EDITORIAIS
Caso Monark expõe limites da nova
comunicação
O Globo
Foram deploráveis, abjetas e devem ser
repudiadas com a máxima veemência as declarações feitas na última segunda-feira
por Bruno Aiub, alcunhado Monark, que o levaram a ser demitido do podcast que
ele próprio fundara. Num episódio em que recebeu os deputados Tabata Amaral
(PSB) e Kim Kataguiri (Podemos), Aiub defendeu a legalização de um partido
nazista no Brasil e o direito de quem for “antijudeu” a manifestar suas
opiniões (apenas Tabata o contestou com a energia necessária). Pior ainda foi
ter alegado que estava “bêbado”, num mal-ajambrado pedido de desculpas emitido
depois que os patrocinadores começaram a abandoná-lo.
Não foi a primeira vez que Aiub proferiu
uma barbaridade do tipo. Em mensagem no ano passado, ele questionava se a
expressão de ideias racistas deveria ser crime. Aiub pode achar o que quiser a
respeito. A democracia brasileira já tomou sua decisão por meio das várias leis
e sentenças judiciais que consideram crime o racismo, o antissemitismo, a
homofobia e outros discursos de ódio.
Não pode haver espaço no Brasil ou em qualquer país decente para a defesa de um regime que implantou o extermínio em escala industrial. Não se trata de “debate” ou “discussão” entre vários pontos de vista que devem ser protegidos. Nas palavras certeiras de uma mensagem da embaixada da Alemanha sobre o episódio: “Defender o nazismo não é liberdade de expressão. Quem defende o nazismo desrespeita a memória das vítimas e dos sobreviventes desse regime e ignora os horrores causados por ele”.
O caso de Aiub guarda semelhanças com o do
podcaster americano Joe Rogan, também conhecido pelo clima “informal” e “sem
compromisso” com que abre espaço em seu programa a “vozes alternativas”, como
militantes contra a vacinação, extremistas de direita ou defensores de ideias
que não cabem em nenhum ambiente civilizado.
As expressões racistas que volta e meia
Rogan soltava não impediram que se tornasse a principal atração do Spotify —
serviço com que fechou contrato de exclusividade. Só quando cantores como Neil
Young e Joni Mitchell reagiram retirando suas músicas, irrompeu uma onda de
boicote. O Spotify então apagou os episódios que considerava mais sensíveis,
mas decidiu manter o contrato com Rogan.
Rogan e Aiub são espécimes típicos da nova
fauna de youtubers, influencers, podcasters e outros seres que habitam os
pântanos digitais. Não espanta que atraiam audiências volumosas com um estilo
que mistura ignorância e apelação. Espantosas são a quantidade de
patrocinadores que associam suas marcas a esse tipo de produto e a presença frequente
de políticos como Kim, Tabata ou Sergio Moro, interessados nos números vistosos
de seguidores, visualizações e outras “métricas”.
Na diatribe libertária em defesa dos
nazistas, Aiub questionou se “as pessoas não têm o direito de ser idiotas”. Foi
um argumento ridículo, pois nazismo é crime bárbaro e hediondo, não idiotice.
Mas a frase define bem quem acredita nesse estilo de comunicação produzida por
amadores sem nenhum conhecimento a respeito do que falam, princípios editoriais
frágeis e compromissos éticos volúveis. Que tanta gente séria do universo
político ou do mundo de negócios aceite tomar parte nisso dá uma boa medida da
profundidade do buraco em que estamos metidos.
Ata do Copom traz aviso a Bolsonaro e ao
Congresso sobre risco de inflação
O Globo
A cada 45 dias, o presidente do Banco
Central (BC) e seus diretores, integrantes do Comitê de Política Monetária
(Copom), fazem reuniões para estabelecer a Selic, taxa básica de juros da
economia, principal arma de combate à inflação. A decisão é divulgada por meio
de um comunicado. A ata da reunião, com mais detalhes sobre as justificativas,
é publicada na semana seguinte. Críticas a outras áreas do governo são raras. O
tom costuma ser glacial. A divulgação da última ata, ontem, quebrou essa
escrita.
