal verdadeiro ficará apenas no papel", afirmou o economista Sérgio Vale, da MB Associados.

Em 2003, início do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, o Brasil enfrentava uma crise de confiança e por isso foi necessário fazer um ajuste duro logo no início do ano. Os cortes foram lineares, ou seja, atingiram todos os programas de forma igual.

Dilma assume num quadro bem mais favorável e os cortes agora não podem mais ser lineares, porque é necessário preservar os programas sociais que a elegeram e os investimentos em infraestrutura. "Isso exige um corte fiscal mais bem pensado e profundo em outros setores." Porém, com um ministério eminentemente político, ela terá dificuldade em eleger os setores a serem sacrificados. "Mais ainda, a equipe econômica que foi montada está longe de ser campeã em ajuste fiscal", observa.

O mesmo ceticismo é exibido por Fernando Montero, economista-chefe da corretora Convenção: "Só acredito vendo."

Há, porém, os que avaliam que Dilma apertará o cinto não por convicção, como ela própria deixou claro durante a campanha, mas por necessidade. "O ajuste fiscal vai se impor", aposta Flávio Castelo Branco, gerente-executivo do núcleo de Política Econômica da Confederação Nacional da Indústria (CNI). Como Dilma quer que os juros caiam, ela terá de cortar despesas para ajudar o BC a controlar a inflação.

"Garfada". Um bom indicador dessa disposição de abrir espaço para a queda dos juros é o salário mínimo. "Havia muita pressão para elevá-lo a R$ 570, R$ 580", observou o economista Bráulio Borges, da LCA.

Agora, a tendência é que o mínimo fique em R$ 540, recebendo correção apenas pela inflação. Se isso for confirmado, será a primeira vez, em uma década e meia, que o salário mínimo não terá aumento real. "Isso sinaliza para uma política fiscal menos expansionista."

Na verdade, se insistir nos R$ 540, o governo estará até "garfando" uma parte do valor devido aos trabalhadores. Isso porque, se o mínimo fosse corrigido pela variação do INPC, como é a regra informalmente aplicada desde 2006, ele ficaria em R$ 543,15. Os R$ 540 foram calculados com base numa estimativa de inflação que já foi superada.

"Acredito que haverá ajuste, sim, porque o discurso tem sido esse: uma política fiscal mais coordenada com a política monetária."

A expectativa do economista da LCA é que, no ano que vem, as despesas cresçam 6% a 7%, ante os 11% de 2010.

Pressão fiscal. O crescimento da dívida e a alta da inflação vão compelir o governo a fazer o ajuste fiscal, disse o economista Aquiles Rocha de Farias, professor do Ibmec-DF.

"Isso é normal no início de governo", observou Farias.

Ele acredita, porém, que nos anos seguintes a austeridade fiscal enfrentará três grandes riscos: necessidade de mais injeção de recursos do Tesouro no BNDES, a execução do PAC e os preparativos para os eventos esportivos (Copa e Olimpíadas).

IR para estrangeiro em títulos públicos seria a 1ª medida

Se é para o mandato de Dilma começar com uma medida de impacto, o mais provável é que ela seja na área cambial, e não na fiscal. O professor do Ibmec-DF Aquiles Rocha de Farias acredita que, na virada do ano, o governo poderá elevar o Imposto de Renda sobre investimentos estrangeiros em títulos públicos, hoje isentos. A medida está em estudos, conforme informou o "Estado" em outubro passado.

Para entrar em vigor em 2011, é preciso que seja editada em Medida Provisória ainda em 2010. Mas, explicou o professor, talvez o governo deixe para editá-la no último minuto do ano para evitar uma avalanche de investimentos para aproveitar o benefício tributário.

"Muito provavelmente virá um pacote cambial maior do que o fiscal”, concorda o economista Sérgio Vale, da MB Associados.

Orestes Quércia, político influente e polêmico

DEU EM O GLOBO

SÃO PAULO e BRASÍLIA. - Natural de Pedregulho (SP), onde nasceu em 18 de agosto de 1938, Orestes Quércia começou a vida pública no movimento estudantil. Foi vereador e prefeito de Campinas, senador, deputado estadual, vice- governador e governador de São Paulo (de 1987 a 1991, derrotando Paulo Maluf), tornandose um dos políticos mais influentes do estado nas décadas de 70 e 80. Sua base estava no interior, onde ajudou a criar mais de 300 diretórios do PMDB, e cuja lealdade passou a ser conhecida como “quercismo”.

Formado em Direito pela PUC de Campinas, foi eleito vereador em 1963 pelo Partido Libertador.

Com a extinção dos partidos pelo Ato Institucional no- 2 (de outubro de 1965), filiou-se ao MDB, pelo qual foi eleito deputado estadual em 1966. Na Prefeitura de Campinas, conquistada em 1968, a gestão foi marcada por obras (estação de tratamento de água, casas populares e de avenidas) e denúncias de corrupção.

Num sinal de força política e do crescimento do então MDB, foi eleito senador por São Paulo em 1974. Bateu por quase três milhões de votos o senador e exgovernador Carvalho Pinto, candidato do regime militar. Assumiu o mandato em 1975 e, no ano seguinte, passou a criticar a política econômica do governo do general Ernesto Geisel e o que considerava ser a desnacionalização da economia.

