Filho e irmão de resistente antinazista, militante do Partido Comunista Francês (PCF), Maspéro praticamente dominou a cena editorial progressista da França do pós-guerra ao seu falecimento. Mais tarde, romperia com o PCF, passando a professar simpatias pelo movimento trotskista, relativamente forte na França.
O Quartier Latin é uma dessas instituições,
eu diria, até, de Paris. Ali se encontra a Universidade Sorbonne, fundada em
1200, fazendo com que, ao longo dos séculos, o bairro se tornasse um ponto de
referência para a juventude estudantil. Basta pensar nos protestos de Maio de
1968, quando os jovens rebelados montaram barricadas por todo o Quartier Latin.
Também por ali fica o Panthéon, dos Heróis da Pátria, onde se encontram as
cinzas de Jean Moulin, o herói da Resistência assassinado sob a tortura. E
também o Jardim de Plantas, o Museu de Cluny, de arte medieval, a Escola
Politécnica, a Escola das Minas, o Colégio dos Bernardinos, antiga prisão
durante a Revolução Francesa. E ainda temos os cafés, os restaurantes, as
encantadoras praças. E as ruas, não podemos nos esquecer: na Rue Descartes
moraram, por exemplo, Ernest Hemingway e Paul Verlaine. A Rue Mouffetard, a
mais antiga da cidade de Paris, serviu de inspiração a Victor Hugo ao
escrever Os Miseráveis. Não muito longe dela, temos as Arenas de
Lutécia, que remetem à fundação de Paris. O seu belíssimo Jardim de Luxemburgo
abriga o Senado francês. Para quem aprecia a arte religiosa, como eu, é
imprescindível conhecer a Igreja de Saint-Julien- Le-Pauvre e a gótica
Saint-Séverin. Outra famosa livraria do bairro é a Shakeaspeare and Company.
O Quartier Latin mais se assemelha a um
território independente. Só falta bandeira e hino.
A Joie de Lire é parte desse extraordinário
conjunto cultural, sensitivo e arquitetônico. A pequena livraria era um lugar
onde se respirava total liberdade, servindo de ponto de encontro para jovens de
todas as partes do mundo (e aí não vai haver nenhum exagero). Ou Paris não era
a capital do mundo nos anos 70? Para além de livros que abriam o debate sobre
as questões políticas e sociais da época, tão marcada pela Guerra do Vietnam, a
Joie de Lire enfaixava publicações de vários movimentos de libertação em curso
no mundo, da ANC de Nelson Mandela à Frente Polisario e desta aos combates de
Angola, Guiné-Bissau, Cabo Verde e Moçambique. Na Joie de Lire eu tomei
conhecimento pela primeira vez, por exemplo, da luta da Frelimo contra o
colonialismo português, por intermédio de boletins regulares daquela agremiação
fundada por Eduardo Mondlane e Samora Machel. Mais: conheci autores que
marcaram a minha trajetória intelectual, a começar por Frantz Fannon.
A Joie de Lire, espaço sensitivo da minha
mocidade, onde volta e meia eu me encontrava com companheiros e amigos como
Armênio Guedes e Raul Iaverlberg, foi crucial em minha formação humanística,
abrindo os meus olhos para a realidade do mundo.
Além de livreiro e editor excepcional,
Maspéro também foi escritor e tradutor. Poucos, muito poucos, encarnaram a
segunda metade do século XX como este homem.
François Maspéro morreu de um acidente em sua
própria residência, em 2015, aos 83 anos de idade. Exatamente naquele dia, uma
concentração de democratas e antifascistas de várias partes do mundo se reunia
em Buchenwald, campo de concentração na Turíngia, Alemanha, para homenagear,
com um minuto de silêncio, aqueles que tombaram pela liberdade. Entre eles, o
seu pai.
Ivan Alves Filho, historiador

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