A mensagem ao governo Bolsonaro e às
lideranças do Congresso Nacional, que flertam com a irresponsabilidade diante
do descontrole inflacionário, foi grave e clara. Traduzindo o jargão peculiar,
o Copom avisou que as incertezas sobre a gestão das contas públicas aumentam a
probabilidade de inflação maior no futuro. Bolsonaro e seus aliados no
Congresso, se não mudarem de rumo, serão os responsáveis pela alta de preços,
um mecanismo perverso que esfarinha o poder de compra da moeda e afeta
sobretudo a população mais pobre.
Diante do aviso, o governo e as lideranças
do Congresso deveriam abandonar duas propostas de emendas constitucionais, a
PEC dos Combustíveis e a PEC Kamikaze, apresentadas na semana passada. Elas
defendem uma renúncia fiscal e gastos extras bilionários, sob o pretexto de
reduzir o custo da gasolina, do diesel e do gás de cozinha, criando, entre
outros agrados a grupos próximos ao Planalto, um “vale” para caminhoneiros.
Na avaliação do próprio ministro da
Economia, Paulo Guedes, a PEC Kamikaze é uma bomba, com um custo que poderá
chegar a R$ 130 bilhões. A PEC dos Combustíveis, é certo, tem um impacto menor,
mas isso não impede que também seja classificada como péssima ideia.
É fundamental entender que, apesar do
desempenho positivo registrado no ano passado, as contas públicas são frágeis.
O recuo recente do dólar não deve criar ilusões: o endividamento brasileiro é
alto comparado ao de economias emergentes. Medidas populistas aumentam a
percepção de que o governo terá mais dificuldades para honrar sua dívida. Em
certo momento, o prognóstico vira uma profecia autorrealizável — e o clima
positivo das últimas semanas pode rapidamente virar. Temerosos, os investidores
se refugiam no dólar; a alta da moeda inflaciona produtos e serviços, o BC é
obrigado a manter juros altos, a economia desacelera, e a dívida segue
crescendo. Conclusão: todos terminamos em situação pior.
Em momentos como o atual, as lideranças do
Congresso com espírito público precisam se fazer ouvir. De Bolsonaro, seus
aliados e filhos não há muito o que esperar. Ontem o senador Flávio Bolsonaro
(PL-RJ) assinou a PEC Kamizaze. Pelo jeito, o plano é garantir diesel e
gasolina para rodar até as eleições, mesmo correndo o risco de que o país
depois caia num precipício.
Registrado em ata
Folha de S. Paulo
Como aponta o Copom, populismo nos
combustíveis ameaça elevar inflação e juros
Em sua linguagem peculiar, formulada em
impessoalidade tecnocrática, o Banco Central alertou nesta terça (8) para os
riscos de deterioração econômica ainda maior com o avanço de propostas
eleitoreiras destinadas a derrubar a tributação sobre os combustíveis.
"Mesmo políticas fiscais que tenham
efeitos baixistas sobre a inflação no curto prazo podem causar deterioração nos
prêmios de risco, aumento das expectativas de inflação e, consequentemente, um
efeito altista na inflação prospectiva", diz a ata
da reunião realizada na semana passada pelo Comitê de Política
Monetária (Copom).
Em termos mais mundanos, afirma-se ali que
a ofensiva tresloucada do Planalto e do Congresso pela desoneração pode até
reduzir de imediato os preços da gasolina, do diesel e de outros derivados;
entretanto a perda brutal de arrecadação elevará o déficit do governo, o
descrédito na gestão da economia e, cedo ou tarde, a inflação.
Se tais consequências podem parecer um
tanto abstratas, recorde-se que as sucessivas demonstrações de incúria
orçamentária de Jair Bolsonaro já alimentaram nos últimos dois anos a escalada
das cotações do dólar —que agravou o encarecimento de combustíveis e demais
produtos precificados internacionalmente.
O IPCA chegou aos dois dígitos em 2021, e o
mesmo se deu agora com a taxa de juros do BC, fixada em 10,75% ao ano. A ata do
Copom reforça que novas altas serão necessárias, com impactos funestos para o
consumo, o investimento privado e a geração de empregos.