No governo paulista, investiu na reforma de estradas, construiu o Memorial da América Latina e o Metrô sob a avenida Paulista. Mais uma vez, vieram à tona denúncias de corrupção.

Quércia foi acusado de quebrar as finanças do estado, mas conseguiu eleger seu sucessor (Luiz Antonio Fleury Filho), em 1990.

Também era empresário nos ramos imobiliário e de comunicação, além de investir no setor agropecuário. Quércia viu sua influência diminuir progressivamente no PMDB. Em 1988, André Franco Montoro, Mario Covas e Fernando Henrique Cardoso se juntaram para criar o PSDB. Em 1991, Quércia assumiu a presidência do PMDB. Continuaram a pesar contra ele acusações de mau uso do dinheiro público.

Concorreu à Presidência da República pelo PMDB em 1994, com desempenho pífio: tevepouco mais de 2,7 milhões de votos (4,4% dos válidos) e ficou em quarto lugar na disputa. Em 1998, tentou voltar ao Palácio dos Bandeirantes, mas assistiu à reeleição de Covas. Em 2002, aliado ao petista Luiz Inácio Lula da Silva, ficou em terceiro na corrida pelo Senado. Desde então, tornou-se oposição a Lula.

Quércia morreu ontem em São Paulo, aos 72 anos. Lutava contra um câncer de próstata e estava no Hospital Sírio Libanês.

Candidatou-se ao Senado este ano, mas desistiu para se tratar e anunciou apoio a Aloysio Nunes Ferreira (PSDB). Enquanto o seu partido fechava com Dilma Rousseff, Quércia apoiou Serra.

Segundo boletim médico, ele morreu às 7h40m, com câncer “em estágio avançado”. Seu corpo foi velado à tarde no Palácio dos Bandeirantes. O enterro será às 9h de hoje, no Cemitério do Morumbi. Deixa a mulher, Alaíde Quércia, e quatro filhos.

O governador eleito de São Paulo, Geraldo Alckmin, chegou ao Sírio Libanês às 10h para prestar solidariedade à família de Quércia. Alckmin destacou importância dele na redemocratização do Brasil na época do bipartidarismo de Arena e MDB.

Em nota de pesar, o presidente Lula disse que Quércia foi da ala dos desenvolvimentistas, “que pensam o país para além do seu tempo”. O presidente afirmou que a eleição de Quércia para o Senado, em 1974, “foi um marco na luta pelo restabelecimento da democracia”.

“Recebo a notícia da morte do ex-governador de São Paulo, Orestes Quércia, com pesar.

Nem sempre estivemos do mesmo lado na política, mas Quércia sempre foi da ala dos desenvolvimentistas, que pensam o país para além de seu tempo. Sua eleição para o Senado em 1974 foi um marco na luta pelo restabelecimento da democracia.

Presto minha solidariedade a sua família, seus amigos e correligionários”, diz a nota.

Como presidente do PMDB, o vice-presidente eleito Michel Temer divulgou nota lamentando a morte. Na nota, Temer diz que Quércia “teve desempenho brilhante no exercício de seu mandato de senador e um marcante trabalho executivo como governador de São Paulo”. E acrescentou que o PMDB lamenta o falecimento de um dos maiores líderes do partido.

NOTA DO PRESIDENTE LULA

“Recebo a notícia da morte do ex-governador de São Paulo, Orestes Quércia, com pesar. Nem sempre estivemos do mesmo lado na política, mas Quércia sempre foi da ala dos desenvolvimentistas, que pensam o país para além de seu tempo. Sua eleição para o Senado em 1974 foi um marco na luta pelo restabelecimento da democracia. Presto minha solidariedade a sua família, seus amigos e correligionários”.

Em nota, PPS lamenta a morte de Orestes Quércia


O PPS - Partido Popular Socialista - lamenta o falecimento do ex-governador Orestes Quércia e se solidariza com a família e amigos.

Com sua morte, São Paulo e o Brasil perdem um político que foi fundamental na luta pela redemocratização. Eleito senador por São Paulo na histórica eleição de 1974, que marcou a ascenção da oposição democrática ao regime militar, juntou-se a outros expoentes do MDB para conquistar a democracia que as atuais gerações desfrutam.

Roberto Freire
Presidente do PPS

Se todos fossem iguais a você -Vinicius de Moraes; Gal Costa; Jane Duboc; Quarteto em Cy; MPB4

Natal:: Vinicius Moraes

De repente o sol raiou
E o galo cocoricou:

- Cristo nasceu!

O boi, no campo perdido
Soltou um longo mugido:

- Aonde? Aonde?

Com seu balido tremido
Ligeiro diz o cordeiro:

- Em Belém! Em Belém!

Eis senão quando, num zurro
Se ouve a risada do burro:

- Foi sim que eu estava lá!

E o papagaio que é gira
Pôs-se a falar: - É mentira!

Os bichos de pena, em bando
Reclamaram protestando.

O pombal todo arrulhava:
- Cruz credo! Cruz credo!

Brava

A arara a gritar começa:

- Mentira? Arara. Ora essa!
- Cristo nasceu! - canta o galo.
- Aonde? - pergunta o boi.
- Num estábulo! - o cavalo
Contente rincha onde foi.

Bale o cordeiro também:

- Em Belém! Mé! Em Belém

E os bichos todos pegaram
O papagaio caturra
E de raiva lhe aplicaram
Uma grandíssima surra.