quarta-feira, 16 de novembro de 2022

Bruno Boghossian - Bolsonarismo na oposição

Folha de S. Paulo

Se Bolsonaro sempre apostou no golpismo, não há por que acreditar que fará oposição de forma civilizada

Por quatro anos, Jair Bolsonaro se dedicou a tumultuar o ambiente político. Tentou atropelar as regras do jogo, atacou órgãos de controle, atuou para deslegitimar adversários, alimentou personagens extremistas de seu campo, espalhou desinformação, buscou corroer a confiança nas eleições e nutriu ameaças recorrentes de um golpe militar.

Se Bolsonaro usa essas ferramentas enquanto tem o poder nas mãos, não há por que acreditar que ele passará à oposição de maneira civilizada. Mesmo antes da saída do presidente do cargo, o bolsonarismo dobrou a aposta em sua rede de mentiras, na deterioração do sistema democrático e numa investida permanente contra as instituições.

Um dos marcos da nova etapa é a sustentação da falsa teoria de que a derrota de Bolsonaro nas urnas foi provocada por uma conspiração contra o capitão. Ainda que o presidente tenha recomendado que manifestantes golpistas desbloqueassem rodovias, ele e seus companheiros na cúpula das Forças Armadas fizeram questão de validar protestos nas portas dos quartéis.

Nesse caminho, o bolsonarismo tende a fazer uma oposição política que transcende o governo eleito e põe em destaque aquele que foi forjado como seu principal inimigo: o Supremo Tribunal Federal. Os ataques à atuação da corte já se provaram capazes de manter apoiadores do presidente mobilizados, tanto nas ruas como no Congresso.

O método de Bolsonaro se mostrou inútil para governar o país. Produziu um desastre administrativo e fabricou a unificação de seus críticos. A agitação, no entanto, cumpriu uma função política que ele pretende transportar para a oposição.

Interessa agora a Bolsonaro fazer uma boa dose de pressão sobre Lula, renovar as cores de seu figurino antissistema e preservar o barulho entre seus apoiadores pelos próximos quatro anos. O objetivo não é apenas manter a relevância política do capitão, mas tornar um eventual retorno ao poder algo parecido com uma missão revolucionária.

 

Um comentário:

ADEMAR AMANCIO disse...

Deus nos livre!