Com a reeleição sob ameaça, o presidente
comete a proeza de sabotar o crescimento da economia, já prejudicado neste
início de ano pelos sobressaltos provocados pela variante ômicron do novo
coronavírus —como se viu, por exemplo, na queda
dramática da produção de veículos em janeiro.
Entretanto a marcha insensata da
desoneração dos combustíveis prossegue, mal levando em conta as débeis objeções
do Ministério da Economia, em particular à proposta de emenda constitucional em
tramitação no Senado.
Enquanto a pasta faz saber que considera a
PEC suicida, o texto acaba de ganhar a assinatura
de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), provável coordenador da campanha do pai.
Danos orçamentários de tal quilate são de
reversão difícil e dolorosa, como o país já deveria ter aprendido após oito
anos de idas e vindas na agenda reformista, na inflação e nas esperanças de
retomada econômica. O governo atual conseguiu tornar mais complexa a superação
desse ciclo.
Além da inauguração
Folha de S. Paulo
Agora palco para Bolsonaro, a custosa
transposição demanda medidas mais amplas
A transposição do São Francisco fornece
exemplo caudaloso das obras faraônicas que sangram cofres públicos no Brasil.
Décadas se passam sem que benefícios prometidos se materializem de modo pleno,
enquanto políticos se aproveitam para festivas inaugurações.
O presidente Jair Bolsonaro (PL) não foge à
praxe. Nesta terça-feira (8) marchou ao semiárido nordestino para acionar
bombas do eixo norte do empreendimento e visitou barragens associadas.
Mais que segurança hídrica, pretexto
oficial da incursão, ele está de olho em sua insegurança eleitoral. Precisa
inventar algo para
alavancar sua popularidade na região, onde o rival Luiz Inácio Lula da
Silva (PT) tem sua maior vantagem nas pesquisas de intenção de voto.
Na impossibilidade de negar que a
transposição começou por iniciativa do ex-presidente, Bolsonaro se atém à
crítica segundo a qual Lula não concluiu a obra controversa. É verdade, até
certo ponto: o atual mandatário só tem o que inaugurar porque a empreitada
caminha mal desde sempre.
O projeto data do século 19 e só começou a
ser executado em 2007, no segundo mandato do petista. Deveria ficar pronto em
2012, porém começou a funcionar apenas parcialmente, em seu eixo leste, em
2017, no governo Michel Temer (MDB), logo após o impeachment de Dilma Rousseff
(PT).
Não é preciso dizer que, nessa toada, os
477 km de canais tiveram seu custo multiplicado —de R$ 4,5 bilhões, a conta
para o Tesouro Nacional já está em R$ 12 bilhões.
Nem é o caso, agora que a transposição se
fez realidade, de reviver antigas objeções ambientais e considerações de
benefício versus custo. Dado o fato consumado, cumpre tirar o melhor proveito
do empreendimento.
Persiste, nesse sentido, o descaso com
obras complementares para perenizar a dádiva prometida a 12 milhões de
nordestinos.
Sem construir adutoras e canais de
irrigação para disseminar acesso ao recurso, o Velho Chico só beneficiará
moradores e agricultores às margens dos açudes que o rio alimentar. Abrem-se as
comportas, assim, para outro vício corrente na região: o uso político da água,
com favorecimento de apaniguados e cabos eleitorais.
Nessa seara, o governo Bolsonaro promoveu
um retrocesso com o aviltamento do programa das cisternas, submetido ao jogo
fisiológico do centrão. Esses reservatórios locais para armazenar água de chuva
já se provaram eficazes na redução da insegurança hídrica, mas submergiram no
mar de incúria e politicagem bolsonarista.
O componente político da inflação
O Estado de S. Paulo
Incerteza fiscal e expectativas de inflação
têm como grande fonte ação presidencial.
O arrocho financeiro, com juros altos,
crédito apertado e entraves à atividade econômica, vai continuar até a inflação
ceder e se firmarem as expectativas em relação às metas. Anunciado logo depois
do aumento da taxa básica para 10,75%, esse compromisso de rigor foi reafirmado
na ata da última reunião do Copom, o Comitê de Política Monetária do Banco
Central (BC). Os próximos ajustes poderão ser menores que o último, de 1,5
ponto porcentual, mas novas altas estão prometidas e a taxa poderá chegar a 12%
neste semestre e declinar na segunda metade do ano. A tarefa de conduzir a
inflação à meta deverá ser completada, segundo a ata, até o próximo ano.
Incertezas sobre o futuro das contas
públicas afetam as expectativas de inflação. Atitudes e decisões do presidente
da República, de sua equipe e de seus aliados podem gerar pessimismo quanto à
evolução dos preços. Sem mencionar o presidente, o Palácio do Planalto ou
qualquer outro edifício da Praça dos Três Poderes, a ata é muito clara, no
entanto, ao indicar os componentes políticos da inflação, já mencionados em
muitos outros documentos do Copom.
Para conferir esse ponto é preciso, no
entanto, desbravar um denso emaranhado verbal: as contas públicas podem ter
melhorado, mas “a incerteza em relação ao arcabouço fiscal segue mantendo
elevado o risco de desancoragem das expectativas de inflação e, portanto, a
assimetria altista no balanço e riscos”. A referência ao “arcabouço fiscal” e
ao risco de inflação fora do eixo aparece duas vezes na ata.
Na imprensa, no entanto, os mesmos
indicadores de risco são visíveis todos os dias. Orçamento secreto, presidente
submisso ao Centrão, transferência de poderes do Ministério da Economia para a
Casa Civil, furos no teto de gastos, intervenções nos preços de combustíveis,
programas improvisados e jogadas eleitorais compõem grande parte do noticiário
de todos os dias. O palavrório da ata do Copom apenas traduz de forma
complicada as barganhas, jogadas e distribuições de favores consumadas em
Brasília, de forma continuada, com o dinheiro do contribuinte.
Nada mais fácil de entender, portanto, que
a mistura de inflação elevada, juros altos, economia emperrada, amplo
desemprego e enorme insegurança quanto à evolução das contas federais, da
dívida pública e das condições de governança. O presidente Jair Bolsonaro nunca
se ocupou de governar e continua distante desse tipo de atividade. O ministro
da Economia, Paulo Guedes, ensaia, ocasionalmente, alguma resistência aos
desmandos mais evidentes.
Mas, além de se submeter aos desmandos, o
ministro permanece no cargo e insiste em falar como se a economia nacional
andasse muito bem, houvesse enorme oferta de empregos, a inflação brasileira
fosse apenas um reflexo de um problema global, as contas públicas fossem sólidas.
O fiasco das privatizações é por ele atribuído à resistência da oposição ou a
uma poderosa parcela de congressistas fisiológicos. A vinculação de seu chefe
com os grupos mais fisiológicos é sempre esquecida, naturalmente, em suas
declarações.
Ao mencionar os problemas globais, o
ministro da Economia geralmente omite alguns detalhes muito significativos,
como a diferença entre a inflação brasileira e as de outros países capitalistas
(em geral muito menores) e a distância entre o desemprego no Brasil e aquele
observado na maior parte das economias emergentes e desenvolvidas.
Além de pouco se esforçar pela melhora do
trabalho e da vida da maior parte dos brasileiros, o presidente, concentrado em
objetivos pessoais, dificulta a gestão do setor público. As incertezas quanto
ao “arcabouço fiscal”, mencionadas na ata do Copom, são efeitos facilmente
compreensíveis do comportamento presidencial e das falhas administrativas do
Executivo (sem contar, é claro, a desastrosa atuação do Ministério da Saúde).
Pode-se discutir se o custo econômico dos juros altos será compensado por uma
vitória significativa sobre a inflação. Não há como duvidar, no entanto, dos
fatores de preocupação citados na ata do Copom.
Como enfrentar a próxima catástrofe
O Estado de S. Paulo
Autoavaliação de membros da OCDE mostra que
estavam mal preparados para a crise e que estão monitorando insuficientemente
seus impactos de longo prazo
Os governos estavam preparados para a
crise? Estão respondendo bem a ela? Estarão preparados para outras? Respostas
exaustivas e consolidadas a essas questões podem tomar anos, mas é vital
esboçá-las desde já. Por isso, a Organização para Cooperação e Desenvolvimento
Econômico (OCDE) solicitou aos seus membros uma autoavaliação sobre sua atuação
em cada um dos estágios do ciclo de gerenciamento de riscos: preparação, gestão
de crise e resposta e recuperação.
A preparação implica capacidade de
antecipação de risco, preparação de setores críticos e protocolos de
gerenciamento. A gestão de crise envolve comunicação, arranjos de governança e
mobilizações integradas da sociedade. A resposta e a recuperação, por fim,
levam em conta a eficácia das medidas sanitárias, das restrições e lockdowns,
dos auxílios econômicos e das políticas sociais.
É consensual que a preparação para a
pandemia foi insuficiente, especialmente à luz dos custos humanos e
financeiros. Os governos tomaram medidas econômicas rápidas e massivas, mas,
segundo eles mesmos, precisam monitorar mais cuidadosamente seus impactos
orçamentários de longo prazo. Também ficou claro que a confiança exige
transparência, não somente por meio de campanhas de comunicação, mas do
envolvimento das partes interessadas e do público na tomada de decisões.
Na maioria dos países os investimentos nas
capacidades de antecipação de risco em setores críticos se mostraram
insuficientes. Isso resultou em carência de estoques de equipamentos críticos e
falta de planejamento e treinamento em respostas a emergências.
Crises dessa magnitude exigem a mobilização
de recursos em virtualmente todos os domínios do poder público, o que implica
flexibilidade e rapidez na ativação de mecanismos de governança para facilitar
a cooperação intergovernamental. Mas a divisão de trabalho nem sempre ficou
clara. As avaliações enfatizam a necessidade de esclarecer responsabilidades e
mandatos dos grupos de gestão de crise, suas hierarquias e organogramas. É
importante que eles contem com a participação de servidores de alto escalão, o
que ajuda a dar mais peso às deliberações, garantir a devida responsabilização
e facilitar decisões ágeis.
Segundo os governos, comitês de
aconselhamento forneceram evidências valiosas para informar suas decisões, mas eles
avaliam que poderiam ter confiado mais em fontes variadas de expertise. Muitos
consideram que faltou mais representação da sociedade civil.
Ainda que essas medidas tivessem sido
tomadas a contento, ficou evidente que a sua eficácia depende de uma comunicação
coerente. Quando ela faltou, ainda mais em meio a uma onda de desinformação, a
tendência à erosão da confiança no governo e no aconselhamento dos
especialistas foi inequívoca.
A comunicação também é chave para envolver
a sociedade civil, a iniciativa privada e setores locais, de modo a aumentar a
transparência nos processos decisórios e facilitar a implementação de
respostas.
Na avaliação dos governos, as isenções
tributárias e os auxílios às empresas foram cruciais, mas nem sempre atingiram
os beneficiários certos ou foram acompanhados de estimativas consistentes sobre
seus custos a longo prazo. Deficiências análogas foram apontadas nas medidas de
socorro social, mas foram compensadas pela mitigação do sofrimento dos mais
vulneráveis. Ou seja, os governos avaliam que, se pecaram, foi por excesso.
Melhor do que por falta. Mas se, no futuro, encontrarem a medida justa, será
melhor para todos.
Por fim, as autoavaliações reconhecem
lacunas que demandam mais evidências, sobretudo em relação à preparação de
setores críticos, à efetividade dos lockdowns e medidas restritivas, e aos seus
impactos sobre as liberdades individuais, além dos efeitos colaterais sobre a
violência doméstica, consumo de álcool e saúde mental. Neste caso, o que está
feito está feito. Mas está claro que esses aspectos exigem mais atenção,
estudos e debates, desde já para mitigar as sequelas da crise, mas também para
que, no futuro, outras crises sejam enfrentadas com mais eficácia.
Ata do Copom indica que juros precisam
subir mais
Valor Econômico
O tripé doméstico que assim causa incerteza
sobre o futuro da política monetária pode ainda causar mais estragos
A taxa de juros será maior que os 12%
considerados no mais recente cenário de referência traçado na reunião do Comitê
de Política Monetária na semana passada. No comunicado após o encontro, a
decisão de sinalizar com ajuste adicional menor que 1,5 ponto percentual
sugeriu que o pico da Selic talvez não chegasse a tanto. A ata divulgada ontem,
porém, deixou claro que esse limite não existe, ainda que os ajustes estejam
perto do fim.
O Banco Central pode estar disposto a ir
mais longe com o ciclo de aperto porque os 12% não são suficientes para levar a
inflação de 2022 à meta - com o que as projeções usadas no cenário de
referência concordam - nem tampouco fazer isso em 2023, o que, pelo cenário,
bastaria. Após a reunião do Copom, o Focus indicou uma taxa final de 11,75% ao
ano. No entanto, o IPCA ficaria acima da meta nos dois anos - em 2023, repetiu
a previsão anterior de 3,5% e, em 2022, elevou a taxa de 5,38%, antes da
reunião, para 5,44% após a decisão.
Um dos motivos principais para considerar
em seu cenário próprio o viés altista acima do básico foi o clima de algazarra
fiscal patrocinada pelo Centrão com apoio do Planalto, com a PEC dos
combustíveis. Ela acabou não sendo enviada diretamente pelo Executivo, mas por
um deputado solicitado a fazê-lo pela Casa Civil. A PEC ganhou uma alma gêmea,
bem mais feia, no Senado, ampliando subsídios para o consumo de energia
elétrica, vales para caminhoneiros e consumidores de gás de botijão etc. O
ministro Paulo Guedes ameaçou colocar ordem na casa com a proposta de uma
inacreditável redução generalizada do IPI, insinuando ao país que todos os
graves problemas fiscais tinham acabado.
A ata não atribui a ninguém
responsabilidades. Mas menciona as novas tentativas de bagunçar o coreto fiscal
e suas consequências. Em frase nova na ata, registra que “o Comitê nota que
mesmo políticas fiscais que tenham efeitos baixistas sobre a inflação no curto
prazo podem causar deterioração nos prêmios de risco, aumento das expectativas
de inflação e, consequentemente, um efeito altista na inflação prospectiva”.
Isto é, as PECs feitas para baixar artificialmente preços de forma imediatista
pode ter efeitos contrários. Além disso, em parágrafo anterior, ainda sobre
política fiscal, o BC menciona que incertezas a respeito de sua trajetória
podem “impactar negativamente preços de ativos importantes e elevar os prêmios
de risco do país”.
Na ata da reunião de dezembro, em que o
pico da Selic apontado no cenário básico foi de 11,75%, o Copom já advertia que
o ciclo de aperto monetário seria “mais contracionista” por todo o horizonte
relevante. A mesma conclusão foi reiterada, desta vez com taxa limite de 12% ao
ano. Para isso, como habitualmente faz, simulou efeitos de diferentes taxas
finais, ritmos de ajuste e duração do aperto monetário. Optou por reduzir o
ritmo de ajuste.
Restam então dois outros caminhos. Na ata
de dezembro, com juro final de 11,75% (caindo a 11,25% ao fim de 2022), decidiu
por aumento de 1,5 ponto percentual, ainda que as projeções do Focus, no
cenário básico, eram de IPCA abaixo do teto em 2022 e na meta em 2023. Os juros
subiram depois disso, assim como a inflação nos dois anos no cenário de
fevereiro, com Selic a 12%.
A conclusão é que provavelmente o BC
elevará os juros acima dos 12% e manterá a taxa por um período maior do que o
antevisto, até “garantir a convergência da inflação ao longo do horizonte
relevante, assim como a ancoragem das expectativas de prazos mais longos”.
Ao deixar em aberto a magnitude dos próximos
ajustes, e apenas indicar que serão menores que o anterior, de 1,5 ponto, o BC
mencionou “a incerteza particularmente elevada sobre preços de importantes
ativos e commodities”. O ativo é o dólar, que se desvalorizou em 5,77% diante
do real no ano até dia 7 de fevereiro. O comportamento das commodities, porém,
foi frustrante para a política monetária, como aponta a ata: “Desde a última
reunião, a maioria das commodities reverteu a queda observada no fim do ano e,
em alguns casos, atingiram recordes recentes, reforçando o ambiente global de
preços mais pressionados”.
O tripé doméstico que assim causa incerteza
sobre o futuro da política monetária - dólar, commodities e situação fiscal -
pode ainda causar mais estragos. Ao BC, sozinho na luta contra a inflação, só
cabe aguardar e ajustar sua estratégia.
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